Era um domingo á noite, e o tio Fernandes recolhia-se de uma feira

de gado onde fôra comprar uma junta de bois, de que precisava para a

lavoira. Vinha deitando contas á sua vida, e tão entretido que nem lhe

tinha custado o caminho.

Ao voltar de uma azinhaga avistou de longe dois vultos, que não parecia

darem pela sua vinda. Reconheceu-os logo, e percebeu tambem qual o fim

com que seu filho tantas vezes lhe tinha desculpado o João da Tenda, e

porque tão desgostoso andava por assentar praça.

Fez os seus entes de razão, e ajustou com os seus botões, que: désse por

onde désse, não se havia de fazer similhante casamento.

N’essa noite houve questão até fóra de horas entre Domingos e seu pae. O

rapaz confessou tudo e o velho negou-se a pagar-lhe o homem.

—Ou deixar o namoro ou assentar praça, disse-lhe o tio Fernandes e

Domingos preferiu a segunda condição.

Mezes depois chegava á terra a noticia da morte de Domingos. Tinha-se

batido como um homem, tinha sido um dos primeiros a atacar, e pagára o

atrevimento com a vida.

Figurem-se agora qual seria a pena de Joaquina ao saber de similhante

noticia. A pobre da rapariga, depois que o seu apaixonado partira, não

tivera nunca mais uma hora de consolação. Levava os dias a chorar, que

era uma dôr de alma, e ia-se infesando a olhos vistos.

João, o culpado de tudo, pelo seu amaldiçoado costume, sem recursos

porque os freguezes lhe tinham fugido, e porque o mal de sua filha lhe

levava o resto, estava que parecia outro: e n’aquella casa, onde todos

viviam contentes, não havia já nem signaes de alegria.

A apaixonada moça foi esmorecendo cada vez mais, os medicos não lhe

achavam remedio para o mal, e qualquer que lhe receitassem não o queria

ella tomar.

Acabou a sua cruz, e, em poucos mezes, foi reunir-se a Domingos, n’essa

outra terra onde os amantes vivem unicos eternamente, e onde os justos

gosam da felicidade sem fim.

Quando entrarem no cemiterio reparem para a esquerda, que hão de vêr

debaixo do terceiro cypreste, a contar da porta, uma cova com duas cruzes

de madeira e uma corôa de perpetuas. Ajoelhem sobre a terra benta,

rapazes, e rezem ao Senhor pelo pae e pela filha, que ahi descançam

juntos como o tinham estado em vida. Lembrem-se do que lhes succedeu,

e reparem, que ás vezes uma mentira póde deitar a terra uma reputação

por mais antiga que seja. Rapazes, quando se apanha um homem que não

falle verdade, e quando se perde o credito, perde-se em pouco dinheiro e

honras. Felizes ainda dos que não pagam com a vida como o pobre João da

Tenda.

Quando os trabalhadores saíram, chegou-se Antonio ao narrador.

—Percebi tudo, tio Joaquim, prometto-lhe não mentir nunca mais nem fazer

juras por coisas poucas.

—Deus te oiça, tornou-lhe o velho, que és bom rapaz; e se perderes esse

mau costume, poucos haverá que te levem a palma.

IV

Os domingos de fóra da terra

Era n’um domingo de novembro. A agua tinha caido a cantaros todo o santo

dia, e a chuva fôra tanta, que diziam pelos sitios: já os cães a bebem em

pé.

Grande parte dos trabalhadores da quinta, em que eu vivia, tinha

saido depois do jantar, embrulhados uns em mantas, outros em gabões e

gabinardos em direcção á quinta do tio Joaquim de Mattos, acreditado pelo

bom vinho que vendia, e pelos bons piteos que lá, de quando em quando,

arranjava a sr.ª Josepha, sua respeitavel sobrinha, desenxovalhada moça e

uma das mulheres com menos papas na lingua d’aquelles arredores.

De tempos a tempos apparecia pela adega do sr. Mattos, Deus lhe falle

n’alma, pois era um honrado homem, um ensebado baralho, que cortava a

monotonia de um sempiterno jogo de bola, e entretinha quando o tempo

estava de peior catadura, os afreguezados frequentadores. Outras vezes

tambem um ou outro especulador lisboeta arribava áquellas paragens

com esperanças de armar trapaças e jogatinas, e esse então premunia-se

antecipadamente com uns dados, de lizura problematica, ou com algumas

cartas de egualdade controversa, que manejadas habilmente lhe serviam de

traiçoeira isca para os agourentados vintens dos pobres maltezes.

