escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas,
não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?
Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo
voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas
noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?
Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira
vez, e que muitas vezes a esquece depois?
São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por
isso deixam de existir.
Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou
sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais
m’os cerrou ainda.
Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento
todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de
um amor eterno.
Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á
outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava,
e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e
entristecia.
Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não
acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras,
cair em semelhante fraqueza.
Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de
seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se
creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau
vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e
envergonhou-se de o ser.
Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve
o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma,
quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na
sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de
protecção.
Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a
perdição da filha, deixou-se finar de magoa.
E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a
infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como
não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.
Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam
juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais
que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva
póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.
Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um
soffrimento sem cessar.
O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de
dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da
minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome
perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo
dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe
não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.
E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a
abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar
os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.
A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres,
a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas
ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e
que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á
razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.
Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o
viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar
a d’onde partira.
Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo,
era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo
de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me
supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de
mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.
Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e
esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera,
porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo
em descampado para o viajante perdido.
«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda,
tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma
porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito
grande, e onde estava muita gente de joelhos.
«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de
senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram
pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem
licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os
donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.
«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.
«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha
pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.
«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são
aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.
«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão
tristes, que desatei a chorar.
«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu
collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé
da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não
adormeço.
«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas
coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa
nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com
tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até
que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»
Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio
despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os
choros do filho querido.
Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia.
A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu
percebia.
A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol
os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar
erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de
espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus,
creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de
suas mãos como o artifice nas suas obras.
Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me
arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença,
como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a
monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e
males.
Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade
sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação,
peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.
—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me
estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.
N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do
moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros
d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.
O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse,
abençoando a creança:
Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas
de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas
de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em
paz, és christã.
Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor
já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada
mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para
voar á morada eterna.
Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:
—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador
na sua obra.
Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha
apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre
estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e
os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!
Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do
agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.
Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe
deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:
—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o
sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!
Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos,
e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas,
conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.
III
A proposito da missa do dia
Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é
verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia.
Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava
juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um
homem de bem.
E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle.
Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista
do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os
pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a
constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação.
O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o
reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio
perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não
poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.
Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam
reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao
santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam
pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do
Marrare, ou nas salas do Gremio.
Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir
n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam
levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar
entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos.
O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez
fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que
tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.
Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que
fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das
rosas carrasqueiras dos vallados.
Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado
do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era
mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão
negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros
engastados em esmalte branco.
Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de
anno em anno e quasi por milagre.
Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de
maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados
das serras.
Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as
honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos
descoroçoados tinham desistido da empreza.
Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em
segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar
n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco
em que eram tidos os seus requebros e paixões.
A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais
guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como
uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de
brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de
fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.
E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma
desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que
muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem
como notabilidades cantantes.
O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do
José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados
n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria
attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.
Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes
conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.
Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou,
sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.
—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra,
parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.
—Era o que faltava, a fidalga!
—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.
N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu
na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios
d’aquelle circulo:
—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que
vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a
coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.
—Ora tu sempre tens uma lingua!
—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas
agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama
para a cara da gente.
As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como
todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra
occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava
o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer
chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:
—Juras que é verdade o que acabas de dizer?
—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te
nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de
vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.
—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava
o supposto arrojado.
Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio.
Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por
capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao
bucho por medroso.
Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já
as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de
razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de
facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.
Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções
maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia
um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado.
Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido
no chão o seu contrario.
Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras
pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter
jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam
_descobertos_ e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe
dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu
adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada
d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e
partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque
elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se
tambem.
Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com
uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no
ventre.
O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a
desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que
tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes.
O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que
lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira,
porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria
inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida,
áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca
mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham
ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o
culpado de tudo que succedera.
Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra
coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes
tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento
de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso
mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que
nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a
pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.
O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com
aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era:
—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé
das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras
e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!
—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?
—O que foi, o que foi?
—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia!
—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa
minha se esta lhes não agradar.
O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica:
mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa.
—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem:
«homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham
palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e
quando não faltavam ao que promettiam.
O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos
prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de
Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque.
Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não
valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos
patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e
parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras
ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem
nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda
mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado.
—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim?
—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um
santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.
O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria
denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que
se devia vêr a perros.
—É verdade, é verdade, e que respondeu?
—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou
para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber.
—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados.
—Parecia santo saloio, tornou d’alli um _ratinho_, ultimamente embaçado
na compra d’uma enchada.
—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua,
não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e
alma pequenos são.
Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse
logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda.
Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma
lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um
pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como
havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.
N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro
de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que
Job.
Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito
em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por
dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se
realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem
que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe
na mesma moeda.
Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo.
Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio
estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia.
Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que
sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto
o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de
chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons
serviços.
João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma flôr de enche-mão.
Mais guapa rapariga não havia de certo por aquella meia duzia de leguas
em redor; e se tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado as
grossuras dos campos com a plaina das fidalguias, metteria de certo a um
canto essas arrebicadas, que para ahi vem passar os verões e que parece
que se estão mesmo a desfazer.
É bem certo, que não ha panella sem testo, e para vasilha de tão fina
loiça, é preciso que a tampa lhe não desmereça da qualidade.
E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito e espigado, forte de
corpo e affeiçoado de rosto, um d’estes de quem não ha nada que deitar
fóra.
Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e morriam um pelo outro.
E que bem acertado por elles eram! Joaquina, delicada e fina como uma
rosa de toucar, ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como um
zambujeiro e direito como um prumo.
Encostados um ao outro, quando se fallavam ás furtadellas ao descair
da tarde, pareciam, tanto ella se ageitava a elle, e tão erguido elle
estava, contente por a ter comsigo, a haste da cruz de pedra que está
defronte _dos Ouriços_, vestida com as braçadas flexiveis da hera, que
lhe nasceu ao pé.
Ninguem lhe invejava a felicidade; antes, pelo contrario todos gostavam
de os vêr assim, pois pareciam ter nascido um para o outro. Mas sabem
de certo, que não ha bem que dure sempre, e o d’elles por isso havia de
acabar em pouco tempo.
O pae de Domingos, Deus lhe falle na alma, era um fazendeiro abastado dos
sitios, que contava para cima de vinte geiras de terra de pão, fóra umas
seis courellas de trincadeira, duas hortas valentes, e um pomar de caroço
de mais de trezentos pés de fructa. Por conseguinte o rapaz era um bom
casamento para a rapariga, e por isso o João fazia a vista grossa. Que de
mais a mais o noivo era moço de honra e incapaz de abusar.
Mas não assim o tio Fernandes, que não engraçava com o tendeiro por
as suas mentiras, e que nada queria com gentes, que pertencessem ao
caramboleiro. Tinha sido toda a sua vida homem de palavra, as suas
promessas eram mesmo um evangelho, e quem não seguisse este modo de vida
nada tinha feito com elle.
Domingos, como é de querer, tinha escondido do pae os seus amores com
Joaquina. Uma vez por outra procurou sondal-o a tal respeito, porém,
como visse que era tempo perdido, tinha desistido da empreza, e assim ia
tenteando o namoro com esperanças em que ou o velho cedesse da birra, ou
o outro do vicio.
Foi por estes tempos que se armou uma das tantas guerras que por ahi
tem havido na nossa desgraçada terra. Era preciso tropa e trataram de
recrutamentos com toda a força.
Domingos, foi um dos sorteados. Seu pae, rico bastante, podia com
facilidade pagar a um homem para o substituir, o caso era que o quizesse,
e tanto que estava resolvido a sacar uma duzia de loiras da arca, onde
estavam havia um par de annos sem vêr sol nem lua.