XVIII

Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava

da cama com sentido nos telegrammas do _Jornal_. D'esta vez, como das

outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o

café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente.

Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos

da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam

pelos tamarineiros.

Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de

calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os

enxugadores no braço e a saboneteira na mão.

--Então, creanças; que cacetes!

As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o

passo.

--Bons dias, papae!

--Bons dias, papae!

O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:

--Vão tomar o seu banho.

--Eu quero passear com o senhor.

--Eu tambem quero...

--Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo...

As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em

correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da

chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos

empregados que passavam por elle.

Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito

pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da

mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma.

E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para

isso...

A Nina foi ter com elle.

--O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto.

Elle puxou pelo relogio.

--Sim, posso ir, são quasi nove horas...

Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na

bocca bocadinhos de pão com ovo.

--O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina.

--Não tenho fome.

--Depois fica doente ... porque não falla com o medico?

--Eu?! para quê?

--Aqui está o café.

Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado.

Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro

parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e

foi ainda a mulata quem murmurou:

--Quem sabe se alguem disse de _nhá_ Milla, hein?

Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de

Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.

A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas,

através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos

excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas

jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias,

egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude...

Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho?

Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla.

--Seu marido está melhor?

--Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle

não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está.

Não sei o que é aquillo.

Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra.

--Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou Ruth

ao medico.

--Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso

de alabastro d'alli, ou eu não volto cá.

--Acha feio?

--Horrivel.

Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no

trabalho.

Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações,

percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente.

Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam

regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre.

E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido

esgarçado, fugitivo.

Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros,

teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir;

todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do

outro com o protesto de ser a ultima vez.

Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um

telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia,

arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro.

O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou

por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de

olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas.

Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella

scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal

escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar

de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande

desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto

transtornado do patrão.

Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força.

Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,--a grande casa

Theodoro teve de declarar fallencia.

Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos

uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa

segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se.

A familia Gomes chegou cedo.

D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de

pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.

--Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se

na melhor cadeira da sala de jantar.

--Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito

abatido, respondeu Nina.

--Isso é que é máo. E sua tia?

--Está lá em cima, já vem.

--Gostaram dos biscoitos que eu mandei?

--Muito, são muito bons.

--Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de

experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho.

Perceberam?

--Percebemos.

--Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim...

--Não...

Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da _etagère_,

cantarolando:

«No Brasil é doce d'ovos,

Chiquita!

Um beijo dado em você.»

«Um beijo...»

e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella.

Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala,

sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe,

puxando-a para o terraço:

--Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como

eu estou contente!

--Foi o Samuel?

--Então, quem havia de ser?

--Seu pae não queria...

--Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui...

Você vem commigo para o jardim?

Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr.

Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para

o joguinno com o Lelio e o Gomes.

Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança

tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!

--Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro?

--Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos.

--São de polvilho... Eu trouxe...

Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia

remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra:

--Como ella vem! É um céo!

De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a

vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros

criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha

Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas.

--Credo, um mocinho tão aquelle...

Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram

as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com

o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As

Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas

de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de

pecegos inchados, bons para doce.

Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de

Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que

não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga.

--Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente.

Os outros concordaram.

Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco

Theodoro entrou no quarto das creanças.

Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de

porcellana.

Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e

separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam

profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos

espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o

ar e labios entreabertos.

Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz,

parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama;

a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no

peitinho gordo.

Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das

palpebras mimosas...

Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora

para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle

quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios

sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e

aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de

uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle

conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para

onde? que os esperaria a todos?

Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos;

voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A

mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:

--Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.

--Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo

quietas...

--Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons...

--Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê...

--Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas!

Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam

educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma

lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla

adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para

o seu escriptorio, no rez do chão.

Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze

descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e

de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto

naquella claridade muda.

Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr

de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva...

Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha

reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros

saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.

Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra.

Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as

mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos

de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e

encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve

largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se

lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um

revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo

ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre

os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma

gaveta, que fechou á chave.

