--Olhe que não é tão perto assim...
--Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...
--Vamos lá... Que pieguice!
Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco
Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas,
empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um
paletot preto fazia resaltar a alvura.
Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle
extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:
--Senhora fujona, que faz por aqui?!
--Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora
procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos
almoçar...
Se papae nos levasse a um hotel?...
--Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o
Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.
E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis,
aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E
despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth
mandava á mãe.
D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais
valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um
restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas
economias sordidas da irmã.
--Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei
contente; respondeu-lhe a menina.
Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e
entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr.
Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de
rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam
o escrupulo dos moradores.
O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho,
arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo
cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o
rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina
da velhice.
D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth
tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.
Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do
almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no
fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa
recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e
Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo
com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.
Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas
camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e
para elles fazia convergir todos os seus cuidados.
A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se
acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim,
mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para
medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados,
escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de
grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.
Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas
de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á
sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.
Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela
innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no
seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á
morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E
toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.
D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com
difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os
ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do
medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de
primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as
nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir
tão alto, tão alto!
--O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e
todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa;
percebem?
D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth
murmurou:
--Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!
Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que
se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo
corredor.
D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O
marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe
valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal
e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já
trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim,
por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.
Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu
a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota
da negrinha não ouvira o seu conselho?
Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido
ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder
abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna
benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua
consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era
bom, estava tudo sempre muito bem.
Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para
vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e
tantas as suas exclamações, que a tia observou:
--Você é muito exaggerada, Ruth!
Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado,
aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta
estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um
_bouquet_ de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e
outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas,
que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas
como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata,
aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando,
cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica...
Depois a lua...
--Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como
é bonito!
--Bom, bom; divirta-se...
Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia
d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem
sobre ella aromas que a embriagassem.
--Filhinha, vamo-nos embora...
--Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!
Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que
tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada
as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de
flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia
lhe ouviu em um murmurio entrecortado:
--Como é bonito!
No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha
para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros
pela casa.
Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:
--Que é?
A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:
--A Sancha fugiu!
Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.
Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde
teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa
se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora!
sempre seria mais feliz lá fora...
Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços
ao pescoço. Era a sua libertação.
D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se
levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada,
provocando a negrinha para o assanhamento da rua.
Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha,
deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo
vagavam conjunctamente.