Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria:
era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de
que o negociante fizera o seu escriptorio.
Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada
para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de
plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés
morria.
Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha
estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua
attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do
aposento, vasto e sobrio.
Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das
coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma.
A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros
industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano.
Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um
cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento.
Do lampeão de bronze com _abat-jour_, cahia uma luz bem dirigida,
espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo.
Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o
Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua.
A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos
não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus
olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus
movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da
sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa,
a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida
alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio.
Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de
prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco
Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o
desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto
experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella
entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer
empreza.
Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa
condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital,
avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando
zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o
pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem.
E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No
mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou
uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer
pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida.
O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em
borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.
Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e
as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade.
Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a
vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do
desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante,
não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que
elle não conseguia dirigir a seu modo.
Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de
goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é
que lhe parecia uma ignominia.
Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do
homem obrigava-o a transigir um pouco...
Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal
chegava o echo das correrias das pequenas.
Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não
pede, mas offerece favores.
Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da
cabeça, começou:
--Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. O
Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua
prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi
elle que me disse que o consultasse tambem.
Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do
Braga scintillavam na sombra.
Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom
criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o,
revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração
perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia,
fortificando-o com argumentos persuasivos.
Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum
artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte.
Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio
prestava-se.
Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos
difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O
tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se.
Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais
rude.
O assalto assustava-o.
Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos,
Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger
resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a
seductoramente.
Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle
não fallasse com a autoridade de bom conhecedor.
Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias
o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em
certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da
promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era
documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno,
annotado nas margens, com lettra miuda.
Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem
argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta
incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde...
Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por
instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro,
e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia.
O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa.
Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a
propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro
approvou.
Reconhecia nos inglezes grande capacidade.
--Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor
porque?
--Superioridade de raça... Sim, é o que dizem.
--Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de
educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais
forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo
de figado que tenha ingerido em pequeno.
A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas
especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de
negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as
mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o
que o inglez nasce e se desenvolve.
Por isso o commercio d'elles é tão forte.
Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo
estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos!
Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto.
Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas,
estatisticas...
Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem
tirar os olhos dos papeis:
--Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:--o Gama Torres.
--É rapaz novo...
--E atiladissimo.
--Os negocios precisam ser feitos com vagar...
--Á moda antiga.
--De todos os tempos.
--Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do
thermometro.
As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos
alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra
épocha. Esta é a melhor.--É a unica.
Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores
e mais convincentes do que palavras:--cifras.
Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e
seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro
apontavam e percorriam rapidamente.
Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação,
assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de
desabar em blocos de ouro.
Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma
objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem
já vinha prevenido para tudo.
Á meia-noite ergueu-se, dizendo:
--Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra
vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das
duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite.
Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em
cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na
soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães.
--Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem!
--Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas.
--É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro.
--Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites!
Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento
gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do
Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras
lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e
morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção...
Quando no dia seguinte abriu o _Jornal_, na frescura da varanda,
percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se
presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros
caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro
desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga.
E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado.
--Sabe uma coisa, papaezinho?
--Não ... não sei nada. Que temos?
--Uma desgraça.
Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado.
--Que dizes?!
--Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para lhe
dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado...
--Então a desgraça é essa?
--Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os
outros, que podem mais, se esqueçam d'ella...
--Ora, não lhe falta nada.
--A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz annos,
o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se
fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a
minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente...
Entretanto...
Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção.
--Acaba.
--Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com
mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios
de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer
que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor
ou a mamãe.
Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu...
--Quem te lembrou isso hoje?
--Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha...
--Bom; promette-lhe o chapéu.
--Só?
--Parece-te que temos sido ingratos para com ella?
--Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa...
--Que coisa?
--Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata
que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:--mas porque é que você não
compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e
ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não
podia tomar gelo, mas perguntei:--porque é que você não toma um
sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor
vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem
uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que
desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma
carteirinha no bolso...
--Queres então dar-lhe uma carteira?
--Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por
mamãe.
--Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço.
Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio
faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer.
Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se
para a sobrinha, declarou:
--Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para
você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os
mezes um vestido a seu gosto.
A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou
com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a
saude. Ella começou a chorar.
--Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De
maneiras que você...
Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla
applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos.
Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao
tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou:
--A casa não é grande, mas é nova e bonitinha.
--É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever,
insistindo para que você não falte ao baile do pae.
Parece que a Paquita está apaixonada!
Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que
recomeçara a partir o _beef_ das primas.
--Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado.
--Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do
Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só
attribuo a querel-o o Meirelles para genro.
--Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O
Meirelles não é nenhum parvo.
Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse:
--Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de
mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não
quero.
Nina tremia.
Francisco Theodoro riu alto.
--Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou
a outra, com um homem de peso...
--Pois sim!...
--Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são?
--Cinco, parece-me que cinco.
--Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem
nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do _Chora vintens_...
D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio...
Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado...
--Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho
de nojo.
--Que queres? Nem todos nascem para doutores.
Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega;
todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do
filho.
Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar:
--Que foi que eu lhe disse hoje?
A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou:
--Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa
nova?
--Borboleta azul?...
--Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul?
Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito
dote... E ainda ha quem não acredite!
--Sim, é verdade, você me disse...
E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de
doçura.
Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga
apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S.
Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em
casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que
transparecia a mais viva curiosidade.
O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os
pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de
dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro
prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia,
na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto.
Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão
uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna
não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade,
tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.
Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e,
cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao
Innocencio...