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[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
NOVA SERIE TOMO IX
Maio a Junho 1877
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A burra do Estado. Porque motivo o ministerio Fontes se deitou abaixo
d'essa burra, e do mais que então passou. A queda do dente. Elogio do
dente pelo sr. Assumpção. O dente embrulhado n'um papel. O dente aos pés
do throno. O dente demittido. Pede-se um dente novo.--O drama _Leonor de
Bragança_ e a caixa do Poder Moderador. Parallelo da peça do sr. Luiz de
Campos e da do sr. Alfredo Ansúr. Os caracteres em cada uma das duas
peças, a lingoagem, o stylo, a cortezania, a intenção moral. Conclusões
do referido estudo: requisita-se para o sr. Ansúr a commenda do lagarto
ou metade da caixa conferida pelo Poder ao sr. Campos.--As corridas de
cavallos--O premio do Jockey-Club e o premio da Academia--O progresso em
Lisboa durante o ultimo semestre. A sociedade affirma o seu movimento
ascendente na civilisação por meio de dois novos estancos e de uma
ourivesaria. Philosophia de uma vitrine de joias--A peregrinação a Roma.
Os preparativos. A partida. A prescripção da _toilette_. A chegada a
Lourdes. Aspecto pittoresco e elegante do milagre: o _restaurant_, o
trem de Paris, as _parties fines_ sobre a relva, o Champagne e as
bilhinhas da agoa. Em Roma. As offerendas. O dinheiro de S. Pedro. A
applicação d'esta receita. O album dos peregrinos e o que n'elle se
contém. A nossa allocução. O primeiro e o ultimo jubileu. Pio IX e
Bonifacio VIII. A antiga fé. Os peregrinos em 1300. A fé actual e os
peregrinos d'hoje. O conflicto da sciencia e da fé. O Deus de Darwin. Os
novos poderes espirituaes. De como ninguem quer o ceu do Padre
Marnoco--A primeira communhão de sua alteza o principe--A civilisação
africana e as conferencias academicas. Uma conferencia que se não faz:
_Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores_.
* * * * *
Era em uma bella manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor
e da brisa--como diria o sr. Antonio de Serpa se as conveniencias
partidarias lhe permittissem ainda dedilhar a theorba sob o lyrico
balcão de D. Mafalda--tinha estendido sobre as campinas o seu manto de
esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz
animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no
chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da
hortaliça de que se exhalam emanações appetitosas de cuentro e de
pimpinella, no tic-tic do passo miudo e zeloso dos jumentos saloios
ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A agua das
regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos
favaes. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das
quintas, de pateo ajardinado, sahia em calidas baforadas o perfume dos
limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os
caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tepida e
balsamica cahia do ceu azul e envolvia n'um doce torpor voluptuoso e
suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou
desembarcando na gare de Santa Apolonia.
* * * * *
Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da
natureza, que o sr. Fontes Pereira de Mello deliberou deitar-se abaixo
do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos
que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que elle cavalgara
em cinco annos de choito glorioso atravez das _diversas provincias da
publica administração_.
Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus collegas do ministerio
e os seus mais intimos amigos politicos, lhes fallara d'esta arte:
Senhores! Achando-me esta manhã á janella do meu quarto, fazendo algumas
considerações philosophicas e a barba, deliberei apear-me por algum
tempo da azemola do poder.
_Vozes de amigos intimos desapontados_.--Oh! oh! Não o cremos!... Não o
podemos crer!... É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra
do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S.
ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico
deixar-nos n'este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos,
para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um
pretexto, haja uma razão!
_O sr. presidente proseguindo_: Quereis uma razão? Eu vol-a dou. Acho-me
impossibilitado de proseguir provincias da publica administração além. Á
força de meditar nos altos negocios do estado acaba de me cahir um
dente...
_Vozes_--Dê o dente para ordem do dia!
_O sr. presidente (tirando o dente da algibeira e collocando-o na
discussão)_--Ahi tendes o dente. Abri sobre elle os mais largos e
rasgados debates, e julgae-o como vos approuver. É um queixal. Nada mais
acrescento. Sobre este ponto considerações de melindre pessoal me
inhibem de continuar. Farei apenas sentir aos meus amigos politicos e
aos meus collegas do gabinete que nem a camara nem o paiz nem a corôa
poderão, segundo penso, exigir da minha fidelidade partidaria que eu
sacrifique á investigação dos negocios os dentes que o meu ardente
patriotismo me impõe a obrigação de reservar para os inimigos da patria.
Tenho dito.
(_Vozes:_--Muito bem! Muito bem!)
