D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:

--Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de

ajustar contas...

Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e

Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.

A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:

--É sempre assim?

--Não ... uma vez ou outra.

--Mas como podem viver neste inferno?!

--Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que

ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim.

E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é

raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das

missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu

não teria paciencia para a aturar.

--A Sancha vae amanhã commigo para casa.

--Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?

--Aluguem uma mulher.

--Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz

tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei.

Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto

de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a

apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais

nella. Durma...

Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se

levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir

tambem.

Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a

Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se

chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo

que a tia Joanna a ouvisse:

--Sancha, porque é que você não foge?

A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.

--Nhá?!

--Fuja!

A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada.

Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.

--E depois? perguntou ella, assustada.

--Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.

--De que serve! me mandarão outra vez para cá...

--Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...

A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café

da vespera, requentado.

Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos

telhados, e nada se via da cidade, em baixo.

Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello

espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros

vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a

madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a

pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella

luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.

Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma

oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o

altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma

supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um

ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores,

foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De

mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de

piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias

do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona,

fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam

soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr

nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos

seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa

delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou

uma saudade absurda, a _saudade do céo_, como dizia o Dr. Gervasio, e

que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que

germinava no seu peito fraco.

E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se

á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a

ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé,

apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões

rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!

Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida,

se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça

para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos

rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes

perseguidos.

E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a

fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e

soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao

grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão

bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle

corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda

e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.

--Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava

Ruth, confusa, com os olhos no altar.

Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas

corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.

Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de

agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de

boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os

ultimos farrapos de neblina.

A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a

egreja do Carmo.

Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em

egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.

--Você conhece a egreja do Carmo?

--Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto

das egrejas grandes.

--Porque?!

--Não sei...

--Ora essa!

--Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á

senhora não acontece o mesmo?

--A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou

não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.

--A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria,

que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?

--Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas.

Elle está em toda a parte.

--Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?

A fallencia · 第 21 / 36 题