IV

Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus

pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.

Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções

fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que

topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados

pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e

pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes,

saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.

Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e

a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a

atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle

pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.

Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para

tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como

se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino

de todas aquellas coisas.

Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do

_veston_, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho

faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas

ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho

diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos

carregadores boçaes.

Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de

subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a

grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas

flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens,

aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...

O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua

gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles

homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O

seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles

biceps de athletas.

Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não

perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e

mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.

--Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o

caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade,

olhe que é mais extrangeiro do que eu!

O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes,

e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado

á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.

E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem

relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha,

modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar

atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um

cigarrinho.

O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.

Deu-lhe cigarros.

Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia

calor. Ribas lembrou:

--Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.

--Não tenho sêde.

--É que lá para deante não ha nenhum que preste...

«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade

ao rapaz.»

Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e

papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma

occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente,

sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O

dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio

deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se

dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.

Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de

modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á

claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que

escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos

seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma

cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá

dentro como um leve zumbir de abelhas...

O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo

da sala e arrebatou a viola para dentro.

«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis

para a mesa.

Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o

medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu

conjuncto de velharias e sobejidões.

A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos,

marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas

onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de

mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande

musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle

canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada

bestialmente pelo pão.

Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr.

Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um

vapor do Lloyd.

Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra

vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes

levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.

Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o

Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um

caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino

loiro, que os outros denominavam o _Bota_--por trazer uma bota velha

suspensa de um barbante a tiracollo--, e um italianinho sardento, sem

pestanas.

--Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo

hontem no jogo ... reclamavam.

E o Ribas defendia-se, hypocritamente:

--Que jogo? Eu?!

--Sim, senhor, não se faça de engraçado!

O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o

caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.

Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de

provocações.

Que se arranjasse.

A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez,

sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada

fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de

vidros quebrados um vaso de cravos brancos.

As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.

Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou

embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas,

mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.

Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia

tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca,

o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de

sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.

Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade,

abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da

doidice--e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por

toda a sua pessoa.

E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já

esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.

No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro

de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava

ao sol.

Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de

hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e

tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande

portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem

pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as

saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.

Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos

arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas

amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.

--O senhor já passou a rua Funda!

--Nesse caso voltaremos.

E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso

um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada

de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas,

suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava,

erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não

comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços

pendurados.

Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com

orgulho:

--Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá

licença?...

--Pode ir.

Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem

macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada

em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia

parco,--não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance

dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não

errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a

meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta:

linhas de rede de _crochet_ e de costura, anzóes e agulhas, cigarros,

objectas de pescaria e cartas de A B C.

O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham

recebido bem...

Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:

--Ahi está a rua Funda.

Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de

um quadro lhe suggeriam.

Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da

Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes

espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se

negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles

velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha

uma aquarella em casa.

--É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia

galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de

janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.

O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna

extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a

filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do

armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o

Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e

aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.

--Quem procura?

Dr. Gervasio explicou-se.

--Faça o favor de entrar...

A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as

mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de

costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de

cadeira.

O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.

Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.

A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em

desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas

pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista,

depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em

ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus

trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos

homens um interesse mediocre.

Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta

descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos.

Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande

movimento no armazem...

A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns

goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.

O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o

Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha

vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...

O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e

despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro

casaco enfeitado a _crochet_.

Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o

palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.

Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir

d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina

pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo

mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha

e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.

Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam

sosinhas, ladeando precipicios.

No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras

engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e

gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.

Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade

penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia

que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais

propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma

mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica.

Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de

velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.

Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações

singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma

consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a

Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...

Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas,

corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o

mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite,

disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem

se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e

penetraria em um d'aquelles albergues.

Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a

lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.

Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta

trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em

fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.

--Bonito!

D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos

se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de

atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não

haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma

unica dobradiça perfeita.

Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada,

resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma

pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos

brutos, entre ratazanas e aguas servidas.

O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito,

D. Joanna sahir de uma casa.

Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.

Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e

em nickeis.

Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e

foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar

livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de

um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.

Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do

mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que

passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada.

Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas

ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de

esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce

tom de devoção.

Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha.

Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja.

Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as

coisas do céu!

Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth,

Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!

As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o

que a maguava.

Precisava salvar as creanças.

Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na

Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!

--Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...

--Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito

de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como

ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo

no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou

da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...

--Faz bem.

--O senhor é dos taes, que não querem crer.

--Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.

--Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o

senhor está empurrando Camilla para o inferno...

--Eu?!

--Quem mais!

--Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...

--Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que

eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não

merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que

se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu

pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados

vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes,

sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para

que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ...

emquanto que eu, pobre peccadora...

--Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal

disfarçando a sua ira; não a entendo!

Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda

dar uma volta pela Pedra do Sal.

O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle

chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham

varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do

Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos

claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela

raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha

sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a

verdade.

O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé,

as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que

ainda os franzidos da saia exaggeravam.

Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para

lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.

O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre.

Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus

sentimentos eram de especie confusa e tristonha.

Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores

não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e

cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia

ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta

não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos

homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem

segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle,

sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar

inveja aos menos afortunados...

Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu

o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos

conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu

centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro,

se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento,

aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e

mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e

barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de

lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo

promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus

adorados segredos.

Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.

Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na

esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e

um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...

V

Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.

--Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.

--Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi

outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!

--Vae pregar a outra freguezia.

--Verdade, verdade, seu pae tem razão...

--Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario

com ironia, dando o ultimo retoque á _toilette_. Nisso abriram a porta,

elle voltou-se; era a mãe.

Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os

travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a

janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.

--Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.

--Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.

--Como quizer. Sente-se, mamãe.

Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe

nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:

--Então?

--Estás nos dando serios desgostos, Mario.

--Eu?

--Sim; bem sabes de que se trata.

--Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...

--As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!

--As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.

--Enganas-te.

Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.

--Então não comprehendo.

--Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ...

dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...

--Oh! mamãe...

--Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando

a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.

Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.

--Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens

tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror

expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que

emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte

sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...

Mario mordia os beiços, brancos de raiva.

--Mamãe...

--Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a

exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo,

ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens

commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas

e mais dividas!

Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos,

nervosamente, as costas de uma cadeira.

--Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.

Mario sorriu com desdem.

--Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.

--Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um

animal.

--Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras

aspirações. Meu pae não me comprehende.

--Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!

--Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse

elle com redobrado escarneo.

--Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela

ironia do filho.

--Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante

d'ella, com raiva.

--Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua

saude, que é fraca, e da tua reputação.

--Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!

Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance

das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue

arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e

então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario

admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua

vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra

aquelle filho, até então poupado.

Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella

insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada

do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou,

destacando as palavras, que sahiam pesadas:

--A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não

teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!

--Mario!

--Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os

gostos que eu tenho?

--O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso

agora que desespera teu pae...

--Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem

cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á

familia que...

--Basta!

--Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter

evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava

dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:--odeio o Dr. Gervasio, e

dou-lhe a escolher entre mim e elle.

Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois

elle repetiu, martellando as palavras:

--Ou elle ou eu.

A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção.

Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando,

grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar

de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e

ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se

tentasse esmagar o coração offendido.

Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a

mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma

subita misericordia se apoderou d'elle.

Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de

desapparecer.

--Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!

Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi

imperceptivelmente:

--Nada...

Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa.

Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos

fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que

pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel

áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,--ah, antes ella fosse

cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das

filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças...

Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só

servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente

na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do

seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros

corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras

pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um

homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa

fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a

bocca do filho a dizer-lhe amarguras...

Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do

quarto.

Mario aconselhou:

--Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...

--Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla

levantando-se.

Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão

precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.

Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:

--Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a

para si, beijou-a na testa e, com carinho:

--Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...

Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas,

que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:

--Venha ver, mamãe!

--Que coisa linda, mamãe!

--O homem disse que foi papae que mandou!

--Adivinhe o que é!

--Diga; sabe o que é, mamãe?

A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula

ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe

aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram

como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons

avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario

sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo,

em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da

casa saberiam tambem?

--Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado

do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um

menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.

Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a

menina Maria.

--Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.

--Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!

--É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?

Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para

os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus

bibes brancos, e os cabellos soltos.

--Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as

para si.

--Eu gosto muito!

--Eu gosto mais!

--Mentira! quem gosta mais sou eu!

--Eu acho mamãe muito bonita!

--Eu tambem acho.

--E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse

bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda

assim vocês gostariam de mim?

--Muito, muito!

--Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do

Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com

medo ... que fariam vocês?

--Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a

comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...

--E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...

--Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!

Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu

sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas

defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.

A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu

violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o

grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.

Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de _ménagère_, bem

penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um

aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu

corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma

anecdota do copeiro.

Camilla teve um sobresalto.

Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro

e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel

e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na

cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua

innocencia.

--Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista

depois de collocado no meio do lago?

--Acho...

--É de muito gosto!

Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão

núas para o sereno das noites? Muito _chic_!

Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal

concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo;

queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a

opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?

--Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...

--Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é

boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh!

Dionysio! chama ahi _seu_ Mario!

Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu,

e Ruth, instando pelo almoço:

--Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem

intenção, colhendo uma _Marechal Neel_ para o peito.

Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal

disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?

Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um

trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella

encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo,

e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com

que ella achasse um trevo de quatro folhas!

Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com

ancia a folhinha fatidica.

Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se

chamou-o.

--Uê! porque não foi almoçar?!

--Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...

--Não foi se despedir d'ella?

--Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.

--Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está

ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe...

--Cantigas. Adeus.

--Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:--Sua

felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro...

--Adeusinho!

--Adeus, meu filho...

A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella

ajudara a criar desde o primeiro dia.

Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir

a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a

tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não

deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade,

verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto

que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle

poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?...

o diabo do feiticeiro deu bruxaria a _nhá_ Milla... Se _seu_ Theodoro

sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? Bocca,

fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mario

tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso lhe

dá gosto, que aproveite!

Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou

para a copa, á procura de almoço.

A fallencia · 第 10 / 36 题