Quando o amor verdadeiro nos domina, só ha em nós uma idéa, um pensamento

fixo, quasi uma monomania: a posse da que se ama, a existencia a dois,

participando ambos das mesmas dôres, das mesmas alegrias, dos mesmos

perigos, dos mesmos triumphos, das mesmas glorias. Reparte-se o coração

com aquella, a quem tanto se quer, e de tal maneira se alarga e augmenta

a porção que lhe entregâmos, que por fim nos apercebemos que já de todo

nos não pertence. E bem longe de nos pezar, enleva-nos, nos mais intimos

transportes do sentimento, essa doce expoliação do nosso ser.

Se nós sômos então amor e sómente amor!

O universo inteiro resume-se n’uma só creatura, e tão grande nos parece

esta, que o julgâmos ainda pequeno para a albergar. Todos os affectos

resumem-se n’um só, de todos os fios que nos prendem ao mundo, traçamos

uma cadeia só, no remate da qual nos penduramos com a energia, com a

tenacidade do affogado.

No outro extremo da cadeia acaba o nosso mundo. Se um pavoroso cataclismo

precipitasse o globo; se as espheras se entrechocassem e confundissem;

se a creação voltasse ao cahos; se as trévas engulissem a luz; se n’um

rodopiar incessante o universo, se contorcesse nos extremos paroxismos:

ficasse a mulher, que amavamos, comnosco, e nem nos aperceberiamos da

mudança.

A luz, a ordem, a harmonia, o movimento dos ceus, o revolver dos astros,

o tornear da terra, o não acabar do espaço, parecem-nos puerilidades

insignificantes, comparados com o infinito do nosso amor. Só ha uma

occasião, só ha uma phase da existencia, em que o homem se exalta, se

eleva, se engrandece, se eguala ao Creador. É quando ama.

Satanaz se fôra o demonio do amor e não o demonio do orgulho resistiria

ao Omnipotente.

Quando se assenhoreia de nós, o amor espalha por tudo quanto nos cerca,

fulgores que nem a centelha do raio póde offuscar, harmonias que nem os

córos celestiaes pódem fazer esquecer, encantos, que não os tem assim a

bemaventurança.

É que a mulher reside para nós em tudo: tanto na florinha, que mal se

descortina entre a relva dos prados, como na montanha arrojada, que

parece lacerar os seios do infinito: se queremos colher as flôres para

com ellas lhe juncarmos o pizo, queremos transformar-lhe a montanha em

pedestal, para sobre elle a levantarmos.

Da nuvem far-lhe-hiamos um véu, das estrellas um diadema, dos ceus sem

limites um azulado sendal.

E depois descontentes ainda, pedimos com religioso fervor ao auctor dos

mundos, que reforme a sua obra, que dilate mais a creação, que a exalte

mais; porque não nos chega, quanto existe para a mulher por quem vivemos.

E se é assim o homem, o que não será a mulher, toda sentimento, toda

amor, toda affecto e... senão toda egoismo, toda vaidade e toda

presumpção.

A mulher, que, quando ama devéras, arranca o homem, das trévas

descobrindo-lhe novos lumes de paixão, feições novas de sentir,

delicadezas desconhecidas, mimos e enlevos, que não descortina nunca a

nossa natural brutalidade. A mulher, que ou ama, como cantam os cysnes,

amando e morrendo desde logo pelo amor, ou nutre em si o amor, como a

arvore alimenta a parasita, vivendo só para a nutrir e definhando-se em

quanto ella medra á custa de sacrificios, de abnegação, e de soffrimentos

inapreciaveis; ou quando mesmo, presumida em excesso, e vaidosa sem

termos, se ama a si, amando o homem, que se lhe rendeu, e bem querendo

a esse rendimento, a essa homenagem, a esse culto, porque lhe desvanece

a vaidade, porque é uma confissão eloquente das suas perfeições, porque

finalmente é seu, e veio de si, para de novo voltar para si, como as

plantas amam a agua, que elevam da terra, entregam aos ares, para que

estes lh’a restituam depois em amorosas lagrimas.

