CONCLUSÃO

Das sete pessoas que, em junho de 1851, sestiaram no cinseiral do

Vizella, vive sómente uma, que sou eu.

O conselheiro José de Almeida expirou, no inverno passado, na _Casa da

saude do medico Ferreira_, do Porto.

Na derradeira vasca do longo paroxismo, circumvagou os olhos baços á

volta de seu leito. Era irmão, era esposo e era pai. Não viu a irmã, nem

a esposa, nem o filho. Finara-se no desamparo e desamor dos indigentes a

quem a caridade dos hospitaes empresta um catre ainda quente de outro

cadaver. A sua existência havia sido um continuado festim: o que houve

formidavelmente serio na sua vida, foi a morte. Morrem assim os que não

radicaram, em annos vigorosos, a santa amizade no coração da familia.

José de Almeida não podia ter uma desvellada amiga, porque, nos seus

annos de gentilissima juventude, espesinhára as mulheres que o adoravam

com aquella cegueira mysteriosa das paixões absurdas; e, já na sasão

glacial da vida, esposara uma que o acalcanhou com o desprezo d'elle e

de sua propria infamia, quando lhe viu a epiderme arrugada e o bigode

branco.

A sociedade recebera-o e bajulara-o quando odios e invejas lhe denegriam

o nome, aureolado de aventuras amorosas. Á beira do seu leito de

infermidade esqualida, e do seu ataude sotterrado na vala commum, eram

seis os restantes dos seus centenares de amigos.

A noite era de outubro. O nordeste assobiava nas gradarias dos tumulos,

e ramalhava os cyprestes gotejantes do zimbro da tarde.

Nos camarotes tepidos do theatro lyrico, fallava-se do defunto; e

algumas senhoras idosas, refluindo vinte annos na corrente da sua vida

remançosa, olhavam para a cadeira onde então José de Almeida se

assentava. E algumas d'essas, voltando o rosto, escondiam as lagrimas

rebeldes, para não serem vistas dos maridos e das filhas.

E perdoaram-lhe.

S. Miguel de Seide, 26 de agosto de 1875.

Novelas do Minho · 第 18 / 56 题