--Credo!
Era a expressão espontanea do horror á palavra _forca_.
E, espivitando a lingua, continuou saracoteando se:
--Não gosto d'essas coisas... Estou nervosa... O Alvaro ia pallido e
tremulo... Vejam lá se fazem algum desaguizado por causa d'uma graça...
Vamos embora, mamã! Estou muito nervosa... veja...
E offerecia o pulso ao abbade.
--Tem febre?--perguntou a mãe alvoraçada ao abbade.
--Está agitadinha,--confirmou o abbade, envesgando para nós os olhos
zarolhos de velhacaria--Quer palpar, sr. João Pacheco?
--Não percebo de pulso--disse o convidado.
--Com licença...--interveio José de Almeida--Eu vejo--E, tateando o
pulso de Irene com o relogio aberto, disse:--Cem pulsações por minuto.
Isto não é febre... é amor, minha senhora...
--Boa!--disse a menina retirando a mão--o sr. Almeida tem lembranças! O
amor sente-se no coração, não é no pulso.
--O pulso é o denunciante do coração--retrucou o portuense.--O amor é o
sangue mais apressado.
--Faltava-me ouvir essa!--notou D. Helena jubilosa por ver que a menina
já sorria.
--Em boa sciencia é aquillo que diz o sr. Almeida--confirmou o
abbade--Effectivamente, o amor accelera a circulação do sangue.
--Aqui tem o voto de pessoa experiente--disse Almeida.
--Está feito...--assentiu o abbade dando á cabeça trez ligeiras
demonstrações de consentimento.
--É muito prendado não tem duvida...--volveu ironicamente a viuva do
capitão-mór de Athey.--Ora, tenham juizo!
--Que remedio, senão tel-o, minha senhora!--redarguiu o clerigo
pagão--satyro velho não topa dryadas nas florestas.
--Quê?!--perguntou a senhora que desconhecia os escandalos mythologicos.
--Queria eu dizer, excellentissima senhora! que o juizo em mim, velho de
cincoenta annos, não se recommenda, lastima-se.
--Como estás, menina?--perguntou D. Irene á filha.
--Sobresaltada... Tenho medo de alguma desordem... O primo Alvaro tem
tão máo genio...
E fez varias visagens.
--Agradeço a sua compaixão, minha senhora--occorreu João Pacheco;--mas
peço-lhe que empregue a sua sensibilidade mais opportunamente.
* * * * *
Ao impardecer da tarde, José de Almeida foi procurado na pharmacia da
Lameira, onde então florescia um boticario que parecia immortal pelas
sandices originaes--e ninguem já hoje se lembra d'elle! Este paiz não é
para ninguem; desenganêmo-nos.
Era João Pacheco a chamal-o de parte para lhe dizer:
--Acabo de ser procurado por dois sugeitos de Braga, que se dizem
padrinhos do desafio a que sou reptado por parte do Abreu. Respondi-lhes
que eu enviaria pessoa com quem se entendessem.
--Estou ás tuas ordens--condescendeu promptamente Almeida, que era
padrinho vitalicio de todos os duellos d'aquelle tempo na sua briosa
cidade.--Que arma escolhes? sabre? florete? pistola?...
--Mais devagar--atalhou o morgado de Val-Escuro--O Abreu não joga arma
nenhuma. O meu mestre de tiro foi o marquez de Niza; de sabre foi o
Chico Bellas, e de florete o Petit. Sei pouco; mas sei mais que Alvaro.
Se lhe acceito o duello, vou seguro da minha superioridade, e, pouco
mais ou menos, não sahirei do campo com a consciencia mais tranquilla
que um homicida. Vai tu, se me queres obsequiar, dizer isto aos
padrinhos.
José de Almeida voltou á noite.
--O Abreu teima em bater se--disse elle--Quer duello de morte, pistolas
carregadas e desfechadas á ponta de lenço.
--Vai declarar aos padrinhos que acceito--deliberou serenamente João
Pacheco.
--Estás doido?!
--Faze o que te digo.
--Escolhe outra testemunha, em quanto eu vou avisar o regedor--returquiu
sorrindo José de Almeida--eu cuidei que eras um rapaz valente e
prudente. Não te batias, ha pouco, por que as tuas vantagens repugnavam
ao cavalheirismo; e acceitas o combate, dada a igualdade que pode dar-se
entre dois assassinos estupidamente ferozes!
Pacheco ria-se: e Almeida discorria rasoavelmente.
--Faze o que te digo--repetiu o morgado--Pois tu, creança, persuades-te
que o Abreu deseja bater-se em taes condições? Os covardes tem fantasias
d'essas em quanto o desafio procede nas incruentas conferencias dos
parlamentarios. Assevera tu ao Alvaro que eu acceitei o combate á ponta
de lenço; e espera o desfêcho.
--Mas suppõe que elle sustenta a palavra!...
--Sustentarei a minha;--e, batendo-lhe no hombro, accrescentou:--Vai
socegado. O homem tem mais amor á vida que á honra. Ouviste? Se elle
propozer o duello á ponta... de lingua, declara loque não acceito.
Os bracharenses, ouvindo a resposta do Almeida, ficaram embaçados e
atonitos. O mais cordato, com o louvavel intento de economisar sangue
illustre, ponderou que era uma desgraça matarem-se dois cavalheiros da
primeira nobreza do Minho, e aventou o seguinte:
--Se João Pacheco lhe desse uma satisfação na presença das pessoas que
ouviram a injuria...
--Satisfação... como?--inquiriu o Almeido--Dizer-lhe que não o reputa
_carrasco_? A emenda é peor que o soneto. Não proponho isso. Deixal-os
matarem-se! Morrem gloriosamente. Tanto faz morrer de calculos na bexiga
como de uma bala no coração. João Pacheco já teve em Lisboa e Madrid
quatro duellos de morte, e está vivo.
--Parece-me isso extraordinario!--observou maravilhado o braguez,
suppondo que no duello de morte era obrigatorio morrer.
--Não ha nada extraordinario. O estylo estatuido no _Codigo da Honra_ é
que as pistolas, uma sevada de polvora e pelouro, e a outra simplesmente
de polvora, sejam sorteadas. Pacheco teve sempre a sorte por si. Mas o
nosso caso é outro. Morrem ambos irremediavelmente.
--E nós? que hade ser de nós?--atalhou sobresaltado o filho da outr'ora
circumspecta Braga.
--Nós?--respondeu Almeida--praticaremos a rara virtude de nos não
matarmos. Os senhores fogem para a sua terra e eu para a minha. É o que
legisla o _Codigo da Honra_. As testemunhas não podendo depôr ácerca da
honra dos afilhados mortos, safam-se a unhas de cavallo. O restante da
tragedia pertence ao coveiro.
Um dos padrinhos fez menção de lavar as mãos e disse:
--Eu cá da mim...
--É Pilatos n'este negocio?--perguntou o portuense.
--E dois--respondeu tambem o outro, recordando e recitando tres
passagens pezadas de um livro do conselheiro Rodrigues de Bastos a
respeito de desafios.
--Em que ficamos?--rematou José de Almeida--deixe lá o sermão.
--Vamos fallar com o Abreu: e ou elle desiste de se bater, ou nós
declinamos a missão.
--Pois não se demorem, que João Pacheco já está escrevendo as suas
disposições testamentarias.
* * * * *
Com quanto a bravura não fosse o predicado mais proeminente do amador de
Irene, deu-se n'elle um phenomeno de heroismo que pertence aos milagres
do amor. A nova, que os pallidos agentes lhe levaram, apenas o
desfalleceu por instantes. A imagem da prima foi-lhe como a visão de
Pallas aos guerreiros da Grecia de Homero, acoroçoando-lhe alentos sobre
naturaes á sua indole.
--Pois morreremos!--exclamou elle com ar de Leonidas no desfiladeiro das
Thermopylas.
--Resolves então morrer?--perguntou um dos padrinhos.
--Que remedio?!
