Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas estendidas e

a fronte encanecida illuminada pelos reflexos derradeiros do sol já

escondido: despedindo-se do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões

guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de fumo, que se

ennovella sobre os tectos de suas casas, o ruido vae pouco a pouco

diminuindo, recolhe o rebanho ao curral, os pastores deixam de cantar, a

voz dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada. Mas o rio ainda

murmura, o vento ainda suspira na rama das arvores, e o padre sósinho,

com os olhos fitos na pallida lua, que começa a assomar no céu, não

limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que lhe escorrega pela face

cavada pelos annos, envelhecida pelas maguas. Saudade da terra e dos

homens, que vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo,

crente na misericordia do Senhor, confiado na sua infinita bondade.

Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar o padre, o platano e

a cruz. Tudo tem desapparecido apoz o homem a planta, apoz a planta a

pedra, tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do velho caiu a

pedra do cruzeiro, um arrebento do platano deu sombra á sepultura; mas a

natureza proseguiu guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando

uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto a planta sempre

viçosa da arvore da liberdade.

A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem, que ficou meditando

sobre aquella lapide, disperta das suas meditações ao grito da locomotiva

do caminho de ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico, ao

resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo magestoso das

novas eras, que nas azas do pensamento correm a cumprir a sua missão.

N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido; e o velho

descrevendo o quanto padecera o patriarcha hebreu por amor dos seus

irmãos, e seus compatriotas, fallára tão de leve no sacrificio, prestado

á honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa discorrera a

proposito das uvas que não eram para seu dente.

Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas a de resistir com

tanto denodo á mulher de Putiphar, não foi das que mais encareceu. Nem

por isso lhe parecia grande façanha. Para o bom do velho nada havia mais

natural.

Não assim para grande parte de seus ouvintes. Aquelle rasgo foi o que

maior impressão deixou na intelligencia sensual de muitos. No serão

d’essa noite não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns dos

quaes, posto que bastante grosseiros na fórma, não deixavam de ter bom

sal, e grande finura no alcance.

Terminada por fim a discussão foi votado por maioria, que tal caso era

impossivel; ou pelo menos, se o não era, fôra um grande disparate do

patriarcha hebreu.

Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa, e para fundamentar

o seu protesto pediu a palavra, que lhe foi concedida com o maior prazer.

—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido nomear o Luiz

Tiburcio, que traz de renda ao Morgado dos Cachorros o Olival grande do

Brejo, no alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e lavrador

abastado; tem hoje um bom par de vintens e uma das melhores lavouras dos

sitios. Pois vae vinte annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de

mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que hoje ouviram ao sr. padre

prior foi o começo da sua fortuna.

Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar vida e trabalho,

quando por morte do pae e da mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem

lhe valesse, nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da guerra,

andava tambem a molestia, e cada um cuidava principalmente de si, ou dos

seus, e não tinha vagar para saber do mal dos outros.

Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes estendeu a mão á

caridade, e não poucos dias pediu esmola a chorar, perdido de fraqueza, e

sem esperanças de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em dar trabalho

e era tal a desconfiança, que ninguem queria tomar para casa um rapaz,

coberto de farrapos e com cara de padecente.

Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava a saber o que era

mundo. Entrava na vida pela porta da desgraça e principiava a amargar a

existencia sem lhe ter provado ainda as doçuras.

Um dia, já sem forças, caiu á porta de uma fazenda, d’onde saíra

descoroçoado de todo, porque depois de ter passado um dia sem comer,

acabava de ser despedido pelo cazeiro, dizendo-lhe, que a fazenda do seu

patrão não era couto de vadios.

Luiz Tiburcio poude, envergonhado e saltando-lhe as lagrimas pelos olhos,

andar a alameda e sair o portão que do pateo conduzia á estrada; mas, ao

voltar para o caminho, sentiu-se tão quebrado, tão sem animo, que atirou

comsigo para o chão, resolvido a não se levantar mais d’alli.

Encommendou-se a Deus e esperou a morte resignado.

