15.º VOL. DA COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
[Illustration: RODRIGO PAGANINO]
COLLECÇAO ANTONIO MARIA PEREIRA
RODRIGO PAGANINO
OS CONTOS DO TIO JOAQUIM
3.ª EDIÇAO
[Illustration]
LISBOA
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
_50, 52, Rua Augusta, 52, 54_
1900
Typographia da Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
_11, Beco dos Apostolos, 1.º_
INDICE
Prefacio da 2.ª edição 5
I—O tio Joaquim 13
II—O romance de um sceptico d’aldeia 21
III—A proposito da missa do dia 37
IV—Os domingos de fóra da terra 49
V—Os retratos de familia 59
VI—O fructo prohibido 69
VII—A gallinha da minha visinha 95
VIII—O guarda do cemiterio 107
IX—Como se ganha uma demanda 133
X—O sexto mandamento 155
XI—O Thomaz dos passarinhos 173
XII—A historia do narrador 199
PREFACIO DA 2.ª EDIÇÃO
Rodrigo Paganino e a critica
Um livro apparece, ao fugir do anno! Quando o sol está descoberto, quando
tudo se cala no campo, como se o frio gelasse os menores ruidos, quando
um somno lethargico se apodera das plantas, e as esperanças, a alegria,
as flôres desapparecem da terra, um mancebo atira aos destinos o seu
primeiro livro, atravez dos nevoeiros de dezembro!
Depois, como se fosse ainda pouco esta especie de ironia á sorte, _habent
sua fata libelli_, declina a gloria de auctor sobre um pobre homem a quem
conhecera em tempos, e que não tinha de litterato senão saber guiar uma
junta de bois, conduzir a rabiça de um arado, ser grande menino na poda
e na empa, e, para fazer um pé de lagar ou erguer uma meda de pão, dar
conselhos apenas comparaveis aos do _Archivo Rural_!
Tio Joaquim se chamava esse amigo, que, depois de narrar muitas historias
a Rodrigo Paganino, lhe disse poucos momentos antes de morrer:—«Agora
acabaram-se os contos. Lembre-se de mim quando se lembrar d’elles; é a
herança que lhe deixo.» Para outro qualquer, este legado teria algum
parentesco com o de Rebollo pae, que na hora extrema concedia a seu filho
a certeza de lhe deixar uma boa cabeça; mas Rodrigo Paganino, para honrar
a memoria do velho, entendeu que devia dos contos d’elle fazer um bom
livro, e foi o que fez!
Ha qualidades n’esta obra que bastam por si sós para firmar a reputação
de um escriptor. Um estylo espontaneo, claro, sem arrebiques nem
pretenções, mas airoso, facil, cheio de côr, de propriedade, e, o que
mais é, de razão. Conhece-se apenas que é um mancebo quem escreve, pelos
dotes de imaginação, pela graça das divagações, pelo tom breve das
phrases; a idéa é sempre séria, prudente, exacta. Não se deixa levar
de extravagancias que tendam a affectar excentricidade; é excentrico
ás vezes sem se sentir, excentrico com chiste, excentrico com feição.
