para que se nutrisse, soltou os animaes no campo, e mandou á herva que
crescesse para que se alimentassem; deu azas ás borboletas, e polvilhou
as flôres para que encontrassem sustento sem se affadigarem. A mão que
impelle o sol, que sacode as nuvens, que arroja a chuva, que dá vigor á
planta, ramagem ao arvoredo, frescura á terra, e nutrição a todos ha de
amparar-me tambem, e dar-me de comer quando me falte.
E, a não ser esta preguiça invencivel, não havia que se lhe dizer: era
comedido no porte e civilisado nas palavras. Não escandalisava ninguem,
nem procurava descaminho; deixassem-no vaguear e estava contente.
Depois de muitas tentativas descoroçoaram os paes de o fazerem tomar
rumo. Deixaram-no á lei da natureza, e assim se foi creando, aprendendo
pelo que via, e desenvolvendo-se com o descanço.
Não era mau rapaz, nem dado a companhias. Bom de coração na verdade, mas
incapaz de servir para nada. Havia muito tempo, que se não via um paz
d’alma d’aquelles.
Emquanto o pae foi vivo, bem ia o caso. Elle dava ordem á sua vida, e
quando lhe perguntavam pelo filho respondia tristemente: deixem-me, foi
erro da natureza, nasceu para mulher, não tem geito para cousa nenhuma.
Um dia porém, o pae amanheceu morto na cama, e a mãe achou-se de repente
com todo o peso da casa, e com um filho que não tinha prestimo que se
visse.
Thomaz chorou muito nos primeiros dias, e fez mil protestos de trabalhar.
Assim foi de principio, mas depois... parece que se partiram os braços e
tornava á mesma. Pasmava ao meio do trabalho, varria se-lhe de memoria
o que estava fazendo, e deitava a correr para debaixo de uma arvore,
namorar as nuvens e ouvir os passaros.
—O que te prende tanto, para não fazeres nada e passares todo um dia
assim a olhar para o ceu, lhe perguntou um dia um velho fazendeiro dos
melhores amigos, que o pae tinha?
—O tio Simões vae rir-se...
—Dize sempre, anda.
—Olhe, tio Simões, quando ouço os passarinhos, parece-me escutar estas
palavras que o sr. padre prior disse um dia n’um sermão de festa:
«Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis,
nem do vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma, que a comida: e o
corpo mais que o vestido?
«Olhae para as aves do ceu, que não semeam, nem segam, nem fazem
provimento nos celleiros; e comtudo vosso Pae celestial as sustenta. Por
ventura não sois vós muito mais do que ellas?[2]»
—Mas isso não quer dizer, que se não deve trabalhar, homem, pelo menos
eu assim o entendo, quer dizer que por amor do dinheiro se não devem
praticar acções ruins, e que a confiança em Deus nos não deve desamparar
nunca.
—Ora, tio Simões, o sr. padre prior ainda disse mais:
«E porque andaes vós sollicitos pelo vestido? Considerae como crescem os
lirios no campo; elles não trabalham, nem fiam.
«Pois se ao feno do campo que hoje é, e ámanhã é lançado ao forno, Deus
veste assim; quanto mais a vós homens de pouca fé!
«Não vos afflijaes pois, dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou com
que nos cobriremos?
«Porque os Gentios é que se cançam por estas coisas. Por quanto vosso Pae
sabe, que tendes necessidade de todas ellas.
«Buscae pois primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça: e todas estas
coisas se vos accrescentarão.
«E assim não andeis inquietos pelo dia de ámanhã. Porque o dia de ámanhã
a si mesmo trará seu cuidado, ao dia basta a sua propria afflicção.»[3]
—Como aprendeste tanta coisa?
—Olhe, tio Simões, na vespera tinha assistido ao pagamento da féria, o
que meu pae, que Deus haja, fazia todos os sabbados á noite, e ao vêr
seguirem-se uns após outros os trabalhadores da fazenda, disse com Deus e
comigo:—porque não hei de eu trabalhar? Porque não hei de ganhar tambem a
minha féria? Eu tambem sou homem.