--Arranja outras testemunhas...--intimou o segundo padrinho--Nós temos
deliberado abrir mão d'esta asneira. Se te batesses por um motivo serio,
_verbi gratia_, se o Pacheco te deshonrasse uma irmã ou coisa
semelhante, ou te chamasse algum nome injurioso, ladrão, _verbi gratia_,
então estariamos ao teu lado, e até seriamos os primeiros a defender-te
com as armas na mão; ora agora matar-se um homem a troco de uma chalaça
que não vale dois caracoes, isso é a bestialidade maior que pode
praticar um homem, se não está doido furioso! Lá que tu, _verbi
gratia_...
--Não dês mais razões--atalhou Alvaro de Abreu--Procurarei outros
padrinhos...
Altercaram até ás dez e meia da noite. Um dos dois bracharenses, que
argumentava valentemente com o recheio do _verbi gratia_, repetiu as
sans doutrinas do conselheiro Rodrigues de Bastos, peorando-as na
linguagem. O certo foi que a pertinacia do sensato amigo vingou abalar o
animo renitente do Abreu, a ponto de lhe incutir por um lado da alma o
raciocinio e pelo outro lado o medo.
Entretanto, no quartel do morgado de Val-Escuro occorriam cazos
notaveis. José de Almeida, encontrando ás onze horas da noite o abbade
de Santa Eulalia, que vinha de fazer a partida de voltarete á morgada de
Athey, disse-lhe ao ouvido:
--Os homens matam-se amanhã ao romper da aurora. O sol quando nascer...
verá dois cadaveres.
O abbade não duvidou. A catadura do portuense tinha os assombros da
catastrophe.
--Jesus, santo nome!--exclamou o padre--Eu vou avisar o regedor, se me
dá licença; e quer dê quer não, o meu dever é evitar tal desgraça.
--Não evita nada, abbade. O regedor só pode prendêl-os no conflicto de
transgredirem a lei. Quem sabe o logar onde elles vão matar-se!?
O abbade apertou o passo, retrocedendo para caza de D. Helena. Entrou
offegante e roxo. Assoprava as palavras e embebia no lenço vermelho as
bagas de suor que lhe bolhavam na testa. Referiu o que soubera de José
de Almeida. Irene, que estava ceando bifes de cebolada, foi logo atacada
de hysterismo, e a mãe arrotava nas ancias spasmodicas do flato. Outro
padre que ali estava, capellão e administrador da casa de Athey, pegou a
declamar contra a relaxação do paiz, desde 33 para cá.
--Sr.^a morgada!--alvitrou o abbade atalhando a objurgatoria politica do
outro--aqui perto de nós mora o sr. João Pacheco. Se v. ex.^a quer,
vamos lá. É impossivel que este cavalheiro resista ás reflexões de uma
senhora que elle tanto venera!...
--É já--assentiu D. Helena cobrindo-se com o chale, e recommendando ao
capellão que fizesse companhia á menina.
Quando entraram, havia conferencia entre os padrinhos de Alvaro e José
de Almeida. João Pacheco, segundo o estylo, não era prezente; mas,
contra o estylo, em taes andanças, estava a dormir. Foi chamado para
receber a visita da sr.^a morgada. Espertou estrouvinhado, e foi á
salêta onde a senhora dialogava anciadamente com Almeida e com os
outros, á cerca do desafio. O portuense havia já annunciado que as
condições mortiferas do duello estavam modificadas. Abreu, coagido pelos
padrinhos, prescindira de morrer, e propunha o combate nos termos
communs.
Afim de applacar as agonias flatulentas da viuva, Pacheco asseverou-lhe
que não haveria ferimento de perigo. Quanto a recuzar-se ao desafio,
consoante a dama rogava, allegou que a sua dignidade lh'o prohibia.
Redarguiu a consternada senhora que ia pedir a seu primo Alvaro que
desistisse do duello.
--Se elle desistir--observou Pacheco--tem v. ex.^a conseguido o seu bom
intento; mas colloca o seu parente em má posição perante os cavalheiros
em quem confiou a desafronta da sua imaginaria deshonra. Vá descançada,
minha senhora. O seu futuro genro não soffrerá mutilação de especie
alguma. O nosso combate será um simulacro de esgrima, uma especie de
gymnastica de sala com espadas sem ponta nem gume.
* * * * *
Ao repontar da manhã, atravessamos o Vizella por umas alpondras sobre as
quaes se encurvam hoje os arcos da Ponta nova. Trinavam ainda os
rouxinoes nas margens frondosas do rio, e ao longe assobiavam melros e
grasnavam as pêgas nos pinheiraes. A corrente murmurosa trapejava nas
franças dos amieiros debruçados á flôr da agua. D'ahi ladeamos o banho
do _Mourisco_, á volta do qual estavam umas mulheres aldeans
espulgando-se nos seios com um despejo digno da innocencia da Arcadia.
Os homens respectivos escodeavam as callosidades calcáneas ou
attarracavam tachas nos tamancos. Depois subimos uma charneca declivosa
por onde hoje se alarga e complana a estrada de Penafiel, e entramos em
uma encosta de tojeiras e sargaçaes. Carregamos á esquerda, fraldejando
o outeiro por sobre o bravío, e emboscamo-nos por boiças de carvalheiras
até encontrarmos uma clareira chan e menos accidentada.
--É aqui--disse Almeida aos padrinhos de Alvaro.
Os combatentes despiram as quinzenas e os colletes.
Os pulsos de Alvaro negrejavam cabelludos e quadrados, de uns que o povo
diz que _tem só uma cana_, como signal de rijeza inquebrantavel: os
dedos eram pennugentos e trigueiros, com as unhas sujas. As mãos de João
Pacheco eram magras, translucidas e depauperadas do bom sangue que tinge
a epiderme. O que me deu a mim alento e esperança na victoria de
Pacheco, foi o sereno e risonho aspeito do moço, e a confiança na arte
que neutralisa os impetos da força.
Rompeu o combate á voz de João de Almeida. Alvaro de Abreu--cazo
singular!--fechou os olhos, e floreou a espada em sarilho tal que o
adversario lhe cedeu terreno, aparando-lhe uns botes, e esquivando o
embate dos outros. Eu seguia anciado aquelle vertiginoso redemoinho do
aço que lampejava, e o tinído asperrimo das laminas. João Pacheco
bradou:
--Páre la!
Alvaro estacou, provavelmente cuidando que o adversario estava ferido.
--Este homem--disse o outro ás testemunhas--fêcha os olhos, não se
defende, e eu involuntariamente posso matal-o!
--Se me permitte uma reflexão,--interpoz-se Almeida dirigindo se a
Alvaro de Abreu--o sr. está enganado com o seu systema de esgrimir ás
cegas. Como hade ver a espada do seu contendor?
--Não sei jogar espada--respondeu elle--Faço o que sei e posso.
--Vejo que pode: mas o que sabe é perigoso--contestou Almeida--V. S.^a
era ja cadaver, se o quizesse o sr. Pacheco. Bata como quizer, mas veja
o que faz: abra os olhos.
--Parece-me acertado--obtemperou um braguez com assentimento do outro.
Recuaram ao ponto designado no terreno. Rompeu Alvaro no mesmo estylo de
_pancada de cego_, mas com os olhos coruscantes e esbugalhados. João
Pacheco fez-lhe um golpe dos primorosos da arte, o _coup de manchette_,
no antebraço, sobre os tendões que inserem no pulso, com dexteridade e
limpeza dignas das artes bem fazejas. Estava desarmado o possante Abreu.
O discipulo do Chico Bellas honrára o mestre.[2]
* * * * *
João Pacheco almoçou com José de Almeida para, em seguida, se recolher á
sua casa do Arco. Percebia-se-lhe um aborrecimento penoso do successo.
Confessou que tinha vergonha de ter ferido um homem que desconhecia o
jogo das armas e fechava covardemente os olhos. Retirava-se para evitar
o espectaculo em que havia de exhibir se logo que a triste façanha se
divulgasse.
Acompanhamol-o até Guimarães. Aqui nos disse elle:
--Não vos admireis, se um dia vos constar que fui assassinado á traição.
O rancor do Abreu hade respirar seja por onde fôr. Na familia
antepassada deste homem ha crimes que dariam materia para um romance
sanguinario. Os proprios parentes dizem que o pae de Alvaro matára o
irmão para lhe succeder no vinculo, e matára um cunhado para administrar
e desfalcar a caza da irmã. Era capitão-mór e amordaçava as suspeitas.
