Os dois predios que a viuva possuia na rua da Quitanda valiam quarenta
contos de réis fracos; as suas joias, dádivas de tres maridos, eram
muitas e nem todas de pedras falsas. A idade da viuva animava um quarto
marido, na hypothese de caber a esse quarto a vez de a ver fugir para o
céo a ella. O certo é que andavam já dois empregados da fazenda e outros
tantos da administração a expiarem o ensejo de lhe seduzirem a
inexperiencia, quando a viram ir impertigada n'umas andilhas, caminho de
Landim, a chotar, e a rir-se dos solavancos do macho.
Os pretendentes pegaram de gritar contra o cego, assacando-lhe o rapto e
a coacção da viuva. O juiz de direito viu-se forçado a deferir ao
requerimento de um curioso que pedia uma visita domiciliaria ao carcere
privado de D. Joanna Tecla Alves. Effectivamente a hospeda de Pinto
Monteiro foi interrogada em presença de testemuhas, se estava n'aquella
casa por sua livre vontade, não coagida nem seduzida.
Respondeu que estava muito contente, e que podia estar onde quizesse.
O juiz concordou.
Algumas cartas amorosas em papel perfumado lhe enviou o mais galan dos
funccionarios de Famalicão. Joanna Tecla relia as cartas com secretas
delicias; mas, no exterior, fingia-se de uma isenção que faria
envergonhar Arthemisa, viuva de Mausólo e as combustiveis viuvas do
Malabar. Perguntava á sua amiga Neves quem era o tolo que lhe escrevia;
e, rindo com a garridice arisca dos dezeseis annos, dizia que seria
grande pagode mangar com elle, respondendo-lhe ás cartas.
A mana do cego segredava ao irmão:
--Olha que a velha é tola, mano Antonio; trata de cortar os voadouros á
cegonha: senão, hasde vêl-a voar aos braços do quarto marido.
--O quarto marido heide ser eu!--disse o cego com uma visagem de martyr
voluntario--Heide ser eu o quarto marido--repetiu elle, tragando um copo
de rhum para ganhar alma--porque a ter de entrar n'esta casa o espectro
da miseria, é melhor que entre Joanna Tecla. Não me lembra como se
chamava um cego que dava graças a Deus porque não podia vêr um certo
tyranno; eu tambem as dou, porque não posso vêr a minha noiva.--E enchia
o copo esvasiado, mascava o charuto, e fazia com as duas pernas um curso
de geometria--Sacrifico-me a ti e a meus filhos. Vou ser o bode
expiatorio das minhas e vossas prodigalidades; mas levo a certeza de que
ella ao menos me será esposa fiel--o que é raro antes dos setenta annos.
O seu terceiro defuncto disse-me que Tecla era uma paz d'alma, bruta
sim, mas boa. Emfim, mana, sonda-m'a; vê se lhe achas vontade de casar
quarta vez.
--Tomára ella!--acudiu a irmã--Está sempre a dizer: «Isto de mulher sem
homem é como peixe fóra de agua.» Põe papelotes todas as noites, e faz
caracoes quando se ergue. Que quer isto dizer? Queres que eu lhe toque
no casamento comtigo?
--Toca; que eu começo hoje a fazer-lhe a côrte.
Na tarde d'esse dia, passeava Monteiro, debaixo da parreira do seu
quintal, pelo braço da viuva. As calhandras e os pintasilgos trilavam os
seus requebros ás margens do rio Pele. As rãs coaxavam nas pôças, e as
auras ciciavam na ramaria dos álamos. Era uma tarde de tirar amores do
olho de uma couve lombarda.
Passeavam silenciosos, quando ao longe, no pinhal do mosteiro, cantou um
cuco.
--Olhe o cuquinho a cantar!--disse ella com meiguice.
--Gosta de ouvir o cuco, sr.^a D. Tecla?--perguntou o cego.
--Eu gosto de toda a passarinhada--respondeu ella com as denguices
infantis da Lili de Goethe.
--O cuco é passaro de máo agoiro!--tornou elle--Eu, com medo de tal ave,
não quiz casar.
Tecla riu-se descompassadamente, provando que conhecia a línguagem
symbolica da ave agoureira. E o cego, n'esta entreaberta de galhofa,
beliscou-lhe a polpa do braço esquerdo.
--Ai!--exclamou ella--Isto que foi?!
--Não se ria assim das fraquezas do proximo, Joanninha!--respondeu o
cego, dando ao beliscão o ar innocente de um gracejo familiar--Eu não
quiz casar nunca porque o meu coração nunca sentíu ao perto nem ao longe
a mulher digna d'elle. Cheguei aos cincoenta e dois annos, pode-se
dizer, sem ouvir a este coração as palpitações que estou agora ouvindo.
É a primeira vez...--e estreitava-lhe o braço contra o lado esquerdo com
umas pressões trémulas--é a primeira vez que amo; porque é esta a
primeira vez que encontro a mulher, a esposa digna da minha ternura. Que
me responde, Tecla? não me responde, prenda adorada?--instava elle
sacudindo-lhe a mão com transporte.
