Do collegio passam os alumnos creados n'este regimen durante a

adolescencia para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um

regimen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as

equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os

estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavallo,

caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e

dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta annos,

outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as

mais severas prescripções hygienicas, submettem-se a uma alimentação

especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento

systematico da musculatura. Os principaes divertimentos nacionaes são os

exercicios de agilidade e de força. Ha _crickters_ que teem ido jogar

partidas solemnes de Londres á Australia.

Em Lisboa vivem dois inglezes que vão frequentemente a Cintra a pé,

levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e

regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a

qual teem batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré.

Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club

d'aquella cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia

uma partida de _cricket_. Um dos inglezes a que nos referimos

sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo.

Dois officiaes a bordo de um dos navios da ultima esquadra que esteve no

Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata,

percorrem todo o enorme edificio do convento, almoçam um bife e voltam a

pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora

fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de _soirée_

e uma rosa de Mafra na casa da farda.

D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo

enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por

emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da

civilisação africana, poderia intitular-se: _Da influencia do «sport» no

caracter dos povos exploradores_.

* * * * *

A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais

superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez

inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores

inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha

duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas

objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a

si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao

passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se

distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes

extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto

de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os

srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os

srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um

poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da

doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos

simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de

pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente

e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil

encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios

abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.

Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos

nossos descobrimentes e das nossas conquistas:

Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos

desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos

devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque--diz João de

Barros--_como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava

em cama, quando mais não podia_. Albuquerque que em saude reunia á força

physica a grande força moral da alegria--_era homem de muitas graças e

motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava

muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,_--assim tocado de morte

por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães,

nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da

administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de

hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do

Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus

navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias

com o direito por via da conhecida phrase: _mal com o rei por amor dos

homens, mal com os homens por amor do rei_.

O infante D. Henrique--segundo o mesmo João de Barros--_tinha largos e

fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada,

em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos

algum tanto alevantados, e o acatamento_ (_por a gravidade de sua

pessoa_) _um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento._

Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de

Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de

Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em

carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na

falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem

festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e

representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça,

_mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes

trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver,

porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os

buscava_. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em

outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do

berço usara o officio das armas.»

Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a

photographia moderna de um _sportman_ da Grã-Bretanha.

Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si

mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um

sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia

tornavam-o _proprio para o commando_.»

O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, _viajou as sete

partidas do mundo_, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do

seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e

pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que

infundia terror».

Os corações eram de uma tempera inquebrantavel, hostil á

sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer,

Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu

fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu

proprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz

lhe pergunta como viverão d'ahi em diante, Tavora responde-lhe

duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalavel.

Os que eram dados ao galanteio das damas commoviam-as mais pela asperesa

varonil do aspecto do que pela suavidade effeminada das formas.

Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do

Palacio, o Magriço diz á loura _miss_ que depois do combate ia

deitar-lhe agua ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as

tenho assim tão grosseiras e cabelludas, poderão ser-vos molestas e temo

que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa ingleza replica fazendo sentir

ao calejado e cabelludo cavalleiro que a bella mão de um homem é a que

denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias molles, mas sim aos

fortes trabalhos que teem como fim a honra e como premio o amor.

O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D.

Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o commando

da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia

sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquelle o que vá

descobrir-lhe a India.

O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta

para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os

homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa

de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e

espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se

regresse á patria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do

motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe

entreguem «quantas cousas tinham da arte de navegar» sob pena de os

enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na

volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres

nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos

encommendae e pedi misericordia, e a mim de hoje ávante ninguem me diga

que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que

venho buscar, não voltarei nunca mais.»

Ao que a guarnição se submetteu com a docilidade de quem não tinha senão

dois caminhos que escolher n'aquella viagem:--o da India ou o da morte.

O proprio Camões, o immortalisador das façanhas d'essa velha raça, era

elle mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus

costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na

India conflictos arriscados, de cujas ameaças elle sorria dizendo: que

só era vulneravel pelas solas dos pés e que estas ninguem lh'as vira nem

havia de ver.