Este filho herdou-lhe a indole; mas, aquecido ao sol de outra
civilisação e mais cultivado que o pai, supura-lhe a peçonha na lingua.
Não o temo a elle; mas devo acautelar-me dos facinorosos que acoita em
sua casa, como se prevalecessem ao novo systema as antigas _Honras_ dos
paços senhoriaes.
Quando voltamos de Guimarães, Alvaro de Abreu passeava na estrada, de
braço ao peito, com as primas e com o abbade de St.^a Eulalia.
--Iamos agora mesmo visital-o, sr. Abreu--disse José de Almeida--Ainda
bem que o encontramos excellentemente disposto.
--Estou bom--respondeu seccamente.
--Fêl-a bonita o sr. Pacheco!...--invectivou D. Helena.
--Ainda hade topar quem lhe abata as basofias...--accrescentou a filha,
chibatando com o guarda sol um festão de madre-sylva.
--Minhas senhoras--contrariou solemnemente José de Almeida--o sr. João
Pacheco procedeu com extremado cavalheirismo.
--Muito cavalheiro! pois não!--replicou D. Irene sarcasticamente com uns
esgares lôrpas.
--Com toda a certeza, muito cavalheiro--insistiu o portuense.--Aqui está
o sr. Alvaro de Abreu que me não desmente.
O invocado respondeu grunhindo:
--_Hum_.
E Almeida proseguiu:
--Se V. Ex.^{as}, minhas senhoras, não negassem a honradez generosissima
de João Pacheco, eu teria a conscienciosa obrigação de appellidar infame
quem lh'a duvidasse. Assim, pedindo venia a V. Ex.^{as} para não dar
pezo á sua opinião em materias tão alheias do seu juizo, sustento que é
um biltre quem negar o cavalheirismo de João Pacheco na pendencia que
teve esta manhã com o sr. Alvaro de Abreu.
E, fitando-o, esperava resposta, que não logrou.
--Acabou-se!--interveio o abbade--com aguas passadas não móem moinhos...
--Diz bem, sr. abbade--applaudiu a morgada velha.--Não se falle mais
n'isso.
--O que eu sei--ajunctou Irene--é que, no anno passado, gosamos em
Vizella dois mezes deliciosos; e este anno veio aquelle sr. Pacheco lá
de Lisboa perturbar a nossa alegria com as suas prendas de jogador de
espada.
José de Almeida sorriu-se com o mais caracteristico gesto de mofa,
abaixou a cabeça sem se descobrir, e retirou-se sacudindo a calça com o
chicote de baleia.
Montado no cavallo de que apeara, quando avistou o grupo, disse-me rubro
de colera:
--Aquella mulher fez-me acreditar que é possivel dar-se um pontapé na
parte posterior do merinaque de uma senhora.
* * * * *
Quando, por fins de junho, sahimos de Vizella, mexericava-se que um
rapaz do Porto, oriundo de familia ingleza, e celebrado por vinte e sete
fraques que estadeava com os respectivos coletes, fôra visto, á
claridade da lua cheia, cochixar com Irene, elle no quinchôso e ella no
muro do quintal.
Em fins de julho, José de Almeida, no encalço d'uma liteira portadora de
certo objecto amado, voltou a Vizella, e observou uns aleijões
psycologicos na enfermidade chronica, chamada o sexo pelas senhoras de
Basto.
A saber:
Irene, admittida aos saráos e passeios das illustres familias da Torre
da Marca, Machados Pindellas, Guedes da Costa, Alentem, Infias e Paço de
Sousa, ouvira motejar de Alvaro, á conta do desafio, por causa das
grutescas arremettidas de esgrima pelo systema obsoleto da _cabra cega_.
Alguns fidalgos, ás vezes, no meio das salas, sem se resguardarem da
morgadinha, fechavam os olhos e terçavam as bengalas com attitudes
farcistas. As gargalhadas atroavam, e Irene disfarçava o despeito,
perguntando ás visinhas que brinquedo era aquelle. Afinal teve uma
sincera amiga que lhe explicou o libretto d'aquellas pantomimas,
mettendo a rizo o Abreu.
Coincidiu então a chegada do sujeito dos vinte e sete fraques a Vizella,
galhardeando em prendas de sala, e _savoir vivre_ com mulheres, mui
distinctamente. De feito, Jacques Smith, educado em Londres, enfarinhado
nos ademanes francezes, enfronhado em vaidades de fidalgo que tinha os
ossos do seu patriarcha saxonio na Palestina, elegante e quasi
intelligente, formava de tudo isto, reunido aos vinte e sete fraques e
respectivos coletes, uma personalidade capaz de sensibilisar damas no
uso de caldas e amor.
A frescura montezinha da filha do capitão-mór de Athey, a garridice um
tanto canhestra, os seus saltos de ovelha espantadiça, e o fluido do
olhar que ella derramava remirando-o de esconso, escandeceram Smith. Era
atrevido como todos os sujeitos de cerebêllo grande, onde demora a bossa
da _amatividade_. A lua cheia de junho e julho viu coisas que a poesia
costuma idear nas varandas das Julietas, e que a prosa espreita em
qualquer horta de couve gallega por entre festões de abobora-menina.
O bacharel Abreu não viu tanto como a casta lua; mas farejou. O rival
tinha o prestigio que esmaga com a superioridade. O coração do homem
trahido abysma-se a chorar na consciencia que diz: «Eu valho menos que o
meu rival». Enfureceu-se, e vozeou rusticidades á prima, que lh'as
escutou como quem as recebe impassivelmente com a condição de prejurar.
Não se desculpou nem carpiu. Aborrecia-o, porque era irrisorio desde o
duello, e porque estava perdida d'amor, fulminada por Jacques Smith, bom
typo da perfeição viril, tirante as escrofulas cicatrizadas no pescoço.
Alvaro de Abreu foi para a sua aldeia. Jacques voltou em principios de
agosto, com José de Almeida, para a praia da Foz.
Perguntando-lhe Almeida se a morgadinha de Athey passára á historia,
respondeu:
--Pois então!
--Era uma rapariga fresca...--tornou o outro.
--Sim, fresca e indigesta como a melancia.
* * * * *
Em uma gazeta do Porto, de 15 de novembro do mesmo anno de 1851, lia-se
esta correspondencia datada no Arco:
_Esta villa soffreu a perda irreparavel de um cavalheiro consummado
em toda a extensão da palavra e representante de uma familia,
talvez a mais illustre das provincias do norte, pois entre os seus
avoengos se conta o grande e immortal Duarte Pacheco Pereira, por
antonomasia o «Achilles lusitano», e o «Leão dos mares».
Hontem de manhã sahira o sr. João Pacheco a visitar uma sua prima
em Refojos de Basto, onde passou o dia até ás 4 horas da tarde. O
cavallo em que montava era um pôtro não educado ainda, e comprado
nas manadas hespanholas que vieram à feira de S. Miguel. Os seus
amigos, posto que João Pacheco fosse optimo cavalleiro, muitas
vezes lhe observaram que os caminhos precipitosos destas aldeias
eram improprios para ensinar pôtros. Fiado, porém, na destreza do
pulso e firmeza de joelhos, o temerario cavalleiro rompia por esses
algares e barrocaes com um denôdo digno de melhor emprego.
Realizaram-se funestissimamente as previsões dos seus amigos.
Ao luzco-fuzco entrou pelo portão da caza de Val-Escuro o pôtro sem
o cavalleiro, com as redeas e bridões despedaçados. O mesmo foi
levantar-se na caza um clamor a que todos os visinhos acudiram.
