tão esquerdo, nem de tão má catadura para os amigos. E d’ahi, andára todo
o dia a fugir com o corpo ao trabalho, e a resmungar com os seus botões,
como quem lhe roía alguma coisa lá por dentro.
Ou estava doente o pobre do homem; ou lhe tinham dado quebranto.
Porque até então ninguem lhe pozera o pé adiante no trabalho e ninguem o
levára á parede em alegrias e cantigas. Andava sempre mais contente do
que a cigarra e mais esperto do que o pardal.
O que teria o André Pimenta?
N’estes pontos de interrogação viera a gente toda da quinta do _Chibanta_
ao logar da Rabiça fazer o farnel para a semana, porque era n’um sabbado
e tinham recebido a féria: em perguntas e conversas deitaram até defronte
da casita onde elle morava e onde estava ainda, muito bem amezendado n’um
poial á entrada da porta, e tão pasmado, que parecia ter-lhe um ar mau
passado por cima, n’aquelle logar mesmo.
—Boas noites, tio André!
—Adeus, tio André, quer alguma coisa da Rabiça?
Estas perguntas, com mais ou menos variantes, lhe dirigiam os pobres
ganha-pães, sem que obtivessem resposta, além de um resmungar
inintelligivel, que de má vontade saiu do peito de André, e que se fez
ouvir sem que abrisse a bocca.
Os maltezes olharam-se, encolheram os hombros, entenderam se pelos olhos:
e, cada vez mais admirados, seguiram para o logar.
O caso era para dar que fazer até mesmo a um escrivão!
André fôra sempre um bom trabalhador e um honrado chefe de familia.
Depois de andar um santo dia na sua labutação, não havia para elle maior
regalo, do que vir de noitinha brincar com os pequenos ou conversar com a
mulher, emquanto se lhe não apromptava a ceia e não tocava a deitar. Ao
portal da casa, de verão; de inverno, sentado ao pé da chaminé n’um banco
que elle arranjára em horas de sesta.
N’aquella casa não se conhecera nunca cirurgião nem boticario, e não
constava pela visinhança que se lá tivesse ralhado nunca. Pois a lingua
d’aquella gente não perdoava, nem ao padre prior!
Mas, quando tocava ao André das Furôas, (assim se chamava ao sitio onde
assistia) ou á Magdalena da tia Ignacia, todos diziam á uma, que era um
casal em que se não podia pôr bocca, e que viviam tão socegados, como
Deus com os Anjos.
Entretanto nem só os camaradas haviam extranhado André n’aquelle dia;
Magdalena e os pequenos tinham ficado passados, quando o haviam visto
chegar ao pé da porta, atirar com a enchada e o cesto para o meio da
casa, como quem atirava com o diabo á rua e deitar-se para cima do banco,
sem dizer nada nem á mulher nem aos filhos.
Pela primeira vez na sua vida um mau pensamento viera torvar a serenidade
d’aquella alma. André sentira a inveja, e tinha medo d’ella e de si.
Admirava-se da mudança, que lhe ia lá por dentro e não tinha alma para
deitar fóra aquella tentação. Não se conhecia, por differente; e não
sabia como havia de tornar a ser o mesmo.
Parecerá estranho a quem não conhecer a vida apathica e rotineira da
gente do campo, André não pensára nunca nas differenças d’este mundo, nem
nas gradações de posição. Parecia-lhe tão natural ser rico o sr. Manoel
Fernandes e elle trabalhar para o sr. Manoel Fernandes e ser pobre, como
deitar-se á noitinha e erguer-se de madrugada. Nunca considerára n’essas
differenças, e ia trabalhando todos os dias com a enchada ou com o podão,
como já seu pae trabalhára, e o pae de sua mulher, e como esperava que
seus filhos trabalhassem, quando tivessem edade para isso.
N’aquelle dia, porém, a horas d’almoço, ouvira uma conversa em que andára
a matutar todo o dia, porque lhe fizera sensação devéras lá por dentro.
Dois senhores da cidade tinham vindo visitar o sr. Manoel Fernandes e ao
dar uma volta pela fazenda demoraram-se, com a curiosidade de vadios a
vêr trabalhar os maltezes, que andavam n’uma cova aos montes.