—E disseste bem, Thomaz, era uma boa palavra essa. Mas depois?...
—Depois, fui deitar-me resolvido a pedir tambem que fazer na segunda
feira seguinte a meu pae; mas no domingo era dia de festa; fui á Egreja
ouvir a missa, e fiquei para o sermão.
—E...
—Começou o sr. prior a dizer o que eu lhe repeti, ha pouco...
—E como tu não ias de vontade para o trabalho, quadrou-te o sermão, não é
assim?...
—Não diga tal, tio Simões, sabe Deus se eu tinha ou não feito proposito
de mudar de vida: tanto que, ao principio, fiquei sobresaltado, e como
não querendo acreditar... Mas vi a cara do bom padre, dizia tanto, tinha
uma tal expressão de bondade, um tal não sei quê na physionomia... Era
impossivel, tio Simões, que não fosse allumiado pelo ceu.
—Mas como aprendeste tudo isso?
—No dia seguinte fui ter com o sr. padre prior para que me ensinasse
aquellas palavras, disse-me que estavam n’um livro, e d’ahi eu...
pedi-lhe que me explicasse como as havia de lêr...
—E elle?
—Elle ensinou me, e eu aprendi.
—Então tens lido muito?...
—Nada, não senhor, apenas soube de cór aquellas palavras, esqueci me logo
de lêr.
—Ora essa!
—As aves do ceu e os lyrios dos campos não sabem lêr, e o nosso Pae
celestial as sustenta e as veste. Eu tambem não preciso saber lêr.
—Mas teu pae morreu, tua mãe não póde com o encargo da casa, e assim sem
homem, que tome tento no arranjo, vae tudo por agua abaixo.
—Que hei de eu fazer?
—Homem, és capaz de fazer perder a paciencia a um santo! Que tomes a
direcção do governo, que occupes o logar de teu pae.
—O tio Simões póde dizer o que quizer, eu estou á conta do Senhor.
E não havia tiral-o d’este dizer, por mais que fizessem, por mais que lhe
prégassem. Era prégar aos peixinhos.
A pobre da mãe ia dando ordem á vida, conforme podia, mas casa governada
por mulher, raro toma caminho: o negocio cada vez ia de mal a peior.
Thomaz, esse, parecia não dar por semelhante cousa, chegava a casa,
fallava á mãe; comia do que lhe apresentavam, porque tudo lhe sabia bem,
e quando a tia Annica começava em pé de conversa a querer-lhe dar conta
do que se passava:
—Faça o que quizer, minha mãe, eu não tenho nada com isso.
E deitava a correr, se insistiam com elle, para debaixo da sua querida
arvore.
Um dia, quando mais embebido estava em seu scismar, ouviu perto d’elle
voz de mulher, que pedia soccorro. Ergueu-se e accudiu. Era uma rapariga
de uns dezoito annos, quando muito, que vinha correndo de uma vacca que a
perseguia.
Já quasi não podia dar passo, e a vacca ia alcançal-a, quando Thomaz
erguendo-se de um pulo, e tomando um cajadito, que trazia comsigo, atirou
de lado uma paulada ao focinho do animal, que cego com a dôr, mudou de
carreira e seguiu aos pulos e aos mugidos pelos campos fóra.
Agueda, assim se chamava a perseguida, parou, tomou a respiração, que lhe
ia faltando, e, volvendo um olhar reconhecido ao seu salvador, disse lhe:
—Obrigado, Thomaz!
—Agradece ao Senhor, Agueda, e não a mim; a gente anda cá n’este mundo á
conta de Deus.
Agueda era feia e grosseira de feições como grande parte das raparigas
do campo. Muito trigueira e mais queimada ainda, crivada de bexigas,
os beiços grossos, o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais
repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro, o cabello crestado
e carapinho. Tinha os olhos pretos rasgados e ramudos como quasi todas as
saloias e era nova.
Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com o semblante. Umas
roupinhas encarnadas, e uma saia de chita côr de rosa sobre outra de
baeta verde salsa. Explicado estava pois o furor da vacca.
Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida como o são todas
as moças feias; mal tornou a si do susto começou correndo-lhe a mão, a
alisar o cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto, proseguiu na
encetada conversação.