O sr. José Matheus, o dono da quinta, que assim se chamava por signal,

andava por fóra, quando Luiz fôra pedir trabalho a Valle de Figueiras. De

certo, se tivesse visto a lazeira do rapaz o recolheria por alguns dias

ao menos, e lhe mandára dar de comer, pois era homem rasgado e de bom

coração; mas só tarde voltou de uma outra fazenda, onde fôra, e era já

muito escuro, quando se aproximou de casa.

Luiz estava estirado no caminho. José Matheus entretido com os seus

pensamentos não deu por semelhante cousa e recolheu passando junto do

pobre moço.

Caía geada, como não havia memoria, e o frio era de estalar.

De manhã cedo os primeiros, que sairam encontraram-n’o sem apresentar

signal de vida e accudiram á fazenda a dar rebate.

O sr. José Matheus foi o primeiro, que correu junto da pobre creança,

viu-a n’aquelle mísero estado e teve dó de tão grande desgraça em tão

verdes annos. Elle tambem havia provado do pão que o demonio amassou, e

antes de chegar a ser independente fôra um pobre de Christo.

Mandou carregar com o Luiz para uma cama, e cuidou em vêr se lhe dava

vida nova.

O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados, os olhos

mettidos n’umas covas negras, as mãos inteirissadas, o coração quasi sem

bater.

Dir-se-ia morto.

Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam com pannos quentes

e espirito de vinho tornava pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem

forte e bastante substancial parecia outro.

O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que a fome e o desamparo

tinham sido a causa d’aquella doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão

tão moço e sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e não tivera

filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz, que era de boa feição, e

adoptou-o para si.

Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro em pouco já todos

tratavam por sr. Luiz; e a quem o sr. José Matheus chamava—o meu

Luizinho—uma vida de principe.

Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava e desenvolvia-se de

dia para dia.

Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava a olhos vistos e

que cada vez ganhava maiores perfeições.

Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma, não havia para elle

sol nem lua que valessem o sr. Matheus, nem palavras ou acções que lhe

parecessem demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz tinha

coração de pomba.

Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia ter tomado o rapaz á sua

conta, encarregou-se de entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas

felicidades todas.

A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta puchados, era

ainda mulher de primor.

Desenxovalhada n’aquelle tempo, devia ter sido linda quando andasse alli

pelos vinte annos. Tinha dado brado na terra, e mais de um lhe tinha

arrastado a aza, sem que ella lhe desejasse as pernas quebradas.

Casára-se pela rasão, porque se casa a maior parte das mulheres, para

mudar de estado; e não conhecera nunca que cousa fosse amor. Extremosa

pelo marido, não constava que o tivesse sido: e, segundo se rosnava pelos

sitios, se tivesse pé faria pégada.

Se a amisade de Matheus pelo Luizinho era verdadeira amisade de pae, a de

Genoveva não se parecia em nada com o amor de mãe. Por mais de uma vez

lhe havia deitado uns olhos, que queriam dizer muito, mas que no rapaz

eram tempo perdido. Não por innocencia, mas porque não queria acreditar,

que fossem o que lhe pareciam.

Genoveva desesperava-se por não ser comprehendida, e tinha jurado que: ou

Luiz se chegava á rasão, ou havia de pôr os quartos no meio da rua.

Uma noite, chovia a cantaros, e o sr. José Matheus não recolhera de uma

feira a que fôra comprar quatro juntas de bois.

Tinha-se armado uma trovoada de arrancar pinheiros e uma ventania de

levar tudo pelos ares. Genoveva estava cosendo junto á mesa de jantar e

Luiz proximo d’ella lia alto um livro de romances. Era a historia dos

amores derrancados de dois amantes infelizes, que depois de passarem

as passas do Algarve, depois do apaixonado ter andado as sete partidas

do mundo e corrido perigos de todas as castas, se reuniam por fim;

mas quando iam para gosar de um dedicado affecto, o marido da heroina

apparecia tanto a proposito, que matava o seductor, se o era, e fazia

endoudecer a mulher com a vista do ensanguentado cadaver.

Era uma historia de arripiar defunctos, e que por isso mesmo tinha tido

tanta voga que chegára até Valle de Figueiras.