Mas, verdade verdade, era uma excepção da regra. O dono da casa obstava

quanto podia a estes desvios: e já experimentado nas consequencias,

tratava de pôr cobro a semelhantes armadilhas.

O domingo, porém, a que nos referimos era um dos taes dias aziagos. Os

lisboetas, as cartas e os dados tinham trabalhado muito, acompanhados,

já se vê, de um numero infinito de quartilhos de vinho, que n’uma roda

viva passavam do balcão para a mesa do jogo, e d’esta para o poder da tia

Josepha, que já não tinha mãos a medir.

Em medidas effectivamente passara ella o tempo todo; mas nem todas

eguaes, porque, por amor do proximo já se entende, quando os via mais

carregados alliviava-lhes a mão, e esvasiava-lhes os copos; até que por

fim de contas, quasi que, em vista da exiguidade da dóse, mal se poderia

reconhecer quanto tinham pedido.

Mas decretos da Providencia, que sempre são de immenso alcance,

disfarçados mesmo nas tibornias da tia Josepha! Se não se compadecesse

tanto dos miseros bebedores, em que estado não ficariam elles, que mesmo

assim, quasi sempre, ao sair, não sabiam quem era o cura da sua freguezia!

Os nossos amigos trabalhadores, que não queriam passar por homens de

ficar atraz em coisas d’aquellas, entraram na quinta, á volta da adega

do tio Mattos, que era uma lastima vêl-os. Uns a cair, outros cheios de

escalavradellas, e todos elles sem real da feria da semana.

Começaram beberricando para não fazer desfeita aos lá da cidade que

os tinham convidado; pouco a pouco foram chegando-se para o jogo, ao

principio sómente para vêr, depois para jogar. Emfim quando não cabiam em

si de contentes, porque iam de cima e tinham alguns vintens diante de si,

viram n’um relance de fortuna varrer-se-lhes tudo da frente, á maneira de

comoro de vallado feito de terra solta, e que uma cheia leva no enxurro.

D’aqui os ralhos e as desordens; apoz as descomposturas, as vias de

facto, e quem sabe, se não lhe acudissem, onde a coisa iria parar.

Fazer-lhes prégações n’aquellas alturas era o mesmo que chover no

molhado. O tio Joaquim, que não era de hoje nem de hontem, conheceu

logo que perdia o seu tempo; deu-lhes de mão n’aquella noite, e no dia

seguinte ás horas do costume contou-lhes pouco mais ou menos o que se

segue:

Poucas coisas ha que tanto custem, para nós, que toda a semana andâmos

agarrados ao cabo da enxada ou rabiça do arado, como é entreter os

domingos e dias santos, que o Senhor nos manda para descanço do corpo e

recobro de forças.

Depois da missa fica um por ahi além de horas, que é preciso matar sem

quebra do temor de Deus, nem offensa do proximo; mas como nem todos sabem

o que hão de fazer, acontece quasi sempre, que as perdem, e as perdem

muito para mal.

As velhas onzeneiras, que almejam pelos domingos para bisbilhotarem as

vidas alheias e darem cresta ás colmêas dos outros, dizem que se deve

descançar do trabalho, e passam-n’os na ociosidade, que de todos os

vicios é o peior; os mal comportados destinam-n’os para as tabernas, do

que conseguem, além de ficar moidos e ralados, sem poder fazer obra que

se veja nos dias mais proximos, fazerem-se brutos de todo ao cabo de

pouco tempo.

E dizem que descançam! Qual descanço nem meio descanço! Como se o homem

não fosse como a terra, e como esta precisasse estar em pouzio para

melhor produzir!

Muda-se a sementeira como se deve variar o trabalho, e o melhor descanço

não é aquelle que consiste em não fazer nada; ou então, o que é peior

ainda, em armar disturbios e levantar rixas.

Tres rapazes conheci eu, não ha muitos annos, cada um dos quaes tinha

o seu modo particular de entreter os dias de festa, cada um dos quaes

tambem escolheu fructos correspondentes ao grão que lançára á terra.