Admirados de vêr, n’uma hora, trafego, que os cançaria todo um mez,
começaram em voz alta a fazer commentarios, e a lamentar a sorte
d’aquelles homens, que suppunham infelizes.
—Pobre gente, dizia um, tanto trabalho e por tão pouco dinheiro!
—Então, respondia-lhe o companheiro, se elles não trabalhassem como
haviamos de comer, bem vês que nem todos podiamos ser eguaes.
—É verdade mas eu morria se cavasse duas horas!
—Não admira, cada um para o que nasceu.
E mil cousas como estas que é facil imaginar. O effeito que produziram,
isto é que nem elles nem ninguem poderia imaginar. Não cairam no chão.
Apanhou-as o ouvido de André a quem abriram um mundo novo. Pois havia
homens, que não podiam cavar, ou que não queriam; e outros eternamente
condemnados áquelle trabalho! Era coisa em que não pensára nunca, mas que
lhe fervilhava agora lá por dentro, azoinando-o todo o dia. André Pimenta
começava, como o anjo caído, a olhar para cima, e ao vêr outros tão altos
e a si tão baixo oirou-lhe a cabeça e ficou estonteado.
Era quasi noite e não cuidava em recolher. As creanças, que andavam n’uma
empreitada de fazer uns castellinhos de barro ao pé da porta, e que,
mal lobrigaram o pae, tinham deitado a correr a abraçar se lhes com as
pernas, sacudidos por elle haviam vindo de orelha murcha, com as lagrimas
nos olhos e corridos de susto para o pé das suas architecturas sentar-se
amuados sem comprehenderem aquelles termos differentes das festas do
costume: e mais estranhos ainda continuavam sem se atreverem a fallar
com a vista pregada no pae, e com a persciencia infantil a advinhar-lhe
desgraça. A mulher, essa entrava, saia, fallava, dizia mil cousas,
fazia mil perguntas e sem obter resposta alguma, não sabia a que santo
se apegasse para lhe fazer o milagre de lhe chamar a ternura antiga,
tremia de entrar a fundo n’aquelle grande desgosto, por fim animou-se, e
chegando-se a elle tocou-lhe no hombro e perguntou-lhe a medo:
—Não vens cear, homem, é já tão tarde?
—Não; foi a resposta secca e desabrida como badalada tangida rapida por
mão inexperiente; e ficou-se.
—Que tens tu, homem, nunca te vi assim?
—Pois tu não sabes, que ha homens que não precisam de andar agarrados a
uma enchada todo o dia para ganhar o pão de seus filhos?
—Sei, homem, que se lhe ha de fazer; são cousas do mundo!
—E nunca m’o disseste?
—Para quê, André; valha-me a Senhora da Madre de Deus, nunca pensei que
te dessem cuidado essas cousas!
—Que me não dessem cuidado! Mulher de... não sei que diga! Pois eu, um
homem como os mais, que nunca fiz mal a ninguem, que me tenho feito em
postas para os sustentar a vocês; eu, se ámanhã me desse um estupor, ia
para o hospital; por lá morria ao Deus dará, e vocês ficavam por ahi a
pedir esmola!
—Mas, que se lhe ha de fazer, se nascemos pobres?
—É em que eu tenho andado todo o dia a matutar, porque hão de uns nascer
pobres, e outros ricos; porque hei de eu não ter nada, e o sr. Manoel
Fernandes, ha de ter mais de uma duzia de quintas, cada qual maior, cada
qual que bastava para vivermos todos descançados:
—Queres reformar o mundo? Tens inveja, André, e inveja do patrão, que nos
faz tanto bem?
—Quem te falla em inveja! Se eu me lembrasse de que era invejoso dava um
tiro n’estes miolos. Eu não olho para as mãos do sr. Manoel Fernandes,
que merece... verdade, verdade, e que é um homem ás direitas; mas eu não
sou somenos e se tivesse uma d’aquellas quintas, ao menos; trabalhava,
que não nasci para vadio: mas sem pensar no dia de ámanhã, sem tremer com
a idéa do que lhes póde acontecer.
