XIII

O palacete Theodoro preparava-se para o baile.

Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e

corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de

escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando

_parquets_ e de moveis deslocados.

Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o

despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas

escancaradas, com inteiro desassombro.

Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa

perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel

e discreto.

Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a

interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma

salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um

romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e

não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das

suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro

abandonados.

Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.

Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da

modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas

sobre _tules_, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.

O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas

salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho

das dansas.

Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando

para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não

provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal,

quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!

E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que

tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio

não a deixava tomar corpo.

Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem

determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de

musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco;

foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e

harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos

parecia a Camilla perfeito.

Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As

gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se

por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da

desordem que provocavam.

Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.

Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta

do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.

Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais

risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a

familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava

construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um

avestruz.

Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta

por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes,

estacou surprehendida.

De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús,

soprando em longos flautins de ouro.

A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce,

porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças,

que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da

atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida

da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus

olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.

Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A

machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.

Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se

podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e

bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas

de filó batiam tremulas.

Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um

paiz de sonho.

Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a

vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas

tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em

flechas de sol.

Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio

entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da

parede:

--Estou gostando de vêr...

«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao

mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não

lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.

Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle

respondeu:

--Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e

injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia

esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma

perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não

digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o

effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...

--Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a

mamãe que me mande ensinar pintura...

--Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é

raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não

pense em mais nada...

Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a

não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos

trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no

caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de

musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou

coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.

Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo

lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da

illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os

canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.

Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a

Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia

Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao

Observatorio para vêr a lua e as estrellas.

Era a occasião.

Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no

oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa

rezada.

D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a

essa hora o--_ora pro nobis_ em côro com o povo e os frades.

Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas

encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes

desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia

todos os sacrificios. Ficaria.

Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa

em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu,

perguntando pela sua encommenda.

--Que encommenda, gente?

--A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que

eu pedi...

--Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu

dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?

--Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...

--P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?

A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.

--Não diga nada...

--Você é tola!...

A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser

ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas

dilatadas farejando mysterios.

D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo

questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando

desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel

de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha.

Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e

torpes:

--O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?

--Vae, sim, senhora.

--Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?

--Não sei...

--Camilla sae sozinha?

--Ás vezes sae.

--Porque é que você não vae sempre com ella, hein?

--Eu tenho que estudar.

--Não fica bem uma senhora sahir só...

Ruth contemplou-a, estupefacta.

--As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?

--Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.

--Em quantos contos está?

--Não sei, não, senhora...

--O Dr. Gervasio vae tambem?

--Acho que não.

--Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de

olho?

--P'ra Nina? não, senhora.

--Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que

estão reformando tudo! é verdade?

Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do

medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço,

as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o

vestibulo...

D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava

a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um

sorriso torto:

--Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.

Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor.

Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a

lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã

voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a

viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que

por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha

julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra

o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que

embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...

Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca

rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!

A fallencia · 第 18 / 36 题