dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos
seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em
cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a
familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo
que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_
chamava simplesmente a--_santificação do quinquagesimo anno_.
O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_),
preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a
remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante
trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um
dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma
solemnidade unica na historia--a reunião em Roma do genero humano
prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo
final, no valle de Josaphat.
N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero
dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar
cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente
como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os
alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para
albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as
igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos
alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma
fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam
mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de
fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a
sagrada collina.
Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que
até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso,
Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião
da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho
de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha
brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é
que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»
Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas
palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis
e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para
arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em
seu nome e segundo a sua doutrina_.»
No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de
prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das
portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou
pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si
a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia
universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas.
Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»
Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos,
cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon,
os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das
suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados
para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos
collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo
ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade
imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam
apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada
a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta
campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos
obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no
_Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com
as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento
collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil
espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada
de sangue de um gladiador ou de um martyr.
Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como
aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam
desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na
esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o
mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os
homens eram isto?
Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama
endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em
fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de
Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e
outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de
couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de
palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome
augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do
pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era
já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e
comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda,
desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as
promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as
vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas
sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta
Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador;
onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas
guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas
de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um
relicario um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo
determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam
os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e
enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.
N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço
enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á
humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores
revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu
Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo
sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com
a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_
Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções
successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem,
cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando
sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de
puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico
procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus
exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha
o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus
carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os
seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o
borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os
musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno
que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso
espremido.
E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem
haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem
uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se
aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um
simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas
deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.
Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem
procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O
que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o
movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da
humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu
de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma
unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda
de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de
paz, de liberdade e de justiça.
Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na
zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E
cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios
que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia
caminha.
É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos
offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto
campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas
superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão
ser tragados pela vaga.
Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido
Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido
todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova
comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem
se quer tenta lutar!
O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia
Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e
promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e
do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta
pela existencia.
Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se
modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na
economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na
poesia, na arte, na moral e na propria religião.
Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma
tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a
noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores
ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um
universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um
dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma
esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana,
experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios
analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus
não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como
fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do
Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios
de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.
As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra
como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda
edição.
Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção,
deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou
empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por
exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de
milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se
tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo
estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um
descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso
organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia
de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin,
basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da
creação sem quebra da infalibilidade suprema.
Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o
unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino,
porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas,
reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a
vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula
primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que
se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não
descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera,
porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o
infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.
Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder
temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da
consciencia na comprehensão da solidariedade humana.
Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o
genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos
logares!
Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós
outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de
emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a
preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e
pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto
pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de
Bulhões.
Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o
menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo
vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa
pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim
não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil
novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a
indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas
eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em
segunda classe!
Porque elles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo
Officio deixou de afervoral-os--que não é facil despir os peccados como
se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as
chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se
pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma
viagem a Roma.
Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se
elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o
padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe
ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e
Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as
indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe
sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.
Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da
auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de
franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto--o
poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens
divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis
penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e
inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.
Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á
mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque
obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda
fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America,
que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda
consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela
porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da
historia, mas sem a benção dos papas.
Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a
este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,--como
seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma
confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas
convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as
convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das
occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região
do globo.
E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e
precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa
era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de
justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam
prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.
Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado,
perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que
seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que
dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o
vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança,
vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver
desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia
unificada.
Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam
os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se
não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não
se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de
victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella
se distingue do erro e da mentira.
Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais
sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os
sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros
tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a
dieta!
Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só
os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por
uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo
exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exercitos.
Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os
diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.
Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa
benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos
concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é,
como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que
trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos
principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.
* * * * *
Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de
tomar a primeira communhão.
Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza
a theoria do resgate da culpa pela penitencia.
A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem
ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na
terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo,
alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da
benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo
nas almas dos principes devidamente desobrigados.
Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente
esse augusto espectaculo.
* * * * *
Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado
expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.
Parece-nos--comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente
timida--que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez
mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não
fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma
distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como
os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu
parocho.
Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão
as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_
applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha
parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas
suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram
penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram
tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar
que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o
principe da pureza mystica do manjar.
A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais
efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr.
D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus
famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.
Porque--acreditem-o--não é com a presença do illustre e correcto bispo
portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos,
com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet
de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente
limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar
á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por
emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.
* * * * *
Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos
nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á
mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do
serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os
passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e
quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do
commandante!
* * * * *
Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido
no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero.
Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro
sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a
condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!
* * * * *
A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente
africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte
questão:
O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o
dominio das nossas colonias?
Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é
crear faculdades dominantes.
Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.
A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da
força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma
conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o
argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um
simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a
sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle
parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do
auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.
Deante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que
explica o successo de uma empreza difficil e perigosa pela decisão e
pela firmeza do que a emprehende. A physionomia um pouco espessa e dura
de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros
athleticos são para a consideração de todos os inglezes os mais bellos
attributos de raça, o mais apreciavel caracteristico de uma distincção
privilegiada. Porque na educação ingleza a saude, o vigor muscular, a
força physica são o objecto de um culto.
Nos collegios Eton, Rugby, Harrow, os jogos athleticos, a pella, o
exercicio do remo, a carreira, o _foot ball_, o _cricket_ occupam todos
os dias algumas horas de applicação. Duas vezes por semana, quando
menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercicios
physicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, deante
de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate,
que amparam o vencido, que lhe refrescam com agua as contusões, porque
estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores
ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por
um dos socos do adversario. Toda a creança que se exhime a liquidar n'um
combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus
camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jámais um verdadeiro
_gentleman_.