D. Itelvina continuou:

--Joanninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça

tudo... Ella não tem apparecido por lá?

--Não, senhora...

--Ruth porque não veio?

--Ficou dando licção. Ella tocou no concerto e foi muito festejada.

--Ha de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar

um remendo ou fazer um vestido.

--Graças a Deus, ella não precisa d'isso!...

--O futuro o dirá...

--Credo!

--Pois sim. Cada vez bemdigo mais a educação que minha mãe nos deu.

Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas...

--Tá hi! e D. Joanna não deu p'ra outras coisas?

--Ella sempre foi religiosa, mas depois de viuva refinou! E ainda se

queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas!

--Coitada!

--Minha filha! ella vae d'aqui a pé a São Francisco, ao Carmo, á

Penitencia, a S. Bento a qualquer egreja da cidade!... Ás cinco horas

já está nos Capuchinhos; e á tarde aqui na egreja do hospital ella

canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos

acuda!

Alguem batia á porta, e D. Itelvina, tendo espreitado pela janella,

voltou-se apressada e foi reaccender a lamparina do oratorio.

Sancha appareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e,

despendurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na

sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.

A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as

paredes núas e desbotadas da sala. Pela janella aberta via-se parte de

um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um

trecho de mar muito azul.

D. Joanna entrou, arfando de cançaço, e sentou-se logo na primeira

cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro

e os rosarios, e sumiu-se, sem ter descerrado os labios nem enxugado os

olhos vermelhos e inundados.

--Hoje a egreja estava repleta; fallou monsenhor Nuno ... foi um grande

sermão, de muito proveito e de muita fé! disse D. Joanna, e depois de

uma pausa: Ó Noca! Milla não vae nunca ás solemnidades religiosas?

--Vae todos os domingos á missa.

--Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos.

A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar ... estou com as

pernas cada vez mais inchadas...

--Isso é scisma, resmungou D. Itelvina, retirando-se para o interior.

Noca aconselhou logo um remedio prodigioso, benzido com cinco cruzes.

Ella sabia d'essas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a

chacara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras;

conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais subtis e

applicava-os acompanhando-os com orações especiaes dos santos

martyres. Era sempre a Noca quem avisava ás pessoas da familia qual o

melhor dia para cortar o cabello, para fazer uma viagem ou para tomar

qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe

contavam, com palavras de convicção inabalaveis. Criara todos os

filhos de Milla, desde o Mario até á Bijú, a pequena mais nova, já

morta.

Quando ella descia o morro, as creanças queixaram-se de fome e

confessaram que não queriam voltar a visitar aquellas tias, que não

lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!

Na praça do Castello, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de

novo, brilhando ainda nas tijellas lavadas e no barro das panellas e das

moringas á venda, e comprou fructas para as duas meninas.

Portuguezas, de saias curtas e grandes arrecadas de oiro, iam e vinham,

parando umas á porta, com pimpolhos ao collo, e outras fallando alto,

para dentro. A dona do negocio respondia a todos, conversando em ar de

mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.

--A senhora vem morar pr'a qui?

--Não; vim fazer uma visita.

--A quem, inda que mal pergunte?

--Ás senhoras Rodrigues; conhece?

--As duas velhotas da travessa de S. Sebastião?

--Essas mesmo.

--Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou

conter-se, abalou a fallar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram

muito conhecidas no bairro. Diziam que D. Itelvina passava horas da

noite excavando o quintal, á procura dos afamados thesouros guardados

pelos jesuitas. Os visinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra

do pateo, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança.

A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus

haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que

ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe

comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!

Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para

a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe

puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.

--Uê! que é que você quer?

--Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio

uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda.

--Que favor, gente?

--Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o

dinheiro que offerecia á mulata.

--Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!...

--P'ra nada! faça esta esmola...

E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro,

rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para

casa.

As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito

quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos

Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração.

Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a

baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu _phaeton_,

que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar

os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas

irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama.

O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:

--Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da

mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!

O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito _chic_, e ella

sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle

rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera

tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora

não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério...

Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus

pensamentos:

--Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro

foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o

que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração

do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si...

Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que

percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem

calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de

contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo

restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia

nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella

fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a

moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto,

havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.

Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e

os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á

mãe.

Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata:

--Vamos, Noca!

--Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...

A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para

as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco

Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher

mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas

visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque

era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava

sempre escancarado.

Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de

Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto

da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de

se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os

gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que

mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.

A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava

para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia

acceitavam, com agrado, num sorriso...

Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas

gordas estrondearam no jardim.