Variavam tanto nos costumes e systemas, como se apartavam nas feições, e

como se vieram a differençar tambem no destino que levaram.

Tinham nascido na mesma terra, e, bem moços ainda, tinham vindo procurar

trabalho á mesma fazenda; porque, acostumados a viverem juntos desde

pequenos, não se podiam separar nem á mão de Deus Padre.

Roberto, o mais velho de todos, era feio de cara e de peior catadura.

Zangava-se por dez réis de coisa nenhuma, e quando estava zangado

dava por paus e por pedras. Tinha tanto de robusto, como de mau, e

só respeitava, de toda a gente, os seus dois companheiros, Pedro e

Anastacio. O primeiro d’estes fazia tanta differença de Roberto, como o

dia da noite. Franzino e delgado, parecia que o menor sopro o deitava a

terra, e lembrava mais um alfinete de toucar do que um trabalhador de

enxada. Comedido e de bons termos para todos, em pouco tempo ficou sendo

o ai Jesus da fazenda, onde morriam por elle.

Anastacio, o ultimo em que lhes fallei, era, por assim dizer, como uma

ponte entre os dois. Fazia lembrar o outono entre o verão e o inverno. Se

era desembaraçado e lesto como Roberto, era bom como Pedro, estimava um

e outro devéras: mas se não podia levar a bem os arremessos e maus modos

de Roberto, não gostava tambem muito de tanto de não presta, de que

estava cheio o outro seu companheiro. Não lh’o deitava á cara para não o

envergonhar; mas muitas vezes lh’o ouvi dizer:

—Não se ha de fazer nunca d’ali coisa que tenha geito, parece um

Sant’Antoninho onde te porei; nasceu mais para fiar n’uma roca do que

para puxar ao trabalho com substancia. Não é culpa sua, isso é verdade,

mas por mais que me digam, aquillo foi erro da natureza.

Em pouco tempo teve cada um uma occupação adequada ás suas posses. Pedro,

que mais não podia, foi encarregado de guardar um rebanho de ovelhas

e cabras, que tinha mais de duzentas cabeças; Roberto tomou conta da

abegoaria e das cocheiras; Anastacio ficou de rancho na malta, entre os

trabalhadores de enxada.

Como é bem de vêr, o peior dos tres começou a fazer das suas: trabalhava

de má vontade, embebedava-se, e tratava do gado á moda de mil demonios.

O mais fraquito, bem ao contrario, começou a fazer as vontades aos

patrões e a cair lhes em graça.

Tanto fez, tanto fez, que o filho da casa pegou a ensinar-lhe a lêr,

coisa porque elle morria havia muito tempo, e em que entretinha os

domingos, passando os dias de semana, em quanto o gado pastava, a estudar

as lições e a puxar por si; o Anastacio que não podia aturar a lettra de

imprensa, nem, segundo dizia, tinha cabeça para aprender, começou a fazer

economias para, logo que podesse, tratar de casar com uma rapariga da sua

terra, com quem estava justo desde pequeno.

Emquanto uns iam para as tabernas e Pedro dava lição, elle, que não

queria gastar o dinheiro em extravagancias, nem atormentar a cabeça com

aquellas tontices dos livros, procurou vêr se aprendia algum officio

ou arte, em que se entretivesse, e em que passasse o tempo com toda a

economia.

—Porque não estudas tu aos domingos tambem? perguntava eu muitas vezes a

Roberto.

—Ora, porque não nasci para sachristão, nem para besta de carga. Enfados

bastam os da obrigação, que já não são poucos, quanto mais il-os eu

buscar agora por minhas mãos. Sempre ouvi dizer que era preceito guardar

os domingos e festas de guarda, e que trabalhar n’estes dias era peccado.

Estavam as coisas n’estas alturas, quando tive de ir á minha terra,

recolher uma herançasita que houvera, e demorar-me por lá algum tempo

para pôr as minhas coisas a direito; quando voltei nenhum d’elles já

estava na mesma quinta.

Seis annos depois em dia de festa de Corpo de Deus, fui a Lisboa vêr a

procissão e visitar de caminho uns parentes, que ali tinha,—já lá estão

na terra da verdade, pobre gente!—Deus os tenha á sua vista.