Em todas as altas figuras do nosso grande seculo se patenteia o typo

expressivamente caracteristico de uma forte raça privilegiada, hoje

extincta.

A Europa sahia apenas do regimen feudal. Conservavam-se vivas no coração

de todos os fidalgos as tradições da cavallaria. Os besteiros de conto

eram apenas uma debil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os

nossos exercitos permanentes.

Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos

prasos em que não serviam o rei e a patria batendo-se com inimigos

extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas.

Quando não combatiam monteavam.

Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das

duras privações.

Os divertimentos publicos eram ainda os jogos guerreiros: o _tavlado_,

um exercicio de força, e as _canas_, um exercicio de destreza.

* * * * *

A moderna educação portugueza esterilisou a sociedade para o fim de

gerar homens proprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes

em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as

febres dos rios podres.

Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito

sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento physico que não só não

podem levar a sua influencia e a sua dominação intellectual ao interior

da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascaes se lhes suprimirem

as facilidades do rebocador ou do carrão.

Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de

poucos individuos, e não uma feição do paiz.

Na Inglaterra pelo contrario o _sport_ está na mesma alma da nação,

completa o caracter do paiz.

O principe de Galles readquiriu depois da sua ultima viagem a

popularidade que antes d'ella tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter

penetrado na India e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é

um dos seus mais poderosos titulos á estima publica. O _sport_ é na

Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a

Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a

gloria incomparavel de o poder referir ás sociedades sabias de

geographia, de zoologia, de botanica, de meteorologia, de anthropologia,

aos differentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da

Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de

curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os

Pyreneus.

Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme ecco na opinião e na

popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de

explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insufficientes para

esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geographicas, das

academias e de todas as agregações artificiaes de alguns individuos; é

preciso que o grande impulso parta do genio collectivo do povo.

* * * * *

O povo pertuguez não está creado para esses movimentos energicos. Era

uma raça audaz, enthusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos annos de

uma educação dogmatica e de uma disciplina fradesca.

Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pae

fazia navios e em que elle para sustentar a fabrica tem de brandir um

machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é

um anemico, que não pode com a sua _badine_. O que ha de fazer?

Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o

Martinho.

* * * * *

Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo

o paiz protestam--o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e

meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo

livrarias, enegrecem-se com prosa official resmas de papel da Abelheira,

abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,--tudo para dar

a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo

continua nas condições de abatimento em que estava, as quaes não podem

tornal-o proprio para o dominio, mas sim para a servidão.

Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o

espectaculo correspondente na nossa organisação social.

Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos collegios de

educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e

enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com

falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que

differença dos collegiaes inglezes, com os seus chapeus de palha, a

blusa de flanella, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos

campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade,

entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus actos, conscientes do seu

direito e do seu dever como pequenos republicos!

Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas,

sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa;

um joven racional de dez ou doze annos, dos quaes cinco de escola sob a

pressão dos compendios do sr. João Felix, não aprendeu nada d'isso, e

precisa de um padre ou d'um aguadeiro que o leve pela mão para

atravessar a rua!

Essa miseravel creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não

quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça,

que o não deixa metter-se na agua fria para que não se constipe. Era

melhor que elle tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado

a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezeseis, e houvesse

aprendido assim a ser um principio d'homem, do que não ter passado por

nenhum d'esses desares e ser unicamente um lamentavel boneco, medroso e

covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade

que elle tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e

estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos

membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de

mergulho ao ribeiro, apezar dos perigos previstos pela mãe do molestado.

O primeiro acto da vida civil d'esse sujeitinho consiste em metter

empenhos para ser approvado em instrucção primaria.

A primeira gloria da sua existencia consiste em se considerar tão

importante personagem que sahiu approvado com dez valores, apezar de ter

passado a metter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse

orgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas

do sr. Felix.

No anno seguinte começa a estudar as linguas e a fumar cigarros ás

escondidas.

Penetra finalmente na rhetorica e na leitura dos romances, em que passam

visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.

Chega da côr de uma cidra ao fim do curso dos lyceus, tendo, além de

todos os preparatorios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha

torcida, algum tedio da vida e muita caspa.

Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e

o primeiro effeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é

augmentar-lhe a caspa.

