dependia d’uma viagem redonda ao Brazil, em que o rapaz contava apurar
os vintens de que precisava para pôr a casa. E assim, entre promessas
e esperanças, viveram dois annos, que tanto medeou entre o dia em que
pela primeira vez se tinham visto e aquelle em que ia partir para a
malventurada viagem.
Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem vivido de illusões e
de esperanças, sentindo um coração a afinar pelo seu no pulsar e no
tremer, uma alma unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir
de todo; quem tem a registar esses dias em que o tempo vôa nos instantes
dos colloquios para descançar, e demorar-se nos seculos que os separam;
quem tem encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e affeição, amor
sempre, dedicação e sentimento, como só a mulher sabe ter, e a mulher que
ama deve resignar-se para todas as provas, para todos os padecimentos,
porque já antecipadamente tem gosado o maior quinhão de felicidade que a
terra lhe póde dispensar.
N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos, e tão breves lhe
tinham parecido, que na hora da despedida dava a vida inteira por um dia
só mais que fosse.
Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o em corpo,
deixando a alma em terra, e com a alma a esperança e a vida.
Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais d’uma vez o navio correu
perigo sem que elle désse por isso, sem que aquella valentia d’outros
tempos accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem leme ou
alma penada sem sepultura: de nada dava fé nem a coisa alguma attendia.
Depois o tempo gastou as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no
coração; mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos na animação e na
alegria, que d’essas só Martha podia dizer o que era feito.
Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates de vendas,
difficuldades de carga demoraram tres annos o _Corsario_ em vez dos seis
mezes, que deviam de ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os
proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a vêr.
Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia, chegava ao escriptorio
para saber noticias, depois foi-se demorando mais até que por fim deixou
de apparecer. Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria
onde ella morava: para que havia de perder tempo, de que precisava para
viver e cuidar do enxoval?
Um dia soube que se perdera o _Corsario_ com toda a tripulação. Ficou por
morta. Por dois mezes padeceu n’uma cama do hospital, depois melhorou
pouco a pouco, até que saiu tão boa como d’antes e mais formosa ainda,
porque a pallidez lhe augmentava a belleza.
Perto d’ella morava um rapaz, operario diligente e de bons costumes,
novo tambem, laborioso e honrado: encontraram-se um dia na escada, e
cumprimentaram-se. Ella percebeu no visinho semelhanças do Manoel; chorou
muito, mas pensou no operario toda a noite; de manhã, para espairecer
saudades, estava na janella ainda de madrugada, e vio o quando ia para
o trabalho; depois foi continuando a vêl-o, depois... as recordações de
Manoel começaram a sumir-se-lhe pouco a pouco da lembrança, como o navio,
em que partira, fôra desapparecendo ao longe, pouco a pouco, nas aguas do
mar.
III
Entretanto o _Corsario_ entrava a barra, de pannos largos em tarde
de primavera, como cysne nadando em lago de jardim. A marinhagem
debruçava-se nas amuradas, e com os olhos namorava a terra, a que a
prendia o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por esses montes
fóra recortava-se sobre o fundo azul da serra de Monsanto, onde se
reflectiam, já muito obliquos, os raios do poente.
Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e todos se tem enlevado
em suas formosuras; mas nem todos sabem o que é vêr a terra onde se
nasceu, onde se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades e
amores, saudades e memorias, depois de mezes passados entre mar e ceu,
a perderem-se e confundirem-se um no outro: e de vastos, que são, a
apertarem-nos, a apertarem-nos a mais a mais o coração e a alma.
Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem sol, nem ceu, nem coisa,
que n’este mundo houvesse, valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente,
uma mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que unicamente lhe
prendia a attenção.
Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára as torres, subira a
uma gavia e d’ali esbugalhava os olhos para terra, como quem por elles
queria que a alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara ferro,
atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos, porque a seu vêr ninguem os
puchava com tanta ancia e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao
caes, onde d’um pulo saltou em terra.
Mas dados que foram os primeiros passos com os restos d’aquelle impeto
que vinha de dentro, Manoel estacou e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe
as pernas, esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração,
esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha em horas de temporal.
Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia, o que fôra peior;
porque nem a poderia chorar. Iria encontral-a casada, perdida!...
Instantes de incerteza como aquelles envelhecem tanto, como annos sem
descanço. Fraquejou por um momento, cobrou animo depois, como o navio,
que resiste a um furacão: e, quasi de corrida, deitou para o sitio em que
a deixára n’outros tempos.
Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam
prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem
essas recordações.
Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a
cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação.
Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima
pelas coscuvilhices de senhoras visinhas.
Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o
deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se
deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da
sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a
escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam
perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem
tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro.
Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a
sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram,
todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a
forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante.
Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia
cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes
resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro
homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.
Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um
vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar.
Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.
Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que
tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de
ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe
franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.
Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada
nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.
Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os
seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um
perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem
sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.
Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o
mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra
de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro
aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de
mulher, que pedia soccorro.
