O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura,

contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando

esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das

escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se

em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com

elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas

ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando

por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo

e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha

parecia mais viçosa e risonha.

O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo,

tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais

desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas,

o chão recamado de flôres.

Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas

as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa,

apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de

uma existencia descançada, serena, quasi festiva.

Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia

visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora

assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso

que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o

mesmo.

Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem

dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê

d’aquellas mudanças.

Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui

de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se

operára aquella transformação.

Em resumo foi o seguinte:

Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao

bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem,

costumam no campo, ser fóra de horas.

Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns

visinhos, que os acompanhavam.

E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que

a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que

vigiára o somno de Manoel.

Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se

apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o

Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de

Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do

marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.

Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a

vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares.

Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica,

pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel,

recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que

renascia agora mais valente e duradoira.

Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a

peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio.

Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as

lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.

Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o

Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento

mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.

Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella

chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas,

que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima

assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do

pasto.

—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão

sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.

—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar

uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que

me perdoou o meu crime.

—Ainda pensa em semelhante coisa?

—Se penso, quiz matal-o!

Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo.

Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões.

É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a

maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem.

IX

Como se ganha uma demanda

Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento

das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo

á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já

rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não

houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão

baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se

vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se

contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez

mal vestida de farrapos.

Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada

proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por

meio dos olivaes.

Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles

lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não

era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes

d’este mundo.

Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois

unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente,

mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.

Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em

agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo

aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim

como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom

porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a

supportar o irmão nem mais um dia.

Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que

depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho

que já pensava em o mandar a Coimbra!

Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra

redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para

lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu

irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes

pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um

arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.

José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como

ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho

debaixo da sua direcção.

Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle

modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe

o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra.

Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do

que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.

Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os

defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se

havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.

Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe

diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar

a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em

si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho.

Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu

chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do

qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o

auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em

casa homem de tão mau coração.

Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe

perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu.

Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má

vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na

taberna ou no jogo.

Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha

mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr

de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.

Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe

ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro

breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.

Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar

trabalhadores para o Brazil, promettendo-lhes mundos e fundos de

felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que

quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição,

travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um

dos mais espertos alliciadores da companhia.

Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a

occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em

pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia

os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco

trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos

duvidavam de abandonar terra e parentes.

Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle

acertava tão bem.

Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou

seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o

de que era o melhor partido que tinha a seguir.

Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe

dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança

tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr.

João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se

não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda

de realisar os planos vingativos contra o irmão.

Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.

João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois

jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e

lhe voltou costas n’um arraial.

O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama:

e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho,

governar a casa e tratal-o na doença.

Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma

rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar

de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque

alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma

enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.

Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos

medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no

coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle

se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e

bom Raymundo.

Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem

menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte

maior do seu coração ao filho perdido.

Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta

parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria

do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore

desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro.

A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o

definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham

feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por

fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber.

José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e

sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua

nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e

suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o

doente, que não tinham passado de conjecturas.

Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as duvidas, porque,

conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois

erguendo os olhos ao céu, exclamou:

—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um

raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu

Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo,

lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae.

Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de

José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois

annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta

o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém,

vencera-o por fim.

Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister

pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem

haveres, e com o filho e a esposa para sustentar.

Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher,

estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma

filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera!

Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que

padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes

maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom

grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus!

Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e

porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão.

Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando

sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever.

Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre, sorrira para Joaquim

cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa.

João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava

de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar,

até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte

amaldiçoasse o filho mal procedido.

Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma

damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte,

deante de uma mentira, ou duas que fossem.

Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes

negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que

seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre

para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para

tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que

seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.

Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder,

começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu

mal.

A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões

dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes

artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que

passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em

nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia

liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha

ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico;

mas só e triste.

Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas

tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava

descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice

e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o

encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.

Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por

aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante

d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.

Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.

Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam,

e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em

baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor,

ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes

perguntar noticias do trabalho.

E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão

do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de

principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem

desafiára o cão!

Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava

á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem

significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do

passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr

uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.

Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se

suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade,

adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.

E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o

sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de

amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel

e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de

outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece

ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.

N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões

bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a

hora de regressar.

Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas

cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se

perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe

transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a

meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.

Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por

conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a

chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado

com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso

dos trovões.

Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco

tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga,

lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a

modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.

—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não

se inquietava muito com um mau encontro.

Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.

Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.

Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao

mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos,

ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que

parecia mais animoso.

—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que

lhe receitou o mestre Eusebio.

(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e

facultativo á falta d’elles).

Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se

esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um

tom mais seguro, como para lhe incutir valor.

—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês

que tem cara de boa pessoa!

O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta

amabilidade era pois um argumento _ad benevolentiam_, aprendido quasi

intuitivamente, na rethorica saloia.

—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!

Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão

ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.

—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.

—Ha tres dias que não come nada.

—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme!

—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto.

—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com

quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o

rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a

cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel

nada sabe.

—É muito longe a sua casa?

—Não, meu senhor, é logo alli.

—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra

noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando

lá chegasse achava tudo fechado.

—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que

ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!

—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de

contentar.

—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao

ouvido a pequenita a seu irmão.

—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa

não ha que levar!

—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.

Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu

irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o

dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena:

—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a

prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque

elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o

seu interlocutor:

—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a

gente diz!

—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?

—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos.

—E o menino é um homem, não tem medo.

—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas

creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente!

—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça

bem. Pelas terras, por onde andei, aprende-se muita coisa e eu conheço

algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o

agasalho, tenho com quê.

—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua!

—Não te dizia eu, Isabel.

—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho?

—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o

acabaram muito.

—Pobre homem!

—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi

o pae, vive tão apoquentado!

—Um tio?

—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva

ao meu tio!...

—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa?

—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama?

—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está

muito longe.

—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama.

—É o tio Joaquim.

—E está?...

—Lá para o Brazil.

—E seu pae, chama-se?

—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o

Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com

aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe

podesse porvir algum mal das suas respostas.

—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae.

—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se

Raymundo.

—Então os meninos são?...

E a commoção embargou-lhe a voz.

—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era

o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa

Isabel.

—Pois eu...

Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se

declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para

si e abraçou-os muito enternecido.

—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher

mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si!

—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu

lá, José, tambem és meu amigo?

—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo

á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o

pae! Abra a porta, mãe, somos nós.

Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro

ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á

claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.

Os contos do tio Joaquim · 第 8 / 14 段