Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e
Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As
salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de
Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos
verdes.
Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa
viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.
A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que
so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas
éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem
gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o
presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam
insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.
Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet
sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia.
Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, não
morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de
existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica
escrupulo.
Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre
sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_
d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e
janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.
E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta
designação de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero
architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da
architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos
habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas?
Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o
cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda
éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e
grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida
imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
mysterios da edade-média.
Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um
pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande
antiguidade. Não me fez esse effeito a mim.
Chegámos á porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista.
É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao
rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca
de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que
a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes
taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente
affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e
occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam
affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação
talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os
moiros faziam da planta para esse fim.
Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos
antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico.
Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir
depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços
de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos,
póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.
Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho
saudades--o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de
desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle
que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de
agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?
Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos
capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e
da sua familia, nos disse:
'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia
da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do
Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o
Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta
historia.'
'Seja' respondemos nós.
Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas
medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou
sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a
terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não
morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao
tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades
materiaes em que vivemos.
Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho
eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.
Escuta.