Não planeia os effeitos, não prepara a phrase final, não hesita ante
um adverbio por ser commum; concebe a acção, dispõe-a, depois deixa-se
ir escrevendo, com uma rapidez, com uma veia, com uma facilidade de
elaboração, que julga sentir-se a penna a conduzil-o, em vez de o sentir
a conduzir a penna. E isto é o que dá a principal individualidade do
livro, é este o segredo d’aquella maneira regular e serena, que só
procura encantos na sua simplicidade. Faz-me lembrar os primeiros
livros d’Alphonse Karr, em que elle escrevia ao publico como a um amigo
desconhecido, cheio de familiaridade e de confiança. Rodrigo Paganino é
d’esta familia de talentos; não procura impôr-se ao leitor; simplesmente
trata de se identificar com elle. O merecimento dos _Contos do tio
Joaquim_ não consiste na maior ou menor novidade da fabula, nos effeitos
de surpreza mais ou menos habilmente preparados, mas na pintura dos
caracteres e dos costumes. Cada um dos seus personagens é desenhado com
tanta espontaneidade, que fica vivo, real, palpavel, e toma o seu logar
n’esta grande familia de seres creados pela arte, mais verdadeiros do
que a verdade, particulares e geraes, individuaes e humanos, corpos de
carne transfigurados em estatuas. Ha escriptores para quem a rapidez de
trabalho é uma condição favoravel, e com o auctor d’este livro julgo
dar-se este caso; se elle escrevesse com uma pachorra de academico, faria
talvez um livro indigerivel. O seu estylo é claro, preciso, e franco; e,
a exceptuarmos algumas raras passagens em que apparece o auctor, cada
personagem falla perfeitamente a linguagem do seu caracter.
Encontrei-me com o auctor dos _Contos do tio Joaquim_, ao entrarmos na
vida; fizemos aulas juntos, e juntos fizemos versos; tinhamos quinze
annos então:—hoje encontramo-nos de novo, cada um de nós, como outr’ora,
com o seu livro na mão, mas a differença é que do livro que levamos hoje
somos nós o auctor! Isto é mau, ou, pelo menos, bom não é. Mais valia
talvez ser estudante ainda. Ao vêr-se no frontespicio de uma obra o nome
do que a escreveu, qual de vós cogita que foi á força de trabalho, de
paciencia, de miseria supportada heroicamente, de privações e de luctas
de toda a especie, que ao fim de alguns annos, ao vencer os ataques da
critica e as invectivas da inveja, teve um homem o direito de escrever
o seu nome na primeira pagina de um volume, esquecendo-se de que o
injuriaram no seu talento, na sua vida, no seu coração, e que o seu peito
serviu de alvo luminoso ás flechas atiradas de noite por uma cambada de
archeiros invisiveis?!
Para viver tranquillo e feliz, é melhor fechar hermeticamente a porta, e
não abrir a quem bater, sobretudo se fôr a gloria. Apesar da sua mascara
de anjo, não passa do esqueleto vestido de lantejoulas; namora-se uma
pessoa d’ella, para se arrepender depois centos de vezes; em todo o
caso, hoje que o barco vae n’agua, como dizem os maritimos, é continuar
a remar! Que atraz dos _Contos do tio Joaquim_ venha outra obra, na
certeza de que, digo-o sem cumprimento ao auctor, o despedir-se o anno
por este livro é o sufficiente para deixar lembranças na litteratura.
Dezembro de 1861.
JULIO CESAR MACHADO.
* * * * *
Appareceu um finalmente, um livro, cujo auctor abençoei com todas as
veras do meu coração. Infeliz! Morreu já.
A meu vêr, desappareceu com elle um dos mais promettedores talentos de
romancista popular que teem surgido entre nós. O auctor era _Rodrigo
Paganino_, o livro _Os contos do tio Joaquim_.
A imprensa havia recommendado pouco este livro.
Tem d’esses descuidos a imprensa. Li-o por isso sem a menor prevenção
favoravel. Mas era justamente um livro assim, que Reine Garde pedia; é
d’este genero de litteratura que o povo precisa; é por esta fórma que se
resolve a importante questão das subsistencias intellectuaes, não menos
valiosa do que a que occupa as attenções dos economistas.
Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lusiadas e o poema
do sr. Thomaz Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria
preferivel como livro para leitura nas aulas de instrucção primaria.
Todos se lembram d’essas renhidas controversias. Eu por mim nunca
pude tomal-as a sério n’aquelle ponto. Achei sempre muita graça ao
empenho em que via mettidos os criticos. Quem se podia convencer
sériamente que qualquer d’aquelles excellentes livros fosse proprio
para as intelligencias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu
sabor classico e epico e suas comparações mythologicas, o outro com o
seu pronunciadissimo caracter de lyrismo e suas imagens romanticas e
arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apprehensões nos mestres
por um ou outro episodio que, baldados os esforços dos criticos, ninguem
poderá considerar como demasiado edificantes.