Rosa amava e amava sincera, piedosa, apaixonadamente. Não havia confeição

alguma n’aquelle sentimento, que nascera do coração, proviera da alma, e

que se fortalecera aquecido pelos éstos da natureza. Amára creança ainda,

amára com força muito maior, quando a puberdade, lhe transformára o ser

transfundindo-lhe nas arterias faúlhas de desejo.

Quando a vida nova dos dezeseis annos lhe abalou a organisação infantil,

quando o coração se tornou turgido de sangue, rico de vida e farto de

estimulos creadores, quando aquella flôr do campo, chegou ao periodo,

em que as petalas se tingem de mais brilhantes côres para deslumbrarem

e cahirem breve, o amor de Estevam, que já a possuia transformou-se

tambem, e dominou a mulher, como dominára a creança.

Foi para elle, que, córando de pudor, elevou os seus pensamentos de mais

arrojado affecto, quando lhe esvoaçou deante da imaginação deslumbrada

essa nova perspectiva, que lhe apresentava o mundo, ao conhecer-se outra

pela inspiração divina, que n’essa quadra da vida, patenteia á mulher os

desconhecidos horisontes da procreação e da maternidade.

O amor de creança unira-se ao amor de Estevam; e d’este delicado enlace

nascera o amor—mulher. Não lhe assomava o desejo á mente, sem que esse

desejo se não transformasse para ella na imagem varonil e fascinante do

seu apaixonado. A sua nova existencia era de Estevam; era por Estevam:

e o homem, que tal consegue da mulher, póde chamar-lhe sua, sem que o

considerem presumido.

Entretanto as palavras de Feliciano operaram em Rosa uma revolução cruel.

Não se persuadira nunca, que o amor de filha podesse entrar em lucta com

o amor de mulher: e nem por sombras se preparára para semelhante combate.

Se o coração fallasse unicamente, se não se tratasse senão de resistir

á colera e maus tratamentos de seu pae, a escolha não seria duvidosa.

Matasse-a embora, que morreria contente, se até aos ultimos momentos

a deixassem amar Estevam; mas a maldição paterna troava-lhe ainda aos

ouvidos, e todas as fibras d’aquella organisação delicada extremeciam,

só ao lembrar-se de que elle lhe prohibira o nome de filha. A religião,

a crença, a educação, tudo lhe fallava em favor de seu pae; em favor de

Estevam só o muito, que o amava, mas não era o bastante. Amaldiçoada,

via os tormentos do inferno, o penar de sua alma, a espada de fogo do

archanjo exterminador, a condemnação eterna, e a memoria da sua infancia,

e os santos de sua devoção a sumirem-se-lhe para sempre.

Não enlouqueceu, porque não teve forças para tanto; não morreu, porque

a intensidade propria do soffrimento lhe deu forças para resistir,

phenomeno bem vulgar nas organisações nervosas; não se matou, porque lhe

affastavam tal pensamento de si, as idéas com que fôra creada: soffreu

muito, por fim, pelo embotamento do soffrer, pareceu resignar-se.

Triste resignação, em que amortalhára os mais puros affectos, o mais

risonho futuro, a mais affagada esperança!

A idéa de que se sacrificava á vontade de seu pae se não lhe deu

consolação, deu lhe forças; e o persuadir-se que cumpria com o seu dever

animou-a a persistir: se não ganhou o santo enthusiasmo, com que os

martyres se encaminhavam para o supplicio, alcançou ao menos aquella

frieza apathica, da mais entranhada abnegação.

Deixou de se pertencer. Fez-se cadaver, transformou-se em instrumento

da vontade de seu pae, instrumento inerte, impassivel, sem vida, sem

pensamento proprio. Não tivera animo para se matar; mas definhava-se

lentamente n’aquelle doloroso suicidio moral.

Alguns dias depois da scena que se passára entre o pae e a filha, Estevam

recolhia do trabalho cantando, e todo enlevado na sua Rosa, que julgava

não vêr, havia tanto tempo. A voz melodiosa corria nas voltas do caminho

e repetia-se mais affinada pelos echos de um monte proximo.