Passava pela rua dos Bacalhoeiros quando ouvi que de uma tenda me

chamavam pelo meu nome. Vejam qual não seria a minha admiração, quando

dei com duas caras conhecidas, que me faziam muita festa, e que eram nem

mais nem menos do que os nossos amigos Pedro e Anastacio.

Nem pareciam os mesmos, nos termos e nos trajes lembravam pessoas da

cidade, mas no coração eram sempre os pobres e bons trabalhadores.

—Ora o tio Joaquim por estes sitios, me disseram, e sem nos conhecer!

—É verdade, rapazes, quem era capaz de pensar, que havia agora de vir

topar com vocês, assim tão enfeitados e garridos. Com mil demonios, se me

não chamassem, não era eu que os descobria.

—Mas nós não esquecemos os amigos velhos, e logo que o vimos, não

quizemos passar sem o abraçar.

—Bem apertado e do coração. Mas pelo que vejo a fortuna fez das suas, e

lembrou-se de vossês.

—É como diz; alguma felicidade tivemos. Mas não ha de ficar á porta da

rua, entra e vem conversar um poucochinho comnosco, não é assim?

Fiz-lhes a vontade, e pelo que me contaram vim a saber o que lhes tinha

acontecido, e que foi o seguinte:

Cada um d’elles tinha seguido o seu modo de vida, conforme se ageitava

melhor. Pedro estudando nos livros, Anastacio trabalhando nas horas de

descanso, para juntar algum dinheiro.

Metteu-se-lhe na cabeça aprender um officio e a troco de alguns serviços

feitos ao mestre Antunes, tanoeiro, alcançou que lhe ensinasse o seu modo

de vida, em que, com a vontade que tinha, chegou a ser um bom official.

Já avesava um par de vintens, quando se descobriram essas terras lá da

California, onde segundo diziam os papeis, havia mais oiro em pó, do que

milho em celleiro rico nos annos de fartura.

Os homens de ganhar começaram a mudar de rumo e a procurar fortuna por

essas terras. Desinquietaram-n’o; mas elle, despresando o ditado: «muda

de terra, mudarás de fortuna» como se ia dando bem por onde estava,

resolveu-se a ficar.

Ora, não sei se sabem, que apesar de haver dinheiro a rôdo pela tal

California, não havia de comer, nem de beber, e qualquer coisa, que por

lá se precisava, era comprada a peso de oiro. Fazia frio de cair o nariz,

a aguardente e o figo, era—de mais a mim, mais a mim—e os tanoeiros por

conseguinte não tinham occasião de dobrar canella.

Anastacio, que já sabia do officio ás direitas, deitou-se á obra, empatou

em madeira os pintos que juntára, e conseguiu montar uma tanoaria em

grande, que em pouco tempo se afreguezou pelos bons modos do dono e bom

preço das obras.

Quando o encontrei em Lisboa, acabava de casar com a promettida

desposada, que trouxera da terra. A sua loja, que era uma das melhores

da cidade, gosava de excellentes creditos: e o negocio corria o melhor

possivel.

Pedro tambem tinha caminhado e muito; mas por estrada diversa. Pouco a

pouco fôra lendo cada vez melhor, e escrevendo de fórma que levava as

lampas ao mestre-escola do logar; parecia um treslado a lettra do rapaz.

O dono da quinta, a quem elle caira em graça pelos seus termos comedidos

e vontade de saber, tirou-o d’aquelle labutar e mandou-o para uma

mercearia sua em Lisboa, a servir de caixeiro. Era o que elle queria e

em que melhor calhava, tanto que em pouco tempo se fez um merceeiro de

enche-mão.

O patrão trazia-o nas palminhas, e dizia á bocca cheia: que não tivera

nunca outro, que lhe chegasse tanto ás medidas.

Nem só o sr. José Esteves era d’esta opinião: a senhora sua filha, que

se derretia para o rapasito, achava ao pae carradas de razão e fazia-se

com terra de lhe chamar seu marido. Atrever-se a pedil-a, não era o Pedro

capaz d’isso; mas o pae da rapariga, que deu na ferida, e que não era

de soberbas, antes pelo contrario muito dado e maneiro, reconheceu que

lhe convinha para genro um bom rapaz socegado e amigo de dar ordem á sua

vida, e em poucos tempos tratou de os pôr a caminho do setimo sacramento.