João Pacheco era extremosamente amado por trez tias, respeitaveis
senhoras, que não viam outra coisa n'este mundo. Amigos e creados,
sahimos todos pelo caminho de Refojos; e a meia legua de distancia,
em um barrocal fundo e lamacento (espectaculo doloroso!)
encontramos o cadaver de João Pacheco, de bruços, com as mãos
submersas no lamaçal, e sem gotta de sangue que denunciasse o orgão
ferido. Como era já escuro, e o cadaver só podia levantar se depois
do exame judiciario, ali ficamos alguns amigos até ao dia guardando
os despojos de tão nobre moço, desastradamente morto na flor da
vida! O cirurgião examinou-o, e apenas lhe encontrou o craneo
amolgado, sem extravasação de liquidos, excepto dois fios de sangue
que derivavam do nariz. Presume-se com bom fundamento que o cavallo
o cuspira contra uma rocha angulosa que forma um dos vallados da
barroca; por que tambem na palma da mão direita mostra contusões
resultantes de se amparar contra as escarpas do penhasco. Não pode
attribuir-se esta catastrophe a outra causa que não seja a queda.
Se fosse homicidio, seriam outros os vestigios de ferimentos; alem
de que, João Pacheco era bem-quisto, honestissimo, respeitador da
honra das familias, não obstante haver sido creado e educado em
Lisboa. Alem de rico, era um gentil moço; pois não consta que
deitasse a perder alguma d'essas centenas de moças pobres que se
consideram felizes quando os fidalgos as levam á vereda da
deshonra.
Nós, os seus amigos, choral-o-hemos em quanto as suas virtudes
lembrarem como exemplo a filhos e a cidadãos. Que descance na
perpetua morada da virtude o tão chorado mancebo; e peça ao
Altissimo resignação para as suas inconsolaveis tias_!...
Quando li compungido esta correspondencia lembraram-me as palavras de
Pacheco, na ultima hora em que o vi: _Não vos admireis, se um dia vos
constar que fui assassinado á traição_. Communiquei a minha desconfiança
a José de Almeida.
--Palpita-me que foi assassinado pelo Abreu!--concordou o meu amigo, e
accrescentou:--Escrevo hoje ao abbade de St.^a Eulalia, citando-lhe as
palavras de João Pacheco, e pedindo os pormenores do desastre.
O abbade respondeu que eram infundadas as nossas desconfianças: por
quanto, no dia 11, em que João Pacheco perecêra, estava Alvaro de Abreu
na feira de S. Martinho em Penafiel com elle abbade e com as senhoras
morgadas de Athey; e que por signal n'esse dia perdêra o Abreu cento e
tantas moedas de ouro ao monte, á vista de dezenas de pessoas que nunca
o tinham visto jogar...
E rematava a carta d'este theor:
_Os namorados fizeram as pazes. A pequena veio das Caldas muito
coada de côres e com grandes... olheiras.--(ia a escrever
«orelhas») Nos primeiros dias, enfanicava-se a cada passo, e dava
uns ais romanticos como as damas de Basto de 1825_. Infandum...
renovare dolorem. _Depois, a mãe, que tambem é matreira de 1825,
escreveu ao Abreu dizendo-lhe que sua filha era victima da
ingratidão d'elle. Aquella «lua cheia» de Vizella, de que V. S.^a
me fallava, não foi ouvida a tal respeito. Ora o Abreu quer me
parecer que sabia pouco menos que a referida Tetis, e que o janota
luso-britannico de que reza a chronica escandalosa das thermas
romanas no corrente anno, 1890, da era de Cezar. Porém como o
patrimonio d'elle é magro, e as fazendas de Athey são de encher (e
de fechar) o olho, V. S.^a verá que, a final, a morgadinha, embora
não tenha que desatar a cinta virginal, apanha marido, parente,
fidalgo e bacharel. Se, depois, as costellas lh'o pagarão, isso não
é da minha conta. Lá se avenham; mas melhor será que elle se
resigne, e feche os olhos como no duello, por quanto saco com honra
e proveito é raro, ou não o ha, se o anexim é tão verdadeiro,
quanto eu sou de V. S.^a amigo e venerador_, Abbade Silva.
* * * * *
No anno seguinte, a floresta de amieiros do Vizella já não deu sombra e
frescura a nenhum dos seus hospedes do anno anterior.
A José de Almeida e a mim figurou-se-nos que as frondas do salgueiral
afestoavam um tumulo. Doeu-nos pungentissima a saudade de João Pacheco.
Nunca mais alli voltámos.
Estavam nas Caldas a morgada velha e o abbade de Santa Eulalia.
Irene e seu marido Alvaro de Abreu esperavam-se mais tarde.
Esperava-os D. Helena; mas o abbade secretamente nos disse que D. Irene
nem o marido tornariam a Vizella em dias de sua vida. Segredou-nos que a
morgadinha, ao oitavo dia de cazada, tentara fugir para a mãe...
--Oh!--exclamou Almeida--ao oitavo dia! que lua de mel!
--A meu ver--piscou o abbade entortando a bocca disformemente--esta lua
de mel recebia a luz reflexa d'aquell'outra _lua-cheia_ aqui das Caldas,
tão sua conhecida, sr. Almeida...
--Maganão! o abbade é o calendario de todas as luas que alumiam ha
trinta annos os amores nocturnos de Vizella...
--O que o sr. não sabe é que o marido lhe bate ás cegas...
--Sim? Agora vejo que o homem, no duello, obedecia ao costume.
--E, quando sahe, fecha-a n'um quarto de cantaria que lá chamam a
«torre,» e até dos creados a zela!
--Que amor, e que conceito ella lhe merece!--disse Almeida com a seccura
ironica do seu genio quando as situações demandavam piedade.
--Eu vi-a ha quinze dias na egreja de Refojos. Que mudança! Está
escaveirada, sem atavios, o desalinho da desgraça... Fez-me compaixão! O
marido estava á beira d'ella; não pude se quer dizer-lhe que fugisse.
--Mas a mãe... assim a deixa desprotegida?
--A mãe definha-se; e não sabe tudo o que ella soffre, porque a filha
não se queixa...
--Não intendo essa resignação!--objectou Almeida.
--Intendo-a eu. Irene era descompassadamente estupida a respeito de
certas coizas...
--A respeito de todas, pensava eu--emendou o portuense.
--Cuidou que o matrimonio era o concerto de certos aleijões com que fôra
d'aqui de Vizella.
--Fez do marido algebrista, percebo.
--É isso; mas o bacharel tem lá os seus _Provarás_...
--De cacête, eim?
--E a mulher tem medo que o marido peça contas á sogra dos desatinos da
filha.
--As meninas que em taes condições se casam, não temem as mães, abbade.
Casou ella livremente?
--Com toda a liberdade, e contra a vontade da mãe. Tanto assim que a
velha, prevendo que o Abreu seria máo esposo, entregou-lhe simplesmente
o que era do pai da noiva: setenta mil cruzados em propriedades. A casa
vale o trezdobro. Foi velhacaria muito louvavel: por que dizia ella:--se
o marido a maltratar, ameaço-o com a privação do meu dote, que é
privilegiado e izento da meação da caza--É o que ella está ensaiando: já
annunciou a venda de duas quintas. Veremos como elle se porta...
--Por essas duas quintas fechará o genro os olhos ao passado e ao
futuro. Elle bem sabia que Irene o despresou pelo Jacques Smith. Que
alentado canalha salpicado de brazões? Não posso despersuadir-me que foi
elle o assassino do infeliz Pacheco...
--Juro que não foi: já o defendi.
--Então, mandou-o matar.
--Isso é uma hypothese sem nenhum fundamento. No cadaver de João Pacheco
não havia signal de ferro, nem de tiro, nem contusões de pancadas. Foi
queda do cavallo, que era bravo. Não dê vulto a essa suspeita aleivosa.
* * * * *
Joeirando as minhas reminiscencias de coisas relativas a Irene,
referidas pelo abbade em cartas a José de Almeida, apuro o seguinte, na
correnteza dos annos de 1853 a 1855:
Sem impedimento dos dissabores conjugaes, Irene deu á luz o seu primeiro
filho, e, mediante o praso restricto para o phenomeno da geração, provou
a sua fecundidade com segundo rapaz robusto. D'onde se deprehende que
elle a não espancava incessantemente.
Irene vivia mais desopprimida desde que o marido reatara com uma
raparigaça barrozan a mancebia interrompida pelo cazamento. Elle
pernoitava fóra noites seguidas, e não soffria em caza a menor
inquietação com ciumes.