—Por amor d’isso não te rales, homem; respondeu-lhe uma voz meio alegre,
meio reprehensiva ao pé d’elle.
Era o sr. Manoel Fernandes, que saindo a dar uma volta parára perto do
grupo, e entrára assim na conversa, poisando a mão direita sobre o hombro
de André.
Este enfiou, Magdalena entrou a tremer, e os pequenos, comprehendendo que
uma nova scena se ia passar, approximaram se curiosos do logar da acção.
Houve um momento de silencio geral, emquanto os diversos actores se
entre olhavam e reconheciam. Por fim André, com aquella giria saloia,
que participa da sagacidade dos selvagens, conhecendo que a defeza era
difficil, tomou a offensiva.
—Ora, v. s.ª, assim a escutar o que diz cada um á sua mulher, sr. Manoel
Fernandes!
—Qual escutar, nem meio escutar, tornou este entre serio e risonho
pois que percebera a manobra, não ouviste nunca, que, palavras leva-as
o vento? Estavas para ahi a parolar alto e bom som, e não querias que
ouvisse? Só se viesse pela charneca adeante com as mãos nos ouvidos.
—V. s.ª tem razão, tornou Magdalena interferindo, como o poder moderador
no systema constitucional, mas v. s.ª bem disse que palavras leva-as
o vento, e o meu pobre homem apoquentado da sua vida, não admira, que
desabafe...
—Ninguem lhe diz o contrario, santinha, e d’ahi bem falla o rifão: quem
escuta...
—Mas o meu André não pôz bocca em v. s.ª para mal.
—E que pozesse! El-rei tambem tem costas, não lhe quizera eu mal por
isso, e tanto que já lhe disse, por amor da _Chibanta_ não ha de ser a
duvida.
—V. s.ª tambem!... observou André, como em recriminação, levou a mal, uma
palavra dita sem maldade nenhuma.
—Como queres que te diga que não, homem? fazes-te André! Já te disse, que
está na tua mão, ser tua a _Chibanta_.
—Ora!...
—Não ha aqui ora, nem meia ora. Ámanhã começas a tomar conta da fazenda,
e de caminho descanço eu o meu bocado. Se te avires com ella, e se te
mostrares tão prompto de braço como de lingua, virá a ser tua.
—V. s.ª tem vagar de rir, mas um pobre homem como eu, é que nem sempre
está de feição: basta-lhe a sua vida, disse André, que não acreditava em
tanta generosidade.
—Queres acreditar-me ou não? Bem sabes que não tenho senão uma palavra.
—V. s.ª então!...
—O dito dito, e até ámanhã.
O sr. Manuel Fernandes voltou costas e seguiu no seu passeio: apenas
desappareceu no atalho, Magdalena e André olharam-se espavoridos e como
receiosos, e por algum tempo estiveram sem dar palavra; por fim Magdalena
voltou-se para o marido, para o accusar, segundo o costume das mulheres
em semelhantes occasiões.
—Para que havias de fallar, André?
—Então nem queres ao menos, que desabafe. Anda um homem ralado de
trabalho todo o dia, e nem ao menos ha de ser senhor de dizer duas
palavras em sua casa!
—E se elle te despede?
—Não faltará onde dê cabo do corpo?
—Elle parecia fallar sério!
—Ainda acreditas! Bem me fio eu no que elle disse: esteve a divertir-se
com a gente. Má raios...
—Cala-te André, atalhou rapidamente Magdalena, cala-te, póde ainda estar
por ahi, e quem sabe, talvez o homem faça o que disse.
E em duvidas decorreu a noite. A peior, que desde que eram casados tinham
passado. Ora a esperança lhes surria, ora o receio os amedrontava; ora
acreditavam, ora descriam. Pela primeira vez nem Magdalena nem André
provaram da ceia, e só as creanças, que não comprehenderam nada, comeram
como do costume, e adormeceram com o mesmo descanço.
De madrugada André, com cara de morte de homem, encaminhou se para a
_Chibanta_. Vergavam-lhe as pernas pelo caminho; não ia contente comsigo,
nem com a sua consciencia. Parecia outro.
O sr. Manuel Fernandes esperava-o ao portão da quinta. Uns quês de ironia
transpareciam no rosto alegre do fazendeiro.
