Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus
pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.
Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções
fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que
topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados
pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e
pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes,
saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.
Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e
a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a
atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle
pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.
Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para
tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como
se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino
de todas aquellas coisas.
Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do
_veston_, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho
faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas
ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho
diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos
carregadores boçaes.
Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de
subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a
grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas
flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens,
aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...
O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua
gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles
homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O
seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles
biceps de athletas.
Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não
perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e
mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.
--Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o
caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade,
olhe que é mais extrangeiro do que eu!
O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes,
e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado
á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.
E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem
relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha,
modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar
atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um
cigarrinho.
O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.
Deu-lhe cigarros.
Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia
calor. Ribas lembrou:
--Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.
--Não tenho sêde.
--É que lá para deante não ha nenhum que preste...
«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade
ao rapaz.»
Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e
papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma
occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente,
sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O
dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio
deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se
dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.
Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de
modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á
claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que
escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos
seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma
cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá
dentro como um leve zumbir de abelhas...
O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo
da sala e arrebatou a viola para dentro.
«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis
para a mesa.
Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o
medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu
conjuncto de velharias e sobejidões.
A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos,
marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas
onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de
mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande
musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle
canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada
bestialmente pelo pão.
Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr.
Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um
vapor do Lloyd.
Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra
vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes
levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.
Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o
Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um
caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino
loiro, que os outros denominavam o _Bota_--por trazer uma bota velha
suspensa de um barbante a tiracollo--, e um italianinho sardento, sem
pestanas.
--Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo
hontem no jogo ... reclamavam.
E o Ribas defendia-se, hypocritamente:
--Que jogo? Eu?!
--Sim, senhor, não se faça de engraçado!
O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o
caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.
Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de
provocações.
Que se arranjasse.
A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez,
sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada
fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de
vidros quebrados um vaso de cravos brancos.
As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.
Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou
embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas,
mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.
Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia
tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca,
o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de
sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.
Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade,
abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da
doidice--e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por
toda a sua pessoa.
E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já
esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.
No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro
de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava
ao sol.
Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de
hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e
tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande
portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem
pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as
saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.
Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos
arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas
amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.
--O senhor já passou a rua Funda!
--Nesse caso voltaremos.
E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso
um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada
de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas,
suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava,
erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não
comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços
pendurados.
Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com
orgulho:
--Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá
licença?...
--Pode ir.
Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem
macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada
em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia
parco,--não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance
dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não
errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a
meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta:
linhas de rede de _crochet_ e de costura, anzóes e agulhas, cigarros,
objectas de pescaria e cartas de A B C.
O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham
recebido bem...
Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:
--Ahi está a rua Funda.
Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de
um quadro lhe suggeriam.
Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da
Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes
espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se
negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles
velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha
uma aquarella em casa.
--É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia
galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de
janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.
O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna
extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a
filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do
armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o
Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e
aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.
--Quem procura?
Dr. Gervasio explicou-se.
--Faça o favor de entrar...
A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as
mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de
costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de
cadeira.
O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.
Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.
A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em
desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas
pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista,
depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em
ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus
trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos
homens um interesse mediocre.
Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta
descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos.
Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande
movimento no armazem...
A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns
goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.
O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o
Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha
vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...
O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e
despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro
casaco enfeitado a _crochet_.
Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o
palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.
Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir
d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina
pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo
mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha
e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.
Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam
sosinhas, ladeando precipicios.
No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras
engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e
gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.
Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade
penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia
que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais
propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma
mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica.
Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de
velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.
Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações
singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma
consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a
Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...
Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas,
corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o
mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite,
disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem
se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e
penetraria em um d'aquelles albergues.
Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a
lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.
Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta
trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em
fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.
--Bonito!
D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos
se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de
atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não
haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma
unica dobradiça perfeita.
Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada,
resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma
pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos
brutos, entre ratazanas e aguas servidas.
O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito,
D. Joanna sahir de uma casa.
Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.
Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e
em nickeis.
Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e
foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar
livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de
um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.
Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do
mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que
passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada.
Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas
ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de
esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce
tom de devoção.
Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha.
Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja.
Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as
coisas do céu!
Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth,
Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!
As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o
que a maguava.
Precisava salvar as creanças.
Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na
Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!
--Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...
--Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito
de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como
ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo
no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou
da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...
--Faz bem.
--O senhor é dos taes, que não querem crer.
--Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.
--Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o
senhor está empurrando Camilla para o inferno...
--Eu?!
--Quem mais!
--Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...
--Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que
eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não
merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que
se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu
pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados
vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes,
sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para
que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ...
emquanto que eu, pobre peccadora...
--Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal
disfarçando a sua ira; não a entendo!
Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda
dar uma volta pela Pedra do Sal.
O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle
chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham
varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do
Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos
claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela
raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha
sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a
verdade.
O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé,
as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que
ainda os franzidos da saia exaggeravam.
Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para
lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.
O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre.
Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus
sentimentos eram de especie confusa e tristonha.
Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores
não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e
cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia
ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta
não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos
homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem
segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle,
sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar
inveja aos menos afortunados...
Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu
o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos
conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu
centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro,
se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento,
aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e
mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e
barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de
lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo
promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus
adorados segredos.
Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.
Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na
esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e
um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...
V
Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.
--Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.
--Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi
outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!
--Vae pregar a outra freguezia.
--Verdade, verdade, seu pae tem razão...
--Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario
com ironia, dando o ultimo retoque á _toilette_. Nisso abriram a porta,
elle voltou-se; era a mãe.
Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os
travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a
janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.
--Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.
--Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.
--Como quizer. Sente-se, mamãe.
Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe
nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:
--Então?
--Estás nos dando serios desgostos, Mario.
--Eu?
--Sim; bem sabes de que se trata.
--Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...
--As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!
--As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.
--Enganas-te.
Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.
--Então não comprehendo.
--Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ...
dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...
--Oh! mamãe...
--Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando
a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.
Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.
--Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens
tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror
expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que
emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte
sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...
Mario mordia os beiços, brancos de raiva.
--Mamãe...
--Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a
exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo,
ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens
commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas
e mais dividas!
Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos,
nervosamente, as costas de uma cadeira.
--Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.
Mario sorriu com desdem.
--Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.
--Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um
animal.
--Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras
aspirações. Meu pae não me comprehende.
--Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!
--Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse
elle com redobrado escarneo.
--Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela
ironia do filho.
--Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante
d'ella, com raiva.
--Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua
saude, que é fraca, e da tua reputação.
--Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!
Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance
das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue
arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e
então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario
admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua
vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra
aquelle filho, até então poupado.
Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella
insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada
do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou,
destacando as palavras, que sahiam pesadas:
--A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não
teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!
--Mario!
--Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os
gostos que eu tenho?
--O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso
agora que desespera teu pae...
--Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem
cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á
familia que...
--Basta!
--Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter
evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava
dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:--odeio o Dr. Gervasio, e
dou-lhe a escolher entre mim e elle.
Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois
elle repetiu, martellando as palavras:
--Ou elle ou eu.
A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção.
Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando,
grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar
de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e
ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se
tentasse esmagar o coração offendido.
Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a
mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma
subita misericordia se apoderou d'elle.
Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de
desapparecer.
--Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!
Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi
imperceptivelmente:
--Nada...
Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa.
Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos
fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que
pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel
áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,--ah, antes ella fosse
cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das
filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças...
Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só
servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente
na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do
seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!
Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros
corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras
pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um
homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa
fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a
bocca do filho a dizer-lhe amarguras...
Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do
quarto.
Mario aconselhou:
--Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...
--Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla
levantando-se.
Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão
precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.
Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:
--Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a
para si, beijou-a na testa e, com carinho:
--Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...
Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas,
que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:
--Venha ver, mamãe!
--Que coisa linda, mamãe!
--O homem disse que foi papae que mandou!
--Adivinhe o que é!
--Diga; sabe o que é, mamãe?
A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula
ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe
aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram
como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons
avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario
sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo,
em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da
casa saberiam tambem?
--Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado
do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um
menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.
Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a
menina Maria.
--Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.
--Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!
--É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?
Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para
os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus
bibes brancos, e os cabellos soltos.
--Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as
para si.
--Eu gosto muito!
--Eu gosto mais!
--Mentira! quem gosta mais sou eu!
--Eu acho mamãe muito bonita!
--Eu tambem acho.
--E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse
bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda
assim vocês gostariam de mim?
--Muito, muito!
--Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do
Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com
medo ... que fariam vocês?
--Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a
comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...
--E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...
--Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!
Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu
sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas
defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.
A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu
violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o
grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.
Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de _ménagère_, bem
penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um
aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu
corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma
anecdota do copeiro.
Camilla teve um sobresalto.
Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro
e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel
e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na
cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua
innocencia.
--Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista
depois de collocado no meio do lago?
--Acho...
--É de muito gosto!
Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão
núas para o sereno das noites? Muito _chic_!
Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal
concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo;
queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a
opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?
--Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...
--Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é
boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh!
Dionysio! chama ahi _seu_ Mario!
Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu,
e Ruth, instando pelo almoço:
--Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem
intenção, colhendo uma _Marechal Neel_ para o peito.
Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal
disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?
Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um
trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella
encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo,
e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com
que ella achasse um trevo de quatro folhas!
Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com
ancia a folhinha fatidica.
Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se
chamou-o.
--Uê! porque não foi almoçar?!
--Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...
--Não foi se despedir d'ella?
--Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.
--Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está
ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe...
--Cantigas. Adeus.
--Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:--Sua
felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro...
--Adeusinho!
--Adeus, meu filho...
A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella
ajudara a criar desde o primeiro dia.
Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir
a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a
tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não
deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade,
verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto
que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle
poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?...
o diabo do feiticeiro deu bruxaria a _nhá_ Milla... Se _seu_ Theodoro
sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? Bocca,
fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mario
tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso lhe
dá gosto, que aproveite!
Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou
para a copa, á procura de almoço.