adolescencia para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um
regimen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as
equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os
estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavallo,
caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e
dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta annos,
outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as
mais severas prescripções hygienicas, submettem-se a uma alimentação
especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento
systematico da musculatura. Os principaes divertimentos nacionaes são os
exercicios de agilidade e de força. Ha _crickters_ que teem ido jogar
partidas solemnes de Londres á Australia.
Em Lisboa vivem dois inglezes que vão frequentemente a Cintra a pé,
levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e
regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a
qual teem batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré.
Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club
d'aquella cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia
uma partida de _cricket_. Um dos inglezes a que nos referimos
sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo.
Dois officiaes a bordo de um dos navios da ultima esquadra que esteve no
Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata,
percorrem todo o enorme edificio do convento, almoçam um bife e voltam a
pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora
fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de _soirée_
e uma rosa de Mafra na casa da farda.
D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo
enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por
emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da
civilisação africana, poderia intitular-se: _Da influencia do «sport» no
caracter dos povos exploradores_.
* * * * *
A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais
superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez
inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores
inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha
duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas
objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a
si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao
passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se
distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes
extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto
de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os
srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os
srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um
poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da
doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos
simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de
pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente
e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil
encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios
abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.
Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos
nossos descobrimentes e das nossas conquistas:
Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos
desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos
devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque--diz João de
Barros--_como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava
em cama, quando mais não podia_. Albuquerque que em saude reunia á força
physica a grande força moral da alegria--_era homem de muitas graças e
motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava
muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,_--assim tocado de morte
por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães,
nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da
administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de
hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do
Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus
navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias
com o direito por via da conhecida phrase: _mal com o rei por amor dos
homens, mal com os homens por amor do rei_.
O infante D. Henrique--segundo o mesmo João de Barros--_tinha largos e
fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada,
em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos
algum tanto alevantados, e o acatamento_ (_por a gravidade de sua
pessoa_) _um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento._
Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de
Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de
Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em
carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na
falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem
festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e
representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça,
_mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes
trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver,
porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os
buscava_. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em
outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do
berço usara o officio das armas.»
Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a
photographia moderna de um _sportman_ da Grã-Bretanha.
Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si
mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um
sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia
tornavam-o _proprio para o commando_.»
O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, _viajou as sete
partidas do mundo_, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do
seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e
pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que
infundia terror».
Os corações eram de uma tempera inquebrantavel, hostil á
sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer,
Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu
fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu
proprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz
lhe pergunta como viverão d'ahi em diante, Tavora responde-lhe
duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalavel.
Os que eram dados ao galanteio das damas commoviam-as mais pela asperesa
varonil do aspecto do que pela suavidade effeminada das formas.
Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do
Palacio, o Magriço diz á loura _miss_ que depois do combate ia
deitar-lhe agua ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as
tenho assim tão grosseiras e cabelludas, poderão ser-vos molestas e temo
que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa ingleza replica fazendo sentir
ao calejado e cabelludo cavalleiro que a bella mão de um homem é a que
denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias molles, mas sim aos
fortes trabalhos que teem como fim a honra e como premio o amor.
O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D.
Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o commando
da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia
sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquelle o que vá
descobrir-lhe a India.
O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta
para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os
homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa
de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e
espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se
regresse á patria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do
motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe
entreguem «quantas cousas tinham da arte de navegar» sob pena de os
enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na
volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres
nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos
encommendae e pedi misericordia, e a mim de hoje ávante ninguem me diga
que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que
venho buscar, não voltarei nunca mais.»
Ao que a guarnição se submetteu com a docilidade de quem não tinha senão
dois caminhos que escolher n'aquella viagem:--o da India ou o da morte.
O proprio Camões, o immortalisador das façanhas d'essa velha raça, era
elle mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus
costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na
India conflictos arriscados, de cujas ameaças elle sorria dizendo: que
só era vulneravel pelas solas dos pés e que estas ninguem lh'as vira nem
havia de ver.