—Melhor cara traga o dia da ámanhã, homem, mofina te deu, que tão
amargurado vens! Parece que não pregaste olho!
—Eu bem sei que v. s.ª me vae despedir; mas não é porque eu faltasse á
obrigação...
—Que tens tu homem, mordeu-te bixo?
—É que v. s.ª...
—Bem sei o que vaes dizer, mas o que hontem te disse, está dito, hoje
começas a ser meu feitor e para o deante fallaremos...
André duvidou ainda e só depois do fazendeiro o ter apresentado aos
trabalhadores, como seu substituto é que começou a entrar em si,
parecia-lhe tudo um sonho.
Em quanto lhe ia dando as instrucções necessarias, e lhe explicava por
meudo o grangeio da fazenda, o sr. Manuel Fernandes sorria-se vendo que
André meneava a cabeça com ares de profundo entendedor, e respondia
a tudo: já entendi, deixe estar, não tem duvida. O velho lavrador não
acreditava n’aquella proficiencia, e lá de si para si amolava o caso.
Tanta confiança mostrava porém o novo caseiro, que, depois de acabada
a vistoria, mandou o entrar para a casa principal da habitação, que
accumulava as funcções de casa de jantar, escriptorio e cosinha, e
disse-lhe:
—Oxalá que me enganasse homem, queria-te dar uma licção e mostrar-te que
nem tudo é o que parece, que para grande náu, grande tormenta e que cada
qual sabe as linhas com que se cose. Se a inveja é feio peccado, não é
culpa menor julgar as coisas pelas apparencias. Comecei, como tu, pobre,
enriqueci por felicidade, mas sempre honradamente; ainda assim, não
poucas vezes me têem lembrado, com saudade, as noites, em que, ralado com
o trabalho, mas sem cuidados, atirava com o corpo para cima da enxerga,
sem deitar contas á vida porque a féria no fim da semana pagava tudo.
—Ó senhor Manoel Fernandes, mas a mulher e os filhos?
—Tambem se accommodavam como podiam. Olha: uma cava é para o milho, outra
para a vinha; quanto mais se sóbe, mais cançado se fica. Hoje tenho mais
dinheiro do que então, lavro muitas geiras de chão, deito um par de moios
á terra, e não dou pouco que fazer ao lagar; mas, pódes acreditár-me,
tenho mais vezes falta de dinheiro, do que quando recebia um quartinho
cada semana; e passo mais dias de amarguras, do que quando era um triste
trabalhador.
E como André meneava a cabeça, com ares de quem não acreditava muito no
que elle dizia, o sr. Manuel Fernandes tornou-lhe triste:
—D’aqui a tempos me dirás se tinha rasão.
Não tardou que se não realisasse a prophecia. André, quanto mais entrava
n’aquella vida nova, mais espinhos lhe achava. Tinha que repartir
a attenção para mil lados, tinha que cuidar em muitissimas coisas
differentes ao mesmo tempo.
Não descansava, não dormia mesmo. Lembrava-se de noite, que podiam andar
ladrões na fazenda, sentia ladrar os cães ou grasnar os patos, saltava
da cama e corria para fóra, de espingarda carregada. Parecia-lhe que
se esquecera de dar ordens para o dia seguinte, que não determinára
trabalho, e eil-o, sem pregar olho, a espreitar a madrugada para ir
acordar os trabalhadores e marcar-lhes a obrigação; era um supplicio.
Depois a cultura em ponto maior, os processos da lavoura, de debulha, de
vindima, de sacha, de cava, de poda e de empa, a qualidade das sementes,
o tempo da sementeira e a escolha dos terrenos, o traçar da horta, e
a rega das plantas, o decote das arvores e a colheita dos fructos, o
cuidado do gado e da creação, o fabrico dos instrumentos de lavoura, a
guarda do pão, e o meio de o conservar, reclamavam conhecimentos que lhe
faltavam. Quando lhe perguntavam alguma coisa, é que via na resposta as
difficuldades, que á primeira vista não encontrára. Tinha sempre medo
de mandar o contrario, e não poucas vezes lhe aconteceu, quando errava,
ouvir os homens da quinta rirem-se d’elle, e lá, uns com os outros,
fazerem observações bem desagradaveis. André, por natureza bondoso e
crente, tornára-se irascivel e desconfiado de todos.
