--É verdade; quando você toca esquece tudo.
Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar
sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para
que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na
primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as
saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel
aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!
Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da
egreja.
Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia
ouvil-a. No adro lembrou ainda:
--Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do
padre Euclydes, que está doente.
Ruth objectou:
--Mas titia, eu estou com fome...
--Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará
informações e seguiremos logo para casa.
Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria
as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á
missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes.
D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da
egreja, dizendo:
--Rezemos por alma d'este morto, filha.
--Mas nós nem o conhecemos, titia!
--Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.
Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar.
Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth
deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle
desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...
Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!
Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a
chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no
domingo a sua missa.
--Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse
Ruth.
--Peça, filhinha.
--Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A
estas horas elle está farto de estar no armazem.