Direi agora dos cinco sugeitos do grupo.
O abbade de Santa Eulalia, passante da meia idade, pagão em litteratura,
mestre de latim no seu concelho de Cabeceiras. Citava Virgilio
apropositadamente. Quando alguem se dizia regalado com a frescura do
salgueiral, declamava um trecho das _Églogas_ em que havia _sálices_. Ao
sentar-se na corcova do tronco retorcido de um amieiro, exclamava
sempre, sibilando as delicias do meio-grosso: _sub tegmine_. Tinha
rheumatismo e contava muitos cazos milagrosos d'aquellas aguas, e outros
cazos de amores que alli passaram, quando elle acompanhava sua mãe, no
tempo em que as senhoras de Cabeceiras de Basto por la faziam (dizia
elle) o seu _S. Miguel_ d'amor. Em _cavaco_ de homens, gretava-lhe a
indole, e declarava-se o personagem ou protogonista dos cazos
attribuidos a terceira pessoa em prezença das morgadas. Honestava com
citações de Ovidio (_Ars amandi-passim_) a lubricidade dos peccados da
sua juventude: e dizia com uncção de velhaco: _Delicta juventutis meoe_,
suspirando. Ás vezes, encontrando senhoras sertanejas de Basto,
acotovelava o companheiro de passeio, e murmurava: «Aqui vem uma das
taes»--_Uma das taes_ vinha a ser uma das suas amadas, de 1825, a
sylphide que elle havia ensinado a dançar o minuete e a gavota com
outras prendas, e não dava agora, no pizar coixo e na gordura fôfa, o
minimo vislumbre de ter sido sylphidica e bastante leveira para o gingar
picado da gavota. «Está como eu» dizia o abbade.
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Mudado como eu, como ella,
Que a vejo sem conhecêl-a!...
Cantava Garrett de uma das suas estrellas cadentes. O abbade, ao menos,
conhecia-as, embora enrocadas em tecido adiposo, e remoçava-as na sua
imaginação saudosa, alindando-as com o colorido escarlate da paixão. Bom
e discreto conversador, se a materia obrigava á seriedade: philosopho
ecletico, alegre, rijo de estomago, cabralista por amor da ordem, e
herege, por que negava que o Espirito-Santo concorresse ao Concilio
Tridentino. Em sciencias ecclesiasticas, ignorantissimo por livre
vontade e voto deliberado. Eis o abbade de Santa Eulalia.
Alvaro de Abreu, da estirpe dos Abreus de Regalados, filho segundo da
caza e Honra de S. Gens, em Refojos de Basto, bacharel em direito, vinte
e nove annos, compacto de carnes, barbaçudo, cara plebea, esbatida nas
proeminencias malares, testa descantoada e pilosa até aos arcos das
sobrancelhas. Annel de ouro com armas: em campo vermelho cinco azas de
ouro sanguineas nas cortaduras postas em sautor; timbre, uma aza
identica. As mesmas armas na cigarreira de prata, e nos botões dos
punhos, e na amethysta dos berloques antigos, pendentes em _châtelaine_
do coz das calças. Tinha cavallo, e lacaio fardado de azul com
guarnições escarlates, botas de picaria com prateleira e espora amarella
encorreada de branco. Era intelligente como a maioria dos bachareis
formados, e talvez mais. Em Coimbra, dado que não versejasse, era da
roda do Couto Monteiro, do Luiz de Bessa Correia, do João de Lemos, do
brazileiro Gonçalves Dias, do Lima poeta e de Evaristo Basto. Recitava
sentimentalmente ás morgadas os soláos dos irmãos Serpas; e as parodias
do Bessa e Couto Monteiro.
Cabula minha pachorrenta e gorda
Quem d'entre as folhas te espremeu dos livros!