Durante o primeiro anno, raro dia passava que a não atanazasse com
perguntas cruamente tôrpes ácerca de Jacques Smith. Depois, parecia
esquecido ou reconciliado, se não era antes o receio de que a mulher lhe
fugisse e a sogra alienasse as quintas.
No meado de 1855, a morgada velha falleceu nos braços da filha,
recommendando-lhe que recorresse nas suas afflicções ao abbade de Santa
Eulalia. Desde este dia, recrudesceram em Alvaro de Abreu os desprezos,
as injurias e até a diffamação da mulher. Aos seus parentes, que o
arguiam de devasso, respondia que lhe era mister aturdir uma deshonra
com outras: e, pondo em miudos a phraze amphibologica, delatava a
fragilidade ante-matrimonial de sua mulher e parenta.
Apertada pelos insultos face a face, Irene disse-lhe um dia:
--Se eu tivesse um irmão que pegasse n'uma espada, vossê não me
offenderia assim...
--Se vossê tivesse um irmão que pegasse d'uma espada, e me ferisse com
ella, iria para onde foi um homem que uma vez me feriu...
Irene não percebeu o sentido latente da replica; mas referiu ao abbade a
passagem, digna de ponderação.
--Quem sabe--dizia elle comsigo--se José de Almeida acertou quanto á
morte de João Pacheco...
Os criminosos asilados sob as telhas de Alvaro de Abreu favoreciam a
suspeita: entre outros somenos na tuba da fama, avultavam o _José
Pequeno_ da Lixa, e _José do Telhado_, que o neto dos senhores de
Regalados sentava á sua meza, quando Irene ficava no quarto. Entrou em
averiguações o abbade, e soube que os dois salteadores, quando João
Pacheco morreu, estavam na caza dos Abreus de Refojos, jogando a
esquineta com os creados.
Como quer que fosse, o abbade entrou-se de mêdo bem intendido, quando
Irene lhe pediu que a protegesse e resgatasse da escravidão em que
vivia.
--Este homem, se eu me intrometto nos disturbios de sua caza, é capaz de
mandar um dos seus scelerados apunhalar-me!--conjecturava elle
racionalmente.
Não obstante, indagava com cautella o modo de libertar Irene pelo
divorcio, ou pela fuga para mosteiro ou casa de familia honesta. As
familias honestas recuzavam-se a receber a esposa diffamada pelo marido;
as menos honestas esquivavam-se a desavenças com Alvaro de Abreu,
respeitando mais os hospedes que o hospedeiro. Os donos das casas
endinheiradas dormiam tranquillamente, em quanto o amigo do _José do
Telhado_ e _José Pequeno_ lhes não retirasse a sua estima.
E, n'aquelle tempo, havia governadores civis, administradores de
concelho, regedores, cabos de policia, etc. Esta corporação de
funccionarios não prendia ladrões: fazia deputados.
* * * * *
Irene instava com urgentes rogos. Dizia desatinos ao abbade. Traçava
planos vulgares; mas de escandalo estrondoso. Fugiria para o Porto onde
estava um homem que ella amava: iria pedir-lhe o amparo do amante ou a
vingança do cavalheiro. Tinha lido o _Palmeirim de Inglaterra_; mas não
conhecia o _Cavalleiro da triste figura_. O abbade recommendava-lhe
juizo e paciencia: e cuidava mais fervorosamente em salval-a do amante
que do marido. Fallava-lhe dos filhos. A commoção era mediocre. As mães
que desafogam as suas angustias, ajoelhando á beira de um berço, estão
salvas. Irene carecia da virtude redemptora das esposas, que fazem os
seus anginhos intercessores com a justiça divina. Era criminosa. O
marido cuspia-lhe uma injuria, e ella abaixava o rosto indelevelmente
manchado. Um dos esteios da honra quebrara-o a moça solteira em Vizella:
restava-lhe outro--o da sinceridade com o noivo aborrecido: quebrou-o
tambem. Se a sorte lhe deparasse marido tão amante quanto generoso, a
regeneração fal-a-hia o esquecimento do erro, e o segundo baptismo da
alma seria a uncção das lagrimas nas faces cariciosas dos filhos. Havia
uma chaga a cicatrizar na consciencia de Irene: não lh'a leniram com o
balsamo do amor ou da caridade: exulceraram-lh'a a ferroadas de inuteis
vituperios. As mulheres assim, quando não se engolpham no tremedal, ou
são feias como o peccado, ou predestinadas como santa Pelagia e santa
Maria Egypsiaca.
O abbade de Santa Eulalia solicitou a protecção de um prelado, seu
parente, a favor da desditosa Irene. Conseguiu-se a entrada da esposa
fugitiva no convento de Santa Clara de Coimbra. O abbade avisou-a,
guiando-a no passo da fuga. Irene deveria sahir para uma das suas
quintas de Cerva, onde costumava ir no outomno, e fugir de lá com duas
pessoas da confiança do abbade. Acceitou alegremente a proposta; porém,
dias depois que se transferira á quinta d'onde devia fugir, com effeito
fugiu: mas não eram confidentes do abbade as pessoas que lhe protegiam a
retirada pela serra de Marão em direitura ao Porto.
A mulher de Alvaro de Abreu escondeu-se nos arrabaldes d'aquella cidade,
no _Bom-Successo_, em uma _casa-chalet_, telhada e ladrilhada de
asphalto negro á ingleza, com stores impenetraveis, e á volta um
silencio sepulcral a ouvir--permitta se-me a expressão--os suspirosos
murmurios que lá dentro se atabafavam nas alcatifas e nos cortinados.
Aquella casinha abarracada era o _chalet_ de Jacques Smith, o homem dos
vinte e sete fraques para quem a frescura da melancia era indigesta.
Não é natural que a esposa fugitiva fizesse por alli escala para o
cubiculo de Santa Clara.
* * * * *
Avisado Alvaro de Abreu que sua mulher desapparecera da quinta de Cerva,
deixando os filhos com recommendação ás amas que os entregassem ao pae,
não se affligiu desesperadamente. Sabia que Irene suspirava pelo
convento, e que o abbade, confidente d'ella, era o agente d'esse plano.
Procurou o abbade na sua residencia, e perguntou-lhe, carranqueando,
onde estava a doida.
--Não sei, sr. Abreu.
--Não mangue commigo, abbade... Em qual convento está Irene? O sr.
tratou disso, foi a Braga, fallou ao deão, etc.
--Sem duvida; mas a sr.^a D. Irene, quando foi procurada para entrar no
convento de Santa Clara de Coimbra, já tinha sahido da quinta.
--Não me conte lerias, abbade!--retorquiu sarcasticamente o bacharel--Eu
estou a ler-lhe na alma. Irene vai requerer o divorcio, guiada pelos
seus conselhos.
--Não é verdade, sr. Abreu--atalhou o abbade.
--Não me desminta. Que interesse tem o sr. pastor de almas em insinuar a
desordem no seio de uma familia?
--Já disse a v. sr.^a...
--O sr. é tolo! Parece que não tem amôr á pelle... Repare no que lhe
digo: se a justiça, a requerimento de Irene, me inquietar, quem paga as
custas é o sr. abbade de Santa Eulalia. Fica avisado.
--Mas... sr. Abreu... juro-lhe pela sagrada hostia...
--Não me fio em hostias!... Padres! corja de marôtos! cuidam que estamos
ainda nas trevas do absolutismo!... Fica avisado, entende-me?
E sahiu tinindo rijo com as esporas no pavimento e dando estalos com o
chicote.
O abbade era uma congestão de pavor, com o espirito estrictamente
necessario para cogitar em transferir-se a outra abbadia.
N'esses dias de sobresalto, escrevêra elle a José de Almeida,
contando-lhe _as suas colicas_ em linguagem piccaresca. Mais egoista que
caritativo, dava ao diabo do inferno a tonta da Irene, e perguntava onde
iria parar aquella extravagante.