IV
Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de
Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um
corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.
Era mais do que o bastante.
O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo
concorreu para que o condemnassem.
Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis,
donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de
honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos
soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado.
Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo;
o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de
sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e
as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos
enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta.
Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a
morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar.
Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior
ainda, porque parecia idiota.
Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!
Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada
nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e
deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam
n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de
sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais
valentes.
Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos
nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio
mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe
entalharam no coração.
O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta,
foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde
attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma
atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim
comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso
lhe accrescentou a grilheta, _exposição ambulante_, aperfeiçoamento da
que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas
do que a réus.
A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o
antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho,
inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que
esperava accordar um dia.
Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a
differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade,
alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e
aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.
Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e
que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:
Navegava a bordo do _Corsario_. De repente o Oceano transformava-se em
largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços
com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos,
pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto
mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava
encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia
que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre
os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o
todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos
clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça,
o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa,
que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: _não matarás_.
Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á
vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror.
Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de
uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu,
e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam
todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que
recebera com a educação, predominaram sempre.
Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura,
em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da
morte lhe trabalhou muito na cabeça.
Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia
passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes
recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra,
o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo.
Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que,
onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado.
Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o
debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um
braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo
companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais
pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do
caes.
Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao
suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se
resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a
viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de
que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe
apparecia nas proximidades da sepultura.
E... porque não havia de concorrer tambem?
A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse,
e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?
No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia,
comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade
commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—_Desgraça_,—pelo muito
que ambos haviam padecido.
Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida
se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida
continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o
emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre
voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de
leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de
outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que
o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos
lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle
inferno porque passára.
Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de
amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram
esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.
Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres
annos se poderiam dizer felizes.
Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca
mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam
da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse
a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um
scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e
ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia
com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com
semelhantes pieguices.
Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe
mostrou boa feição, todos fugiam do _grilheta_, alcunha que lhe tinham
posto e que lhe recordava a antiga condemnação.
Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o
criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma
contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a
corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para
ella, e embora elle diga: _vejam o que hoje sou_; todos lhe tornam:
_vemos o que foste hontem_.
Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o
não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e
o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de
descanço na sua jornada de padecer.
Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em
que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo
n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades
de Sacavem.
A _Desgraça_, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque
havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez.
Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões
ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O
barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para
diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já
velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia,
em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto
antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas
quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella,
e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo
d’agua, e virou-o logo.
Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto
custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de
bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco
era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam
roubar.
Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr
se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto
de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças
a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a
renderem-se-lhes.
—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de
conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para
terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando
mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque
não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma
velocidade de espantar.
Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda
abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe
pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com
o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento
enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse,
procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para
gritar, e tomar a respiração.
Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não
ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde
se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de
forças ia mergulhar tambem.
—Quasi que não respirava.
A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava.
De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira
perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito
de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da
vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar
e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão
sobre o hombro lhe disse:
—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse,
gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora.
Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher, que teria trinta
annos, quando muito, e que apesar de cançada pelo trabalho, ainda era
formosa, appareceu no limiar.
Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada, que illuminava
fracamente a casa, deu um grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela
porta meia aberta para a estrada.
Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral da porta para não cair
no chão.
Era Martha.
V
O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno, e o sol aquecia
bastante, apesar de ser no outono. E aquella estrada, então, que era um
descampado!
A meia hora de caminho, andando sabe Deus como, com a cabeça pelos ares e
a rasão quasi transtornada, Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer,
de cair n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de uma nogueira
velha.
Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o pobre homem, que
pela sua má sina parecia ter nascido nas horas da desgraça, finava-se
alli de todo.
Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito; as horas, que
levára de volta com o mar, o dia que passára e este que ia correndo
sem comer; aquella vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como
desmaiado sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou a esmorecer,
que nem elle mesmo soube nunca o modo porque fôra, até que um velho
visinho e que por mais de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar
com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e perguntando-lhe se
tencionava ficar para sempre alli estendido.
Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem carreira, e que o
soubesse não tinha alma de o seguir. O velho compadeceu-se d’elle,
porque pelo fato e pelo fallar, conheceu logo que era estranho ao logar;
offereceu-lhe, para passar a noite, um bocado de esteira, para matar
a fome um pedaço de pão e uma cabeça de sarda, e para companhia a sua
pessoa e conversação.
Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que
fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno.
Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na
vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes
padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes
mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes.
Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz.
Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes,
aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do
mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para
elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas
sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era
o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas
ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida.
Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela
experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que
annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas
infelicidades, e deram-se o nome de amigos.
Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros.
Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou
sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado
emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o
encontrei.
VI
Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a
sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do
cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira.
Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da
feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas
horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido
por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a
primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas
d’aquelles encantados tempos.
Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam
detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me
a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de
logar.
Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias
antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava.
A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados
pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza
aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora
ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos
arrefeciam a alma.