Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de

muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi

ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender,

que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco.

Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião

começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem.

Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.

Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o

mesmo.

Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o

mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava

no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente

da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os

melhores feitiços.

E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona

mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se

desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua

parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar.

Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau

respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear

e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a

encorpar que nem uma maçã bemposta.

Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto

de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é

de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um

rapaz perfeito a mais não poder ser.

Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem

barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que

em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio

ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro

ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de

passar creanças.

Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já

andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar

o Antonio nas visinhanças da quinta.

Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no

barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito

do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se

fazia com terra de casar com a menina Maria.

O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada;

atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um

raio a casa do Antonio.

Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão,

saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de

tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio

do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse

osso inteiro.

Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio,

que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama,

farto de lidar e sem poder comsigo.

Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e

essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa

viva, e até mettia respeito olhar para elle.

É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a bater á porta,

atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro ás primeiras rasões.

Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si, e saltar na visita,

quando reconheceu o pae de Maria e ficou varado; este ia para fallar,

quando deu com os olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe dos

olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio, apontando-lhe para o

painel:

—De quem é aquelle retrato?

—De meu pae, respondeu o rapaz.

—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de se atirar á paulada ao

namorado da filha, atirou-se a abraçal-o que parecia querer metter-lhe as

costellas dentro.

O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha o que foi, continuou

o tio Joaquim concluindo a sua narração, o sr. José Alves era o tal

camarada de Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda

era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á hora da morte. Tinha

continuado a servir depois que passára pela terra a cumprir o testamento

do moribundo: e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro, do

filho, e da promessa.

Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe o que elle tinha

e augmental-o com o trabalho e a boa vontade; o casamento que já era de

gosto do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não, fez-se

d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com os anjos até que o velho

morreu, deixando a filha e o genro de posse da fortuna que o senhor sabe.

No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me contára esta historia

fui aos _Fusis_ procurar o sr. Antonio Tavares e receber o dinheiro dos

trigos.

Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem cultivada, nem via em

fazenda alguma, n’aquelles sitios, tanta ordem, nem tão bom gosto.

Os systemas mais modernos, os instrumentos mais appropriados, as

descobertas de maior importancia pratica, tudo ali estava aproveitado,

com uma tal arte, que bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a

theoria unida á experiencia com muito criterio e bom resultado. A _dos

Fusis_ poderia servir de _quinta modelo_, se os fazendeiros da terra,

afferrados á rutina, cuidassem de modernismos ou tratassem de innovações.

Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar

para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera

ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que

se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto.

A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se

denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes

revestidas d’azulejo até meio, e o tecto _em osso_, com as grossas vigas

de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita

luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia

era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se

boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar

de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais

moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo

qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.

Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia

respeito e inspirava felicidade.

Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo

de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da

compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos

um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque

estimaria vêr-me em sua casa.

—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a

sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o.

—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o

que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que

não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago

aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me

esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a

_Honrar pae e mãe_.

VI

O fructo prohibido

I

Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!

—Ai! para sempre, meu Estevam?

—Que queres que eu faça, dize?

—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo!

—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu

ficasse!...

—O que fazias?

—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos.

—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu

Estevam, mas não te esqueças de mim.

—E tu?

—Eu! Sempre.

—Adeus!

—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...

—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me

faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz.

—Adeus, Estevam, volta breve.

—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é

que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é

a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste,

quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as

flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno

derrubam!...

—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!

—Para que casas?

—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam.

—E o nosso amor!

—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.

—Antes tu morresses...

—Oh! Quem dera!

—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda?

—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe

este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como

elle padece, não duvidarias de mim.

—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres

que estime saber, que pertences a outro, não é verdade?

—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças!

—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua,

e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te

pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...

—Tua mãe!

—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não tem no mundo mais do

que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se

morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...

—A unica! Talvez...

—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por

estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo

favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues

as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão

bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e

muito.

—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.

—Obrigado, Rosa. Adeus!

—Não me queiras mal.

—Não poderia, ainda que quizesse.

—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te

esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se

para este lado.

—Adeus!

Passava-se este dialogo no pateo da quinta de _Valle do Freixo_ no dia de

S. João, ao amanhecer.

Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as

raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.

Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a

rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes

não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.

Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.

O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da

fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer

varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára

dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem

quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade

e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a

divertirem se.

Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão

buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava

o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma

festa, mas a um enterro.

E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor:

n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa

despedida seria eterna.

Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado

a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o

que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle

desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.

Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr,

juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as

noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas

chilrando proximas na mesma arvore.

E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar

infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em

quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta

viveza e simplicidade.

Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia

o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo,

repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas,

de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a

denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas

de arrependimento, se por ventura os interrogavam.

E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza

que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo

entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com

ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de

professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de

luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos,

humidos de alegria e languidos de sentimento.

Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando

aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta

ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para

graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi

que ás escondidas.

Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores

perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente

formosa, que confortava a alma admiral-a.

Não parecia do campo, nem mesmo da terra.

Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por

milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao

romper do sol por entre as nevoas da aurora.

Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se

no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a

denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos

que a viam.

Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa.

Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave

pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação

franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados

e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse

ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois

diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe

no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente

desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao

olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho,

quando raramente o illuminava.

Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como

que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não

tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade

cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles

mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas

primeiras eras do mundo.

Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.

Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e

expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida

tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado

nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de

verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.

Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae

de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o

sentimento.

Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não

a physionomia.

Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não

comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na

arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e

paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que

boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.

Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa

como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e

da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava

o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar

estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha

muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por

mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar

a sua propriedade, á custa de tão pouco.

Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no

espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam

perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura

palpitasse em peito de mulher.

—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz...

—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.

—E se a rapariga me não quizer?

—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais

lhe punha a vista em cima!

—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!

—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o

que lhe convém?

—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...

—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez.

—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha

causa!

—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente,

quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo.

Foste feliz...

—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma.

—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos

trapos, e andam satisfeitas.

—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?

—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta.

—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella...

—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até

ámanhã.

Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que

apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa,

ouvi ao tio Joaquim.

Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando

d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano

recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior

signal de contentamento.

Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella

de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar

por uma terra que dava de comer.

E o olival das _queimadas_, e a quinta da _cortiça_, e o casal do

_petisco_, e as terras do _Penetra_, e a horta da _allamôa_, e tantos

outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario!

Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.

Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e

cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela

cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre

tambem.

Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão

prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado.

De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se

para ella, lhe perguntou com certos modos em que transpareciam alegria e

finura mal contidas:

—Que te parece o compadre Januario?

—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!...

—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço

d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto.

—Então meu pae?...

—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr?

—Eu não senhor.

—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando

as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses

alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito

enganada comigo, percebes?...

E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter.

Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas,

encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.

Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando,

foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar

convulsa, como quem se despedia d’este mundo.

No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano,

porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as

conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.

—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?

Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel

dessimular.

—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...

A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de

imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos

estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de

dizer que não queria casar.

—Grandissima atrevida!... Eu te ensinarei a ter querer! Não queres

casar, hein! E pensas que engulo essa!... Vossês lá que bebem ares por

um marido! Mas tu o que não sabes é com quem estás mettida: eu não nasci

hontem e não has de ser tu, minha seresma, que me faças o ninho atraz da

orelha. Não queres casar, hein!... Ora mette-me o dedo na bocca a vêr

se t’o mordo! É volta de festa, é namorico no caso, mas apanhe te eu,

que verás por uma vez os meninos orphãos a cavallo. Não queres casar!

Mas quero eu que te cases e é o que basta. O visinho Januario pediu-te

hontem e eu resolvi que havias de ser sua mulher. E é dar graças a

Deus, pela pechincha! Onde pódes ir que mais valhas? Andar para deante

e cara alegre, quero que estejas contente, que mostres ao visinho, que

tens gosto no casamento, e que lhe agradeces os seus affectos, senão...

ponho-te fóra de casa depois de te moer esses ossos, e não quero mais que

me chames teu pae.

Ao passo que ia ouvindo seu pae, Rosa ia successivamente esmorecendo.

Á vermelhidão, que lhe tingira o rosto ao receber a brutal bofetada,

succedera-se uma pallidez citrina, que augmentára até ficar de puro

alabastro.

Tinham lhe rebentado as lagrimas dos olhos no primeiro momento; mas não

correram. Uma constricção terrivel lhe afogou a garganta, pensou que

ia suffocar-se: pulava-lhe o coração no peito, batiam-lhe as arterias

na cabeça, semilhando o marulho das ondas, em torno do que mergulha

rapidamente, um cinto de ferro lhe apertava a fronte, zunidos estranhos

lhe baqueavam no cerebro.

Cuidou que ia morrer e do intimo d’alma elevou ao Creador, uma prece de

jubilo, em acção de graças.

Era um desmaio apenas, um d’estes abalos, que passam pelas organisações

nimiamente nervosas, como o furacão pelos arbustos, extremamente debeis.

Acurvam-os até ao chão, estorcem-os na passagem; mas não os partem.

Rosa quiz segurar-se á mesa, mas estonteou-se-lhe a vista, andou-lhe a

cabeça á roda, desfalleceram-lhe os braços, correu lhe gelo pelas veias e

deu redondamente no meio do chão. Parecia morta.

Feliciano largou uma d’estas maldições capazes de espavorir toda a

milicia celeste e correu á filha; estremeceu-lhe o remorso todas as

fibras do coração de pae. Não havia maldade nas intenções do velho;

entendia a seu modo a felicidade da filha, que estimava devéras: não

se persuadiu que o golpe tivesse tão fundo alcance e trepidou ante as

consequencias.

Mas ao vêl-a voltar a si, recuperou a confiança e de novo tornou ao seu

plano favorito. Intentou com aquelle frio calculo de quem já não cuida

em amores, que a voz do coração era uma impertinente a que se não devia

dar ouvidos em questões d’esta ordem, e que só o interesse devia tomar a

palavra e fallar de cadeira: amaciou entretanto a voz, voltou-se menos

rispido para a rapariga, e disse-lhe quasi enternecido:

—É para teu bem, depois m’o agradecerás...

E saiu, pensando no futuro de Rosa e na conveniencia de arredondar as

suas terras com a cubiçada courella de Januario.

II

Pensem os que têem amado do coração, no que padecera a pobre da rapariga,

ouvindo seu pae. Desappareceu de repente de ante si aquelle encantado

futuro, em que se enlevára. N’um momento perdeu a esperança, a alegria, a

felicidade.

Os contos do tio Joaquim · 第 4 / 14 段