Ora, quando eu li o livro de Paganino, pareceu-me encontrar n’elle
justamente tudo o que debalde os criticos procuravam nos outros. Aquelle
sim que era um livro verdadeiramente escripto para o povo e para as
creanças! livro em que a attenção se prende pela verdade, em que o gosto
se educa pelo estylo, em que o sentimento se cultiva por uma moral sem
liga, porque é a moral do decalogo e do evangelho; livro escripto segundo
o programma estabelecido por Lamartine n’aquelle bello prefacio da
_Genoveva_ e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista
do que por o proprio legislador. Lembra-me bem que o li a um rancho
de raparigas do campo e pude observar como ellas o comprehendiam sem
custo. Não havia uma palavra que ignorassem, uma maneira de dizer que
lhes causasse estranheza, as imagens faziam-as sorrir pela exactidão,
como sorrimos ao vêr o retrato fiel d’uma pessoa conhecida; não eram
caracteres extravagantes, paixões excepcionaes, situações inesperadas
e unicas o que assim lhes absorvia a attenção; pelo contrario, era por
aquelles personagens pensarem, sentirem e viverem como ellas, que tanto
lhes interessava o livro.
Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam, aquelle volume,
escripto para se lêr no campo, como eu o li, junto á fogueira que crepita
no lar, sobre a ponte rustica que atravessa o ribeiro ou no degrau da
ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou
quasi desapercebido no mundo das lettras. Não suscitou esse murmurio
litterario, que acompanha certas obras felizes; murmurio em que se reune
o louvor á maledicencia, a hyperbole laudatoria á calumnia escandalosa,
os guindados elogios ás censuras exageradas. Foi um livro annunciado
apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro cujo auctor não tem
sequer o seu retrato gravado na _Revista Contemporanea_ e que por tanto
quem quer tem o direito de desconhecer. E apezar de tudo isso, aquelle
livro, como disse não sei quem a respeito de não sei que obra, era alguma
coisa mais do que um bom livro: era uma boa acção!
Acceitem-se-me estas palavras, não a titulo de critica litteraria,—Deus
me defenda de pretenções a esse genero—, mas como um tributo rendido á
memoria de um escriptor infeliz a quem sou devedor de algumas horas de
incomparavel prazer, que a sua leitura me proporcionou.
Maio de 1861.
JULIO DINIZ.
* * * * *
Rodrigo Paganino morreu ha pouco menos d’um anno, deixando de si, como
homem, muita saudade em muitos; e, como escriptor, um livro precioso,
e não somenos inedito. Morreu, passou, desappareceu d’entre amigos,
levantou-se aos vinte e oito annos, como Gilbert, do banquete da vida,
trocou a purpura do genio pela mortalha funebre; e a raça enorme dos
papagueadores, dos chroniqueiros, dos assopradores encartados de
reputações e de nomes, quando o via passar para a sua cova tartamudeou
quatro palavras de _requiem_, como se a terra se tivesse defecado d’algum
sandeu ou estadista.
Apenas Bulhão Pato n’uma breve noticia cheia d’aquella eloquencia que
nasce dos mais entranhados affectos, apenas elle espargiu sobre a
sepultura d’aquelle moço algumas flôres de saudade.
Isto é a verdade, verdade amarga é bem certo, porque attesta a
deslealdade d’esses applausos que por ahi resoam, o immerecido d’esses
triumphos que por ahi campeam, o nada d’essas glorias que por ahi
balzonam, o facticio d’essas proeminencias que por ahi se decretam.
