Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de

jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita

muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia

aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante

de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da

chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados

na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria

amarella. Era o unico movel de algum valor.

Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras

sobre a meza pregadas na parede, onde se viam uns pratos quasi todos

rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma

arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da

arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam

toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja

completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da

arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.

Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o

trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as

imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo,

remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as

lagrimas da desgraçada.

A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda

estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha;

e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e

perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais

triste.

—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus

dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa

senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer,

bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu

marido...

—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não

andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um

remedio que dá cura ao pae...

—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me

satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que

seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer com os braços

sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças,

e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde

andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se

a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa...

Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada,

que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o

hospede que seus filhos lhe traziam.

Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse

gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos.

Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e

vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa

do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e

lymphaticas.

Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na

physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes

que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem.

A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu,

atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da

má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais

olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do

recem-chegado.

Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por

dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do

homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura,

que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante

complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho

particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado.

Apesar da compostura que se notava no traje de Leonor, apesar do cuidado

com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se

a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde,

que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam.

Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere;

que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns

pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria

que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego

emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de

si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como

uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça

por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença

a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade.

Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de

Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade,

conheceu á primeira vista.

—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho

lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da

gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu

marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o

irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões...

mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer

alguma cousa de cear, e perdoará a limitação.

E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e

espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este

continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como

pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera.

Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de

espaldar, proxima da chaminé:

—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume,

sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde

se sentava quasi sempre meu sogro.

Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou

pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve

duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe

para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe

de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo

e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se

demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque

antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.

Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação,

attribuiu-a a causa bem differente.

—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a

cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom

acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu

trafego.

N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um

panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera

sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se

achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas

de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os

pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de

chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar

á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o

seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.

Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de

desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de

o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de

pernas e braços.

—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?

—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito

perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que

segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe

se não puchar abaixo com força. E será assim?

—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.

—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas

que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.

—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e

faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o

negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...

—Do Joaquim, fallei, sim senhor.

—Então esse Joaquim?

—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que

não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do

estado a que chegámos...

—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?

—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem

a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida

nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos

a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma

afflicção; mas de hoje em diante...

—Que diz?...

—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio

todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de

proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão,

lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois,

apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor

soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em

como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo

estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima

do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque

emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso

ir pedil o fóra.

N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de

Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de

lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que

o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se

aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao

cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido

aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.

Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.

Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a

lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da

atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no

passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus

erros e nas suas culpas.

A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles

conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos

e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua

infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do

aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára,

e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura

veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu

irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe

sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.

Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não

com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas

com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas

moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos,

descanço, que nos deixa mais cançado ainda.

Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:

—Como te sentes, Raymundo?...

—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?

—Quem?

—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.

—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo

palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao

teu estado.

—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas

coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para

que não visse a desgraça dos pobres.

—Mas teu irmão!

—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada.

O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau

rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a

procuração.

—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo,

não ha para ti ninguem mau n’este mundo.

—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que

fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não

era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.

—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este

estado com as suas demandas.

—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe

tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas

abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou,

porque não havemos nós de perdoar...

—Obrigado, irmão!

Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do

quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo,

que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho,

conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para

melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.

A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras,

que cortaram o dialogo.

Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque

o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um

phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:

—Joaquim!

E caiu desmaiado com o abalo.

Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão,

abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si

em seus braços.

—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de

voltar.

—Perdoas-me, Raymundo?

—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.

—O que?

—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim.

—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê

bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido.

—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca

mais saio da tua companhia.

Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz

mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia

que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua

ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era

encontrar o seu procurador.

A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa,

para não a desamparar mais.

Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter

contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia

do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes

sorrindo:

—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes

doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!...

X

O sexto mandamento

O padre prior, que os nossos leitores conhecem já, era um modelo de

virtude e um exemplo vivo de caridade christã.

Apenas começára pastoreando aquelle pequeno rebanho, não houvera cuidados

nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar nos trilhos

escabrosos do bom porte e da honra as suas ovelhas de monte, que, quando

se apartavam do bom do parocho, era mais por ignorancia do que por

maldade.

Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára as forças do seu corpo

e o poder da sua intelligencia em esconjurar os peores de todos os

demonios, a que a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e a

rudeza.

Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer logar, qualquer

occasião lhe pareciam proprias para travar combate; e apparelhado, como

sempre andava para a lucta com as armas da crença e da boa vontade,

raramente deixava de contar da victoria.

Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse um segundo Vieira, ou

outro Macedo Polygrapho.

Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais ainda á alma dos

governos (se é que os governos tem alma), que tão pouco têem cuidado

na educação do clero, o bom do padre muitas vezes, brigava com armas

eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e, quando vencia, era

substituindo preconceito por preconceito, absurdo por absurdo.

Procediam porém de tão boa origem os erros do velho, fundavam-se em tão

verdadeira bondade: e tão piedosa uncção revestia os seus disparatados

conceitos, que por amor da singela magestade, e boa tenção da mentira,

quasi se malqueria á verdade.

Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas deliciava a alma e

commovia o coração, encaminhava para o bem, posto que por transviado

caminho. E o padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava a

parecer impossivel que não fosse assim.

Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia fugia espavorida

diante das legiões barbaras, que appoiavam algumas considerações do velho.

Não era, porque o pobre homem, que sem maldade nem recalcitramento, mas

por simpleza e costume antigo, encommendava a missa _pro rege nostro

Michaele_, resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada, seja

dito aqui particularmente, da Biblia, dos Evangelhos, do breviario e da

_Nação_, cujo assignante era desde o principio.