Depois a vida academica absorve-o e elle percorre toda a escala das

nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piugas,

toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas

canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e

regressa a Lisboa bacharel formado.

Tem vinte annos e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a

tres individuos;--pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente,

inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga

assustada, sorrindo com um agrado pusilanime:--Sr. doutor, imploro

submissamente a valiosa protecção de v. ex.ª!... Sr. doutor, criado de

v. ex.ª!... Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor...

O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do

pretendente do Terreiro do Paço.

O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de

nome: «--Sr. ministro, imploro submissamente a protecção de v. ex.ª...

Criado de v. ex.ª, sr. ministro... Ex.mo sr. ministro, humilde servo de

v. ex.ª...» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos

gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão pelludo ao

emergir da agua, com o seu velho sorriso deploravel, anediando a copa do

chapéo com o canhão da sobrecasaca.

Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos

passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que

deseja. Um ministro despacha-o--para se ver livre d'elle. Consegue ser

empregado publico ou candidato governamental por um circulo do

continente ou do ultramar.

Desde então as engrenagens do machinismo official apoderam-se d'elle

para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade.

Pertence á grande legião. Vae para onde ella for, diz o que ella disser,

pensa o que ella pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia

prefixa do cepo a que o amarraram.

É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a

classe dirigente vivem d'este cuidado unico: O cuidado de se não

comprometterem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas

opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta official. Se

alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dyspepsia moral lhes vem á

bocca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta

prohibida.

Como pelo desdem do trabalho vivem n'uma estreiteza pecuniaria visinha

da miseria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de

ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e

acceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia,

estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem methodo, sem a dignidade

do conforto e do aceio domestico,--a viva negação de todas as condições

que tornam a casa feliz e a familia amavel.

É d'esses consorcios sem idealidade e sem amor, contraidos fóra da mutua

dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro

individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os

filhos dissolutos, os jovens cynicos, desdenhosos das affeições

honestas, hostis a todos os sentimentos de familia, cujos nobres

encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.

D'esses consorcios procedem tambem as meninas futeis e pretenciosas,

frageis entes inuteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da

dignidade da mulher--a comprehensão do _ménage_, o culto do santuario

domestico. Ellas refugiam-se da convivencia antipathica da sua familia,

constituida sem bases organicas, na religião, ou, para que o digamos no

termo mais preciso, na _igrejice_, e na leitura dos romances

sentimentaes. A _igrejice_ e o romance são os dois pólos da sua vida

moral.

Como qualquer d'essas meninas desconhece completamente a arte de

cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caracter, um

instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao

cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimavel

fetichismo dissipador da moda.

Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da

felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa

tradição se aprendem: a arte de se fazer bella pelo simples modo de atar

uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de

se sentar n'um _fauteuil_, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte

de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua

chimica a alegria e a saude dos seus commensaes; a arte de arranjar a

casa, de lhe dar physionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir

idéas, a ter quasi conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos

armarios as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da

casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das

canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e

solicitarem-nos a permanecer a côr dos cortinados, o tom dos estofos, o

assumpto dos quadros, a collocação dos moveis, a graduação da luz, a

frescura do ar, a nitidez geral do aceio e a sabia disposição dos livros

e dos jornaes sobre o panno da mesa.

A menina em similhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou

se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações

romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua

melhor maneira de ter um fim, porque, emquanto a ser mãe, prohibe-lh'o

physica e moralmente a accumulada estreiteza do coração e dos ossos.

Taes são, no caracter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da

educação portugueza na classe mais preponderante da sociedade, aquella

que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com

similhante estado é irreconciliavel o genio explorador, a tendencia para

as viagens entre póvos barbaros e finalmente o poder de dirigir e de

dominar.

* * * * *

Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos

europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se

com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto

d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra

baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.

Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica

principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é

insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que

se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de

altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez

physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e

desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas

e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.

* * * * *

Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da

nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.

Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em

que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A

Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria

piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções

mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje

florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com

grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da

baleia ao cabo de Finisterra.

As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do

bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas

com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos

tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes

pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05/06) · 第 3 / 4 段