De repente Genoveva, que seguia a leitura com verdadeiro interesse,

e que por mais de uma vez sentira calafrios ao ouvir aquella enfiada

de horrores, interrompeu o leitor, quando enthusiasmado lia o passo do

encontro dos dois n’um casal deserto no meio das serras entre alcatêas de

lobos, ao fuzilar dos relampagos, ao estallar dos trovões.

—Gostas d’essa historia, Luiz?

—É triste, senhora Genoveva, gosto muito.

—Andas sempre triste!

—Não é por ser mal agradecido ao bem que me fazem. É genio meu, não está

mais na minha mão.

—Volta de amores talvez?

E os olhos acompanhavam a pergunta, procurando seguir o pensamento do

moço, como o galgo segue a lebre por meio dos campos.

—Não, minha senhora, não são amores. Tambem quem me havia de querer,

orphão, sem fortuna, e só devendo o pão de cada dia á caridade de meus

bemfeitores?

—Não digas isso, Luiz, bem sabes que o trabalho que fazes, vale o pão que

comes. Tu és bom rapaz e mereces quanto te fazem.

—Não mereço, não, minha senhora, e eu bem conheço as coisas, e sei

agradecer tanto favor.

—Creança!

E acompanhando esta palavra, que pelo modo porque fôra proferida, já

queria dizer muito, Genoveva correu mão protectora pela cara do Luizito.

Porque é preciso que saibam, rapazes: nós os homens muitas vezes chamamos

creança a uma mulher, sem ser por mal, nem com idéa alguma; mas em a

mulher chamando _creança_ a um homem, e de um certo feitio, é o mesmo que

se lhe dissesse: tu ainda não percebeste, que eu gosto muito de ti, e

tu és muito estupido, porque não entendes o que eu te estou dando bem a

conhecer.

Pela primeira vez, havia tanto tempo, desconfiou Luiz devéras do caso, e

áquella caricia fez-se vermelho como um pimentão.

—Então fazes-te vermelho, tens talvez vergonha de mim? Pois já não devias

ter rasão para isso, tenho idade bastante; não é verdade que pareço muito

velha, meu Luiz, anda, dize?

E cada vez se aproximava mais d’elle a ponto de o bafejar com o seu

halito inflammado; e de sorte, que se confundiam os olhos d’ella

ardentes, significativos, cubiçosos, com os d’elle timidos, assustados,

quasi envergonhados.

—Não, senhora Genoveva, não tenho vergonha. Desculpe fazer-me córado...

—Dize-me, atalhou violentamente Genoveva, cujo temperamento nervoso e

sanguineo estava effervescente, querias estar como Paulo (era o heroe do

romance), assim comigo n’um casal deserto...

—Como estamos hoje...

—Como estamos hoje, sim Luiz, e depois...

Era impossivel deixar de perceber tudo. Genoveva parecia ter a cabeça

perdida, tudo denotava um desejo desenfreado, e furioso.

Não se riam, rapazes, se vissem uma mulher allucinada pelo amor,

arrojar-se como uma leôa, feroz, enraivecida, terrivel até,

comprehenderiam bem quanta foi a virtude do Luizito.

Levantou-se a tremer, e cheio senão de medo, ao menos de pudôr...

—Senhora Genoveva, eu não sei se comprehendi; perdoe-me se a vaidade me

illude; mas, não me posso esquecer de quanto devo ao sr. José Matheus.

E saiu, sem olhar para traz.

No dia seguinte, de madrugada, com o seu alforge arranjadinho, ia pela

estrada fóra, sem saber ainda para onde se encaminhava.

Ia começar de novo a vida, mas era indispensavel. Se cedesse, seria o

ingrato mais vil d’este mundo; se resistisse, a furia de Genoveva não o

deixaria descançado por muito tempo.

A poucos passos de distancia encontrou a José Matheus, que, tendo feito o

seu negocio mais breve do que pensava, recolhia cantarolando, como quem

vinha nas horas do Senhor.