—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!... Parecia tão socegada!...
—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára debaixo da sua arvore e
parecia distrahido a olhar para o ceu.
—Não admira, porquê?
—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada!
—Tão assanhada!
—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as sementes pretas, no meio
d’um campo de verde.
—Sempre tens lembranças!
Thomaz não lhe respondeu. Estava entregue ás suas contemplações.
—Thomaz! Thomaz! Que tens tu, estás sempre a scismar?
—E tu que tens com isso? Importa-te a minha vida?
—Lá isso é verdade, não me importa, mas faz-me pena, vêr-te assim, ahi a
monte, sempre sósinho.
—Faz te pena devéras?
—Faz.
—Ora dize-me, tu tens bom coração?
—Nunca fiz mal a ninguem: nem o desejo.
—Pois bem, um dia te direi em que scismo.
E por mais que a sua companheira lhe puchasse pela lingua, não deu mais
palavra. Parecia de pedra.
Por fim Agueda perdeu as esperanças de fazer com que fallasse, e ao
despedir-se d’elle disse-lhe:
—Adeus, Thomaz, até outra occasião em que estejas de melhores humores.
Olha que me não esqueço do favor, que te devo. Adeus!
Ou fosse curiosidade ou interesse, ou mesmo amor proprio offendido, no
dia seguinte, pelas mesmas horas, fazia a rapariga caminho pelo sitio
onde na vespera se encontrára com Thomaz.
Este estava no mesmo logar, e na mesma posição da vespera, parecia que
não arredára pé. Agueda approximou-se-lhe, quasi sem elle dar pela sua
presença.
—Adeus Thomaz!
—Adeus Agueda!
—Ainda continuas a estar triste?
—Quem te disse que eu estava triste?
—Não fallas, não cantas, não te meches d’ahi!
—Tambem as flôres do campo não fallam, não cantam e não se mechem.
Entretanto ninguem diz que ellas são tristes.
—Em que pensas tantas horas a fio, Thomaz?
—Olha, Agueda, tens bom coração?
—Já hontem me fizeste essa mesma pergunta, e o que hontem te respondi, te
respondo hoje:
—Não fiz nunca mal a ninguem, nem o desejo.
—Pois um dia te direi em que eu penso.
—E porque não ha de ser hoje?
—Ainda não tenho confiança em ti.
Repetiram-se os encontros. Todos os dias, pelas mesmas horas, Agueda se
encaminhava para aquelles sitios, e quando a sombra lhe dizia que ella
estava para chegar, Thomaz esperava a com a vista, fitando os olhos no
atalho por onde havia de apparecer.
Pouco a pouco a indifferença apathica de Thomaz foi desapparecendo.
Fallava mais, e contava historias de avesinhas e de flôres a Agueda
maravilhada.
E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de boa e pura simpleza
nas suas historias, nas suas exclamações, na explicação que lhe dava
dos enlaces dos animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga
parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava tudo que não era o
fallar e a companhia de Thomaz.
Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro colloquio, voltou-se
elle repentinamente para a sua companheira depois d’alguns momentos de
abstracção, e disse-lhe:
—És feia Agueda, muito feia.
—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou lhe tristemente a
rapariga.
—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração é formoso e a tua alma
é boa.
—Obrigado, Thomaz.
—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu coração é bom, e a belleza
do corpo acaba, emquanto a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti,
Agueda.
—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me pareceste formoso.
Era uma especie de recriminação, que Thomaz não percebeu.
—Eu queria casar comtigo.
—Tu!
—Eu, sim, porque te admiras?
—Não cuidei que pensasses em casamento.
—Não casam as arvores, as flôres, os animaes da terra, as avesinhas dos
ares, os peixes do mar; não casam as aguas dos rios com as torrentes dos
mares?
—Mas...
—Porque não hei de eu casar tambem?
—Tu bem sabes, Thomaz, que eu nada tenho; tu tambem és pobre, como
haveriamos de viver?
—Não me tens perguntado tanta vez em que penso durante as horas em que
estou sósinho?