Ouvira-o Rosa, que abatida, e alheia ao mundo estava mais cahida que

sentada n’uma cadeira, com os olhos pregados n’uma imagem de Senhora das

Dores, que tinha perto da cama; palpitou-lhe de novo o coração no peito;

aquella voz abalou-a como o choque da pilha, e sem se lembrar do que

fazia, cedendo ao impulso, que tantas vezes a movera, correu à porta, ao

mesmo tempo em que Estevam se aproximava do limiar.

Ao vêl-o porém fugiram-lhe de todo as forças e caiu-lhe desmaiada nos

braços. Ao longe parecera-lhe notar na sombra o vulto ameaçador de seu

pae:

—Rosa da minha vida, que tens tu, que nunca te vi assim? exclamára

Estevam recebendo-a nos braços, torna a ti, sou eu, é o teu Estevam!

Perto d’ali corria a agua de um boeiro do muro; levantou-a em seus

braços, poisou-a n’um marco, proximo do jorro, e ás mãos cheias

lhe espargiu o rosto; depois ao vêl-a tornar-se á vida, curvou-se,

aproximou-se mais da amante como para lhe transfundir a vida, que lhe

sobrava, e tão perto lhe afflorou os labios, que dir-se-ia um rapido

beijo unira por instantes as duas apaixonadas boccas. O osculo chamou á

vida e á realidade a desgraçada Rosa, que desmaiara enlevada nos gostosos

sonhos de uma felicidade, que lhe era defeza.

—Ai, Estevam, estâmos perdidos, exclamou a misera acordando de todo,

quasi nos braços do amante.

—Perdidos, Rosa!... Que dizes!

—Meu pae... quer que eu case com o Januario.

—E tu!

—Eu, Estevam!... meu pae amaldiçoa-me.

Foi então, que elle ia desmaiando tambem. Cambaleou, encostou-se á parede

para não vergar, e foi-lhe preciso grande força de vontade para resistir.

Resistiu porém, e como se lhe arrancassem esta exclamação do fundo da

alma:

—Pensei, que me tinhas mais amor!...

—Deus te perdoe, Estevam, por duvidares de mim.

—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás

primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou

foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim?

Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do

que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer

a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem o mereço. E

entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus

sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo

que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto!

Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu,

quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!...

Casa, casa e sê feliz!

Depois, entre soluços, soltou um _adeus_, e deitou a correr como doido,

fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento.

Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o

rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por

vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma

febre cerebral agudissima.

Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario

acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se

a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára.

Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou

outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e

rugoso.

Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára

Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades

da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi

inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao

menos, do estado em que se achava.

Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte

Estevam, partia a bordo da—_Joaquina Primeira_—para a Costa d’Africa, e

um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava

d’estado.

III

Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que

ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria

pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o

nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma

reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento.

Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista

pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se

lhe pendurava do seio.

Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação

apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria

d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios.

Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao

marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa,

persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.

E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe

déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de

amor, era inalienavel, ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o

holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava

a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que

mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se

sacrificasse ao seu bem estar.

Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no

arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a

seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as

comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era

uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade

suprema.

Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára

acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por

aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca.

Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem

lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga

de semelhante atrevimento.

Tinha com que viver e vivia do que tinha.

O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura,

preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau

santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a

esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de

tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no

berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando

sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos.

E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da

casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço

e de fartura.

E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava

pelos cincoenta), o birrento do sogro, que sempre tinha que lhe tornar,

e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro.

Que mais quereria pois.

Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A

ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a

da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as

delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver.

Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras,

o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe.

Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos

braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a

tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor,

deslisavam-lhe pelas faces.

O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia

fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim

o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella

innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente

o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem

afugentar a outra que tinha presente sempre.

N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a

intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas

tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro

tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas

remotas profundezas.

Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida

n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia.

Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes

aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a

phantasia enriquece com suas extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do

desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na

sua almejada patria.

A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão,

que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as

trévas baixavam encobrindo os campos.

Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes,

que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda

estava no mesmo logar e na mesma posição.

De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os

braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem,

que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre

as arvores cuidou reconhecer Estevam.

Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era

Estevam.

—Estevam!

—Rosa!

—Tu aqui?!

—Se eu não podia já viver longe de ti! Se morria se te não visse?

—E agora?