_Quanto a mim_--aventava o solerte abbade--_a mulher está ahi no Porto,
sob a protecção da bandeira ingleza, em quanto eu cá estou debaixo do
cacete portuguez do marido. Ella muitas vezes me disse que tinha ahi
paladino. Procure-a v. s.^a; e, se tiver modo de lhe transmittir os meus
cumprimentos pela bestialidade que fez, peça-lhe que não demande o
marido, visto que as custas já eu fui citado para as pagar em moeda de
costella. Entretanto, diligenceio escapulir-me d'aqui. Está vaga uma boa
abbadia no Alto-Minho. Vou requerer a mudança, esperançado no valimento
de v. s.^a. O deputado do circulo hade fazer-me guerra, porque eu laboro
nas fileiras da Rainha e Carta, e votei contra elle; mas, repito, conto
com v. s.^a e com o José Bernardo. Não me desconviria n'esta occasião um
canonicato em Braga, e já m'o offereceram os srs. Cabraes em 1850: hoje
torço a orelha... Ah! femeaço, femeaço! Quando a politica me agourava
uma mitra, as mulheres far-me-hiam regeitar o chapeu de cardeal.
Mulheres, peores que o diabo, diz o Ecclesiastes. Devia de estar velho
quem disse isto... Finalmente, agora, em remate de cantiga, vem essa
doida da Irene perturbar o meu repouso!... Quem me mandou a mim
endireitar tuertos, se ella já estava retorcida!? etc._
José de Almeida, contando com a fatuidade de Jacques Smith, mostrou-lhe
a carta do abbade, e perguntou-lhe se elle podia informal-o.
Smith riu á farta das graçolas do padre, encaracolou as guias do bigode,
estirou trez vezes os braços com sacudida elegancia, assentou a gola do
fraque decimo nono, fez meia volta sobre o tacões, enclavinhou os dedos
alisando os vincos das luvas, e fallou d'esta arte:
--Eu te digo. É uma pobre rapariga. Deixei-a, como sabes. Escreveu-me
sempre. Respondi-lhe de vez emquando. Quiz fugir á mãe. Pediu-me que a
fosse esperar a Guimarães. Dissuadi-a de tal parvoice. Desesperou-se,
quando soube que eu fôra para Pariz, e casou-se por despeito. Que
estupidez! uma mulher com duzentos contos! Cheguei de Pariz, e encontrei
uma carta de Irene, escripta na vespera do casamento. Era um _adeus_ com
raiva e lagrimas. Dizia que não lhe importavam as consequencias...--que
se o marido a matasse, Deus me pediria contas. Compadeceu-me esta
tolice! Passados dois annos, escreveu-me uma historia deploravel de
dores intimas. É victima do amor que me teve. O marido mata-a
lentamente, e atormenta-a com o meu nome. Respondi-lhe em nome supposto,
com pezar, com dó, com saudade, queres que te diga? amando-a!...
Caprichos do coração... Primeiramente, aconselhei-a a que se separasse
do bruto; depois approvei o refugio do convento; por fim, quando ella me
disse: «vou suicidar-me», fui buscal-a. Andei cavalheiramente?
--Com toda a certeza. A ter ella de se matar, fizeste bem. Salvaste-a da
morte e das penas eternas que esperam os suicidas--applaudiu Almeida,
casquinando frouxos de riso que eram uma satanica belleza na physionomia
d'elle.
--Estás a gracejar?--volveu o outro com aprumo entre inglez e portuense.
--Pois tu fallas tão funebre que eu deva ouvir-te com as lagrimas nos
olhos? Rio-me dos adverbios que eu e tu usamos n'estes cazos.
_Cavalheiramente_! Fôste buscal-a _cavalheiramente_! E, se tivesses
cazado com ella, na occasião em que a comparavas á melancia fresca e
indigesta, com que adverbio celebrarias a tua acção?...
--Cazar!... por que não cazas tu?
--Isso é outra questão...
--É a mesma: por que não cazas tu com...
E recenceou meia duzia de nomes tão respeitaveis presentemente que só
cada um de per si bastaria para desbotar o pudor das Porcias e
Cornelias.
José de Almeida, em verdade, no terreno da morigeração, estava
deslocado. Mudou sensatamente de rumo; e, voltando ao ponto, disse:
--Que queres que eu responda ao abbade?
--Dize-lhe que D. Irene está commigo; e que o diga ao marido, se isso
convier á sua defeza. Quanto a demandas, que não se assuste o selvagem
nem o abbade.
Fez uma pirueta congenial, acenou ao jockey, sentou-se de um pulo no
coxim do _mail-coach_, e silvou a pita do pingalim na crina dos alasões,
que sahiram corveteando.
--Ahi vai um perfeito feliz!--dizia a mocidade portuense verminada de
invejas.
Seria um pouco mais feliz que um mendicante sadío, se não tivesse um
aneurisma a arfar-lhe no coração. Compensações.
* * * * *
O abbade, recebendo a resposta do portuense, procurou Alvaro de Abreu, e
disse-lhe:
--Lamento a desgraça de que não tenho a minima culpa. A sr.^a D. Irene
está... onde a levou a fatalidade. Se V. S.^a me admitte um conselho,
não se divulgue tal desgraça.
E, contando-lhe com melindrosos rodeios que D. Irene vivia com Jacques
Smith, offereceu-se para intervir no remedio d'este escandalo.
--Como?--interpellou Alvaro iradamente.
--Meditarei no modo de a encaminhar ao convento.
Abreu ringiu os dentes e rosnou:
--O senhor, se não fosse uma besta, seria um canalha que vem aqui
avisar-me da infamia d'essa mulher!...
--Oh senhor!--exclamou o abbade conturbado do impeto do fidalgo--Pois eu
venho participar-lhe...
--O que? que vem o sr. participar-me? que estou deshonrado? Ora ponha-se
no meio da rua antes que o despeje pela janella! Quem perdeu, quem
prostituiu essa devassa foram os seus conselhos...
O abbade limpava o suor, e gaguejava.
--Rua!--bradou Alvaro--e mude de terra, quando não... faço-o esfollar.
Vossê teve quinhão nas devassidões da mãe: que lhe importa a devassidão
da filha?
Era uma seva calumnia, propalada por Alvaro de Abreu, e acceite pela
opinião publica. O abbade então chorou, ergueu a fronte com arrogancia,
e bradou:
--O sr. infama as honradas cinzas de sua sogra! Eu não posso vingal-a,
mas Deus nos vingará, a ella e a mim!
--Fora, hypocrita! rua!
O padre sahiu aturdido. Zuniam-lhe os ouvidos, e congestionava-se-lhe o
sangue na cabeça.
E, desde esta hora,--dizia elle--nunca mais teve saude nem descanso.
Apagou-se-lhe a clareza e serena satisfação da vida. Fechou a aula de
latim. Insulou-se da convivencia dos amigos. Tinha cincoenta e seis
annos. A philosophia socratica não bastava a robustecer-lh'os contra os
abalos da religião de Jesus. Entrou-lhe no espirito a memoria severa do
seu passado licencioso. Pezares, abafados pela duvida, exulceraram-se em
remorsos. Era o assombro dos freguezes. O relampago da fé abrazara-o.
Fez-se missionario, e, no pulpito, desentranhava a invencivel e
penetrante eloquencia das lagrimas.
Acaso vi o nome d'esse padre na lista de missionarios que uma gazeta
injuriava. Communiquei o espantoso achado a José de Almeida.
O meu amigo escreveu-lhe. Na volta do correio, a resposta dizia assim:
_O desgraçado, a quem escreveis, morreu. Subsiste um penitente a
rogar-vos de mãos postas que, antes do inverno da vida, offereçais a
Deus as vossas lagrimas em desconto das que fizeste chorar_.
--Que celebreira!--disse Almeida.--Quem havia de esperar isto d'um padre
tão patusco!
E mais nada.--_Celebreira_! Que desabrimento com umas ingentes dôres,
dobradamente deploraveis, se são quimeras!
Eu, de mim, comprehendi aquella transformação, porque decifrara os
segredos d'ella em minha alma. Aos vinte e um annos estudara eu
theologia, com o proposito de ir missionar entre os vituperados da
loucura da Cruz. Recahi, propellido pela zombaria do mundo; mas aprendi
a não zombar.