Em 1861 Rodrigo Paganino publicou os seus _Contos do tio Joaquim_. O
que este livro significa, que o digam com a mão na consciencia todos
esses criticos, florentissimos e profundos, que entendem por ahi de
litteratura. Para mim, o que elle importa, é nada menos do que a
implantação, entre nós, da litteratura popular. O nosso povo, quer dizer,
a porção menos cultivada e mais numerosa da sociedade, carece de livros
proprios. Rodrigo Paganino sentia, comprehendia esta falta; e foi no
intuito, senão de a remediar completamente, ao menos de a attenuar pela
sua parte, e de chamar a egual trabalho os obreiros do futuro, que elle
escreveu o seu livro.
Ouçamol-o: «Entre nós, n’estes ultimos tempos sobre tudo, a litteratura
tem desprezado um tanto o gosto popular. Não acontece, porém, o mesmo em
França, em Allemanha, e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se
cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados.»
Mais abaixo continua:
«Os _Contos do tio Joaquim_ pertencem ao genero das obras de Emilio
Souvestre, e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito,
proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au coin du feu_.»
Este é que é o valor litterario da obra; este é que é o seu alcance
philosophico.
Hoje, a primeira condição de quem escreve, é ser essencialmente popular.
Quando o povo não se eleva, como na Allemanha, á comprehensão do bello, é
forçoso que o escriptor desça até elle, que lhe desenvolva a razão, que
lhe eduque o espirito, que lhe vibre a sensibilidade.
Acabaram-se os almotacés da critica; o gosto é livre como a consciencia.
«Os livros para o povo, diz Lamartine na _Genoveva_, devem ser historias
simples e interessantes; inspiradas dos costumes, das profissões, das
amarguras, dos contentamentos do lar e da familia, e escriptas quasi
na linguagem do povo; devem ser como que o espelho onde elle se veja
em toda a sua simplicidade e candura; mas que em vez de reflectir as
suas abominações e torpezas, reflicta com preferencia os seus bons
sentimentos, os seus trabalhos, as suas dedicações e virtudes, para lhe
dar o amor de si proprio, e ancia do aperfeiçoamento moral e litterario.»
E acaso não são isto mesmo os _Contos do tio Joaquim_?
Não se filiam n’esta escola _Os retratos de familia_, _O sexto
mandamento_, _O Thomaz dos passarinhos_, e _O romance de um sceptico_?
Creio que me não engano; diz-m’o o coração, pelo menos, que é quem
decide, em regra, do valor d’estas obras, que são todas coração e
sentimento.
O livro de Paganino prima, incontestavelmente, pela sublime simplicidade
do estylo, e purissima verdade de affectos. O primeiro dote era resultado
da espontaneidade, da fecundidade, da força viva de imaginação, da caudal
impetuosidade das idéas, do genio, emfim. O segundo refluia-lhe inteiro
do coração,—do coração que lhe era manancial perenne de amarguras, depois
de lhe ter sido ludibrio de desenganos crueis, das illusões dobradas, dos
sorrisos desleaes e das palavras traiçoeiras, com que este mundo costuma
pagar liberalmente a sinceridade do amor e das affeições mais intimas.
Que Deus perdôe, como elle havia perdoado, a quem pensou que esmagar o
coração de um homem valia tanto, ou talvez menos que espedaçar o mais
futil brinco de creança!
Relevem-me o intempestivo da digressão; eu torno ao meu logar de critico.
Publicados os _Contos do tio Joaquim_, Paganino, apesar do mal que
o definhava a olhos vistos, e que elle, melhor do que ninguem,
comprehendia, pensou em escrever successivamente algumas obras já
delineadas. Em Pedrouços começou o romance _Aos vinte e dois annos_,
romance a que se prendiam muitas saudades e ungido com muitas lagrimas;
escreveu _Beatriz_, pequena historia affectuosa e apaixonada; e, afóra
isto, um grande numero de trabalhos de indoles diversas.