Tambem vivia de grande quando lhe fallei, e a loja onde estavamos era do

sogro; ou d’elle, que vinha a dar na mesma coisa.

Tinham acabado de me contar as suas historias, e ia-lhes perguntar, que

norte tinha tomado Roberto, quando ao chegarmos á porta para vêr a gente

que passava para a procissão, desembocaram de uma d’aquellas ruas uns

poucos de grilhetas, que de barril ás costas, desciam lá das bandas do

Castello e iam para o chafariz de Dentro. Não tive que perguntar, porque

reconheci-o logo entre elles quando passaram diante da porta.

Vim depois a saber por que fôra ali parar. O vinho, e as patuscadas dos

domingos, tinham sido a causa d’aquella desgraça.

Não deitava Nosso Senhor um dia santo a esta terra, que elle não fosse

para a taberna, e que não sahisse de lá a não ser em miseravel estado. Em

breve pozeram-no fóra do trabalho, porque não dava conta de si, nem se

podia olhar para elle, de desmaselado que andava. Vendo-se sem trabalho,

e sem ninguem o querer, ajuntou-se a uns poucos de vadios da terra, que

passavam pelas peores firmas do logar.

Ao principio eram comesainas e bebedices: depois como não havia dinheiro,

nem gente que lhes fiasse, nem vontade de trabalhar, começaram a pregar

calotes, a commetter roubos, e quem sabe se mortes tambem.

Ao menos assim por lá se rosnava, e bem se diz: que n’estas coisas: «voz

do povo, é voz de Deus.»

Um dia a justiça, que andava com os olhos n’elles, deitou-lhes a unha. Um

dos que resistiu foi Roberto, e ao fugir á prisão, feriu de morte um dos

cabos, que o queriam prender.

Foi condemnado ás galés por toda a vida: e a cumprir esta sentença o vi

eu em Lisboa, no tal dia de festa do Corpo de Deus.

Agora vocês lá rapazes, que perceberam aonde eu ia dar na minha: pensem

na historia que lhes contei, e vejam de que modo deverão passar melhor os

domingos e dias santos.

Os bons dos maltezes não deram resposta ao narrador n’essa occasião; os

resultados futuros deixaram vêr, porém, que as palavras do conto do tio

Joaquim, não tinham sido deitadas ao vento.

V

Os retratos de familia[1]

Faz para as vindimas dez annos, que eu ouvi ao tio Joaquim esta historia.

Havia pouco que sahira da quinta, onde eu estava, o sr. Antonio Tavares,

que passava por um dos fazendeiros mais ricos dos arredores.

Amanhava para cima de sessenta geiras de terra: e só de uva mandava perto

de quinhentas caixas para embarque.

Era franco, alegre, e homem de boas petas; tinha pilhas de graça e

parecia vender saude; emquanto a modos e linguagem, sabia o nome aos

bois, e quando fallava de lavoira podia-se ouvir, discorria como um livro

aberto.

Todos gostavam d’elle, por não ser de contos, nem de arcas encoiradas;

só cuidava da sua vida, andando lizo no negocio como poucos. Ninguem lhe

acceitava signal, porque em dando a sua palavra era como se apresentasse

o dinheiro contado na palma da mão. Não constava que faltasse, nem se

dava fé, de quem tivesse duvida em fiar d’elle fosse o que fosse.

Tinha vindo a comprar uns trigos, assistira ao carregar dos carros e

sahira depois do trabalho acabado, n’uma vaca de cinco annos, esperta

como um azougue e preta como um azeviche. Rira muito, contára muita

coisa, e fizera bom negocio; porque lhe tinham dado o pão em conta por

ser a venda redonda.

O tio Joaquim, que não era dos mais falladores, nem dos que se abria

muito com os extranhos, conversára com o sr. Antonio Tavares, como

quem de ha muito o conhecia: apertára-lhe a mão na despedida com ares

affectuosos, e seguira-o com a vista até desapparecer na volta da

alameda, fazendo feitios com o pau na terra do pateo, e resmungando entre

dentes palavras que não entendi.

Esta excepção nos habitos do velho, aguçou-me a curiosidade, e

perguntei-lhe se conhecia de ha muito o homem que d’ali saira.

—Se conheço!...—respondeu-me inclinando a cabeça de alto a baixo,

compassadamente, duas ou tres vezes.