* * * * *
O sr. Manuel da Assumpção, havida então venia para fallar, consta que
estendera a dextra sobre o dente, e proferira com ardor e enthusiasmo as
seguintes palavras:
«Meus senhores! Este dente é a pagina mais gloriosa da nossa historia. É
effectivamente um queixal, como s. ex.ª muito bem disse na sua phrase
tersa, de uma energia e de uma concisão dignas de Tacito. Ha oito dias
que os jornaes que nos guerreiam lançaram este dente na tela da
discussão, procurando fazer acreditar ao paiz e ás nações extrangeiras,
por meio de insinuações malevolas, que elle é canino. Mandando o dente
para a meza o sr. presidente acaba de confundir de uma vez para sempre
os seus adversarios. Queixal! Longa foi a tua carreira gloriosa.
Enraizado no queixo de s. ex.ª atravessaste com elle as mais duras
provações de uma carreira brilhante. Roeste o pão negro do ostrocismo.
Atolaste-te na lampreia d'ovos das doces illusões. Mascaste a cabedella
dos terriveis desenganos. Depois de cada um d'esses estadios na senda
dos progressos materiaes e moraes, s. ex.ª, com mão decisiva,
palitava-te. Um dia porém, á meza do orçamento, no grande banquete da
civilisação, n'esse campo de batalha onde se travam os combates
incruentes do progresso e onde o talher de s. ex.ª por muitas vezes
fulgurou desembainhado ao sol das victorias, tu, depois de uma violenta
refrega, com umas amendoas torradas de exercicios lindos, com uns
biscoutos de gerencias anteriores, e com algumas outras verdades duras
de tragar, appareceste furado. No dia seguinte s. ex.ª chamava ás armas
a reserva e um dentista, e tu, ó dente, recebias como os bravos o
baptismo do chumbo. A bala inimiga....
_O sr. Presidente_--Tomo a liberdade de interromper o illustre deputado
e meu nobre amigo para lhe fazer notar que o dente não recebeu o
baptismo do chumbo sob a forma de bala, mas simplesmente sob a forma de
pingo.
_O orador_--Do mesmo modo então que um fundo de chaleira?
_O sr. Presidente_--Precisamente do mesmo modo.
_O orador_--Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da
prestar-me, e, se s. ex.ª m'o permitte prosigo, pondo de pane a piada
relativa á bala do inimigo...
Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caracter de um triumpho, pois
não cahiste arrancado por uma opposição accintosa e malevola; cahiste
porque tinhas os teus dias cheios e um pouco tambem porque estavas
podre.
Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?...
_O sr. Presidente_--Peço perdão para ainda uma vez interromper o
illustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do
dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que apparece
em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o
justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém
habilitado para satisfazer a curiosidade do illustre deputado em quanto
ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.
_O orador_--Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente
que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a
nenhum dos seus queixaes pergunta alguma para que deseje resposta. As
minhas interrogações são puramente rhetoricas. O silencio com que fui
escutado pelo dente não sómente me não escandalisa mas antes pelo
contrario me penhora como um testemunho de benevolencia a que não
ousava aspirar.
Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado
respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder
moderador, para que sua magestade haja por bem resolver como lhe
approuver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do
conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»
* * * * *
Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr.
Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos
emolientes emquanto o resto do ministerio partia para o Paço a levar ao
soberano o dente resignatario.
Constou pelos jornaes quo apenas recebera o dente sua magestade se
dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma
entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa
em procurar reintegrar, pelas suas proprias mãos, o dente caído na
maxilla do illustre estadista.
Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotára, para consolidar o dente
caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as
disposições do codigo fundamental da monarchia. Sua magestade tentára
fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre,
com pez, com gomma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.
O dente reagiu a todas as reaes instancias: o excelso politico, em cujo
queixo inferior elle se firmára durante cinco annos de gerencia
governativa não queria mais a confiança da corôa, queria unicamente
cosimento de malvas.
O monarcha lavrou então o decreto mandando o seu antigo ministerio
bochechar, e encarregou o sr. marquez de Avila e Bolama de reunir com os
seus amigos o numero de dentes necessarios para formar uma gerencia
duradoura e firme.
D'este encargo se desempenhou o sr. marquez com o zelo que o
caracterisa, e o actual ministerio nasceu.
* * * * *
Um dos nossos mais distinctos amadores, o sr. Luiz de Campos, acaba de
dotar o theatro de D. Maria com um drama, cujo exito constitue o maior
triumpho modernamente alcançado pelas letras portuguezas.
