«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a
Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de
rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.
Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria
negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.
Uma tristeza.
No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da
portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão
doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror
Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda
e murmurava:
--Ave!
E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.
Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu
habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu
ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella,
tirando a cruz e o véu.
Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome.
Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera
tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não
sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...
Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?
Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella,
com dois olhos que nem duas estrellas.
--Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as
mãos tremulas.
--Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.
E logo de mil modos começou a tental-a.
Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida.
Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe
que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no
abysmo...
A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer
despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que
fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos,
muito tremula, muito alvoroçada.
Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus
que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O
beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado,
embriagador.
Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha
deliquios, abstracções.
O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que
fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares
cheirosos e aguas crystallinas.
Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os
labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a
perpetua bemaventurança, mais que tudo!
E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á
portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.
Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A
freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas
ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu
cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e
tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava
com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando
contrictamente:--Ave!--e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do
convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só
havia grossas paredes impenetraveis.
Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.
Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão
levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a
communidade entoava:
--Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos
trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!
Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em
redor, por aquellas penedias.
E entoavam hymnos.
Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão
aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto
voltado para a outra banda.
Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa
vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e
trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que
a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...
Depois...
Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a
misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão--mas o diabo
em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de
cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se
com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por
mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés
ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os
penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.
Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito
velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar
em uma religiosa fugida do convento um anno antes?
--Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são
todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!
--_Amen_! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia
rosas...
--A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se
soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.
Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer,
com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.
--Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.
--Uma peccadora arrependida, para a penitencia--sussurrou soror Pallida,
lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...
A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos
enferrujados estavam de velludo,--e a rodeira mostrou se com um sorriso
á freira apoquentada.
Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os
joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa
compuncção e infinita doçura:
--Ave!
A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a
fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam:
badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos
altares e arrumando os gavetões da sacristia.
--Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella...
Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...
Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria;
depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:
--E Vós, Mãe Santissima?!
--Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho
azul...»
Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o
lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior
economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror
Pallida.
Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se
das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito
branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o
quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso,
e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do
silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos
lancinantes.
Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.
--Que é isto, tia Joanna?!
--Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...
--Meu Deus!
--Não é nada, dorme, minha filha!
--Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na
coitada!
--Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de
intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.
--Vou eu.
Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um
movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz;
guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a
cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de
marmelleiro.
A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a
cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia
descahindo sobre a carapinha da outra.
--Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com
impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.
--Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito
gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth,
vá dormir.
--Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem
coração?!
--Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!
A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava
as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.
D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço,
puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua
carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.
--Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio
nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.