Nos seus mais intimos mesmo se fizera sentir a differença de posição;
Magdalena e os pequenos tinham-se tornado exigentes, nada os contentava,
tudo lhes parecia pouco, e André podia contar todos os dias com uma
contenda, quasi sempre n’este theor:
—D’antes não me recusavas coisa nenhuma...
—Se não póde ser, mulher.
—Estás sovina, para que queres o dinheiro?
—Mas se o não tenho?
—Pois sim, a mim não me enganas tu, ainda hontem vendeste isto ou
aquillo, é porque o gastas com outras.
E seria um nunca acabar referir todas as desavenças, todas as ralações do
pobre homem. Nem em casa nem fóra, lhe deixavam um momento de descanço.
Andava como doido.
Entretanto o sr. Manoel Fernandes tinha ido á provincia; demorára se por
lá algum tempo e esperava-se de um momento para o outro.
André foi ter com elle ao caminho, apenas o avistou a alcance de voz,
as suas primeiras palavras foram como o deitar ao chão um peso que o
opprimisse, e com que não podesse mais.
—Acceite a _Chibanta_, sr. Manoel Fernandes, quero a minha enchada e o
meu somno descançado; a minha féria e o meu socego.
O fazendeiro sorriu-se.
—Pois já, homem?
—E é demais. O que lá vae lá vae, aprendi devéras, estes dois mezes
têem-me custado annos de vida.
—Pois não tens as mesmas idéas que tinhas ha seis mezes, já te não
lembras do hospital?
—Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do hospital dos doidos, e lá
não tardaria eu se continuasse n’aquelle inferno. Guarde-a que lhe não
invejo o vagar.
O sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado, que não quiz
abusar. No dia seguinte este começava no trabalho antigo e pela primeira
vez, havia tanto tempo, dormia de um somno desde o deitar até ao
amanhecer.
Magdalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois costumou-se outra
vez: e se se lembrava com saudades dos seus antigos explendores,
não tinha muito tempo para ter pena, porque o trabalho da casa
preoccupava-lhe a attenção.
Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança. Uma enchurrada
havia-lhes desmanchado o seu castellinho de terra.
De novo reinou n’aquella casa o socego antigo: a alegria, que parecia
ter fugido espavorida das grandezas do rendeiro da _Chibanta_, tornou a
sorrir no pobre albergue do modesto trabalhador.
O sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André, que, com o andar
dos tempos, conseguiu comprar um quintalejo que, se não era tão grande
como a _Chibanta_, correspondia ao menos ao seu saber e não lhe dava
grande cuidado.
Mas tinha-lhe aproveitado a licção, e quando lhe fallavam nos haveres dos
outros dizia sempre:
—Eu bem sei o que isso é; ninguem está contente com o que Deus lhe deu.
Por isso diz o rifão: a gallinha da minha visinha...
VIII
O guarda do cemiterio
I
Era perto da noite. Voltava em companhia do tio Joaquim d’uma feira,
que se fazia a duas leguas da quinta, onde estavamos. Tinhamos mettido
os cavallos a passo, e depois de muito discorrer e matar tempo, a
conversação, que esmorecera gradualmente, parára de todo.
Não o sei ao certo, mas quero o crêr; a tristeza que tanto se sente no
campo na hora em que o dia desapparece pouco a pouco, influira para nos
calar; e aquella doce melancolia, que acompanha o crepusculo da tarde, e
que tanto nos faz scismar e crêr, obrigára-nos a interromper as fallas,
que perturbavam aquelle silencio geral.
Só quem tem vivido fóra das cidades é que póde dar conta d’aquelle tempo
de socego e de mudez, que determina a passagem da noite para o dia, e
muito particularmente do dia para a noite.
As aves, os animaes, as arvores, as plantas e até a natureza insensivel,
parece que entristecem n’aquelles momentos e que suspendem a vida, o
movimento e o ruido: como que permanecem por instantes n’um estado de
duvida e de receio, e temem vêr desapparecer de todo essa luz, que é
a sua vida, e que então se some no horisonte, tinto por amor da sua
ausencia com côres de tristeza e de dó!
