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tangendo no mandolim,
e a chorar dizia assim:
«_ó fado que foste fado,
ó fado que já não és_!
Cito de memoria, pouco fiel n'estas coisas conspicuas.
Da convivencia d'aquelles rapazes ficou lhe um verniz epigrammatico.
Flagellava os padres do seu sitio com chalaças, era mais fino nos
remoques ao cirurgião, e fizera mudar de terra o boticario, com quem se
inimisára inexoravelmente desde que elle, por causa d'umas eleições
municipaes, solemnisadas a arrocho, o doestou, no _Periodico dos
Pobres_, de _atheu_ e _carbonario_. Ainda havia carbonarios e atheus
n'aquelle tempo. Hoje ha mais fé... e petroleo.
Alvaro d'Abreu tinha a saude athletica e vermelha que eu desejo aos meus
leitores. Viera a Caldas porque ali namorara, no anno anterior, a
morgada nova, sua prima em quarto gráo; visitou-a em Athey nas festas de
Natal e Paschoa, e combinou então encontrarem-se em Vizella.
Outro:
João Pacheco, do Arco de Baulhe, morgado de Valle-Escuro. Um gentil
rapaz de vinte e quatro annos, educado em Lisboa, onde tinha nascido,
quando seu pae commandava uma brigada realista. Era orfão desde 1832.
Aos vinte annos emancipara-se, e retirou se para a provincia, onde
possuia fartos bens e tias solteiras que muito lhe queriam, e o
indemnisaram dos mimos que não gosara na infancia.
Asseveravam-lhe as tias que elle descendia de Duarte Pacheco Pereira--o
_Achilles lusitano_...
--Que morreu no hospital...--atalhava o moço.
--A infamia a quem toca...--emendava a sr.^a D. Izabel Pacheco, freira
benedictina bastante instruida.
E, abrindo os _Lusiadas_, apontada dois versos em que Luiz de Camões
vingava Duarte Pacheco da injuriosa ingratidão de D. Manuel:
Isto fazem os reis cuja vontade
Manda mais que a justiça e que a verdade
João Pacheco sorria-se.
A freira azedava com o desdem do sobrinho, e repetia-lhe a ode pyndarica
de Antonio Diniz, consagrada a seu avô. Era, porém, quasi ridiculo o
enthusiasmo antigo da filha de S. Bento, declamando com teatral
gesticulação a farfalhuda estrophe:
Cem paráos torveados
D'onde por bocas mil brota Mavorte
Entre horrorosos brados,
Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte,
Zargunchos, frechas, que em choveiros vôam;
Elephantas bramindo a terra atrôam;
Neptuno da batalha ao som horrendo
No fundo mar se espanta;
Nos eixos muda a terra está tremendo,
Mas nada o grande coração quebranta.
--O que eu collijo d'esses versos--dizia o soda transportada senhora--é
que o bravo Duarte Pacheco espatifou muito indio, fez espadanar muito
sangue de povos que defendiam o seu lar, e nunca vieram aqui attacar o
nosso. Ora, a providencia castigou o _Achilles lusitano_, baixando o a
tragar na barra dos desvalidos a miseria do rei de Calecut, arrojado por
elle do throno á indigencia.
Com poucos mais traços, está bosquejado o perfil ideal de João Pacheco.
Completal-o-hão os successos occorrentes n'esta historia.
A sexta pessoa do grupo, que povoava o cinceiral do Vizella, era um dos
_Saint-Preux_ portuenses, o modelo acabado da belleza varonil, já
passante dos trinta e cinco annos, cançado, mas fingindo que amava
sempre porque era deveras querido. Não sei se elle, á imitação do
marselhez Luiz Gauffredi, pactuara com o diabo dar-lhe a alma em troca
das mulheres que soprasse; o que sei é que as damas que elle quiz,
sopradas ou não, amaram-no.[1] Parte d'essas estava nas Caldas a abrir o
appetite enfarado ou a diluir os empaches da nutrição rija. As meninas
anemicas e chloroticas dos trovistas da cidade, em 1851, pertenciam
ainda á embryologia; assim como os bardos, que actualmente lhes receitam
boi e vinho do Porto, fermentavam no ventre da Idea... com _i_ grande.
