Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram
moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas
viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e
reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e
litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta
Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?
Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes
spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás
almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida
não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a
insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo
porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o
coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio.
Infeliz do que chegou a esse estado!
Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer
tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua
alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron,
Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e
Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a
imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.
Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver
activamente, cansa-a e consomme-a.
Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto
aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista
do Tejo e das suas margens deante dos olhos.
Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que
d'outro modo não sei escrever.
Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas
Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse,
marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e
larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua
fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..
Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade,
ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses
livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.
So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão;
porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em
tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.
Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica
parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de
recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados
primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal.
Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o
magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não
extendesse para apagar as memorias da creatura.
Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por
nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro,
ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para
brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez
papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.
Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada
administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em
Santarem.
As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem,
ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas
degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos
concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.
Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço
chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.
Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais
óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o
Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a
rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui
nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras
da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a
madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de
romanos e celtas.
Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de
arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances
populares. Ha um de Sancta Iria.
Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria
das legendas monasticas?
A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de
muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
em geral é a que mais se deve seguir.[2]
Stando eu á janella co'a minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
Passa um cavalleiro, pedia pousada;
Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
--'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada...
Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
Que a um cavalleiro que pede pousada
Se fecha ésta porta á noite cerrada.'
Roguei e pedi--muito lhe pezava!
Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
Poucas as pallavras, que mal me fallava,
Mas eu bem sentia que elle me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
Dei-lhe as boas noites, não me replicava:
Tam má cortezia nunca a vi usada!
Lá por meia noite que me eu suffocava,
Sinto que me levam co'a bôcca tapada...
Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre á desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
Callei-me e chorei--elle não fallava.
D'alli muito longe que me perguntava
Eu na minha terra como me chamava.
--'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me attentava...
Horas esquecidas commigo luctava;
Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange... alli me matava,
Abriu uma cova onde me interrava.
No fim de sette annos passa o cavalleiro,
Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
--'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.'
--'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
Que me degollaste que nem um cordeiro.'
Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas
deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que
não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de
sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é
inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.
Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto
é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações
ecclesiasticas.
O caso é grave, fique para novo capitulo.