A viuva inclinou a face para o seio, deixou-se apertar com o indolente
abandono de suas faculdades sensitivas, esteve impando como quem suspira
a custo, e murmurou:
--De vagar se vai ao longe, sr. Monteiro.
X
Aquillo foi depressa. O fervor reciproco dos noivos, e o preceito do
poeta pagão que manda não adiar os prazeres, abreviaram quanto possivel
a identificação das duas almas. O reitor, que os recebeu, era um padre
bom e jovial que até a estes noivos disse o que dizia a todos: «Eu
espero o vosso primeiro filho d'aqui a nove mezes.» A noiva entreabriu á
flor dos beiços um hypothetico sorriso de pudor; o cego, porém, ferido
na infecundidade da esposa, disse, carregando o semblante:
--N'este acto, sr. reitor, são improprias as chalaças.
O padre, querendo emendar eruditamente a inadvertencia, respondeu:
--As santas escripturas fallam de Sára...
--Eu não sou Abrahão--replicou o cego, voltando-lhe as costas.
Reverdeceram os contentamentos da meza lauta e das intimas palestras ao
fogão. D. Tecla Monteiro confessava que nunca tão felizes lhe derivaram
os dias da existencia. O cego sentia se docemente ameigado e bem, com o
rosto no regaço da esposa. Saboreava os santos aconchêgos da companheira
canonica. Recendia-lhe o ninho dos seus amores licitos um patriarchismo
anterior ao sacramento do matrimonio, é verdade, mas puro como os
conubios de Jacob e Lia, de Ruth e Booz. Ella não o idolatrava com o
maior phrenesi, mas aquecia-lhe no inverno os lençoes com botijas, e de
manhã levava-lhe uma chavena de sagú, que pessoalmente cosinhava com
todos os primores d'uma vocação especial para os mingáos.
Na venda das propriedades liquidára Monteiro menos do seu valor; mas
ainda assim não desceu de vinte contos de réis o dote da esposa. Parte
d'este capital empregou-o em uma quinta no Alto-Douro, outra parte na
reincidencia de pleitos que havia perdido, e o restante nas opulencias
da meza, e nas liberalidades com os renovados amigos. Do mesmo passo que
a opinião publica encarecia a velhacaria do cego, formava-se uma
confederação de sujeitos que lhe exploravam a perdularia generosidade.
Emprestava facilmente dinheiro, e não negava esmola, nem se desculpava
com a falta de cobres. «Tal desculpa seria boa,--dizia elle--se os
mendigos se offendessem com as pratas.» E tambem dizia: «Ninguem dá
esmolas mais ás escondidas do que eu, porque nem vejo as pessoas a quem
as dou!» Triste gracejo proferido por um cego.
Pinto Monteiro, que tanto refinára em astucias, no ultimo quartel da
vida, deixava-se enganar por qualquer velhaco montezinho. A quinta do
Alto Douro, comprada por seis contos de réis, foi uma venda fraudulenta:
a propriedade estava hypothecada á fazenda nacional, e o vendedor,
apresentando titulos falsos, recebeu o dinheiro no Porto, e fugiu. Os
convivas do cego rejubilavam a cada arremesso novo que a desfortuna lhe
dava para a pobreza, e as pessoas contemplativas observavam ás
incredulas que o enorme delinquente estava soffrendo retaliações
providenciaes. É de crer que sim.
Lance admiravel! Pinto Monteiro mantinha serenidade socratica e
imperterrita a cada lançada que lhe resvalava na rodella da philosophia.
Se a irmã ou a esposa choravam, e elle dava tento d'isso, dizia-lhes: «É
uma vergonha chorar quando a vida é tão curta! As dores são um sonho mau
de que se acorda na sepultura.»
Ao sentir desfibrar-se-lhe a corda tenaz da paciencia, digna de um
christão, emborcava garrafas de genebra, e fumava sempre até cair
marasmado pelo alcool e pela nicotina; mas, se antes da prostração, se
exaltava em desvarios de ebrio, as phrases refloreciam os raptos de
eloquencia que aos vinte e cinco annos o arrebatavam nos clubs
fluminenses. N'estas occasiões, projectava ir ao parlamento, e ensaiava
discursos tão bonitos que pareciam ser decorados no «Diario das
Camaras.» Ás vezes pedia á mulher e á irmã que lhe fizessem «ápartes»
para o picarem. A boa de D. Tecla dava-lhe para se rir, ou pedia-lhe
amorosamente que se deitasse--pedido que a gente não pode fazer a todos
os oradores parlamentares.
N'estas intermittencias, quasi sempre risonhas, se passavam os dias e
boa parte das noites n'aquella murmurosa casa de Landim. D. Tecla
desmentira os viticinios que a deploravam, esbulhada do dote e
abandonada á piedade do Azylo das velhas do Camarão. Não teve uma hora
de tristeza esta senhora; nem se quer ligeira borrasca de ciume, em sete
annos de casada, lhe nublou as suas alegrias de esposa leal. Ás setenta
e seis primaveras seguiu-se um inverno rigoroso de catarraes e gota, com
perturbações no apparelho digestivo, tympanites e colicas flatulentas. A
morte arrebatou-a em dezembro de 1861 dos braços do marido que, pela
primeira vez na sua vida, chorou.