Esta solemnidade não tinha por fim, como o anno jubilario do Mosaismo,

dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos

seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em

cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a

familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo

que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_

chamava simplesmente a--_santificação do quinquagesimo anno_.

O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_),

preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a

remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante

trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um

dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma

solemnidade unica na historia--a reunião em Roma do genero humano

prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo

final, no valle de Josaphat.

N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero

dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar

cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente

como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os

alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para

albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as

igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos

alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma

fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam

mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de

fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a

sagrada collina.

Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que

até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso,

Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião

da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho

de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha

brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é

que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»

Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas

palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis

e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para

arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em

seu nome e segundo a sua doutrina_.»

No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de

prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das

portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou

pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si

a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia

universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas.

Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»

Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos,

cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon,

os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das

suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados

para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos

collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo

ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade

imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam

apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada

a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta

campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos

obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no

_Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com

as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento

collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil

espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada

de sangue de um gladiador ou de um martyr.

Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como

aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam

desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na

esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o

mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os

homens eram isto?

Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama

endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em

fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de

Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e

outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de

couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de

palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome

augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do

pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era

já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e

comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda,

desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as

promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as

vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas

sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta

Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador;

onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas

guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas

de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um

relicario um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo

determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam

os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e

enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.

N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço

enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á

humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores

revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu

Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo

sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com

a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_

Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções

successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem,

cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando

sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de

puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico

procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus

exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha

o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus

carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os

seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o

borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os

musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno

que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso

espremido.

E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem

haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem

uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se

aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um

simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas

deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.

Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem

procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O

que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o

movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da

humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu

de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma

unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda

de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de

paz, de liberdade e de justiça.

Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na

zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E

cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios

que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia

caminha.

É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos

offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto

campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas

superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão

ser tragados pela vaga.

Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido

Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido

todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova

comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem

se quer tenta lutar!

O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia

Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e

promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e

do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta

pela existencia.

Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se

modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na

economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na

poesia, na arte, na moral e na propria religião.

Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma

tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a

noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores

ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um

universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um

dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma

esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana,

experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios

analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus

não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como

fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do

Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios

de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.

As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra

como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda

edição.

Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção,

deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou

empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por

exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de

milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se

tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo

estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um

descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso

organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia

de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin,

basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da

creação sem quebra da infalibilidade suprema.

Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o

unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino,

porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas,

reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a

vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula

primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que

se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não

descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera,

porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o

infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.

Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder

temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da

consciencia na comprehensão da solidariedade humana.

Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o

genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos

logares!

Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós

outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de

emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a

preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e

pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto

pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de

Bulhões.

Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o

menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo

vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa

pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim

não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil

novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a

indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas

eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em

segunda classe!

Porque elles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo

Officio deixou de afervoral-os--que não é facil despir os peccados como

se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as

chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se

pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma

viagem a Roma.

Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se

elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o

padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe

ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e

Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as

indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe

sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.

Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da

auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de

franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto--o

poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens

divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis

penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e

inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.

Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á

mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque

obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda

fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America,

que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda

consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela

porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da

historia, mas sem a benção dos papas.

Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a

este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,--como

seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma

confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas

convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as

convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das

occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região

do globo.

E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e

precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa

era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de

justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam

prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.

Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado,

perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que

seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que

dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o

vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança,

vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver

desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia

unificada.

Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam

os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se

não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não

se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de

victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella

se distingue do erro e da mentira.

Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais

sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os

sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros

tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a

dieta!

Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só

os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por

uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo

exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exercitos.

Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os

diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.

Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa

benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos

concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é,

como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que

trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos

principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.

* * * * *

Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de

tomar a primeira communhão.

Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza

a theoria do resgate da culpa pela penitencia.

A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem

ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na

terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo,

alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da

benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo

nas almas dos principes devidamente desobrigados.

Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente

esse augusto espectaculo.

* * * * *

Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado

expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.

Parece-nos--comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente

timida--que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez

mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não

fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma

distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como

os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu

parocho.

Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão

as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_

applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha

parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas

suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram

penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram

tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar

que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o

principe da pureza mystica do manjar.

A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais

efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr.

D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus

famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.

Porque--acreditem-o--não é com a presença do illustre e correcto bispo

portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos,

com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet

de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente

limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar

á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por

emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.

* * * * *

Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos

nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á

mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do

serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os

passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e

quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do

commandante!

* * * * *

Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido

no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero.

Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro

sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a

condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!

* * * * *

A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente

africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte

questão:

O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o

dominio das nossas colonias?

Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é

crear faculdades dominantes.

Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.

A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da

força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma

conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o

argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um

simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a

sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle

parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do

auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.

Deante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que

explica o successo de uma empreza difficil e perigosa pela decisão e

pela firmeza do que a emprehende. A physionomia um pouco espessa e dura

de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros

athleticos são para a consideração de todos os inglezes os mais bellos

attributos de raça, o mais apreciavel caracteristico de uma distincção

privilegiada. Porque na educação ingleza a saude, o vigor muscular, a

força physica são o objecto de um culto.

Nos collegios Eton, Rugby, Harrow, os jogos athleticos, a pella, o

exercicio do remo, a carreira, o _foot ball_, o _cricket_ occupam todos

os dias algumas horas de applicação. Duas vezes por semana, quando

menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercicios

physicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, deante

de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate,

que amparam o vencido, que lhe refrescam com agua as contusões, porque

estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores

ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por

um dos socos do adversario. Toda a creança que se exhime a liquidar n'um

combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus

camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jámais um verdadeiro

_gentleman_.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05/06) · 第 2 / 4 段