Não só os jornaes todos consagraram a esta obra louvores emittidos com
uma energia desusada, mas até a alta sociedade, de ordinario tão
parcimoniosa de curiosidade dispendida com a arte, patrocinou com
especial favor esta peça. O auctor teve a gloria de ver os seus finaes
d'acto applaudidos do fundo dos primeiros camarotes pelas mãos mais
aristocraticas. Nas situações patheticas do seu assumpto lagrimas
illustres sulcaram o pó d'arroz com que se perfumam os brazões das mais
nobres e distinctas familias. Finalmente no fim do espectaculo o Poder
Moderador, que assistira á representação em companhia da sua familia,
expediu um dos seus camareiros, o qual foi ao palco cumprimentar o
laureado dramaturgo, pedir-lhe desculpa de lhe não pingar do alto do
throno sobre o peito da casaca a commenda de S. Thiago, e entregar-lhe
em vez das insignias d'essa ordem excelsa e em nome do referido Poder um
cofre com uma pedra preciosa, que os jornaes do outro dia pela manhã
almotaçaram em 1:500$000 réis.
* * * * *
O drama do sr. Luiz de Campos intitula-se _Leonar de Bragança_ e encerra
a historia d'aquella desditosa, cuja mocidade e belleza feneceram de
subito, surprehendidas no ventre por trez facadas com que a brindou seu
esposo, o mui nobre e poderoso duque de Bragança, um dos antepassados do
Poder que hoje nos rege, e ao qual, bem como á sua familia, acima
tivemos a honra de reportar-nos submissa e respeitosamente.
O pretexto sob o qual D. Jayme damnificou com instrumento perfurante o
abdomen de sua mulher foram os amores d'esta com o pagem Antonio
Alcoforado.
Existiram effectivamente esses amores? Era a duqueza realmente culpada
de uma fraqueza anormal pelos pagens? Era Alcoforado um honesto e leal
servidor do principe D. Theodosio, ou era uma ratoeira vil de duquezas
incautas?
* * * * *
Ha duas opiniões ácerca do modo de considerar no theatro a natureza
d'este facto.
Na sua _Leonor de Bragança_, escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos
entende que a duqueza é innocente. Na sua _Leonor de Bragança_, escripta
em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.
Os fados, que tão propicios foram á obra do festejado sr. Campos,
trataram adversamente a obra não menos estimavel do malogrado sr. Ansúr.
Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em
cotejo as duas composições a que deu origem a tragica aventura de
Leonor.
* * * * *
No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho
perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em
_haver o pagem um coração_. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente
_haver_ em logar de _ter_, não só nos casos em que esse verbo é usado
como auxiliar mas ainda quando se toma na accepção de possuir. Acatamos
discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado
este cavalheiro a cortar as suas relações pessoaes com o verbo _ter_. O
simples depoimento do verbo _haver_, conjugado com tanta lealdade,
cravado no discurso com tanta firmeza como aquella que se admira em
todas as locubrações litterarias d'este auctor, basta para nos convencer
da innocencia de Leonor.
Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso d'esta peça são de
um caracter fortuito absolutamente illibado.
A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo
bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no
momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor
á direita para o segundo bastidor á esquerda. Elles veem ambos meditando
no verbo _haver_, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas
cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:
_Duqueza_--Houveste alfim volvido?
_Pagem_--Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?
_Duqueza_--Nada hei.
_Pagem_--Hão, quiçá, offendido-vos outra vez?
_Duqueza_--Não hão. Pagem, havereis de volver a casa do sr. D.
Theodosio.
_Pagem_--Visto que não heis de mim de, senhora minha, haja de se cumprir
vossa vontade! Haverei força, haverei de havel-a... Manhã, ao toque de
prima, serei partido. De nada mais heis mister?
_Duqueza_--De nada mais hei, pagem; e a Deus prasa que jámais haja de
haver! Idevos presto a D. Theodosio, consoante-vos hei di-lo pouco ha.
_Pagem_--Em mim havei fé, minha senhora ama: eu me vou.
_(Saem ambos, cada um por seu lado, meditabundos.)_
A entrevista que dá causa á vingança do duque não a tem Alcoforado com a
duqueza mas sim com uma das suas damas. Em toda a peça, finalmente, a
duqueza, nem por carta, nem de viva voz, nem de simples ôlho, tem para
Antonio uma palavra, um aceno, um gesto, em que se presinta de leve que
seja a exhalação da perfidia.
* * * * *
O sr. Ansúr é menos complacente com os seus personagens, como vamos ver.
BEATRIZ ANNES
_Grande mal, grande mal, senhor Fernão!_
FERNÃO RODRIGUES
_Que mal?_
BEATRIZ ANNES
_Homem em casa._
FERNÃO RODRIGUES
_Com a aia?_
BEATRIZ ANNES
_Não._
FERNÃO RODRIGUES
_Com quem pois?_
BEATRIZ ANNES
_Com nossa ama._
O fogoso e pittoresco sr. Ansúr vae mais longe ainda: colloca o pagem
aos pés da duqueza e põe na bocca de um e outro estas palavras:
PAGEM
_Que enthusiasmo sinto! Arfa-me o seio
Em vertigem de amor! Sinto a poesia
Na mente distillar grata ambrosia.