Luiz não esperava semelhante encontro. José Matheus já o tinha visto, e

não havia remedio. Demais foi o lavrador que encetou a conversação.

—Olá, Luiz, tão cedo, ha por lá alguma novidade?

—Nada, não, sr. José Matheus, não ha novidade nenhuma; eu é que...

—Tu é que... embatucaste? Tens alguma cousa, viste bicho?—Tu não estás em

ti, desembucha.

—Eu... vou-me embora.

—Bom, homem, e por isso ficaste assim atarantado, bem te entendo; vae,

rapaz, vae, eu sei o que são essas cousas. Quando voltas?

—Eu... vou de vez.

—Hein, endoideceste?

—Não endoideci, não, sr. José Matheus, preciso ir-me embora, deixe-me ir

embora, deixa?...

E o rapaz estendia as mãos, convulso como se pedisse a salvação.

—Deixo, deixo. Por onde eu te pegar, te peguem os lobos. Entendo,

desenquietaram-te, apanhaste-te ensinado; mas anda que tambem me

ensinaste, ingrato!

—Ingrato!... Serei, sou, mas deixe-me ir embora quanto antes.

José Matheus não era de hoje, nem de hontem; desconfiou do caso, e

chegando-se mais para o rapaz, deitou-lhe a unha.

—Por mais que me digam, accrescentou elle, tendo-o já seguro, aqui ha o

que quer que seja, para tu estares assim tão apressado. Deixo-te ir, mas

não sem me dizeres primeiro porque. Que demonio, parece que tens morte de

homem!

Vendo-se agarrado, Luiz entrou a clamar para que o deixasse, pedindo-lh’o

por quantos santos havia no Paraizo. Por mais que buscasse, não lhe

occorria nem meia mentira. Não admira, a falta de costume...

Por fim conseguiu escorregar-se-lhe das mãos como uma enguia, e deitou a

correr mais leve que um passaro.

José Matheus voltou ainda o cavallo, para lh’o deitar para cima; depois,

como se lhe accudisse a reflexão, exclamou:

—A cheia o trouxe, a cheia o levou. Que vá por onde não faça perca!...

E entestou para Valle de Figueiras, scismando no acontecido.

Ainda bem Luiz lhe não tinha saido a porta, Genoveva, percebendo que era

despresada, e incendida pelos lumes do desejo, caía por terra espumando

como um damnado, e bracejando como um possesso. Estava com um accidente

de raiva.

Accudiram ao motim, que fez, e levaram-na para a cama já sem dar accordo

de si, tinha-lhe subido o sangue á cabeça, estava com uma febre cerebral.

Luiz, escusado é dizer, não soubera de coisa alguma. Recolhera a

entrouxar o pouco fato, que havia comprado, pois deixou ficar tudo que

lhe deram; e embebido nos seus pensamentos, poderiam voltar a casa

debaixo para cima, que não era elle que dava por semelhante coisa.

Demais morava n’um quarto no extremo opposto da casa, com porta que

deitava para a estrada, e pôde sair por conseguinte, sem saber nada do

que se passava no resto da habitação.

Pouco depois da chegada de José Matheus appareceu o facultativo do sitio,

que tinham mandado chamar a toda a pressa. Sangrou-a logo, mas já era

tarde. O ataque tinha sido tão forte, que a sangria abrandou-lhe um pouco

as furias e nada mais. D’ali a pouco tornava á mesma, ou a peior ainda,

porque d’esta vez dizia coisas estranhas em palavras soltas.

Estava tresvariada.

José Matheus percebeu logo que as coisas que a mulher ia dizer, não eram

para ser ouvidas por toda a gente; mandou sair os que estavam no quarto,

e apenas ficou sósinho com ella, deu volta á chave e escutou-a.

Soube tudo.

No meio dos seus excessos, Genoveva chamava por Luiz, accusava-o de

frieza, de indifferença, de ingratidão. Dizia-lhe que pensasse no seu

marido, porque esse não saberia nada, e depois... haviam de ser tão

felizes!

E um poder de coisas que tiraram todas as cataractas dos olhos do marido.