--É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e

correndo para fóra.

Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta,

quando elle passou pelo corredor.

Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe

a mão, luminosa de pedrarias.

Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:

--Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este

brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido...

Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito

de desviar a attenção.

--Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão.

--Brilha tanto!

--É do Cabo, muito amarello.

--Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.

--Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de

um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena

que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem.

--Só.

--Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.

--Versos?

--Não. Um romance.

--Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma

monotonia...

Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos

resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia

maravilhoso! depois, voltando-se:

--O livro?

--Está aqui.

--Já leu?

--Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.

--Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras

perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas

responsaveis por tudo--como se não pagassemos caro a felicidade que

fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os

castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não

poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me

torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do

fim.

--Não tenha remorsos; o nosso não acabará!

--Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o primeiro

anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a mulher,

por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que não

sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é commettido? Ha

sempre um vestigio _da outra_, que se mostra em um gesto, em um perfume,

em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se com as compensações

que nos trazem...

--Isso tudo é vago e abstracto.

--Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das

amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é

isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me

pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo

amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te

amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só

para mim!

Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de

ciume. Passado um instante de silencio, murmurou:

--É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. Bem,

levarei o livro. Adeus.

--Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido,

illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa.

Ensine-me a fallar, Gervasio.

--Então, diga lá:--amo-te!

E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente.

Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no

jornal eram do capitão Rino.

--São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.

--Ih! então elle é muito rico?

--É. Vão brincar.

As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico

ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito

branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha,

faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.

Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o

amaria a elle, em toda a sua vida.

Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a

porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e

Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae.

Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma

entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por

aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a

todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis

quando menos se esperava.

Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada.

Gervasio ergueu-se.

--Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas

na rua do Ouvidor...

--Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por

sua causa! E ella vem perto!...

--Tontinha! e não sou eu mais velho?

--Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você...

--Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos

com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não

acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o

Lelio.

Camilla acompanhou-os ao terraço.

--Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro.

--Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me...

--Ella é estudiosa...

Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim;

depois disse, voltando-se indignado para Camilla:

--O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos

canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem

instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez

acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença.

Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz

idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo

ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais,

folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem

guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?

Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o

medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa...

Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico,

bem installado, mas muito mettido comsigo.

Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco

Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha

que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança,

mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas

cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a

menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que

tratou tambem de fortalecer Mario.

Camilla dizia então em extase, ao marido:

--Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra

victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra

no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia

ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa

mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a

morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As

gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da

mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras

insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu

pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A

evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por

sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que

essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus

gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com

redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que

uma obra sua.

Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle

lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas,

inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e

harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de

maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem

escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço,

obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua

alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo

delicado--apaixonou-se por ella.

Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a

solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o

medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor

d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura.

Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias

mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se

vencer.

Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma

lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa

salvaguardava-se nessa crença.

Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da

familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe,

com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento

de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma

casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das

habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de

dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas.

Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na

enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade.

Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente

em casa o ouvia com attenção.

Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar

alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio.

Dias depois ella dava os últimos retoques á sua _toilette_, em frente

ao espelho, quando o marido entrou.

Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar:

--Por que é que você veio tão cedo?

--Por duas razões...

E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se,

indagando com interesse:

--Você está doente? Diga!

--Não tenho nada filha, descança.

Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho.

--Então que motivos são esses?

--O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou

hoje uma perna.

--O velho?

--Sim.

--Coitado! como foi?

--Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas

quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais

serio.

Sem afastar do rosto o _pompon_ do pó de arroz, Camilla interrogou com

certa indifferença:

--Que é?

--Trata-se do senhor seu filho.

--Meu só?! tem graça...

--Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra,

o tal senhor!

--Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?!

--Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das

patifarias do rapaz és tu.

Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera:

--Hein?!

--Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu

filho!

--Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla,

olhando para o marido de alto.

Elle continuou:

--É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar

assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e

com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?!

--É a mocidade...

--Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.

--Trabalhar! Mario tem só dezenove annos!

--Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume!

--Mas por que não lhe falla você?

--Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um

desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não

lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o

meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem

sei, se não me tirasses toda a força moral.

--Eu?!

--Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o

resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...

--Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma

acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o

aconselhe a deixar a tal mulher?...

--Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não

posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os

caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho,

ou o mando para a Marinha.

--Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho!

--Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não

seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros

filhos!

--Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito...

--Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está

bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As

Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth.

--Que me importam a mim as Gomes!

Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por

entre os vidros, informou com voz amavel:

--Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a

Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da

procedencia.

--Que procedencia?

--Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio...

Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso...

--Você lembrou-se.

--Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a

Nina ... bom casamento!...

Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de

perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ...

pois sim!

--Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do

Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á

gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe

damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal

sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam

geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e

que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a

ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já.

Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes

da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um

movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo:

--Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho...

Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as

ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças,

eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou

bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e

escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como

culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance

da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e

vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos.

O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico,

emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras.

Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para

a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas

farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella!

já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se

via!

--Cara senhora, então, o amigo Gomes?

--Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina.

--Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se

queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A

mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada

d'elle não vale nada!

Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr.

Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim:

--Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de

guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O

homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses

apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora

ao amigo que amanhã vá lá vêl-o.

--Perfeitamente. Onde mora?

--Na rua Funda, tenho aqui o numero...

Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis.

--Rua Funda? Onde é isso?

--É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.

Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a

escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.

As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não

verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e

macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes

perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a

passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre

a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera.

Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos

cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos

dedos estrellados de anneis.

Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar

pelo criado a bandeja de prata com o vermouth.

--Por que não subiram?

--Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella está

crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...

--Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não

toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não

imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina!

Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas

arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz

que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr

de vestidos compridos. Que horror!

--Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze

annos...

--Quatorze ... quasi quinze! mas não parece.

--Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação

tem deveres...

Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito

perfumada.

--Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa

colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido

buscal-a, a senhora não a teria agora...

--Ahi está...

D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e

depois, voltando-se:

--Camilla, você já comeu geleia de manga?

--Não me lembra...

--Pois é gostosa e facil de fazer; olhe...

Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para

ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as

palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de

longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao _Neptuno_, da esquerda,

ou um--_expreme-se_ e põe-se na peneira--da direita.

Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se

d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de

sentimento.

Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer

comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava:

--A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal.

A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho

e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,--é

mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa!

O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou

Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle

conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica,

de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita

gente boa.

Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se

na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante.

Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças

da visinhança, as Bragas.

Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os

joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle

estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos,

interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E

foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da

rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama

Torres, com elogio e assombro.

Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça

picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.

O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao

principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os

olhares trocados entre Camilla e Gervasio.

Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão

evidente?

Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo.

Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem

abaixar os olhos:

--Que parecerá a terra, vista de lá...?

--Uma gotta de luz...

--Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas hoje

estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria

embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave!

--É Vesper...

--Linda, linda, linda!

--Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está

limpido hoje! Maravilhosa noite!

--Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro.

Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro?

--Porque não tem astros.

--Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu.

--Por que?

--Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para

que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.

O capitão sorriu.

--Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...

--Como as corujas.

--Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é

bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me

levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar

para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho

que estou voando ... e é tão bom!

O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que

lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a

lua e a côr das estrellas.

Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava

á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o

cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de

uma curiosidade insatisfeita.

Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em

quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de

Camilla.

Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e

continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo

illuminado.

Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha

requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para

uma valsa.

--Quem toca?

Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.

Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo

do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o

amigo negava, affirmando o tino especial do outro.

Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das

moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros,

atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas

rodopiaram pela sala.

Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão.

D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote

gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras,

prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas,

como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando

o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada,

recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e

as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo

fechar as janellas da sala.

O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á

espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da

mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce,

ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos.

Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se

não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.

Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto

d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo

gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo

brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e

partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da

arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido

fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no

terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma

sonata harmoniosa e larga.

Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella

musica e naquella noite.

Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o

vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor

feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para

não ver...

A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado...

Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso.

Camilla apontou-a com o dedo.

A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente

Theodoro gritou para cima:

--Não são horas de musica. Para a cama!

Depois, em um murmurio satisfeito:

--O diabo da pequena tem sentimento, hein?

--Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem

inspiração!

--Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond

doutor!

O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo

a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar

dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a

cidade.

Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca,

que vigiava o somno de Rachel e de Lia.

--Mario já entrou, Noca?

--Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario

ficava lá...

--Lá?... Em casa da tal Luiza?!

--É...

--Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que

Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga

que elle está dormindo.

--E se elle amanhã perguntar a Dionysio?

--Você previna primeiro o rapaz.

--Tambem não sei p'ra que _seu_ Mario faz assim; só p'ra metter a

gente em embrulhos...

--Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei

conselhos...

--Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico

esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!

--Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca!

Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado

e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a

caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:

--Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom

dar-lhe uma pastilha de antipyrina...

--Sim, senhor, eu vou vêr...

Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a

cabeça.

A fallencia · 第 9 / 36 题