Outras vezes, no meio da geral callada, alguns ruídos se apercebem; mas
esses como a susto, como mais para significarem o esmorecer da vida
do que a sua animação:—é o breve pio do mocho, é o som afastado dos
chocalhos, são os timidos balidos dos rebanhos, é o ramalhar das arvores
com a viração da tarde ou o murmurar longinquo e surdo das ondas do mar.
São essas as horas mais talhadas para a meditação, para a saudade ou para
o amor; são as horas das aspirações vagas, dos desejos indefinidos, das
fantasias e das expansões; são as horas em que se eleva em nós, um que
quer que é estranho e superior a tudo que nos cerca e com que de habito
lidamos; em que o homem soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em
que o desalento e a esperança se travam em lucta; em que o amor nos falla
de prazer, a saudade da dôr e a imaginação do infinito; em que se vive
muito e se deseja morrer; em que se sonha muito e se receia accordar;
em que a virgem presente a primeira paixão, o homem o primeiro amor,
a creança o primeiro momento de viver, o velho a ultima hora; em que
o passado e o futuro se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro
enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno para a alma, e a alma
acanhada para o sentimento.
Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto ía, que nem dava pelo
caminho que levava: parecera-me até que se me ía fugindo a vida, como me
parecia fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras dos cavallos
sobre as pedras da calçada, me não chamasse á realidade, marcando de
continuo com a regularidade d’uma pendula, a extensão do espaço e o
correr do tempo.
De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos fitaram as
orelhas e pararam: sobresaltado, como que acordei, procurando descortinar
que causa fôra a que os assustára.
Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da estrada por um
parapeito de pouca altura, e limitado, da banda d’onde vinhamos, pela
casa do guarda; do lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e em
ruinas.
Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais accordes podia a morte
escolher. Tudo alli fallava do seu poder, tudo concorria para a sua
magestosa severidade.
Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda, que primeiro se offerecia
á vista, ennegrecida pelo tempo, com as portas e janellas carunchosas
e escavacadas, deixando devassar o interior desguarnecido e miseravel:
o cemiterio sem aninho nem cultura, sem monumentos, nem flôres, nem
pedras, nem ruas, nem disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas,
por entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas de longe a
longe, umas e outras roidas pelos vermes, enfraquecidas pelos parasitas,
mutiladas pela podridão: e ao longe a egreja, de tempos remotos, com as
cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes esburacadas e
musgosas, as grades ferrugentas e quebradas, as janellas sem vidros, as
ogivas interrompidas, as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão e a
adivinharem-se pelos buracos da fachada, frias, nuas, sós e tristes.
Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal aquella vista.
Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio, nem a casa
do guarda que tinham feito parar os cavallos, mas o proprio guarda,
que estendido sobre um poial, deante da porta se levantou para nos
cumprimentar.
Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem
áquelle homem: condizia com tudo que o cercava.
Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e
encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas
e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e
grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo
estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já
sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se
levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras.
Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a
desillusão da vida junto á morte.
O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até
os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu
o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido
tudo de vista.
Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio,
e qual a sua historia.
II
Manoel começára de pequeno n’um navio mercante, e em pouco chegára a
piloto pelo seu bom porte e bravura. Era um rapaz valente como as armas,
destemido como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo e que entendia
da manobra ás direitas.
Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo: e por mais d’uma vez
salvára o navio em casos apurados, pela sua presença de espirito.
Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não havia tristezas que com
elle entrassem, nem penas que se lhe pozessem diante.
Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no navio, e fóra d’elle
andava triste como o peixe fóra da agua; o pobre do rapaz, tambem, era
engeitado, e vivia cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse.
Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em amor e de arranjar
amarra de má morte, pois quebrou no primeiro temporal e que deixou
abrir-se e naufragar o barco de encontro aos baixios da vida.
Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma tarde, indo em penitencia
á egreja de Nossa Senhora da Penha a cumprir uma promessa que fizera em
hora afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a rezar tambem,
uma rapariga nova, bonita e toda coberta de luto.