—Agora? Vi-te. Disse-te uma vez ainda: amo-te, e posso morrer!

—Sabes, Estevam, que sou mulher de Januario, sabes, que tenho um filho de

meu marido?

—Para que m’o lembraste? Pensas que não m’o tinha dito já o coração?

—Para que voltaste, então, Estevam?

—Não t’o disse já? Para te vêr.

—Ai! quanto me custa que voltasses!

—Bem sei. Deveria ter morrido, não é assim? um homem como eu, que ninguem

estima, que não tem affeições n’este mundo, que vive, como o espargo no

monte, que embora procure lançar raizes na terra lh’as arrancam como o

escalracho, devia morrer. Não serve de nada, não deve viver, tens razão.

—E quem te diz que assim seja? Quem te diz que não ha quem te ame, quem

ainda se dedique por ti, quem te não esqueça nunca. Ah! Estevam, os

homens não comprehendem o coração da mulher!

—Não comprehendem, não. A mulher, santa creatura, na verdade! A mulher,

que mente ao marido, mente, ao amante, a mulher que se enlaça como a

hera no coração do homem, cravando-lhe cada vez mais fundos os espinhos,

roubando-lhe cada vez mais a vida. Não te comprehendi, Rosa, devia

agradecer-te, porque pertences a outro, porque hontem dormiste ao lado

d’outro, porque d’aqui a pouco vaes deitar-te no seu leito. Devia

agradecer-te não é assim? Dize, anda, bem vês, que te vou comprehendendo.

—Que mal te fiz para me tratares com esse desdem?

—Que mal me fizeste? Nenhum! Eu é que fui um louco, eu é que errei,

quando prendi a minha vida á tua, quando te entreguei a minha sorte,

quando em ti puz a minha esperança. Eu é que fiz mal, quando me deitei

a amar esse amor, que tantas vezes me juraste, quando depositei fé nas

tuas palavras, que pareciam tão sinceras, quando pensei que havias de

ser minha, porque assim m’o juráras mil vezes, eu é que mereço castigo,

porque confiei na sinceridade do teu coração, porque loucamente credulo

não me persuadi nunca de que fingisses tão bem, que houvesse em ti

dissimulação tão grande.

—Se soubesses quanto tenho padecido, não me fallavas de certo assim!

—E eu! Julgas porventura, que te sumiste um momento sequer da minha

ideia? Pensas que te não vi sempre diante de mim, nas tribulações da

vida, nas ondas do mar, nos sertões d’Africa, nas extensões do céo...

Sempre, sempre! Pensas que não me lembrava sempre, que eras d’outro, tu

que só poderias ser minha! Pensas, que não me deram por doido; que me

não arrojei ao mar, por mais d’uma vez, para lá ficar para sempre?... Se

não fosse terem-me salvo, já hoje te não inquietava!... Pensas...

—Não continues! Estamos a aggravar uma ferida que não póde sarar mais!

Antes não nos vissemos!

—E assim me despedes! Bem m’o dizia o coração! Falsa!...

Rosa levantou a cabeça cheia de indignação; até esse momento, parecia que

escutava a sua sentença de morte: quando porém Estevam assim a accusou,

quando lhe pareceu, que o seu enorme sacrificio não era comprehendido,

que o seu amor era tão mal julgado, a voz da consciencia, que a defendia

dos aggravos de seu amante, bradou-lhe lá dentro.

—Ergue te!...

Elevou os olhos para o céo, como para se inspirar n’uma resolução

suprema, affastou da fronte os cabellos, que a offuscavam, levantou-se

com um movimento de nobre magestade, travou da mão de Estevam, que a

olhava surpreso, e exclamando apenas:—Vem!—levou-o comsigo para dentro de

casa.

Com o sorriso a adejar-lhe sobre a physionomia, estava o filhinho de

Januario deitado no berço dormindo, os braços torneados descançavam fóra

da roupa abertos e como estendendo-se para a mãe. No fundo da alcova

a um canto, que a luz d’uma lamparina illuminava a custo, adivinhava

se o esposo que dormia: o ressonar compassado e sonoro, n’outro quarto

proximo, deixava perceber, que Feliciano depois de ter largamente

discutido com seu genro a conveniencia de uma nova semeadura, descançára

por fim cançado de rabujar. De resto tudo estava em socego.

