Com um avental atado sobre as rendas do _peignoir_, Camilla executava,
com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.
Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel
nos jantares de anniversario das Gomes.
A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda
e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da
Judith confundia os _a a_ com os _o o_, quando a Nina appareceu dizendo:
--Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a
senhora.
--A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?...
perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o
avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho,
despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o
tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo
ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!
--Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...
--Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava
os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.
--Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar
bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga.
Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de
manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu
logar, Nina.
Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao
chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que
as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.
Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão
grave e desusado que ella logo o extranhou.
--Está doente?!
--Eu, não ... porque?
--Você está differente. Que modo!
--É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.
--A mim?!
--Sim.
--Que é?
Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio,
segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir
o golpe em cheio. Milla impacientou-se.
--Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera
algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle
pensamento, balbuciou apenas:--Mario?
--Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro
falliu.
Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo
zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não
ouvia nada.
O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão
desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope,
amparou-a, dizendo:
--Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida,
é preciso coragem... Camilla!
Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe
o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte!
Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras--fallir não é
morrer. Teu marido não morreu,--falliu.
--É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.
--Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês
mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela
superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos.
Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de
outro... A série ha de ser longa.
--Que me importam os outros!
--Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te,
estás muito fria ... queres uma capa?
--Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe
bruscamente dos braços.
--Descança...
--Não posso.
Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas
irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida,
ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o
corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases:
--Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... Que
insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que
vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde
ser.
Subitamente parou, com um relampago de esperança.
--Se fosse mentira?!
--Eu seria um miseravel.
--Podiam ter-te enganado. Quem te disse?
--Elle.
--Burro!
Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e
recomeçou logo no seu gyro tonto.
O medico tentou acalmal-a:
--Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa
felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu
marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais
desgraçado.
Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:
--A culpa é d'elle...
--A culpa é de todos.
--Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada!
Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos
só para o seu prazer! Só, só, só!
--Theodoro está muito acabrunhado...
--Quando foi que elle te disse?
--Hontem á noite, em minha casa. Chorou.
--Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!
--A dôr é forte.
--Já perdeu uma filha...
--Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante,
que elle préza acima de tudo.
--A sua honra! mas Theodoro não roubou nada!
--Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem
severidades. É preciso estar preparada para tudo.
--Quer dizer que elle póde ser preso?
--Quem sabe, não é provavel, mas...
Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella
disse, com os beiços tremulos:
--Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o.
--Tu o amas, Camilla!
Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico,
olhando-o de face.
Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que
se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos.
Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto
escondido nas mãos.
A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos
indiscretos pelo corredor.
Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em
S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se
oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo
chamalotado de nuvenzinhas brancas.
Um bello dia perdido!
Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia.
Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca
a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela
perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção
tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria
extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos
primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida
a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se
mais abundante.
Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr.
Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado:
--Mas sempre o amaste assim?!
--Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é
uma amisade muito grande!
O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um
largo silencio:
--Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia.
Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o
Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi
fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se
tractava.
Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem
rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As
palavras para ellas só tinham som, mas não sentido.
Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:
--Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae.
O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para
Nina:
--E você, que diz?
--Nada; espero.
--E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem.
Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz
tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.
Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma
ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida.
O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se
de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de
transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.
Em baixo, o armazem parecia outro. _Seu_ Joaquim permanecia sentado ao
pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas
das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga
para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão
de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua
havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens
que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.
Do seu ponto, _seu_ Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres,
agora a mais afortunada da rua.
Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco
Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas
as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração
absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha
secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como
um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.
Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o
chapéo, entrou outra vez no escriptorio.
O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O
guarda-livros levantou-se e disse:
--Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte.
Vou tentar outra vida...
--Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz!
abraçaram-se.
Motta approximou-se.
--E o senhor? perguntou-lhe Theodoro.
O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou.
--Fico p'ra ahi, atôa...
--Recommendal-o-ei ao Negreiros.
--Será favor...
Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu
áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos
com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo
periodo de trinta annos...
No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e
deteve-se a fallar com o Joaquim.
--O senhor que tenciona fazer agora?
--Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres...
Devo entrar para lá amanhã...
--Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E,
relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus
saudosissimo, sahiu para a rua.
Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço
branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os
ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego.
Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol
encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.