Quando o futuro se lhe abria mais esplendido, quando a lição e a
experiencia lhe amadureciam as prendas naturaes, quando aquelle fecundo
talento devia produzir fructos mais sasonados, a morte veiu arrancal-o
aos carinhos de uma familia estremecida, ao affecto de amigos que tanto o
bem queriam, e á gloria certa que o esperava.
Os seus escriptos inéditos lá jazem na obscuridade, em quanto por ahi
pompeam radiantes tantos abortos malfadados.
E os governos dos conventiculos, das commissões rendosas, das subvenções
pingues, das prodigalidades ás mãos cheias, não sabem que ao lado d’esse
progresso que faz machinas de vapor e telegraphos electricos, deve andar
sempre, de continuo, emparelhadamente, o progresso que derrama a luz, que
arrôtea os espiritos, que os educa, que os esclarece, que os distrahe,
que os moralisa, e que vae desenvolver no coração muitos germens de
grandiosos instinctos. Não sabem que, na vida dos povos, seis ou dez
kilometros de linha ferrea não influem mais que a publicação de um bom
livro.
É que elles cuidam, como diz o sr. Castilho, que nada ha sério, senão o
coadjuvar ou impecer o bulicio governativo.
Isto disse eu por me lembrar que essas paginas de preço, escriptas por
Paganino com tanto amor e tanto fogo, é provavel que, cedo ou tarde, se
percam de todo, quando, dadas a lume, ganhariam mais um louro para elle,
e mais uma gloria para a patria.
Maio de 1864.
E. A. VIDAL.
* * * * *
Os _Contos do tio Joaquim_, livro de alto merecimento litterario, devido
ao mallogrado homem de lettras, Rodrigo Paganino, que uma terrivel e
fatal doença—a tysica pulmonar—arrebatou do mundo na primavera da vida,
appareceram ha mais de vinte annos, quer dizer, n’uma epocha afastada,
em que ainda ninguem fallava de processos realistas para a factura de um
romance.
Pois apesar de não ser ainda conhecida n’esse tempo a escola realista,
os _Contos do tio Joaquim_, mostram-se já seguidores dos seus preceitos
pela naturalidade, singeleza e sentimento espontaneo das respectivas
descripções.
Rodrigo Paganino, antes e depois de concluir em S. José o seu curso de
medicina, foi um escriptor pujante, floreando na imprensa como jornalista
notavel e no theatro como dramaturgo distincto.
Á pujança do seu talento não correspondia infelizmente o vigor do seu
organismo; por isso a morte o derrubou a meio da carreira da vida, quando
elle punha todo o seu empenho e boa vontade em terminar para o theatro de
D. Maria uma comedia em 4 actos.
Infeliz Paganino! e duplamente infeliz, porque não gosaste, como homem,
o lado risonho da vida, nem podeste, como escriptor, deixar apoz ti os
fructos amadurecidos do teu brilhantissimo engenho.
Abril de 1885.
PINHEIRO CHAGAS.
