Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance
popular.
A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem,
donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento
dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu
pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven
Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas
terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de
molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por
ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.
Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia
por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o
convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam
ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do
namorado Britaldo.
Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na
cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque
do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o
adormentou, que parecia acabado.
Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não
sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo
deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor
personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella
Iria.
Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos,
jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando
ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a
sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer
todos os signaes da mais apparente maternidade.
Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os
insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se
julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez
de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito
mais ardente, toda a antiga paixão.
Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam
inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.
Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta
resiste a tudo, forte na sua virtude.
Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que
jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com
Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a
occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.
Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.
Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio,
que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua;
e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu
sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua
honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.
Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do
convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do
caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com
todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar
á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram
cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á
maravilha pelas mãos dos anjos.
Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta,
mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se
que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da
tunica, voltaram todos para a sua terra.
As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se
abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta
Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio
pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o
mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o
benditto sepulchro.
Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso
e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem
os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo;
quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de
que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a
toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam
alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.
O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando
viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima
d'ellas.
Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de
Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.
Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos
peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu
leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o
anno até começarem as cheias.
Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.
A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples,
conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um
cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por
horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o
correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe,
pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a
annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada
no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é,
dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á
sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.
E acabou a historia.
Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que
augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente
bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma
desprezar.
É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para
qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas
antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer
estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente
se mostram e se deixam conhecer.
A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle,
d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente
sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e
com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que
ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de
toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles
poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo
tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é
porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade
para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente
nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até
agora.
A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas
chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a
fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo
allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio
que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não
constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da
palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como
fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais
commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito
syllabas sôbre si.
Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que
muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga
original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes,
em toda a parte.