Havia tantas coisas n’aquella reticencia do tio Joaquim, que não pude

resistir, e instei com elle para que me contasse a historia do sr.

Antonio Tavares.

Tanto fiz, tanto fiz, que sentou-se ao meu lado n’um poial de tijolo,

carregou um cachimbo de madeira, enfeitado com virolas de latão, como os

que usam os campinos do Ribatejo, petiscou, accendeu-o e começou.

Mais palavra menos palavra disse o seguinte:

—Vae tanta differença d’este Antonio, ao de outros tempos, como vae da

noite ao dia, e tanto que se eu não presenciasse esta mudança, não podia

acredital-a ainda que m’a contassem.

Lá embaixo, ao pé do Joaquim Boleta, no recanto da azinhaga, morou por

muito tempo o pae em companhia da mulher que veio a morrer de parto,

quando este Antonio nasceu. Ali esteve, até que por causa da guerra com

os francezes chamaram as baixas antigas e elle, como tinha sido soldado

n’outros tempos, teve de partir deixando o rapaz entregue a uma visinha,

boa mulher na verdade e que promettera tomar conta d’elle. Mas é mais

facil ter um pouco d’azougue quieto em cima d’uma pedra, do que era

conseguir, que o rapaz não fizesse por ahi obras de cabeça.

Não deitava Deus nosso Senhor um dia a este mundo, em que se não

dissesse: lá apanhou o Antonio engeitado, (assim é que lhe chamavam), uma

escamoucadella na cabeça, lá o aleijaram n’uma brincadeira, lá lhe deram

uma cossa quando andava aos figos.

Era um rosario de coisas, que até fazia admiração como elle resistia; mas

se o carrasco e o zambujeiro crescem, medram e enrijam ao desamparo por

esses vallados, e não ha madeira como a d’elles para aguentar dura; não

admira tambem que o rapaz enrijasse assim ao Deus dará e se fizesse um

mocetão de mão cheia, esperto e guapo que era um regalo vêl-o.

Emquanto a velha Thereza foi viva ainda elle trabalhou alguma coisa para

a sustentar, não muito, que lá no seu dizer, o trabalho era para os cães

e não para as almas christãs; mas apenas a velha fechou o olho, adeus

minha vida, foi um vadiar, que não é para dizer.

N’este comenos tinha um soldado, que viera da campanha passado pela

terra, e entregára ao Antonio umas lembranças do pae, morto n’um ataque

contra os francezes, recommendando-lhe o filho á hora da morte.

Minguada herança, que ella era. A farda do soldado, meia duzia de peças,

se tanto, e o retrato do pae, que um seu companheiro tinha feito n’uma

hora de vagar. Muito parecido, por tal signal; era elle por uma pena, só

lhe faltava fallar.

Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu pae; mas custou-lhe

muito aquelle lance. E n’essa occasião mesmo deu mostras de boa alma que

tinha, e que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando mudou de

vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou comsigo nem um real da

herança que recebera; uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho

muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o de esmolas aos

pobres, pedindo-lhe que rezassem por alma do finado. Andou uns dias, que

não parecia o mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á antiga

ou ainda peor se era possivel.

Quando tinha algum vintem de seu não paravam as patuscadas, as festas e

os divertimentos; depois trabalhava pouco e de má vontade até arranjar

dinheiro, e, mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida.

Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes doente no hospital,

viu-se em talas quando por ahi faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo,

só não tocou, em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato, que

conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia, como se fossem imagens do

Senhor dos Passos ou orações do Justo Juiz.

Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado todo o dinheiro e

não havia que fazer; o jantar havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda

o não sabia. Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe a

venda da enxerga: era o resto dos trastes, que tinha, e estava tão velha

e tão suja, que nem uma de doze valia.

O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas duas reliquias do pobre

rapaz offereceu-se para lh’as comprar; mas inda bem o não tinha dito, já

estava arrependido de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente no

meio da rua com promessa de lhe fazer os ossos n’um feixe, se tivesse

outra vez semelhante lembrança.

Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto

minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de

viver.

Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em

companhia de sua filha.

Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca

grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem

posta que uma fidalga.

Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas

azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes

grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas;

ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces

córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e

a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor

parecer unidos um á outra.

Os contos do tio Joaquim · 第 3 / 14 段