* * * * *
Ultimo adeus a Rodrigo Paganino
(_A. Francisco Montez de Champalimaud_)
_1867 Agosto, 3._—Amigo do coração:—Hontem de manhã fomos esperar, no
cemiterio dos Prazeres, os restos mortaes do nosso querido e desventurado
amigo Rodrigo Paganino. Fomos sete, apenas, os que nos lembrámos de
cumprir a dolorosa missão: José Elias Garcia, Manuel Roussado, Ricardo
Cordeiro, Carlos Barreiros, Eduardo Gomes de Barros, José d’Avellar e
eu. Ninguem mais! O ceu estava alegre; o sol brilhava com o natural
esplendor do estio. Parecia uma pungente ironia á tristeza que apertava
os nossos corações, em presença d’aquella sepultura! É porque os jubilos
são apanagio do ceu, e as lagrimas a triste condição do mundo! A morte,
meu amigo, phenomeno naturalissimo, trivialissimo, mas que nos espanta
sempre, quando vem ferir o homem na força da vida, e o arrebata no
momento em que a sua intelligencia começava a dar luz á humanidade, a
morte, n’essas circumstancias, parece-nos um impossivel. Olhando para
a arvore secular que abrigou á sua sombra o viajante, que floresceu em
centos de primaveras, que produziu abundantissimas colheitas de fructo,
se a vêmos cair falta de seiva, dizemos: «Cumpriste a tua missão;
deste-nos sombra; embellezaste-nos com as tuas flôres; saciaste-nos com
os teus fructos; chegou a tua hora; caiste porque eras da terra», e
saudamol-a com veneração! Mas vendo a arvore robusta, que abre com as
flôres do seu primeiro abril, flôres que são prenuncio de magnificos
fructos, fulminada subitamente pelo raio, enfurece-nos a protervia do
raio! Assim a morte, quando vem cortar o genio em flôr, nos produz
muitas vezes o desespero! Rodrigo Paganino saía apenas da adolescencia,
quando caiu no tumulo. Era medico e escriptor. Restam d’elle algumas
folhas volantes, perdidas por aqui e por além, e um livro (os _Contos
do tio Joaquim_), livro que ha de viver ao passo que muitas composições
laureadas pelo capricho de hoje, morrerão ámanhã. Todavia, isso que
Paganino nos deixou, não são mais do que as primicias do muito que tinha
para dar aquelle grande talento. Rapida, brilhante, e, dolorosissima
foi a carreira de seus dias! Ha quatro annos, n’uma carta que escrevi
para a imprensa, desenhei o quadro que apresentava a familia de Rodrigo
Paganino, pouco antes d’elle expirar. O pae, as duas irmãs, modelos
de raras virtudes, e a mãe, pedindo em secreto, a Deus, um logar na
mesma cova do filho. Tres annos a fez esperar a Providencia; finalmente
concedeu-lhe a appetecida graça. Hontem, se Paganino fosse vivo, contava
trinta e dois annos. Trinta e dois annos que a mãe o déra á luz do mundo;
que o beijára entre dôres e alegrias, depondo o filho no berço; o filho
hontem pagava-lhe essa fineza indo repousar ao lado d’ella, no berço
do eterno descanço, onde para aquelles que padeceram com resignação,
e que esperaram a morte, arrependidos dos erros mundanos, brilha a
aurora da bemaventurança! O padre que acompanhou do Alto de S. João
para os Prazeres os restos mortaes do nosso pobre amigo e que celebrou
a missa, que nós ouvimos, pelo eterno descanço do nosso finado querido,
fôra companheiro de estudos de Rodrigo Paganino. Terminada a missa,
conduzimos o feretro para em frente do jazigo de familia onde havia de
ser soterrado. Perguntou alguem, se queriam que o caixão se abrisse. José
Avellar, de todos nós o mais intimo de Paganino, disse com a expressão
tocante e varonil da sua bella physionomia: quero eu vêl-o. Mas que viu?!
Quatro ossos e uma caveira a que se adheria uma pouca de terra! Era
quanto restava do corpo que abrigara aquelle gentil espirito! O caixão
foi collocado sobre o caixão da mãe, e nós, na extrema despedida, votámos
á memoria do amigo quanto lhe podiamos votar: um adeus, e uma lagrima!
Concluo esta carta, meu querido amigo pela verdadeira conclusão da dôr,
que são as lagrimas. Um aperto de mão; volta quanto antes d’esse ponto do
Alemtejo onde estás; lembra-te do anno passado!
Teu
BULHÃO PATO.
I
O tio Joaquim
Ha de haver dez annos proximamente, fui passar o inverno a uma quinta,
pouco distante de Lisboa; porque, segundo diziam, corria perigo de vida,
se não mudasse de ares quanto antes.
O campo é sempre bello. Cada edade do anno imprime-lhe uma feição,
differente embora, mas formosa sempre: e o inverno, apezar da sua fria
nudez, tem attractivos, como os que nos fazem amar muitas estatuas
antigas, em que a falta de roupas mais realça a magestade.
