Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava
ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da
Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do
morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D.
Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais
sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada
para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem
soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe
ministrava.
Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes,
conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos:
uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o
prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para
a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha.
Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um
canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras
e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um
tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo
desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas
vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na
lenha.
D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria
fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse
todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.
A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe
importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do
seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella
pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades
capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de
uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello
grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos
encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés
largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha,
ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um
rosario de ambar benzido pelo bispo.
D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em
frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o
parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios
finos.
A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz
de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como
se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.
Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que
confraternisa as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se
mutuamente, guiadas pelo habito.
Quando Noca bateu á porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que
haviam de ser da Sancha, a negrinha orphã que D. Itelvina explorava nos
arranjos da casa.
Abriu-se uma janella com bulha impaciente e appareceu a cara de D.
Itelvina, indagando de quem batia.
--Ah!... é você, Noca! espere um pouco, eu já vou.
Dentro, a mulata explicou:
--Nhá Milla mandou fazer uma visita e saber das senhoras como estão ...
ella não pôde vir, porque...
--Já sei. Isto é muito alto ... se fossem as escadas do Lyrico, muito
que bem!... casa de pobres...
--Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até
dizem todos o contrario...
--Dizem? mentiras! mentiras só... Como vae seu Theodoro?
--Muito bem.
--Excellente homem; aquillo é que foi sorte grande, hein Noca?
--Foi, sim, senhora; elle é bom ... tem as suas impertinencias ... mas
a gente já sabe que é do genio...
--Qual o quê! Milla deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já
não é facil uma moça pobre e sem protecção encontrar um casamento
assim!
--Isso é verdade... Ella tambem é muito boa.
--Você se lembra de quando elles moravam na Lapa, que até você levava
ás vezes comida da casa de pasto para dar ás meninas?
A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não
fôra só da Lapa que ella levava os restos dos jantares da casa de
pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castello, com a
trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Milla e das irmãs,
então hospedadas em casa de D. Itelvina.
--De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das creanças.
--De uma viuva que já morreu, emendou Noca, impellindo as duas
creanças para o quintal. Vão ver a vista ... vão ver os signaes dos
vapores ... dizia ella.
D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não
exclamasse:
--Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de
creanças! Milla teve sempre propensão para o desperdicio... Bonitos
aquelles vestidos! Onde os compraram?
--Vieram de Paris...
--Uhm ... não haviam de ser baratos ... aquillo é seda, não é?
--É, sim, senhora. D. Joanna sahiu?
--Já se sabe! anda pelas egrejas... Se não fosse eu, não sei como
havia de ser!...
Noca reparou, olhando para a alcova do oratorio, aberta para a sala, que
a lamparina estava apagada.