Estevam, sem comprehender para que, deixou-se arrastar até junto do

berço: ahi, Rosa correndo a vista pela casa fitou por ultimo o olhar no

seu companheiro.

—Ámanhã esta creança acordará, e aquelles dois velhos levantar-se-hão

sorrindo para mim como sempre, cheios de confiança, e de... amisade. Como

até hoje julgar-me-hão filha honrada, mãe honesta... esposa fiel!...

Sacrifico-te, aqui, junto d’este berço... e d’aquelle leito, todo o meu

passado, todo o meu futuro, tudo!... Aqui me tens, Estevam, vê agora se

te amo. Sou tua!...

E resignada, nobre, altiva, caminhou para elle, que recuára, como os

martyres deveriam caminhar para a fogueira... serena, tranquilla,

orgulhosa pelo seu sacrificio, illuminada pela divina aureola do amor.

Estevam parecia fulminado.

Foi mysterio o que se passou na sua alma; entretanto comprehendeu tudo, e

soube elevar-se até ás sublimidades d’aquella mulher.

Avaliou qual era a grandeza d’um semelhante amor, e sentiu-se digno

d’elle. Leu de relance todas as paginas dolorosas d’aquella epopêa

intima, e elevou no santuario de seu coração, purificado de quaesquer

resquicios da natureza terrestre e material, um cantico divino de

admiração, caiu de joelhos aos pés de Rosa e desatou a soluçar.

As lagrimas queimavam-lhe as faces; mas refrigeravam-lhe a alma: quando

se levantou era outro.

Curvou se sobre o berço infantil, depositou um beijo no rosto do

innocente, dirigiu-se para Rosa, que ainda o esperava immovel, mal

lhe approximou da testa os beiços e desviando os olhos do leito, onde

Januario dormia, saiu dizendo á sua antiga amante:

—Adeus irmã!

Foi tudo obra d’um momento.

Rosa caiu sobre o berço de seu filho cobrindo-o de beijos; Estevam já ía

longe.

A creança soltára um vagido lastimoso, acordára ao sentir-se innundar

pelas lagrimas de sua mãe, e estendendo para ella os braços, sorrira.

Januario não déra signal de si.

IV

As feridas moraes não se semelham ás physicas. O coração rasga se com a

dôr, soffre-se por muito; mas o tempo cicatrisa tudo.

O correr dos annos enregela a alma, e acalma os ardores da paixão.

Estevam ainda foi feliz.

Rosa, essa, ninguem poude saber se se esquecera d’aquella noite. O amor

de seu filho consumiu-lhe a vida toda.

Nunca se lhe tingiram as faces de côr, nem o mais leve sorriso lhe

entreabriu os labios: poucos a ouviram fallar, raras vezes proferia

alguma palavra.

Entretanto foi sempre esposa disvellada e filha extremosa; pouco tempo

sobreviveu a seu marido.

Aquella hora fôra a ultima em que conhecera que tinha coração; foi tambem

a ultima em que se avistou com Estevam.

Feliciano, na manhã seguinte a uma noite, em que mais se exaltára

discutindo com seu genro sobre o melhor modo de alqueivar uma terra, foi

encontrado morto na cama.

Succumbira a uma congestão cerebral.

A terra sobre que versára a controversia era propriamente a courella, por

amor da qual contractára o casamento da filha.

VII

A gallinha da minha visinha...

Já era o sol posto havia um quarto de hora. Tocára a largar o trabalho,

e cada qual recolhera para a sua casa: uns sósinhos, pelas azinhagas

fóra, se mais tresmalhados moravam; outros, em rancho, se poisavam juntos

n’alguma terra proxima.

André Pimenta, um dos trabalhadores mais fallados dos sitios onde este

caso aconteceu, deitára a enchada ao hombro, e enfiára-lhe o cesto do

jantar, de maus modos e sem dizer um _Deus os ajude_ aos companheiros,

coisa para estranhar n’um homem maneiro e pratico como elle era; entestou

para as bandas da casa, sem dar palavra e com cara de curtir sezões.

Os contos do tio Joaquim · 第 5 / 14 段