No cemiterio de Landim está uma sepultura com este letreiro:
AQUI JAZ
ANTONIO JOSÉ PINTO MONTEIRO
NASCEU
A 11 DE DEZEMBRO DE 1808
FALLECEU
A 1 DE DEZEMBRO DE 1868
TRIBUTO DE GRATIDÃO
DE ETERNA SAUDADE
QUE LHE DEDICA SUA
INCONSOLAVEL FILHA
GUILHERMINA
Anna das Neves ideara uma perspectiva de felicidades: viver os restantes
annos em recatada pobreza, morrer mais desamparada que o irmão, e ser
levada como quem remove um entulho ali para aquella sepultura onde se
pulverisavam os ossos execrados do cego.
Estas felicidades não as gosa quem quer.
Um dia, a justiça, perseguindo Narcisa pelo roubo de uma coberta de
fêlpo, soube que a Neves a mandara vender. A ordem de captura involveu-a
como receptadora de roubos. Invadiram-lhe judicialmente a casa, e
encontraram, para maior prova do crime, um açafate de maçãs camoezas,
dois calondros e algumas batatas que Narcisa recolhera, de colheita
aliás suspeitosa, nas lojas da casa da sua protectora. A irmã do cego
foi capturada, e, sem fiança, encarcerada na lobrega enchovia de
Famalicão. Dias depois davam-lhe a companhia de Narciza, que se
entregara á prisão, arrojando a pistola, quando lhe disseram que a Neves
estava preza. O juiz misericordioso condemnou-as a oito mezes de prisão,
dado que os jurados as sobrecarregassem de crimes benemeritos de degredo
perpetuo.
Cumprida a sentença, D. Anna das Neves Miquelina Monteiro vendeu a casa
que o irmão comprára em nome d'ella. Com o producto d'essa venda
transferiu-se, em 1872, ao Brazil, e levou comsigo Narcisa do Bravo.
Parece que não tinha outros amores n'este mundo, e desejava expirar,
como o irmão, nos braços d'ella.
E visto que não estamos dispostos a deixal-a morrer nos nossos braços, ó
leitor, parece-me caridosa coisa que a não fulminemos com a nossa
honrada raiva. Sou de opinião que sejamos inexoravelmente severos com os
desgraçados e com as desgraçadas, quando elles e ellas repellirem a
felicidade que lhes offerecermos.
S. Miguel de Seide--Julho de 1876.