A uma legua apenas, parecia-me estar muito mais afastado de Lisboa. As
noticias só repercutiam alli com ecco bem tardio; o apartamento do sitio,
mais augmentado ainda pela quadra do anno em que se estava, parecia
cortar de todo as relações com a capital: e se a vida latente que girava
n’aquellas plantas entorpecidas pelo frio, não se deixasse transparecer
de quando em quando, suppôr-se-hia, que um largo sarcophago nos
encerrava: tão silenciosa, tão muda, tão melancolica era aquella solidão.
Os dias passavam-se facilmente; mas as horas do crepusculo, essas, é que
pareciam immensas, insupportaveis. Quando a noite, começando a escurecer
os campos, nos escurecia a alma com elles; quando as trevas desciam
sobre a terra, e afastando diante de si alguma vida, que ainda por alli
havia, nos entristeciam o coração: quando as oliveiras verdenegras, que
ao longe limitavam o horisonte avultavam com as sombras, estreitando-se,
e parecendo encerrar-nos n’um circulo sinistro, como deveria ser o das
bruxas de Macbeth: então partia-se-nos a alma de saudades enlevada no
viver folgasão e agitado, que n’esses momentos costuma offerecer a
cidade. Tem-se dito, que nada ha mais triste, do que vêr cerrar-se o
horisonte em mar alto á chegada da noite; mas dizem-no talvez os que não
experimentaram ainda o angustiado negrume, que em similhantes momentos,
no campo, nos confrange muitas vezes. Parece que tudo esmorece, e morre
em redor: e n’essa hora, se no bater do pulso não encontrassemos provas
da nossa existencia, chegar-nos-hiamos a convencer mesmo, de que a vida
se nos esvaecia tambem, como se esvaece em tudo, que nos cerca.
Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia,
porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no
campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que
d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos.
Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os _maltezes_ como ali lhe
chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão
nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de
certa ordem.
Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que
era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas
narrações cheias de verdade e de moral.
Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são
perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores,
se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha
apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido
trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se
alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não
poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me,
que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o
que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com
o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é
porque se não póde occupar de si.
Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados
da sua curiosidade indiscreta.
E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem
como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado,
ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem
se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar,
ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe
seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio
Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao
barbeiro do logar e ao mestre de meninos.
Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós,
não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da
mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador,
tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma
maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio
Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios,
mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito
desapprovador.
Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois
nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do
professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio
Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio
do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel
do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre
Francisco não diz mal d’elle.
Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa
do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do
passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em
manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado,
e disse-me affavel e bondoso como sempre: _agora acabaram-se os contos.
Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo_.
Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um
cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo,
pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço,
e expirou.
Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não
sabia o que era morrer.
Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal
como a memoria a conserva; mas não como me foi doada.
Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e
mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que
embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.
E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a
coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o
periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a
phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e
mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos
limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás
flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os _similes_ de que
se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes
alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de
terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade.
Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim
fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que
d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as
curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais
d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que
começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda
a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que
estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico.
Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado
um tanto o gosto popular.
Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes,
em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem
os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente
superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem
publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua
gloria.
Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva
e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de _Coin du feu_ e do _Philosophe
sous les toits_. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e
parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado
para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as
admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do
infeliz.
Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando
evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que
desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição
maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito,
alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino
resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a
vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer
os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante
dadiva nos legou.
Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações;
perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o
nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.
Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre
e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo
d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au Coin du feu_. Dir-se-hia
mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato,
resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca
soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado.
Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a
originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este
nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são
veteranos, não teem podido passar.
As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos
n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais
profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel,
aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava,
quando lhe ouvimos a palavra facil e singela.
Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade,
que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os
nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que,
esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de
todo do velho tio Joaquim.