Este sentou-se n’uma cadeira, e, abatido, limpou uma lagrima. Ninguem

soube nunca por quem fôra, se por Luiz, se por Genoveva.

Genoveva durou tres dias. Disse o facultativo, que se lhe tinha rompido

uma veia na cabeça; rompesse ou não, nos dois ultimos não deu accordo de

vida.

José apenas se certificou de que sua mulher não diria mais nada,

recolheu-se ao seu quarto, d’onde não saiu senão para a sepultura.

Não queria saber de coisa nenhuma, não dava palavra a ninguem, e se

insistiam, punha todos fóra, fechando-lhes a porta na cara.

Na vespera de morrer, mandou chamar um tabellião e duas testemunhas. Lá

esteve com todos tres, por espaço de meia hora.

No dia seguinte abria-se o testamento sobre o cadaver de José Matheus, e

Luiz Tiburcio ficava sendo seu herdeiro universal.

—Acabou, tio Joaquim, atalhou d’ali o João Carriço, que déra provas de

impaciencia durante a narração, não tem mais nada que dizer?

—Eu não, e tu? Perguntou o narrador.

—Eu, perdoará a sua palavra honrada, parece me que a historia não vem ao

caso do que a gente dizia; pois se o rapaz não fosse tão arisco, ficava

com tudo do mesmo feitio; porque eram dois a deixar-lhe... E d’ahi não

morria, nem a mulher, nem o homem.

—E parecia-te bonito pagar d’esse feitio os beneficios, que tivesses

recebido de José Matheus?

—Olhe, tio Joaquim, lá o lê, lá o entende, mas d’aquelle mal não morreu

ninguem; o José Matheus não havia de passar peior por isso.

—Eu te contarei uma historia um dia, e verás se se morre ou não. Sabes

que mais, João Carriço, tens ainda a cabeça muito levantada, has de

assentar.

—Então sim, tio Joaquim, quando fôr lá para a edade, o que não podér

haver, dal-o-hei por amor de Deus.

E como todos soltassem uma gargalhada, o velho suspendeu a sessão, porque

percebeu, que por aquelle lado não fazia farinha.

XI

O Thomaz dos passarinhos

Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda o som dos sinos de S.

Vicente, o que mostrava que o vento estava da barra a prometter mais

chuva.

Em todo o santo dia não descontinuára de cair agua, e ao cerrar da noite,

carregou tanto que parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e

na malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se, o tio

Joaquim, que estava fumando embevecido no que quer que era, que parecia

preoccupal-o.

Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados em gabões, ou

cobertos com as mantas em cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda

faiscavam alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba ainda

se via um baralho em desordem, como a provar que havia pouco descançava

d’uma bisca de quatro. As cartas poderiam figurar com bastante rasão

no gabinete d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas

multiplicadas cicatrizes ganhas no combate.

Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo, pouco importava,

que fossem mais conhecidas ainda pelas costas do que pela frente.

Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais um bocado, e

preparava-me para recolher, quando me pareceu ouvir, por entre o ruido da

chuva que caía sem cessar, e do vento que não parava, o som da campainha

do portão.

—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim?

Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me:

—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já estão todos recolhidos.

N’isto o cão do pateo começou a ladrar.

—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está o Alfageme a dar

signal. Ora escute, lá tornam.

E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas tão brando, tanto a

medo, que mal se ouvia, apesar de escutarmos ambos com toda a attenção.

—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar; pobre homem, com este

tempo! Eu vou vêr, disse-me o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu.

D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia a ladrar cada vez

com mais força, em seguida abrir o portão, e logo depois entrar na casa

da malta já acompanhado.

O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo acanhamento da

pobreza envergonhada.

Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado para a cara, e

ensopava-lhe um capote esfrangalhado, que bem a custo lhe resguardava o

corpo. Ficou á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir.

—Entre, patrão, bradou-lhe o tio Joaquim, não está tempo para cerimonias,

se isto continua lá se vão todas as sementes com a cheia. Parece um

diluvio. Largue o capote e o chapeu que traz n’uma sôpa, embrulhe-se ahi

n’uma manta, e chegue-se para o lume, que eu vou deitar-lhe um punhado de

vides para o espertar.