Ó senhora duqueza! Minha vida!
Como vos amo!_
LEONOR
_Antonio! alma querida..._
PAGEM
_Longe de vós a vida é-me desterro...
Perdoar-me-heis do coração este erro?_
LEONOR
_Sim._
PAGEM
_Sem vos escutar e sem vos ver
Não podia, senhora, mais viver!
Meu peito abrasa._
LEONOR
_Doce pensamento,
Longe de ti é egual o meu tormento._
E a duqueza prosegue exaltando-se n'uma gradação rhetorica perfeitamente
calculada pelo sr. Ansúr até o ponto de lhe dizer o Alcoforado:
_Calae-vos por piedade! Tende imperio
Sobre a imaginação._
Em outra scena da peça depois de uma entrevista secreta com o pagem, á
hora da meia noite, a duqueza profere uma palavra physiologica, de um
sentido decisivo:
_Como evitar que o duque venha, e veja
Aqui tua presença que me peja?_
PAGEM
_Meu Deus!_
LEONOR
_Jesus! esconde-te!_
Ao que o pagem, com o temerario valor que só os altos sentimentos
persuadem, replica energicamente:
_Fujamos!_
LEONOR
_Por onde oh! ceus?_
PAGEM
_Por esta porta._
LEONOR
_Vamos._
Sendo tanto a _Leonor de Bragança_ do sr. Luiz de Campos como a _Leonor
de Bragança_ do sr. Alfredo Ansúr peças offerecidas pelos seus auctores
a sua magestade el-rei o sr. D. Luiz I, é claro que ellas devem ser
consideradas pela critica não como livres producções litterarias mas
como especiaes mimos dedicados á familia de Bragança. Ora sob este ponto
de vista--não hesitamos em dizel-o--a obra do sr. Ansúr parece-nos muito
mais completa e perfeita que a do sr. Luiz de Campos.
Pomos de parte a questão da investigação historica, que foi egualmente
aprofundada pelos dois auctores. O sr. Luiz de Campos reforça-se com o
testemunho dos documentos que manuseou: _A historia genealogica, As
Decadas_ de Couto e de Barros, a _Chronica de D. Manuel_ por Damião de
Goes e o _Auto de inquirição e devassa_ existente na Torre do Tombo. O
sr. Alfredo Ansúr fortifica-se exactamente com os mesmos documentos por
elle compulsados.
Para suas excellencias, armados de eguaes argumentos pró e contra a
duqueza, a escolha do papel que tem de lhe ser dado n'este drama é pois
uma questão de gosto. O sr. Ansúr, emquanto a nós, escolheu melhor, e
fez a sua magestade el-rei uma dadiva mais delicada.
Segundo o sr. Ansúr o duque de Bragança D. Jayme é um cavalheiro infeliz
em familia, ao qual succede--como muito bem diz Menelau na Bella
Helena--uma fatalidade. O duque deteriora a região intestinal da
duqueza, mas deteriora-a em legitimo desforço da sua dignidade offendida
e ao abrigo das leis do reino.
Segundo o sr. Luiz de Campos, dada a innocencia da esposa, o duque não
passa de um sanguinario estupido, que envolve o seu brasão de familia e
a futura tradição dynastica n'um ignobil e affrontoso chouriço de sangue
innocente. O acto de mandar desossar pelo cosinheiro o pagem Alcoforado,
com o mesmo facalhão com que se picam os bifes, é um facto indecente
que, posto o criterio do sr. Luiz de Campos, estabelece um precedente
que pode levar os servidores da casa de Bragança a não distinguirem
inteiramente a differença que ha em ir para o paço e em ir para a
salgadeira.
Eliminada a circumstancia do adulterio o duque é um facinora vulgar sem
nenhum apoio na jurisprudencia ou na legislação. Depois da leitura da
peça do sr. Luiz de Campos, um jury sensato que houvesse de julgar D.
Jayme, mandal-o-hia degradado por toda a vida para a Costa de Africa.
Só assim se poria uma sociedade culta ao abrigo de um principe que faz
das esposas e dos vassalos um consumo que se não justifica pelas
necessidades ordinarias da vida exterior.
* * * * *
Parece-nos ser um serviço em extremo subalterno prestado a alguem o
publicar a historia de um dos seus antepassados á luz de uma critica
cujas derradeiras consequencias são, como no drama do sr. Campos, a
condemnação do mesmo antepassado a um genero de glorificação e de
apotheose que elle só pode remir com a prisão correcional perpetua.