* * * * *
Por aquelle tempo, um cavalheiro de Basto, o sr. Paulino Teixeira
Botelho, murava um terreno lavradio que nos annos anteriores fazia parte
da feira de S. Miguel, em Refojos. A politica de campanario introduzira
a sua garra n'esta contenda de propriedade. O povo, acirrado pelos
adversarios politicos do sr. Paulino Teixeira, ameaçara derribar o muro
e invadir a propriedade a ferro e fogo. O proprietario, forte do seu
direito, e bravo de seu natural, acceitou a luva, aguerrilhou creados e
cazeiros, e avisou as authoridades que tomaria sobre si o desempenho dos
deveres que incumbiam aos fiscaes da segurança publica.
Os amotinados eram, pela maior parte, jornaleiros, soldados com baixa, a
ralé infima das aldeias, poucos lavradores e alguns cazeiros de cazas
afidalgadas. Entre estes, sobrepujavam na investida e na bravura da
excitação um Manoel Fialho, que havia sido lacaio de Alvaro de Abreu, e
áquelle tempo era seu feitor em duas quintas nas margens do Tamega. Fôra
elle quem arremettera primeiro ao muro, e aperrara um bacamarte ao peito
de um creado da casa aggredida.
Rompeu a espingardaria, menos trovejada que o alarido da multidão. As
balas zuniam na ramagem dos castanhaes. Milhares de pessoas, de envolta
com o gado espavorido, despejavam a feira. O povo inerme açodava com o
alarido os combatentes. Dos de fora, alguns cahiam feridos, outros
baqueavam sob os muros derruidos.
O mais pimpão, Manoel Fialho, cahira atravessado por um pelouro do peito
ás costas. Acudiram a levantal-o do chão lamacento alguns dos seus
sequases.
--Quero confessar-me!--rouquejava elle.--Levem-me onde esteja um
padre!... depressa que morro!
Olharam em redor, e viram um sacerdote que, de mãos postas, sem receio
das balas que lhe sibilavam perto, pedia ao povo que se retirasse.
--Além está o sr. abbade de Santa Eulalia!--exclamou um dos amparadores
do agonisante.
Outro correu a dar lhe parte de que estava alli um feitor do fidalgo de
Refojos mortalmente ferido que se queria confessar.
--Trazei-m'o depressa, eu o espero n'esta primeira casa...--disse o
abbade.
O moribundo, nos braços de dois homens, entrou para um quarto onde o
esperava o confessor. A confissão e a vida duraram-lhe dez minutos.
* * * * *
Alvaro de Abreu, quando, ao fim da tarde, lhe disseram que Manuel
Fialho, antes de expirar, pedira um confessor, e morrera nos braços do
abbade de Santa Eulalia, accusou nas alterações de côr e fixidez dos
olhos alvoroço afflictivo.
Os dois filhinhos, conduzidos pela dispenseira, iam beijar a mão do pae
para se deitarem. Alvaro quedou-se entre elles, prostrado em uma
cadeira, abstrahido, emquanto as creanças lhe contavam a batalha da
feira, imitando a troada dos tiros com a bocca, e a estrategia com umas
manobras infantilmente graciosas. A dispenseira, cuidando que o pae se
entretinha com os pequenos, retirou-se admirada. Era raro deter-se
Alvaro cinco minutos com os filhos; e, quando elles se demoravam,
afastava-os desabridamente.
N'este comenos, annunciou-se o abbade de Santa Eulalia.
Abreu levantou-se de golpe, fincou na cabeça os dedos engriphados, e
resmoneou:
--É certo...
O creado, que dera o annuncio, esperava a resposta.
--Que entre!... e leva estas creanças...--disse Alvaro.
O creado foi á sala de espera, e fez signal ao abbade que entrasse pela
porta da direita.
--Deixe ir commigo os meninos--disse o abbade, tomando-lh'os cada um em
sua mão.
As creanças, pondo no rosto caricioso do velho os seus grandes olhos,
iam alegremente, saltando sobre um pé, e floreando as suas espingardas
de cana fabricadas expressamente para darem aos creados um simulacro do
tiroteio d'aquelle dia.
--Com licença. Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo--saudou o abbade
á entrada da sala introduzindo as creanças.
--Entre!--disse o fidalgo.
O missionario, entrado á salla, fechou a porta, e disse:
--As creanças podem entrar por que são anjos, e não entendem as nossas
palavras. Em nome d'ellas, tenho de pedir: e ellas pedirão commigo.
Alvaro de Abreu escutava-o em pé, immovel, hirto. O abbade mal o
divisava na quasi escuridão da vasta quadra, assombrada de castanheiros
seculares.
--Sr. Alvaro de Abreu,--proseguiu o abbade com a voz tremente--ouvi de
confissão, em artigo de morte, Manuel Fialho, o homem que matou João
Pacheco, com a pancada de um mangual na cabeça, e á traição, na _Barroca
das duas fontes_, ao anoitecer do dia 11 de novembro de 1851. Este homem
só comprehendeu e temeu a justiça divina quando se sentiu varado por uma
bala. Eu venho rogar a V. S.^a que comprehenda e tema a justiça divina
manifestada na morte violenta de seu creado Manuel Fialho, homicida do
innocente João Pacheco. Não lhe direi que se tema da justiça humana, por
que o unico homem que podia accusal-o é morto; e eu não o accusarei na
terra; porém, se Deus chamar a minha alma a depôr no tribunal divino,
direi que de mãos postas e na presença de seus filhinhos, lhe pedi que
se curvasse pela contricção e pela penitencia aos pés de Jesus Christo
misericordioso.
E ajoelhou aos pés de Alvaro com as creancinhas adiante de si.
--Levante-se, sr. abbade!--balbuciou o marido de Irene, erguendo-o nos
braços--Eu sou um miseravel, sou indigno da sua estima... Perdoe-me as
injustiças que lhe fiz...
--Não tenho que perdoar... Adeus, anjinhos--disse o padre beijando as
creanças--Ide ver-me algumas vezes á residencia, que eu vos ensinarei a
orar a Deus por vosso pae e... por vossa mãe.
--A mamã? onde está?--perguntou o menino mais velho que tinha quatro
annos.
O abbade passou o canhão da batina pelos olhos, e sahiu.
A voz lamentosa do padre soou no dezerto, as lagrimas cahiram sobre o
penhasco esteril.
Alvaro desdava as roscas da serpente do remorso sem grande esforço: era
atheu. Bazofiára sempre de _racionalista_; mas da sua razão era excluido
Deus. Acreditava, tal qual vez, nas vantagens sociaes da virtude, e nos
perigos do crime; mas para alem da torrente negra da morte não acceitava
se quer a discussão absurda.
Apalpava-o agora duramente a desgraça. Havia um homem que podia
accusal-o de assassino covarde; tinha uma esposa adultera que passeava
ao grande sol das praias e das praças o seu escandalo; rareavam á volta
d'elle os cavalheiros considerados; acanalhavam-no os scelerados que se
acolhiam ás suas quintas; as authoridades judiciarias, açuladas pela
imprensa, aguilhoavam os regedores a assaltarem-lhe as cazas.
Perderam-lhe o respeito, e até nos periodicos o amalgamavam com os
hospedes, invocando os manes dos condes de Regalados.
Convulsionavam-no phrenesis, exasperos que ninguem mitigava com o amor
ou com os linimentos da amisade. Os risos das creanças irritavam-lhe a
mysantropia. Era-lhe impossivel a quietação, e baldado o paliativo das
deleitações brutaes.
Deliberou viajar. Não podia vender quintas sem o consenso da mulher.
Hypothecou-as com enormes uzuras. Embolçou dinheiro á farta para
demoradas viagens, e sahiu, entregando os filhos a uma cunhada, esposa
do irmão morgado.
Desde 1857 a 1861 triumphou a vida nas principaes cidades da Europa.