Não aprendia porém do seu periodico senão a doutrina tradiccional e

monarchico-absoluta em que fôra creado. Lia o jornal para saber noticias

do seu rei e do mais que ia por o mundo: e a maior parte das vezes no

meio de um façanhoso artigo ou de uma ateada polemica, no ponto mesmo

em que as iras do jornalista trovejavam mais crebas, e os rancores

partidarios se desatavam em maiores diatribes; o jornal, como para

constrastar com tão ardidas furias, escorregava brandamente das mãos

do desattento leitor, e ia voejar por terra com outras folhas suas

irmãs, que tendo sido verdes e esperançosas como ella, tinham caído da

arvore, como ella tambem caíra das mãos do parocho, e haviam seccado no

esquecimento, como, triste sorte do jornalismo diario, ella havia de

seccar em breve ao abandono no chão e esquecida tambem.

Ao cabo de meia hora o padre accordava admirado por ter adormecido,

apanhava o jornal e recomeçava o mesmo artigo.

Já se vê, pois, que não podia ser larga a instrucção colhida em fontes

tão pouco variadas e demais ainda tão mal seguidas.

Mas onde não chegava a cabeça alcançava o coração, e onde não accudia a

intelligencia sobejava o sentimento.

Não lhe tomemos conta da sua ignorancia, nem lhe malqueiramos por peccado

que não era seu.

A revolução social estabeleceu entre a geração, que findava, e a que ia

apparecendo um largo espaço que não soube ou não poude fazer desapparecer.

Uma ficou, symbolo do passado; outra caminhou, annuncio do futuro. A

primeira estacionando, conservou os abusos, os erros do seu tempo;

mas tambem a poesia, a fé sincera, o culto de suas tradicções, o

respeito pelas suas crenças: a outra caminhou sobre ruinas, e caminha

ainda, sorrindo, luctando, descrendo, esperando, progredindo sempre,

conquistando por fim, mas deixando, quantas vezes, a fé pelo caminho, a

esperança na estrada!

Se ambos se tivessem querido comprehender, se mutuamente se tivessem

desculpado ou os ardores impacientes, ou as rabujices pertinazes; se

não quizessem cavar fossos e levantar trincheiras entre uma e outra;

mas, bem pelo contrario, nivellar o terreno, e apagar odios, rancores e

desintelligencias, não seria para nós o presente tão cheio de incertezas,

de hesitações, de duvidas, de desconfortos e desalentos.

O padre, esse, ia seu caminho, combatendo como sabia a falta de educação,

e de conhecimento da sua grei.

Além das lições de moral que espalhava a esmo, conforme se lhe offereciam

as occasiões, costumava elle, sempre que podia e que o tempo o deixava,

reunir os do logar, de tarde perto da egreja, para lhes fazer alguma

leitura da biblia e interpretar em seguida, a seu modo e como melhor lhe

parecia, o texto que lhes lêra.

Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as suas explicações, e

se mais tarde as commentava tirando desagradaveis conclusões a respeito

da illustração e intelligencia do velho, não deixava sempre de me sentir

commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa reunião.

Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme sei, e segundo me

recordo, vou procurar descrever-lhes, como se apresentava a scena, na

ultima vez em que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica

do ingenuo parocho.

Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas almas quando muito.

O dia vae declinando e está proximo o sol posto.

A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande templo; nem a magestade

altiva de uma cathedral do seculo XIII.

É de hontem apenas.

Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem enfeites.

É simples e pobre como o presepio do Redemptor.

Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á esquerda braceja largos

ramos envolvendo na sua sombra uma cruz musgosa, que se levanta defronte

da porta da egreja e que deixa perceber em profundas cicatrizes, rudes

combates com o tempo ou com a impiedade dos homens; perto do platano um

pequeno regato corre por baixo do parapeito do adro e depois de passar

sob uma ponte de pedra que dá serventia á estrada, vae espraiar-se ao

longe n’uma pequena bahia, onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa

ao pé dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente.

De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro atapetado de vinhas

e oliveiras, corôado de moinhos que desprendem as velas a favor da

viração da tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares e terras

de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas do logar, e se recortam

no puro azul dos céos as oliveiras verdenegras.

Os rumores do campo começam a esmorecer com o largar do trabalho

indicando a proximidade da noite.

A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na flôr do prado, como na

arvore do bosque.

Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela mão de rude artista está

o parocho, junto a si os evangelhos depostos e ainda abertos: as mãos

pousadas sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos annos;

o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés, sentadas no chão, em

rancho, as creancinhas da terra, em roda as raparigas e as mulheres; mais

ao largo, os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus.

Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um dos poiaes do adro, e

scismando, ao que parece, está o tio Joaquim, commentador e companheiro

das homilias da tarde. De quando em quando, em pontos mais subidos

da exposição do pastor levanta a cabeça, fita o narrador com gesto

expressivo, e com os olhos illuminados por aquelles doces clarões da

sympathia e da attenção, segue o fio do discurso para descahir breve nas

habituaes meditações.

O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados capitulos, e d’accordo

com a intelligencia dos ouvintes explica-lhes o texto procurando

comparações no campo, na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos

instrumentos com que mais de perto lidam.

Todos o escutam em religioso silencio e a palavra sagrada recebe maior

uncção na bocca do venerando velho.

Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo começam a bater as

melancholicas Avé-Marias. O som vae chorando, como uma saudade do dia

que finda, pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos bosques, para

voltar amortecido e triste, como recordação de felicidade.

É um momento solemne.

O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a seus pés. Por momentos

as orações murmuram como o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração

ergue-se como um côro de harmonias dos labios dos fieis, do murmurio

do regato, do ciciar da aragem, do bulir do arvoredo, do tinir dos

chocalhos, dos balidos do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o

abrigo do curral.

Os contos do tio Joaquim · 第 9 / 14 段