Na peça do sr. Ansúr o antepassado do alto personagem a quem elle a
offerece e consagra apparece-nos satisfactoriamente levado ao crime por
uma provocação cheia de solicitude e de cortezia. «Ha homem em casa. Com
a creada? Não. Com a patrôa.» Este grito sublime de clareza e de
concisão esparge no facto um raio de luz juridica e lança um immenso
clarão de legalidade e de justiça sobre o chifarote brigantino destinado
á perfuração das damas.
Nada mais tocante do que a situação do duque ao receber o fatal
desengano:
_Horror! Infamia! Anathema! Vergonha!
.......................................
Rompe-se-me do ser toda a harmonia,
Passa-se-me na mente extranha orgia!
Estalam-me no corpo algumas fibras!
Meu pobre espirito, que assim te libras
Do desespero na mortal esphera,
Não te consumas tanto! Acalma! Espera!
.........................................
Mofina dor me roe, me despedaça!
Emquanto descuidoso andara á caça,
Tu deliravas... tu... oh! que villeza!_
E depois dirigindo-se ao pagem:
_Arrepende-te dos teus peccados
Que os fios da tua vida estão contados!_
PAGEM
_Perdão! piedade!_
DUQUE
_Soffre com valor
Que mais soffreu par nós o Redemptor!
.....................................
.........................Alfim
Com o manchil Domingos cortará
A cabeça do pagem. Morrerá._
A duqueza intervem com esta conceituosa
mas intempestiva maxima:
_Jamais decepes com manchil odioso
A cabeça de um justo. É horroroso!_
O duque não precisa que lhe ensinem a resposta...
_Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
O descendente, como pune o ultraje,
Que lhe fizeste, Leonor! Apage._
Não são estes porém os unicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á
clareza justificativa dos factos e ao esplendor immarcessivel da casa de
Bragança. A peça d'este benemerito cavalheiro abunda em conceitos e em
noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que,
presando-se de amar o rei e a patria, deixará de ler sem uma commoção
profunda as seguintes palavras que o auctor põe na bocca da mãe de D.
Manuel, por occasião do advento d'este monarcha ao regio solio?
_Omnipotente Deus! quiz o destino
Dar existencia ao throno manuelino!
Quem predissera tal, filho cadete,
Quando surgiste á luz em Alcochete?!_
Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da
casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr.
Ansúr celebra os antigos privilegios heraldicos de tão distincta
familia:
_A não ser o real, não ha poder,
Que possa hoje nos reinos exceder
O de nosso senhor! Póde D. Jayme
(Ó fóros brigantinos inspirae-me)
Nas salas dos seus paços ter doceis
E sitiaes nas egrejas dos fieis.
Forrada com arminhos, rica, larga
Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
Ante si leva estoque, segundo acho,
Com o extremo voltado para baixo,
Distinctivo dos reis, que é para cima._
Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em
cujo throno se acha uma familia que antes de reinar tinha o direito de
levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar
estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos
acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!
A unica coisa que se nos offerece reprehender na peça do sr. Ansúr, por
innumeros titulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não
tivesse accrescentado com mais um acto, no qual, para completa
rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos apparecesse
resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que
consumiu até o ultimo dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Villa
Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que
se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o
nobre duque se mettia em agua, durante uma hora por dia, para desaggravo
e remissão de suas culpas. O illustre heroe tão devéras se arrependeu
que chegou a mortificar-se d'esta maneira insolita e sem
precedentes--tomando banho!
Seria um bello melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a
completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado
pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas
carnes ultrajadas e viuvas pelo contacto expurgante de um sabão.
* * * * *
Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque
motivo não caiu do alto da regia munificencia sobre o peito inspirado do
sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do merito artistico e
litterario, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poeticas do
sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino
como o do seu collega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia n'esta creação
litteraria? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ella
escripta em bellas parelhas de versos de dez syllabas, em vez de o ser
em prosa villôa como a do seu competidor?
O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber
mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima
referido de 1:500$000 réis.
Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade annexa ao mandato
popular, porque não se lhe confere a commenda da nobre ordem ou, quando
menos, a sua equivalencia em cofre com pedra preciosa no valor de réis
1:500$000?
Grave e inexplicavel injustiça! Se a nossa debil voz póde chegar até ás
orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:
Senhor! A vossa protecção ás letras patrias não se tem até hoje
desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os
dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas teem
colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido collocado em
uma _avant-scène_, durante uma ou duas representações das suas peças, o
vosso real perfil, que outros não possuem senão collocado nas moedas de
5$000 réis, coisa miseravel e vil. Acabado o espectaculo vós enfiaes o
vosso paletot, accendeis o vosso charuto, retomaes o vosso sceptro no
bengaleiro, e ides para casa recolher as commoções da noite sob o
agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na
ponta. O genio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa
munificencia manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que
deliberastes inaugurar a éra do galardão litterario, dae a Alfredo
Ansúr a commenda que Luiz de Campos não pôde acceitar. Dae-lh'a quanto
antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do
remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, elle vos brade nos
silencios da noite:
«Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto,
Barbadão!»