—Tenho.
—Pois, ámanhã t’o direi; d’hoje até ámanhã pensa tu tambem, e dir-me-has
depois, se queres ou não casar comigo.
—E porque não dizes agora?
—Agora... preciso estar só.
E calou-se. Agueda já sabia que era tempo perdido teimar. Retirou-se,
olhando muitas vezes para o seu extraordinario apaixonado.
Este não deu por semelhantes finezas. Com os olhos fitos n’um ponto
affastado, parecia embevecido em doces contemplações.
No dia seguinte pelas mesmas horas dobrava Agueda o atalho, quando
Thomaz, que de longe a avistou, se ergueu para a ir esperar.
Extranho era aquelle procedimento, e tanto mais extranho, quanto a pobre
da rapariga, á força de se querer aprimorar, mais feia parecia ainda.
Thomaz, porém, nem percebeu a mudança.
Ao approximar-se da arvore, pediu lhe que se sentasse ao seu lado, e com
taes modos e tal delicadeza, que ella quasi o desconheceu.
—Que tens, Thomaz, pareces me outro?
—Tenho que te fallar muito sério. Pensaste?
—Pensei.
—Queres?
—Quero, Thomaz, conheci que te amava. E tu?
—Eu, não sei. Olha, Agueda, parece-me que nasci para casar comtigo. Tenho
te visto ha muitos dias, e sempre me tens parecido boa rapariga.
—Tu é que és um santo, meu Thomaz...
—Não digas isso, e ouve-me. Vou contar-te o meu segredo.
—Pois tu tens segredo?
—Não t’o disse hontem?
—Disseste, mas pensei que estavas gracejando.
—Não sei gracejar.
—E d’elle depende a nossa fortuna?
—Depende.
—Então conta, Thomaz, conta depressa.
E a rapariga quizera ser toda ouvidos para satisfazer assim a curiosidade
que a devorava.
—Olha, Agueda, olha além para o ceu.
—Olho.
—Não vês nada?
—Vejo uma nuvemzinha transparente e branca, que parece voejar como um
véosinho de cambraia.
—E nada mais?
—Mais nada!
—Pois eu vejo mais do que tu.
—Como assim?
—Ha uns poucos d’annos, que passo manhãs e tardes, deitado debaixo d’esta
mesma arvore, com os olhos pregados n’aquelle mesmo sitio do ceu.
—E vês?
—Espera. Não ouves o chilrear dos passarinhos, que andam saltitando de
ramo em ramo?
—Ouço.
—E não percebes o que elles dizem?
—Ora essa!
—Pois desde que aqui descanço, as aves fallam comigo, e eu entendo o que
ellas dizem.
—Thomaz!
—Bem sei que desconfias de mim, Agueda, que talvez me julgaes doido,
pateta, como muitos dizem. Não me admira, estou condemnado, e rio-me
d’isso.
—Não chamo, não, meu Thomaz; continua.
—Tens espalhado os olhos por esses tapetes de verde, por essas vagas de
pão, que ondulam e marejam á feição do vento como as aguas dos rios?
—Se tenho!
—Mas não escutaste ainda os colloquios que segredam as plantas umas ás
outras, as espigas ás suas visinhas, quando o vento as encurva, e parece
approximal-as tão de perto, como se fossem a beijar-se?
—Valha me Deus, Thomaz, que coisas me estás perguntando!
—Tenho dó de ti, Agueda!
—Porquê?
—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as aves, nem escutas as plantas.
Como has de ser infeliz. Tudo pois, que mais significação tem, nada quer
dizer para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares comigo, has de
saber o que eu sei.
—E tu sabes?
Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um momento, e pareceu cair
em extatica contemplação com os olhos fitos no céo.
Seria passado um quarto de hora, quando pareceu voltar a si, dirigiu-se a
Agueda, e disse-lhe:
—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que eu estudasse, quando
tentaram que eu aprendesse ou trabalhasse, senti em mim uma voz que me
dizia: não trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico, espera,
confia e descança.
—E tu?
