De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que
aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne
próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu
Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece
uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas
monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos
peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos
pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á
vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a
conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
conversação.--Quem era Frei Diniz.
--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse
Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha.
Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e
tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o
tornou a intregar.
A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos
gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de
velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'
Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira
suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:
--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta!
E Elle te abençoe tambem, filha!'
--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de
merendar'.
--'Pois merendemos'.
Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a
com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho,
chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a
dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e
quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento
socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.
As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma
alteração.
Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e
expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis
annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções
toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade
graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida
companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.
Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada
ou quasi nada.
Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam
delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo.
E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que
parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a
hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de
toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.
Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco
terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera
que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.
E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de
um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por
artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle
rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o
vento... Alli dormiam as paixões.
Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para
increspar a superficie espelhada do mar.
Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das
paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
d'aquella face tranquilla.
O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava
nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma
gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.
Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que
são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte
fazer ás suas creaturas femeas.
Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza
d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em
preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e
mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.
Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes,
a _toilete_--este é um defeito; bem sei.
Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um
baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar,
até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro
quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos
sustos e cuidados custou!
Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que
deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de
confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita
e completa abdicação de toda a vontade propria!
Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha
Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer:
canudo inflexivel, mulher inflexivel.
Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem
que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu
não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas
monstruosidades.
Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e
interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos
á minha Joanninha.
Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos
anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e
inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena,
estreita e do mais perfeito modêlo.
As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de
extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
da face.
Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta
harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e
ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da
sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem
espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os
dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos
ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem
de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não
d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde
mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram
verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido
quilate.
São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.
Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella
espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a
heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que
soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca,
nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha
salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes
olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu
catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha
fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente
se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera
e lealmente pretos.
Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição
n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade
pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação
inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim
pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam
carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança
de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade
eram absorvidas.
Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido
azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas
traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da
perna admiravel.
Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca
onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto
macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a
pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da
contempladora.
A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se
distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as
mãos o novêllo da sua meada:
--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'
--'Conversemos, avó.'
--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas
quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda
mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'
Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.
A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu
beija-la, depois disse:
--'Bem vi, Joanninha!'
--'O quê, minha avó? que viu?'
--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para
sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que
me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh
filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou
costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'
--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó
n'esse estado, eu n'esta edade, e...'
--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu
sinto passos na estrada vê o que é.'
--'Não vejo ninguem.'
--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'
Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas
oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado
em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe
na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.
Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de
Santarem.