II
O romance d’um sceptico d’aldeia
De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior
impressão me produziu.
Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao
lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco
na pelle.
O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente
entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão,
quando ia começar a comer.
Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a
preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já
estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.
—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos,
quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.
—Conta-nos isso, tio Joaquim?
—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto
servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.
Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:
Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou
contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro,
afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores.
Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio
sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos
cabellos e barbas dos freguezes.
Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada
na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se
passava pelos sitios.
Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a
pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não
poucas vezes acogulada de mentiras.
De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava
muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do
velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr,
que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que
tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de
Christo.
E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo
ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes
todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os
braços de fóra, quando estava presente.
—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos
annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas
custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra
sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e
vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias
regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho,
conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que
fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te
succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar,
casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a
ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.
O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua
freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse
de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando
de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos
outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má
lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a
desfaz, por que não a tem feita.
Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por
fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças
e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre
prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que
lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a
cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que
deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.
Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e
que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos
ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.
Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo
ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre
trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um
novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via,
pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.
Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer
grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado
de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo
calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas,
tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.
Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo,
e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar
mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por
um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios,
quando deu de rosto com o recem-chegado.
Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de
muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se
lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste;
e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez,
barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á
entrada.
Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima
começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que
lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão,
foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.
—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o
maldito.
—Parece que anda em peccado mortal!
—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á
missa.
—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar
quebranto!
—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que
elle a viu não teve uma hora de saude.
—Quem a Felicia?
—Não a jumenta; se elle é lobishomem!
—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão
vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra
alheia, como se fosse roupa de francezes?
Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo
pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize
tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua
sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja,
affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e
que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um
instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella
algaravia.
Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou
menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco,
quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém
o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa,
quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.
—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde
que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar
de reza, ou em festas da freguezia.
—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que
dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem
é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem
sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia
que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.
O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque
se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe
ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas
do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á
formiga, apenas acabaram de fazer a barba.
O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já
tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do
tal homem, que mais tarde vim a saber.
O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para
aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma
casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o
Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças:
para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.
Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo
ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da
visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas
velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para
darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou
pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra
mechida de fresco.
O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado
amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos
murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr
se achavam fio á meada.
Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa,
saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar;
mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de
ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse
tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.
Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé
da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar
o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira
vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.
Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou
de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o
doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e,
fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram
ainda:
—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar,
que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.
Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava
comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.
O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus.
A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora.
Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por
um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo,
estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.
Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou
um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe
roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na
cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!
Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas
aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando
muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia,
gritando quasi sem parar:
—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!
Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que,
palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.
—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora
chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e
cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de
Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.
—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros
lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para
lh’os ministrar.
—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da
minha desgraça.
—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.
O moribundo começou assim:
—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle
n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da
outra em que devia durar eternamente.
No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio
com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui,
que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.
Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido.
Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude,
que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher,
deixando de parte o bom, que andava mais escondido.
O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho,
deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.
Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava
tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.
Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos
desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!
Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o
arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se
descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com
as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder
andar, resvalando além a não deixar rego.
Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava
e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá
de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava
partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.
Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar
com elles. Chamavam-me o _diabo pequeno_, e temiam-se de mim como do
fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de
cego quando fugiam de brincar comigo.
Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.
Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades,
não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao
desamparo.
É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro.
Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus
pensamentos.
A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau
torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria
vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os
fructos.
Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava,
ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do
proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo,
esse aguentei-o em cheio.
Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a
acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar
lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me
prohibiu.
Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor!
Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de
credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos
ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava,
era loucura que não devia praticar!
E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que
outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar
a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco
tempo.
Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para
sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já
de ha muito o eram para mim.
O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei
o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo
esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a
menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.
Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se
aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.
Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato
que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente
com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae
torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.
Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe
e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma
vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.