—Sempre que me approximava do trabalho sempre esta voz me fallava; se eu
insistia tornava se mais aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter
fé. Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho, não pude
resistir ás palavras, que ouvia a todo o momento.
—Pobre Thomaz!
—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me para debaixo
d’esta arvore, parecia-me que as flôres e as plantas se debruçavam para
mim e diziam umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo seja
entre nós.
E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores e a umas e outras
dizia: Eis me, queridas irmãs, que saudades eu tinha vossas, como me
batia o coração com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais.
Depois de pensar muito, quiz n’uma occasião da minha vida mudar o modo de
viver. Um caso fez, porém, com que eu continuasse a seguir os conselhos
da voz, que cá bem dentro me dizia: Descança e tem fé.
—Um caso?
—Sim.
E Thomaz contou-lhe como entrára na egreja e o que ahi ouvira ao prior,
bem como a maneira, porque instando com elle para que lhe ensinasse
aquellas palavras, chegára a aprender a lêr.
—E sabes lêr, Thomaz?
—Soube, esqueceu-me.
—Pois nem conheces as letras?
—Não.
—E se eu quizesse aprender?
—Talvez me recordasse.
—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua.
—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava a vista pelos
campos, e que pretendia mergulhar os olhares no céo, lá bem longe,
n’aquelle affastado ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha,
vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa porém, ai tão
formosa! que arrebatava olhar para ella... Mas porque estás tão triste,
borbulham-te as lagrimas nos olhos!
—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me achaste feia, e tenho pena
de o ser.
—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei
mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as
tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos
raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo
pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu.
Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei
que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite
scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada
nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me
esclarecer quando as trévas envolvessem a terra.
—Mas dizias, que te fallára!
—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como
indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito
longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe,
que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto
constante a mostrar-me a immensidão.
—E respondeu-te?
—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece
gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde
rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em
madrugadas de maio.
—E disse-te...
—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão
longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser
rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem
riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás
patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»
—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!
—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho
que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus
gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco!
—As hervas?
—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde
viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que
te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não
vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras,
bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol?
—E pensaste então em amar?
—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas
brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser
feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como
se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço
aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no
chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde.
Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes.
—Seguiste o conselho das aves?
—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao
perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do
campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te
com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz.
—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um
ninho, nem n’uma leira dos campos.
—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam
a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos
passarinhos.
Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam
de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse
amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe
fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me
dizia: estamos longe, muito longe!
E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e
animavam-me tambem.
Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui
querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas
em que devias chegar, mais me palpitava o coração.
—Querer-me-ias, por ventura?
—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado,
se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo
d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella
imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro.
Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me
julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que
te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que
seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo
pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me
esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se
some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor
do ceu, a ti com o amor da terra.
Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces.
—Porque suspiras?
—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca.
—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas não faltam?
—Sei.
—Sabes que é para bem longe que o meu bom anjo me chama?
—Assim m’o disseste.
—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha querida visão,
seguirei o seu gesto, e tenho por fé que ao voltar serei rico, que o
esperei sempre; serei feliz, que m’o assegurou ella.
—Enlouqueceste, Thomaz?
—Nunca estive mais em meu juizo.
—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos ir por esse mundo
de Christo, atravessar os mares, fazer uma viagem tão grande! Dizem que
d’aqui ao Brazil é um por ahi além de leguas!
—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo, aqui, e com aquella
boa imagem além. Não tenho palavras para dizer o que vae cá por dentro
ahi a qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me que mais são
os que me chamam por não lhes fallar, nem lhes dar satisfações da minha
vida.
Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves, mais atrevidas ainda
as nuvens dos ares e as estrellas dos ceus. Quanto maior é o seu
atrevimento, mais longe se levam.
O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar
rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como
a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre;
deitam-lhe a foice e fica por terra.
Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera,
dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu
ia esperando sem tentar os longes.
Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para
o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os
ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos,
trabalha elle para sustentar os outros.
Assim poderia eu ser; mas não bastava.
Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar
comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher,
sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo,
que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir
longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr
mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade,
depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para
ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:
—Vês? É assim que um homem sabe amar.