Ao Dr. Thomaz de Carvalho

*GRACEJOS QUE MATAM*

Ordinariamente, chamam-se á franceza--_espirituosos_--uns sugeitos

dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos

áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da

nacionalisação d'aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos

seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro--tregeiteador--arlequim--palhaço--proxinella--polichinello--

--maninêllo--truão--jogral--goliardo--histrião--farcista--farçola--végete--

--bobo--pierrot--momo--bufão--folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o _bobo_ medieval bracejou na

peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso

dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga _jogralidade_, que era

mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a

nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa,

caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme _espirito_ portuguez, por mais que o afiem e

agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das

farças: é _chalaça_.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou

quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As

gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que

vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel,

descontavam n'estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova

edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez

mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que

desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este,

que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas--nem o terá

aqui--orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta

annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor,

e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das

rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o

politico; mais funesto por que vulnéra melindres--coisa que o callôso

peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de

Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não

apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada

nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

É mais funesto, repito; por que me occorre hoje, regressando das Caldas

de Vizella, uma historia funestissima de que só eu posso lembrar me.

Duas chalaças terçadas entre dois amigos, cavaram sepulturas de vidas e

honras. Se as novellas podessem ensinar alguma coisa, corrigindo

aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas

occasiões em que a lingua lhes descabe na bocca, engrossada pela

opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes.

* * * * *

Era em 1851.

Apresso me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei

tudo, salvo generalidades vagas e o logar em que principia a narrativa.

O que menos monta na exactidão da historia é o que ahi se illide. Nomear

pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está

diante do Juiz inappellavel, e seus filhos innocentes respeitam-lhe a

memoria.

Era, pois, em 1851, aos 15 de junho, nas Caldas de Vizella.

Entre os salgueiros que enverdecem uma ilhêta acima da ponte, que hoje

chamam «velha», á hora de sesta, emboscaram-se sete pessoas que

preferiam aquelle frescor acre do arvoredo, golpeado por meandros do

rio, ao cheiro sulphuroso e até sulphydrico da «Lameira».

O grupo compunha-se de pessoas de diversas procedencias:

D. Helena da Penha, chamada na sua terra a _Morgada velha_. Cincoenta e

tantos annos, viuva do capitão-mór de Athey, educada em convento,

murmurando da educação e dos costumes do claustro, d'onde sahira com

incertos conhecimentos do cathecismo, e alguma instrucção em bisca

sueca, e no _Feliz independente_ do padre Theodoro d'Almeida. Excellente

senhora que se conteve viuva desde os trinta e dois annos viçosos e

temperados sanguinamente para não dar padrasto á filha unica.

D. Irene, a _Morgada nova_, vinte e sete annos, galante, mais menina que

a sua idade, cheia de denguices, amimada, acriançando-se em tregeitos e

dizeres, descompondo os artificios pueris com uns ares de desgarro e

desinvoltura--em bom sentido, aliás.

Decerto já observou, leitor, em senhoras de provincia um desembaraço

bronco, um remecherem-se e bacharellarem despropositadamente,--desaires

resultantes de lhes haverem dito que o pejo e o acanhamento são indicios

de educação aldeã. Estes despêjos improvisados sem delicadeza nem

natural, quando topam diversa sociedade em praias ou caldas, dão-lhes

ares do que não são, e abrem margem a suspeitas indecorosas; por que

ellas, com taes artes, conseguem desornar-se dos commedimentos do pudor.

Novelas do Minho · 第 13 / 56 题