Em todas as altas figuras do nosso grande seculo se patenteia o typo
expressivamente caracteristico de uma forte raça privilegiada, hoje
extincta.
A Europa sahia apenas do regimen feudal. Conservavam-se vivas no coração
de todos os fidalgos as tradições da cavallaria. Os besteiros de conto
eram apenas uma debil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os
nossos exercitos permanentes.
Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos
prasos em que não serviam o rei e a patria batendo-se com inimigos
extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas.
Quando não combatiam monteavam.
Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das
duras privações.
Os divertimentos publicos eram ainda os jogos guerreiros: o _tavlado_,
um exercicio de força, e as _canas_, um exercicio de destreza.
* * * * *
A moderna educação portugueza esterilisou a sociedade para o fim de
gerar homens proprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes
em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as
febres dos rios podres.
Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito
sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento physico que não só não
podem levar a sua influencia e a sua dominação intellectual ao interior
da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascaes se lhes suprimirem
as facilidades do rebocador ou do carrão.
Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de
poucos individuos, e não uma feição do paiz.
Na Inglaterra pelo contrario o _sport_ está na mesma alma da nação,
completa o caracter do paiz.
O principe de Galles readquiriu depois da sua ultima viagem a
popularidade que antes d'ella tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter
penetrado na India e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é
um dos seus mais poderosos titulos á estima publica. O _sport_ é na
Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a
Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a
gloria incomparavel de o poder referir ás sociedades sabias de
geographia, de zoologia, de botanica, de meteorologia, de anthropologia,
aos differentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da
Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de
curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os
Pyreneus.
Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme ecco na opinião e na
popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de
explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insufficientes para
esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geographicas, das
academias e de todas as agregações artificiaes de alguns individuos; é
preciso que o grande impulso parta do genio collectivo do povo.
* * * * *
O povo pertuguez não está creado para esses movimentos energicos. Era
uma raça audaz, enthusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos annos de
uma educação dogmatica e de uma disciplina fradesca.
Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pae
fazia navios e em que elle para sustentar a fabrica tem de brandir um
machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é
um anemico, que não pode com a sua _badine_. O que ha de fazer?
Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o
Martinho.
* * * * *
Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo
o paiz protestam--o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e
meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo
livrarias, enegrecem-se com prosa official resmas de papel da Abelheira,
abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,--tudo para dar
a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo
continua nas condições de abatimento em que estava, as quaes não podem
tornal-o proprio para o dominio, mas sim para a servidão.
Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o
espectaculo correspondente na nossa organisação social.
Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos collegios de
educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e
enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com
falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que
differença dos collegiaes inglezes, com os seus chapeus de palha, a
blusa de flanella, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos
campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade,
entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus actos, conscientes do seu
direito e do seu dever como pequenos republicos!
Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas,
sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa;
um joven racional de dez ou doze annos, dos quaes cinco de escola sob a
pressão dos compendios do sr. João Felix, não aprendeu nada d'isso, e
precisa de um padre ou d'um aguadeiro que o leve pela mão para
atravessar a rua!
Essa miseravel creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não
quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça,
que o não deixa metter-se na agua fria para que não se constipe. Era
melhor que elle tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado
a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezeseis, e houvesse
aprendido assim a ser um principio d'homem, do que não ter passado por
nenhum d'esses desares e ser unicamente um lamentavel boneco, medroso e
covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade
que elle tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e
estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos
membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de
mergulho ao ribeiro, apezar dos perigos previstos pela mãe do molestado.
O primeiro acto da vida civil d'esse sujeitinho consiste em metter
empenhos para ser approvado em instrucção primaria.
A primeira gloria da sua existencia consiste em se considerar tão
importante personagem que sahiu approvado com dez valores, apezar de ter
passado a metter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse
orgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas
do sr. Felix.
No anno seguinte começa a estudar as linguas e a fumar cigarros ás
escondidas.
Penetra finalmente na rhetorica e na leitura dos romances, em que passam
visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.
Chega da côr de uma cidra ao fim do curso dos lyceus, tendo, além de
todos os preparatorios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha
torcida, algum tedio da vida e muita caspa.
Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e
o primeiro effeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é
augmentar-lhe a caspa.
