O palacete Theodoro preparava-se para o baile.
Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e
corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de
escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando
_parquets_ e de moveis deslocados.
Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o
despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas
escancaradas, com inteiro desassombro.
Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa
perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel
e discreto.
Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a
interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma
salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um
romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e
não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das
suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro
abandonados.
Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.
Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da
modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas
sobre _tules_, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.
O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas
salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho
das dansas.
Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando
para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não
provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal,
quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!
E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que
tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio
não a deixava tomar corpo.
Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem
determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de
musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco;
foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e
harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos
parecia a Camilla perfeito.
Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As
gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se
por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da
desordem que provocavam.
Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.
Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta
do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.
Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais
risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a
familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava
construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um
avestruz.
Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta
por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes,
estacou surprehendida.
De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús,
soprando em longos flautins de ouro.
A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce,
porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças,
que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da
atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida
da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus
olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.
Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A
machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.
Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se
podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e
bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas
de filó batiam tremulas.
Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um
paiz de sonho.
Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a
vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas
tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em
flechas de sol.
Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio
entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da
parede:
--Estou gostando de vêr...
«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao
mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não
lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.
Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle
respondeu:
--Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e
injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia
esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma
perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não
digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o
effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...
--Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a
mamãe que me mande ensinar pintura...
--Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é
raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não
pense em mais nada...
Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a
não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos
trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no
caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de
musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou
coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.
Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo
lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da
illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os
canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.
Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a
Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia
Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao
Observatorio para vêr a lua e as estrellas.
Era a occasião.
Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no
oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa
rezada.
D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a
essa hora o--_ora pro nobis_ em côro com o povo e os frades.
Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas
encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes
desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia
todos os sacrificios. Ficaria.
Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa
em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu,
perguntando pela sua encommenda.
--Que encommenda, gente?
--A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que
eu pedi...
--Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu
dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?
--Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...
--P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?
A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.
--Não diga nada...
--Você é tola!...
A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser
ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas
dilatadas farejando mysterios.
D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo
questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando
desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel
de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha.
Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e
torpes:
--O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?
--Vae, sim, senhora.
--Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?
--Não sei...
--Camilla sae sozinha?
--Ás vezes sae.
--Porque é que você não vae sempre com ella, hein?
--Eu tenho que estudar.
--Não fica bem uma senhora sahir só...
Ruth contemplou-a, estupefacta.
--As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?
--Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.
--Em quantos contos está?
--Não sei, não, senhora...
--O Dr. Gervasio vae tambem?
--Acho que não.
--Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de
olho?
--P'ra Nina? não, senhora.
--Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que
estão reformando tudo! é verdade?
Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do
medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço,
as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o
vestibulo...
D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava
a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um
sorriso torto:
--Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.
Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor.
Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a
lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã
voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a
viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que
por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha
julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra
o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que
embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...
Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca
rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!