Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado
no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora
confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se,
como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella
o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia
transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da
mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi
concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre
namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição
actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a
duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás
amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e
porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida
historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e
imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar
namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas
epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se.
Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes
foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz
supremo de que se não appella nem aggrava ninguem.
Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se
extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu
último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.
Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu
pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa
molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de
coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa
senão defender-me como quem tem razão e justiça por si.
Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de
Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam
elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado
apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir,
espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma
acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão
á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o
sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás
carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo
generosidade e benevolencia outra vez.'
Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo,
elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica
indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano
é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento
sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja
e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a
razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras
philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao
coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se...
Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude
d'alma é impossivel.
O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.
Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua
mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal,
e Deus me livre d'elle.
Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja
este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem
namorados sempre.
O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o
privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser
desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!
Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens
tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que
ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho
que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança--um filho no
berço e uma mulher na cova?..
Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so
alimentar-se a vida do coração?
--Póde sim.
--Não póde, não.
--Estão divididos os suffragios: peço votação.
--Nominal?
--Não, não.
--Porquê?
--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a
conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e
nomeadamente no mundo...
Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos
sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias
extraordinarias. Não é assim?
Pois o mesmo farei eu.
E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre
assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste
que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não
podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:
Reconheço o queimar da chamma antiga,
Agnosco veteris vestigia flammae;
pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a
certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não
passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha
historia é ésta.
Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o
ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca
sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava.
Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo
cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos
longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas;
toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um
geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma
brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um
escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava
sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente
parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da
_Madonna della Sedia_.
Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar
aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro
remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados
pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.
Tornemos á velhinha.
Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma
dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.
Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
Setubal.
O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao
movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o
movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous,
tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias
se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.
Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar
do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez
em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas
a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
tornava a andar.
Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o
poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para
a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e
o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das
saphyras, parecia desbotado e sem lume.
O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou
tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da
casa:
--'Joanninha?'
Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez,
que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de
dentro:
--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'
--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
podéres. É a meada que se me imbaraçou.'
A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a
providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os
que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.