Conheceu todos os salões e todos os antros. Viu a devassidão no
espavento das pompas do Louvre, onde as duquezas apresilhavam diamantes
nos bicos dos peitos, e remirou-se nos grandes espelhos dos bordeis em
que as mulheres, nuas como as bacantes, se espreguiçavam sobre diwans,
com os seios aljofrados de perolas, e os cabellos aromatisados de
grinaldas de jasmim. Em Veneza, Milão, Pariz, Londres, Madrid, em todas
as cidades capitaes comprava um _daumont_, dois cavallos, e uma mulher
das mais cotadas: ás vezes, comprava duas mulheres e quatro cavallos.
Chamavam-lhe _conde_, por que nos seus trens fizera pintar a corôa dos
Abreus, condes do Pico de Regalados.
D. Irene viajava simultaneamente com Jacques Smith. Uma vez, no Prado,
em Madrid, o _phaetont_ de Smith perpassou pelo _break_ de Alvaro que
boleava. Refestelavam-se nos coxins duas francezas do café-concerto.
Jacques acotovellou Irene, e disse-lhe risonho:
--Aos pares, hein? e tu a imaginal-o a semear calondros em Basto...
Irene chorava.
--Por que choras?
--Por meus filhos que não tem pae, nem mãe, e hão de ficar pobres.
Alvaro avistára a mulher, cravara-lhe os olhos indecisos, reconheceu-a,
e não tenho a certeza se lá no intimo de sua pessoa lhe chamou
_descarada_.
É natural que sim.
O _honesto_ era elle.
* * * * *
Em 1862, um padre que administrava as quintas de Alvaro de Abreu não
achou uzurario que lhe adiantasse mais dois contos de réis que o fidalgo
pedia com urgencia. Um legitimista minhôto que visitara D. Miguel na
Allemanha propalou que vira Alvaro de Abreu em Florença muito doente,
descarnado, tossindo, com o peito retrahido, as gengives brancas e as
orelhas seccas. Os uzurarios enfiaram de pavor. Se elle morresse, a
viuva e os orphãos, alegando lesão enormissima e illegallidade dos
contractos, levantar-se-hiam com os rendimentos hypothecados das
propriedades. Alvaro esperava em Londres a lettra. O padre-mordomo
enviou-lhe algum dinheiro, desculpando os capitalistas com o boato da
sua infermidade.
Resolveu repatriar-se, a fim de restabelecer-se no Minho. A sua doença
era o corollario da libertinagem: a cachexia. Os medicos francezes
aconselharam-lhe as aguas mineraes de Cauterets nos Pyrineus. Mudou de
rumo. Era-lhe grata a esperança de voltar á patria restabelecido e gordo
para desmentir o legitimista. Bebeu as aguas sulphuricas de Cauterets,
consummou o esphacelamento dos intestinos baixos, e morreu
medicinalmente. Alem de um titular portuguez que lhe assistiu na morte,
e enviou a Portugal a noticia, ninguem, por affecto ou caridade, lhe
humedecêra os beiços na derradeira febre. Contou o titular a José de
Almeida que o tal Abreu tinha um pasmo de olhos horrendo quando
agonisava.
Veria o espectro de João Pacheco?
* * * * *
O abbade de Santa Eulalia rezava uma missa por alma de Alvaro de Abreu,
quando D. Irene, trajada de luto rigoroso, entrou na casa de Refojos,
onde esperava encontrar os filhos. Disse-lhe o mordomo que os meninos,
por direcção do abbade, estavam a educar no collegio de Landim, oito
leguas distante. Escreveu ao missionario, pedindo-lhe que lhe levasse a
sua amisade e o seu perdão. O velho, que ella não vira nos ultimos nove
annos, era tão acabado, tão decomposto que Irene chorava, comparando-o
ao festivo e juvenil abbade que radiava alegria na casa de Athey.
--Afinal...--murmurou o padre.
--Aqui estou...--soluçou Irene.
--Quer vêr seus filhos?
--Sim...
--Vou mandal-os buscar. Cuidei d'elles, porque sua cunhada não podia
soffrêl-os; e as creancinhas amavam-me... É preciso, minha senhora,
salvar o que poder d'esta casa por amor d'estes meninos. Com ordem e
economia, se Deus me der vida, tudo se fará.
Irene apressava o inventario, resgatava as vendas illicitas, annullava
hypothecas, afanava-se em liquidar o que devia pertencer-lhe na meação
do casal e dos rendimentos absorvidos na totalidade pelo marido.
Observara-lhe o abbade que um tamanho apuro de contas iria, sem ella
querer, cercear o patrimonio dos filhos.
--Se V. Ex.^a--accrescentava elle--tenciona reduzir as suas despezas ao
viver aldeão, sobra-lhe tanto do que percebe da sua metade que talvez
possa deixar intactos os rendimentos dos orfãos.
--Tenciono ir viver no Porto...--explicou ella.
--Ah!--exclamou o abbade--com que então, minha senhora... _ainda não_?
--_Ainda não_?... o quê?
--Nem o grito da consciencia? nem o grito do exemplo? Nem a presença de
dois filhos? Bemdito seja Deus!
Este dialogo constrangido foi cortado por um servo que entregava a
correspondencia.
--Não veio carta?--perguntou ella agitada.
--Não, minha senhora, veio sómente esta folha.
Era o _Commercio do Porto_. D. Irene atirou-o sobre uma jardineira com
enfado, e encostou a face á palma da mão, carregando o sobr'olho.
O abbade chamára o menino mais novo, que tinha oito annos, e disse lhe:
--Vem cá, Manoel Philippe, lê-me aqui as noticias d'este jornal; quero
que tua mãe veja que lês correctamente.
E deu-lhe o jornal aberto. A mãe parecia estranha ou aborrecida.
O menino procurou a secção de noticias, e leu:
OBITUARIO. _Hontem, pelas sete horas da manhã, desappareceu do
numero dos vivos um dos mais estimados e gentis cavalheiros d'esta
cidade. Uma aneurisma no coração arrebentou fulminantemente o sr.
Jacques Smith, que_...
Irene levantou-se arrebatada, bradando:
--Que é? que é?
E, pegando no jornal que tremia nas mãos do menino assustado, leu as
primeiras linhas que ouvira lêr, premiu o coração asfixiado pela
angustia, rolou nas orbitas os olhos torvos sob a palpebra convulsa, e
cahiu sem alentos.
--Porque foi?!--perguntou afflicto o menino ao abbade--Ella morre?
--Não, Manoel Philippe. Isto não ha de ser nada. Tua mamã conhecia esta
pessoa que morreu, e.... teve pena.
Depois, dobrou o _Commercio do Porto_, e metteu-o na algibeira da batina
para que o filho de D. Irene d'Abreu nunca mais tornasse a lêr o nome de
Jacques Smith.
* * * * *
Em 1871, Manuel Philippe de Abreu e seu irmão Jeronymo de Abreu e Lima,
ambos terceiranistas da universidade, vieram ás Caldas de Vizella, com
sua mãe, a sr.^a D. Irene. Esta illustre e respeitada fidalga de Athey
não contava ainda cincoenta annos, e estava hemiplegica--metade do corpo
paralytico. Era transportada em cadeira de rodas ao _Banho da bomba
forte_. Uma vez quiz ir até á _Ponte-velha_, que não vira desde 1851.
Defronte da ilhêta onde em 15 de junho d'aquelle anno Alvaro de Abreu e
João Pacheco trocaram os fataes gracejos, mandou parar a cadeira.
Quedou-se longo tempo absorvida na contemplação do salgueiral; depois,
enxugou duas lagrimas. Que lagrimas, ó leitor! Os filhos perguntaram-lhe
por que chorava; e ella, estrangulada pelos soluços, contorcia-se,
pedindo-lhes que a tirassem d'ali, que sentia já o frio da morte.
Levaram-na apressadamente para o quartel em uma das casas situadas no
local chamado o _Medico_. Ao nascer do sol do seguinte dia dobravam a
finados sinos de S. João das Caldas. A fidalga de Athey expirara nos
braços dos seus dois filhos.
Perguntei ao capellão d'esta senhora se ainda era vivo o abbade de Santa
Eulalia, muito affeiçoado á senhora fallecida.
--Não, sr. Esse santo morreu ha trez annos: a paixão da fidalga foi
tamanha que cahiu na cama; e, quando se quiz erguer, estava leza. Os
meninos ainda choram por elle.