Depois a vida academica absorve-o e elle percorre toda a escala das
nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piugas,
toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas
canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e
regressa a Lisboa bacharel formado.
Tem vinte annos e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a
tres individuos;--pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente,
inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga
assustada, sorrindo com um agrado pusilanime:--Sr. doutor, imploro
submissamente a valiosa protecção de v. ex.ª!... Sr. doutor, criado de
v. ex.ª!... Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor...
O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do
pretendente do Terreiro do Paço.
O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de
nome: «--Sr. ministro, imploro submissamente a protecção de v. ex.ª...
Criado de v. ex.ª, sr. ministro... Ex.mo sr. ministro, humilde servo de
v. ex.ª...» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos
gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão pelludo ao
emergir da agua, com o seu velho sorriso deploravel, anediando a copa do
chapéo com o canhão da sobrecasaca.
Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos
passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que
deseja. Um ministro despacha-o--para se ver livre d'elle. Consegue ser
empregado publico ou candidato governamental por um circulo do
continente ou do ultramar.
Desde então as engrenagens do machinismo official apoderam-se d'elle
para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade.
Pertence á grande legião. Vae para onde ella for, diz o que ella disser,
pensa o que ella pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia
prefixa do cepo a que o amarraram.
É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a
classe dirigente vivem d'este cuidado unico: O cuidado de se não
comprometterem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas
opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta official. Se
alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dyspepsia moral lhes vem á
bocca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta
prohibida.
Como pelo desdem do trabalho vivem n'uma estreiteza pecuniaria visinha
da miseria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de
ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e
acceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia,
estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem methodo, sem a dignidade
do conforto e do aceio domestico,--a viva negação de todas as condições
que tornam a casa feliz e a familia amavel.
É d'esses consorcios sem idealidade e sem amor, contraidos fóra da mutua
dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro
individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os
filhos dissolutos, os jovens cynicos, desdenhosos das affeições
honestas, hostis a todos os sentimentos de familia, cujos nobres
encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.
D'esses consorcios procedem tambem as meninas futeis e pretenciosas,
frageis entes inuteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da
dignidade da mulher--a comprehensão do _ménage_, o culto do santuario
domestico. Ellas refugiam-se da convivencia antipathica da sua familia,
constituida sem bases organicas, na religião, ou, para que o digamos no
termo mais preciso, na _igrejice_, e na leitura dos romances
sentimentaes. A _igrejice_ e o romance são os dois pólos da sua vida
moral.
Como qualquer d'essas meninas desconhece completamente a arte de
cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caracter, um
instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao
cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimavel
fetichismo dissipador da moda.
Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da
felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa
tradição se aprendem: a arte de se fazer bella pelo simples modo de atar
uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de
se sentar n'um _fauteuil_, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte
de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua
chimica a alegria e a saude dos seus commensaes; a arte de arranjar a
casa, de lhe dar physionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir
idéas, a ter quasi conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos
armarios as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da
casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das
canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e
solicitarem-nos a permanecer a côr dos cortinados, o tom dos estofos, o
assumpto dos quadros, a collocação dos moveis, a graduação da luz, a
frescura do ar, a nitidez geral do aceio e a sabia disposição dos livros
e dos jornaes sobre o panno da mesa.
A menina em similhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou
se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações
romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua
melhor maneira de ter um fim, porque, emquanto a ser mãe, prohibe-lh'o
physica e moralmente a accumulada estreiteza do coração e dos ossos.
Taes são, no caracter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da
educação portugueza na classe mais preponderante da sociedade, aquella
que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com
similhante estado é irreconciliavel o genio explorador, a tendencia para
as viagens entre póvos barbaros e finalmente o poder de dirigir e de
dominar.
* * * * *
Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos
europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se
com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto
d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra
baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.
Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica
principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é
insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que
se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de
altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez
physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e
desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas
e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.
* * * * *
Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da
nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.
Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em
que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A
Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria
piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções
mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje
florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com
grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da
baleia ao cabo de Finisterra.
As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do
bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas
com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos
tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes
pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.