Se o throno for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de
Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho
cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!
Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do
brinde que lhe lhe compete.
* * * * *
Hoje, 7 de maio, corridas de cavallos no hippodromo de Belem.
Um premio foi disputado por quatro cavallos, um foi disputado por tres,
outro por dois, e o ultimo finalmente por um cavallo só. Este cavallo
partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal
ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos
applausos geraes, passando adiante de si proprio!
Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de
el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça
cavallar:--quanto mais premios se distribuem menos cavallos ha.
Se a instituição se mantem por dois ou tres annos mais, é-nos licito
acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavallo nenhum,
e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos _sportmen_ que figuram no
programma da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por
percorrer a pista montado no seu telescopio.
* * * * *
E no entanto o campo das corridas é o mais bello sitio dos contornos de
Lisboa, o mais aprazivel ponto de passeio de carruagem, a cavallo ou a
pé nas tardes de verão, e é susceptivel de ser explorado pelo
Jockey-Club com sufficiente lucro da associação e com grande vantagem do
publico. Bastaria para utilisar e aformosear o campo circumdal-o por
fora da pista com uma rua de arvores intermeadas de bancos de jardim;
estabelecer no centro do hippodromo um jogo do _Cricket_ para os membros
de um _Cricket-Club_ addido ao _Jockey-Club_; organisar um tiro ao alvo,
um _Croquet_ para as senhoras, alguns jogos gymnasticos para o povo e
para as creanças; promover nos domingos da primavera e de verão no
recinto do campo pequenos certames agricolas e industriaes, concursos de
vaccas, de carneiros, de gallinhas, de porcos gordos, exposições de
flores, de fructas, de legumes, de queijos, de instrumentos de
agricultura e de jardinagem, etc.
Lisboa carece vergonhosamente de uma instituição d'este genero que reuna
com as condições de recreio os desenvolvimentos de actividade e de
educação. Visto que nem o governo nem a municipalidade se occupam d'essa
questão, o _Jockey-Club_ prestaria um serviço relevante procurando
resolvel-a.
* * * * *
Mas de modo algum pretendemos forçar o _Jockey-Club_ a acceitar esse
encargo. O _Jockey-Club_ fará o que entender, e nós acharemos sempre que
entendeu bem; a unica coisa que lhe rogamos é que reflicta no futuro que
o espera continuando na senda assustadora em que principia a resvalar. O
club achou ainda um meio de resolver o problema do concurso diante da
simples unidade: queremos saber o que fará quando vier a apparecer a
fracção, e a quem se dará o premio de el-rei, quando para o anno
concorrer unicamente a disputal-o--um selim!
* * * * *
Ao mesmo passo que o _Jockey-Club_, sob a protecção de suas magestades o
sr. D. Luiz e o sr. D. Fernando confere premios no valor de tres contos
de réis annuaes ás bestas velozes, a Academia Real das Sciencias, sob a
presidencia e sob a protecção dos mesmos augustos principes, confere
apenas 50$000 réis de premio aos sabios extenuados.
Um cavallo que percorre a galope uma distancia de mil e quinhentos
metros ganha réis 1:500$000. Os sabios do paiz inteiro ganharão 50$000
réis satisfazendo entre varios outros os seguintes pontos do programma
da Academia para o anno de 1877:
Em mechanica: Apresentar um trabalho sobre o movimento dos fluidos;
achar o melhor systema de obras a eslabelecer nas margens do Tejo a fim
de satisfazer simultaneamente as condições de salubridade, irrigação e
segurança das propriedades adjacentes. Em physica: estudar a capacidade
calorifica dos atomos nos corpos simples; indicar a construcção da pilha
de effeito mais constante e mais propria para ser applicada á
telegraphia; apresentar a synthese dos alcaloides organicos; estudar a
composição chimica das principaes aguas sulfureas e alcalinas de
Portugal. Nas sciencias historico-naturaes: Fazer a descripção
ampelographica das principaes castas de uvas portuguezas e determinar o
melhor processo para o fabrico dos vinhos genuinos; fazer um ensaio
monographico da fauna portugueza. Nas sciencias medicas: Determinar as
alterações da saude e as doenças devidas ás principaes industrias do
paiz e indicar os meios efficazes de as prevenir; fazer um estudo
critico do systema de esgoto e saneamento da capital, que satisfaça a
todas as condições prescriptas pela hygiene, apresentando o modo da sua
realisação; estudar a mortalidade de Lisboa, suas causas e meios de as
attenuar. Em litteratura: Fazer um romance historico, fazer um poema,
fazer um glossario das palavras e locuções hoje obsoletas ou antiquadas
que se leem nos antigos cancioneiros portuguezes acompanhando esse
vocabulario de observações linguisticas e philologicas. Nas sciencias
economicas e administrativas: Memorias ácerca da descentralisação em
Portugal e do melhor systema de circulação fiduciaria. Em historia e
archeologia: Estudo ácerca do estado da sociedade portugueza ao tempo da
morte de D. João V; determinar e caracterisar as relações artisticas de
Portugal nos seculos XV e XVI no tocante á architectura, esculptura,
pintura, musica e artes industriaes, indicando os meios officiaes e
extra-officiaes que facilitaram essas relações pondo os resultados em
parallelo com a historia da arte em geral, etc., etc., etc.