E seguindo conforme disséra, separou umas poucas de vides d’um mólho, que

estava perto da chaminé, quebrou-as umas poucas de vezes sobre o joelho,

deitou-as no brazido, e entrou a assoprar até que pegou labareda.

—Deus lhe pague, tanto incommodo, tio Joaquim, exclamou o desconhecido,

seguindo á risca as indicações do hospedeiro.

Este, admirado por ouvir o seu nome, attentou no recem-chegado, e como

procurando avivar recordações:

—Espera, eu já ouvi esta voz, mas não me lembro aonde; olha bem para mim:

eu conheço-te, já vi a tua cara, isso vi.

—Tão mudado estou que já se não lembra de mim, do Thomaz...

—Do Thomaz da tia Annica, se lembro! Mas quem tal havia de dizer, que

mudança! Pareces um velho, homem, e eu que te fazia a arrebentar de

dinheiro, que pensava que estavas pôdre de rico, lá por esses Brazis!

—Pôdre ia estando, ia; mas era de doenças e de fome...

—Então nem tudo que se diz?...

—Ora uma coisa é dizer, outra é vêr, nem o tio Joaquim faz uma idéa!

—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o teu fato. Mas não se

trata só de dár á lingua. Que tal de barriga, nem por isso vem muito

quente não é verdade?

O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente resposta. O tio Joaquim

proseguiu:

—Para grandes banquetes não haverá, mas para uma assorda ainda chega

o pão; fazem-se umas migas de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma

cebolla, e verás depois se, comida com boa vontade, não vale o melhor

petisco do mundo.

—Vem quebrar-me o jejum.

—Que dizes, homem?

—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar, porque até a esta

hora não entrou hoje comer na minha bocca.

—Pobre Thomaz!

E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim principiou a

temperar as migas.

Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha vontade o Thomaz da

tia Annica.

Teria uns trinta annos quando muito, o que só com muita difficuldade se

percebia pela viveza do olhar. No resto da physionomia e no quebrado do

corpo liam-se sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr do

rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe retinto a cara d’um

castanho esverdeado, que mais simulava medalha antiga que parecer de

gente.

A barba crescida, as sobrancelhas espessas, e o cabello basto e grenho

eram ou arruivados pelo sol, ou embranquecidos pelos trabalhos; as rugas

abriam-lhe talhos profundos na pelle, e algumas cicatrizes imprimiam-lhe

extravagantes relevos. Até mesmo o branco dos olhos estava amarellecido,

e os dentes, quando descerrava os beiços rôxos e gretados, pareciam

prezas de javali aguçadas e ennegrecidas.

O fato eram farrapos, sem fórma, nem côr possivel, restos sobrecosidos,

retalhos justapostos. Não se lhe percebia camisa.

Fazia horror tão grande miseria.

O tio Joaquim tinha desenvolvido uma actividade pasmosa. N’um abrir

e fechar d’olhos tinha migado o bacalhau e a cebola, tinha cortado o

tomate, tinha posto tudo a ferver n’uma pouca d’agua, sem lhe esquecer um

fio d’azeite para melhor tempero; depois, quando começava a fervura a

levantar, entrou a partir o pão, e a deital-o no tacho com aquelles ares

de satisfação, que deve manifestar um artista, quando tem a certeza de

estar a concluir um primor d’arte.

Thomaz, esse engerido com frio e extenuado de fome, não tinha forças para

se mecher do banco para onde caira.

No dia seguinte ouvi da bocca do tio Joaquim a historia do Thomaz da tia

Annica.

Thomaz nascera por aquelles sitios mais rico de preguiça do que de amor

ao trabalho; parecia feito para morgado, o demonio do rapaz, não queria

saber de lavoura, nem de estudo. Fugia da escola, fugia do trabalho, e ia

deitar-se debaixo de uma arvore a olhar para o ceu, ou a acompanhar com a

vista as nuvens irradias.

Muitas vezes dizia elle quando lhe deitavam na cara o não fazer nada:

Os contos do tio Joaquim · 第 10 / 14 段