José de Almeida, o _Don Juan_ do Porto, bem que reconhecesse os amavios
corporeos da morgada de Athey, chegara á idade em que o espirito,
ganhando entojo ás carnalidades, entra a namorar-se da belleza moral.
Almeida zombava dos tregeitos, do palavriado, das relamborias denguices
de Irene. Quem o attrahia áquelle grupo era João Pacheco; e quem
attrahia João Pacheco era o abbade de Santa Eulalia com o engôdo das
anecdotas, com a sympathia das bôas tolices, e a prodigiosa arte de
exorcisar a tentação do suicidio das pessoas que penam em Vizella quinze
dias de junho. José de Almeida me dizia a mim...
A mim?... a um homem muito diverso que ha vinte e quatro annos tinha o
meu nome, e esse tal era o ultimo do grupo.
* * * * *
Dizia João Pacheco a José de Almeida uma vez:
--Este Abreu, se não tivesse cartas de bacharel, seria um homem regular;
porém, como não advoga, nem faz leis, nem as interpreta, quer á força
mostrar que a formatura lhe deu alguma distincção. _Faz espirito_. Traz
sempre comsigo as pilherias requentadas que forrageou em Coimbra, e não
perde lanço de as desfechar contra o abbade ou contra mim, se D. Irene
lh'as pode victoriar com o sorriso parvoeirão. Eu já lhe disse que os
seus gracejos incommodavam o abbade e me não lisongeavam a mim. Se não
se emendar, um dia jogo-lhe um remoque desagradavel, e amordaço-o na
presença da menina.
Isto dissera João Pacheco n'aquelle dia em que o grupo, á hora da sesta,
se embrenhou no salgueiral.
N'esta occasião, Alvaro d'Abreu refinara no sestro da mordacidade. O
coração tem crises de embriaguez e sobre-excitações sanguineas que
refluem ás bossas craneanas. A morgada naturalmente deixara-se apertar
suavemente nas pôlpas do antebraço e correspondera á pressão voluptuosa.
O bacharel, a meu ver, esponjava as suas chalaças da abundancia do
coração. Eu tambem tive dóze na sua liberalidade. Estava eu a intalhar
um _M_ na casca de um amieiro. Era inicial de uma das cinco _Marias_ que
eu amava.
--Esse _M_, disse elle galhofando, pode significar uma celebrada
exclamação vociferada por Cambronne em Waterloo.
--_Prove_ a exclamação historica--interveio José de Almeida, vingando-me
com aquelle riso percuciente d'elle.
Todos perceberam, salvante as damas, que não conheciam os aromas da
historia de França.
--Que horas são?--perguntou enfastiada a morgada Irene.
--Cinco--responderam todos, abrindo os relogios, excepto João Pacheco.
--Singular caso!--disse elle--tenho este relogio ha doze annos: é a
primeira vez que pára, tendo corda. Se o ar sulphurico de Vizella tiver
sobre o dono a influencia que tem sobre o relogio, serei obrigado a
parar; e parar, diz não sei quem, é morrer.
--Mas é que tu precizas de _corda_...--remoqueou Alvaro.
--De _corda_ precizo; de _carrasco_ é que não, contando
comtigo--redarguiu Pacheco.
--Apanhe aquelle pião á unha, sr. doutor!--exclamou o abbade de Santa
Eulalia.
As duas morgadas riram-se com bastante intelligencia; e o José de
Almeida, golphando tres novêllos de fumo da pipa do cachimbo turco,
regougou:
--Bem boa! bem boa! essa vou escrevel-a...
E tirou a carteira.
Alvaro de Abreu enfiou. As damas fitavam-no de modo que o esporeavam a
desforrar-se. O rizo vingativo do abbade torturava o; e, por fim, o
silencio de todos era um commum vexame: sentia-se mortificada a gente.