Sete annos de glacial solidão giaram sobre a alma de Pinto Monteiro. As
portas da sua casa raro se abriam. Concordemente se disse que o cego
estava pobre pela terceira vez. Era verdade: estava pobre--vendia o
restante das joias da mulher.
Ás vezes entrava n'aquella casa a Narcisa do Bravo, sentava-se á mesa
ainda abundante do padrinho, e matava a fome. A irmã do cego
debulhava-se em pranto a confrontar aquella desgraçada de rosto empolado
com esfoliações rubras á formosa noiva de Custodio da Carvalha, á gentil
amazona por amor de quem alguns fidalgos de Guimarães terçaram as suas
badines de caoutchouc na romaria de S. Torquato.
Sobre todas as famas repellentes, ganhara Narcisa, com legitimo direito,
a de ladra, e ladra á mão armada. Os mais queixosos eram os que lhe
colheram as flôres já outoniças da belleza, e a regeitaram com a
brutalidade do tedio. Narcisa sahia-lhes de rosto nas concavidades das
congostas escuras, e abocava-lhes á cara uma pistola de dois canos; e
elles, com um fingido sorriso de piedade despresadora, atiravam-lhe a
forçada esmola. Outras vezes, escalava as janellas das alcôvas
conhecidas, e entroixava os bragaes como se inventariasse o espolio de
um esposo fallecido. E temiam-na como a um scelerado disposto a vender
cara a vida, por que ella deixava entrever a coronha da pistola entre os
atacadores do collete escarlate, e, se sofraldava as saias, quando
saltava as poldras dos ribeiros, mostrava a faca de ponta atravessada na
liga. Os regedores das freguezias que ella frequentava tinham ordem de a
capturarem; mas o mêdo, predicado pacifico d'estes magistrados, era a
resalva de Narcisa.
O cego de Landim não ignorava a desastrosa sahida de sua afilhada;
conselhos, n'aquella extremidade, eram perdidos; censuras, a si proprio
as fazia o cego por que encetára a perdição d'aquella moça, tirando-a da
arribana de seu pae, para a crear nas regalias da abundancia, sem
vislumbres de religião, em plena liberdade de se viciar com as
travessuras e gaiatices que lhe festejavam. Narciza era talvez uma das
polés que torturaram o cego nas impenetraveis agonias dos seus ultimos
seis annos.
Contava um rapazinho, creado de Pinto Monteiro, que ouvira, uma vez, sua
ama dizer a Narciza que ia mandar vender dois cobertores porque não
havia dinheiro em casa; e que Narciza lhe dissera que não vendesse os
cobertores, por que ella ia vender a sua pistola por meia moeda. Não
tenho outro lance generoso que possa referir de Narciza do Bravo.
Quando este caso passou, entrava Antonio José Pinto Monteiro nos
paroxismos da morte. A 28 de novembro de 1868, pelas dez horas da manhã,
disse á irmã que lhe accendesse um cigarro, e abrisse as janellas, que
sentia grande calor e ancia. Sentou se no leito, e inspirou
consoladoramente a columna de ar frigidissimo que lhe bateu no rosto, ao
abrir da janella. Pediu uma chavena de café, e, emquanto a irmã o fazia,
Narcisa veiu para a beira do padrinho.
--Quem é?--perguntou o cego.
--Sou eu, padrinho. Está melhor?
--Vou estar melhor, filha. Isto vai acabar. Quando eu morrer, faze
companhia á minha pobre irmã...
Narcisa chorava, beijando a mão do cego, que se estorcia nas dôres da
cystite. Ao cahir da noite, a prostração, a febre, os soluços, e o frio
das extremidades diagnosticavam a gangrena. No 1.^o de dezembro, o cego
de Landim expirou reclinado ao seio de Narciza, que se sentara no leito
para o amparar nos derradeiros arrancos.
As suas ultimas palavras, no delirio que precedeu a morte, encerram toda
a moralidade d'esta biographia:
--Eu tinha tres filhos que criei com tanto amor... Que é d'elles?...
E mais nada.
Os tres filhos do cego de Landim affrontar-se-hiam com o nome de seu
pai? Para ter um peito amigo que o amparasse na agonia, foi mister que a
sociedade remessasse para dentro da alcova do moribundo uma mulher
perdida. Mas, lá ao longe, no Brazil, houve lagrimas saudosas no coração
de uma filha. Pois quando é que Deus consentiu que uma filha as não
chorasse... n'um epitaphio?