* * * * *
Se nós fossemos sabios preferiamos ao trabalho de responder a qualquer
dos alludidos quesitos pela somma de 50$000 réis, o trabalho de
percorrer á desfilada a pista do hipodromo de Belem--de graça.
* * * * *
Durante o semestre que finda este mez Lisboa não produziu nem um só
livro util, nem uma só notavel obra d'arte na pintura, na musica, na
poesia.
Não se fez nem uma prelecção nem uma conferencia litteraria ou
scientifica. A estação toda passou-se como a estação anterior, como as
estações precedentes, sem que esta sociedade em marasmo désse um unico
signal de vida intelligente.
Lisboa é hoje a unica capital da Europa em que isto succede. Não
queremos dar-lhe em parallelo Paris, Berlim, Bruxellas, Londres, S.
Petersburgo, qualquer das grandes cidades da Italia ou da Hollanda.
Apontaremos apenas Madrid, e não citaremos senão um dos seus institutos
particulares, o _Atheneu_, sociedade da natureza do _Gremio Litterario_
em Lisboa. No _Atheneu_ os cursos publicos, livres, gratuitos,
abriram-se no mez de outubro, tendo havido desde o dia da abertura
prelecções, conferencias ou debates em todas as noites. Teem-se
ventilado as mais interessantes questões da philosophia e da sciencia
social no ponto de vista de espiritos altamente cultos.
Em Lisboa o progresso social, o movimento ascendente da civilisação
manifestou-se unicamente pela apparição de tres estancos novos no
Chiado e de uma ourivesaria no largo das Duas Egrejas. Como á falta de
objecto para outros interesses mais elevados, nós occupavamos os nossos
ocios encostando-nos ás humbreiras das tabacarias a ver dispersar-se no
ar o fumo dos nossos charutos, as tabacarias comprehenderam que este
estado geral dos espiritos deveria começar a fatigar os habitantes de
Lisboa, e dotaram-os com sofás. Para o anno os estancos requintarão
ainda as condições de commodidade e havemos de ver os estanqueiros
sairem ao encontro dos desejos do publico com colchões. Chegaremos á
Casa Havaneza, despir-nos-hemos, poremos a camisa de dormir e fumaremos
os nossos _carvajales_ deitados em camas, á porta.
* * * * *
A ourivesaria do largo das Duas Egrejas teve o successo de uma
instituição. Ella é como um templo ao luxo, como um altar ao deus Ouro,
tal como o conceberiam, erigido com todo o esplendor do culto, os
Pharaós da Rua dos Capellistas. A armação interior da loja é feita em
Paris segundo os elegantes modelos das joalherias da rua de la Paix ou
do Palais Royal. Armarios da mais verosimil imitação de ebano sobre um
parquet brunido. Tecto de um azul idealisado, representando um trecho de
ceu coberto de creme.
Nas vitrines, de um só cristal immaculado, desdobram-se em degraus, como
n'um throno de lausperenne, as prateleiras de veludo cor de cereja, de
cuja suavidade macia e ardente destacam em vigoroso relevo as joias em
exposição. A um lado pendem em meada as correntes de relogio exhibidas
como o corpo de delicto de uma quadrilha de pick-pocket apanhados com o
roubo. Suspensos nas extremidades das correntes pousam em baixo os
breloques, n'um grande molho confuso, como se adornassem um collete
monstro sobre o estomago collectivo e proeminente do capital.
Nos logares mais proximos de quem olha estão os miudos objectos
preciosos, as finas pedras raras, os olhos de gato castanhos e amarellos
em pequenas elypses cujo grande eixo é indicado por uma linha que separa
nitidamente as duas côres; as perolas negras de um tom profundo, que não
é o preto, é o infinitamente escuro, como a noite; as perolas côr de
rosa sobresaindo em cercaduras de brilhantes como capsulas cabalisticas
feitas de substancias extraidas de uma cristalisação mimosa de beijos
ternos e de perfumes castos.
