Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio
estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa
o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto
pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar
esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.
Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.
A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de
faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo,
berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por
todos os lados em vivas represalias.
O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal
ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em
grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com
todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de
cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o
unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás
instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o
seu bem-estar escolheram.
João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o
minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias
do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de
Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista
pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de
ingratos.»
Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um
republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus
compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor
de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de
Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado,
tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera
censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle
já estava maduro para dar o seu braço a torcer!
Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de
Negreiros entrar na discussão.
Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino
appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão
interrogativa no rosto.
A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez
logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.
Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de
reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na
mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as
pontas do bigode delgado.
--Que novidade é esta, o senhor por aqui?!
--Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.
--Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o
apresentar aos meus amigos.
Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande
bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro
perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.
--Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os
meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.
--Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido
lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não
fazemos cerimonias.
--Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a
preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os
meus respeitos a todos.
O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo,
lhe bailava sob a pelle de loiro.
--Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe
razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente.
Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos
ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga
ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.
_Seu_ Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na
secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.
Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a
lida. Levantaram-se todos.
Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante
pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta
importancia.
No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio
tinha lampejos de ouro. _Seu_ Joaquim observava em silencio.
O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no
corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros
descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia
á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens,
para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol,
acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha
Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a
cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os
carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos
repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos
os ventos a sua força poderosissima.
O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e
movediços.
Aquella multidão aturdia-o.
O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias
commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na
natureza o que ella tem de maior e de mais simples.
A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do
oceano que elle cortava com a prôa firme do seu _Neptuno_.
Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era
aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o
amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra
produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é
instantaneo e é eterno.
O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da
adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua
grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?
A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra
negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a
terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte
do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda
em orvalho fecundo?
O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados,
vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população
de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a
preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em
repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a
respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos
batendo dominadoramente as pedras duras do chão.
Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.
Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto
desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e
meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a
porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro
lampejante de mar.
Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e
de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava
de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças.
Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella
confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a
impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.
Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro,
agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada
sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se
aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado
para descer ao outro em escadarias toscas.
De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para
extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas
de moças cantavam modinhas ternas.
Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés,
d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas
ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam
trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.
O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a
face quente e robusta da terra.
Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.
Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres,
trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era
resignado e sabia esperar.
A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.
Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle
viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces
para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.
Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas
velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam
em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a
atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.
Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o
capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.
Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda
inconstante...
Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só
voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e
ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.
Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na
telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou
esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento
continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os
predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia,
coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo
o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto
docil e amorosa para com o outro...
Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho
de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações
felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria
mais ninguem assim, tão desafortunado.
Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o
coração tranquillo, com fé no amor!
Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação
da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse,
mas não amasse o outro!
E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque
havia de ser o outro, e não elle?
O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres
moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de
exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo
teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes,
tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se
guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as
miserias embelleza.
E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus
dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia
neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo
que combate ou pelo que amplia?
Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado,
amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla
de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre
doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem
encerrada no circulo de seus deveres.
Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como
adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente
e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe,
salvar-se do perigo que o solicitava.
Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria
o seu orgulho de homem.
A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.
A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com
ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria
para bordo aprestar o _Neptuno_.
Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para
que? não tornaria a vel-a...
Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella,
sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem
nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o
poder da sua vontade.
Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do
norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria,
inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...
O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e
só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento
forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado
apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe,
extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello;
elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle
aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos.
Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu
tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo
deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.
D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras,
desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o
calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou
para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa
occasião.
Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e
das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e
risonhas nas suas _toilettes_ claras.
D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as
mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha
esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.
Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia
Theodoro, como estava a boa Camilla?
Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.
A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe,
dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais
atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e
offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos
objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á
cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.
--E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse
do que para dizer alguma coisa.
--Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido
sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo
é de ingratos...
--Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.
Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as
lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das
cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel,
numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão
insupportavel a longura da viagem.
Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que
ninguem o via, senão no palacete Theodoro?
Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e
contemplou-o com curiosidade.
Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos,
apontando o portão da sua residencia.
O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta,
admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices
da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida
e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de
formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão
enluvada?
A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se
a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que
ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O _bond_ parara
no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da
madrasta; o portão estava aberto, entrou.
Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus
pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por
uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao
fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e
simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.
Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos,
e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em
semicirculo.
Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.
--Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e
ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.
--Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do
costume.
--Chamaste medico?
--Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.
--Que Hermengarda?
--Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...
--Já sei.
--D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?
--Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.
--Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os
dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D.
Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as
arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o
adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo
cheiro.
--Que tens feito?
--Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se
eu quizer sahir?
--Effectivamente estás muito só.
--Preciso casar-me.
--Casa-te.
--Tenho medo.
--Os homens assustam-te?
--Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto!
Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.
--Sê honesta.
--Quem pode saber hoje o que será amanhã?
--Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma
indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de
calma e de reflexão!
--Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. Chama-me com
malicia--_doutora_. Todos os meus gostos são assumpto de mofa para
ella, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E ahi tens a calma
d'esta casa. Fresca tranquillidade!
--Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!
--Com quem?
--Commigo não pode ser.
--Nem tu quererias.
--Porque?
--Porque amas a Camilla Theodoro.
Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O
jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e
cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto,
pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras.
--Nega, se és capaz; disse ella.
--Não nego.
Quedaram-se mudos, contemplando-se de face.
Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe
assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio.
Catharina murmurou:
--Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella
e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo.
--Nem eu; mas a sociedade absolveu-o...
--Os homens. Ella era tão boa!
--Enganou-o.
--Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento
de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de
uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a
beijar-lhe a mão.
--Nem mesmo na hora da morte?!
--Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao
encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle
percebeu tudo. Que morte!
--Foste cruel.
--Fui humana. Tu o amavas?
--Antes? muito!
--Depois?
--Não. Mas era nosso pae...
--E ella era nossa mãe!
--Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura
entre as mulheres.
Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua.
--Foi no _Neptuno_ que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando
de tom.
--Onde havia de ser?
--E só aquella vez bastou?
--Só.
--Manda calar aquelle sabiá, Catharina!
--Deixa lá o passaro; chora.
--... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... Entrego
em Belém o commando do _Neptuno_ a outro. Tenho substituto; está tudo
combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso
que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir...
--Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor
não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella
ama o Dr. Gervasio...
--Por quem soubeste isso?
--Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, benza-a
Deus!
--Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?!
--Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento
traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada
desembainhada para todas as faltas, aquella mulher!
--De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso
assim fosse, quem poderia adivinhar?
--João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre.
--Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não
ama ninguem; não ama ninguem!
Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar,
um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que
as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e
calma, toda azul, com leves tons opalinos.
--Catharina?
--João?
--Precisava ter-te sempre a meu lado...
--Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus
filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas!
--Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella.
--Soffres muito?...
--Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. Custa
muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo!
--Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo.
Sorriram ambos, com tristeza.
Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina
tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se
com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa.
Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da
madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um
lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda
tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa
muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.
O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e
a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito
frio.
Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras,
recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em
bicos de pés.
Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se
alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais
intimo.
Elle perguntou:
--Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?
--Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria
depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim,
quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas
o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu
sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.
Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto
era na visinhança.
Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu,
ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de
separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que
em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com
sinceridade--o d'ella.