D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.

--Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.

--Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se

precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra

tia.

--Quem foi que trouxe você?

--Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não

queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi,

tanto pedi...

--Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta

annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito

triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...

Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a

duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu:

primeiro de dor, depois de allivio.

--Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã

poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...

--E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim.

Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma

curiosidade!

--Mas...

--Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha,

sim?

Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de

kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou

a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.

Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á

janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe

historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de

rogada.

As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam

a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num

ambiente tão diverso do que lhe era habitual.

Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a

nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças

flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando

judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições

injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os

extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã,

assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a

vastidão sombria do aposento mudo.

Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas

indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das

lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho

erguido a uivar...

--Tia Joanna, tia Joanna!

--Que é isso, minha filha?!

--Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...

--Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que

ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda

hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.

--Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...

--Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito

antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem

simples.

--Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?

--Nem sangue, nem fogueiras:--Foi um dia...

A fallencia · 第 19 / 36 题