Estava alli dentro o descanço, a eterna paz.

Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...

No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro

desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e

prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via

pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para

o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres

irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em

flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu

desgosto, quando a afilhada o interrompeu:

--Bons dias, titio!

--Adeus, Nina.

--Estava gostando de vêr os manacás?

--Sim ... estão bonitos...

--Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto!

--Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado.

--Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está

dizendo que é signal de desastre em uma casa...

--Ah! ella disse isso?

--Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é

impressionavel!

--Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá?

--O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?

--Não... Dê-me uma chicara de chá...

--Mas o bife e os ovos ahi vêm...

--Não quero nada. Só chá.

--Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas.

Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto

o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever

uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:

--Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla

recommendou...

Depois leu alto:

--Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande

trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza.

Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de

sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e...

--Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso.

--Então tia Milla irá á cidade... É melhor.

--Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei

cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de

setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina?

--Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu

não sei nada!

--Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o

significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa...

Nina ficou pensando:

--Tio Francisco estará doido?

Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as

cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de

creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio.

Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso

derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond

já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho

recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos

sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado,

entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa.

Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança

rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta

da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o

espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este

céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de

esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das

aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão,

d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de

trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da

mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do

moleiro...

E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta

para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e

a agua do bom Deus!

«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a

riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida!

Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús

pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ...

verás: pesarão ouro e valerão pó...»

Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. _Seu_ Joaquim

andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo

rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum

caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é

para as aranhas do tecto.

Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de

entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os

calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio.

Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho

Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.

--O Leite Mendes mandou cá?

--Não senhor...

--Está tudo direito, não?

--Tudo.

--Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem...

O guarda-livros fez um gesto de recusa.

--Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será

bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro.

--Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.

--Para que?

--Adiaremos ao menos a ... a catastrophe.

--Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui

justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora.

Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com

mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura

uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o

negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para

o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida:

--Que dia é mesmo hoje?

--29...

--Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo.

Os outros calavam-se.

O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as

folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em

diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a

raspar com a unha.

Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e

vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de

pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente.

Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com

voz segura:

--Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.

O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo,

que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo:

--_Seu_ Augusto!

Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força,

o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro

gritou:

--_Seu_ Augusto ainda não voltou da rua!

Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles

e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações.

Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage,

mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de

negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo

emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se

ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a

familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o

golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as

filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a

escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente

desencantal-as em cofres avaros!

As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a

reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa.

Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a

familia, mas faltava-lhe a coragem.

Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou

outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta

da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o

corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para

trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o

abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser

engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo,

esboçou um sorriso e foi andando.

Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os

passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força

ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar

sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter

engolido todo o pó das ruas.

Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia

pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda

a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado

alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.

--Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de

quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle.

--Todos bons ... estou á espera do _bond_.

--Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia!

--Han ... é aborrecido.

Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um _coupé_

particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e

os cumprimentou com um adeuzinho de mão.

Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio:

--Cão!

--Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete da

Nova Zelandia, amanhã.

--Com o meu dinheiro...

Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando

um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou:

--Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões...

Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos

olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima.

Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de

Negreiros e partiu.

No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa,

Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas

sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a

mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho.

--Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito.

Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se

não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o

dinheiro fóra...

--Ah...

--Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... Irei

abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes?

--Não...

--É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu _bond_.

--E a senhora?

--Eu vou de carro. Saudades a todos.

Ella afastou-se ligeira, no _frou-frou_ das saias de seda, e o

negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage,

acerca de Mario: «_Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo

o dinheiro fóra._»

Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta.

Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas

gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e

saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que

lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa;

e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da

_toilette_ da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de

anneis, unidos nas ondas negras do penteado...

Que lhes diria elle? que lhes diria?!

Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse

de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse

com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim!

Essa ideia animou-o.

Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia

tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas

bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em

uma sonatina fresca.

Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de

milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das

gardenias.

A fallencia · 第 28 / 36 题