No segundo plano apparecem os ornamentos de mais vulto: os broches
tremelusentes e vivos como esparrinhaduras de diamantes e de rubis
chispando no ar; as flores imaginosas de petalas de aljofar ou de
saphira, orvalhadas de pulverisações de esmeralda; os medalhões em
camafeus preciosos sobre pedras de tres côres nos tres planos da
esculptura; as eflorescencias phantasticas das onix, das granadas, das
malaquites, das opalas; em raios como estrellas, em sobreposições como
pinhas, listradas, rajadas, mosquetadas, affestoadas, zebradas com todas
as scintillações do prisma.
Mais longe offerecem-se os braceletes nos seus estojos côr de lilaz. Uns
são fortes e duros como os violentos desejos, outros vaporosos e finos
como aspirações platonicas. Nas suas variadas formas teem physionomias,
revelam temperamentos. Ha-os lascivos e ardentes, colleados em quatro
roscas de um ouro fulvo, terminando n'uma cabeça de cobra esmagada por
um esbraseamento de rubi. Ha-os contemplativos e ingenuos, de uma côr
limphatica, salpicados de frias e innocentes turquezas. Tambem os ha
trasbordantes de uma vida farta e victoriosa, largos, rendilhados,
superabundantes de cores, expansivos e triumphaes como orchestras,
soprando hymnos de um enthusiasmo sanguineo, vermelho, despotico.
Em outra vitrine está a exposição das pratas: os centros de mesa
representando palmeiras, á sombra das quaes se empinam cavallos em
pello, que deverão parecer relinchar de amor no meio das sobremesas,
entre as frutas empilhadas geometricamente em pyramide sobre taças de
filigrana e os gelados transparentes impregnados de luz, tremulos, côr
de topasio; as bacias de mãos, de desenhos bysantinos _repoussés_; os
jarros de forma etrusca; os assucareiros graves e concentrados como
vasos de particulas sagradas; e os grossos bules barrigudos e polidos,
nos quaes se espelham os rostos em caricatura monstruosa, com bochechas
obscenas, narizes que incham como focinhos de vitela e bocas que riem
até as nucas.
* * * * *
Ao accender das luzes, ás oito horas e pouco depois, magotes compactos
de espectadores estacionam defronte da vitrine das joias. Demoram-se
mais as mulheres: mulheres de amanuenses e de pequenos empregados,
costureiras das modistas, que saem a essa hora das officinas quando não
ha serão.
Candieiros de gaz com fortes reflectores não só alumiam intensamente os
objectos expostos nas vitrines, mas alumiam tambem pedaços de
espectadores, em que se podem fazer exames minuciosos, de microscopio.
As mulheres magras, pallidas, que olham, teem as faces oleosas da
transpiração do trabalho de 14 horas em pequenos gabinetes abafados,
cheios de exhalações mornas de roupa suja. Na mão esquerda o dedo que
aponta para um colar de mil libras tem uma nodoa escura, esfarpada,
produzida pelas picaduras da agulha, e o dedo polegar mostra uma unha
curta atrophiada no habito de esmagar costuras. Os chapeus adornam-se
com velhas flores em terceira mão, desbotadas e tristes; e das cuias,
caidas sobre a mancha gordorosa que tem entre as espaduas a alpaca poida
dos vestidos, sae um cheiro acido de cabellos humidos e embrulhados, em
fermentação.
Dentro da loja uma bella mulher risonha que se apeou de um coupé,
embrulhada em fina renda branca, debruça-se no mostrador e aproxima da
mão do caixeiro que lhe segura um brinco a polpa aveludada da sua orelha
carnuda, sensual, de comilona feliz.
Os espelhos dos angulos da sala e os que forram as vitrines reproduzem
infinitamente para todas as direcções essa cabeça bonita envolta em
renda, e mostrada ao mesmo tempo de todos os lados, de frente, de
perfil, de tres quartos, acompanhada sempre da mão que enfia o brinco.
As macilentas Margaridas de olhos pisados vão ver em cada noite esse
espectaculo de tentação, em quanto na esquina fronteira, na Casa
Havaneza, os Doutores Faustos accendem os seus charutos, e muitos
diabinhos invisiveis volitam no ar dizendo segredos, deitando de fóra
impudentemente as linguinhas de chamma e coçando os seus piqueninos
chavelhos com freneticas contracções aduncas, como quem se sente
inteiramente cheio de phosphoro e de alacridade.
* * * * *
A peregrinação a Roma foi promovida pelos chefes do partido clerical com
um zelo fervoroso, que acabamos de ver coroado com o mais prospero
exito.
Suas excellencias annunciáram com a devida antecedencia a celebração do
jubileu pontificio; facilitaram a romagem com esclarecimentos que fariam
a gloria do _Guide Joanne_; conseguiram o estabelecimento de comboyos de
recreio, ida e volta, preços reduzidos, de Lisboa a Roma, com escala por
Nossa Senhora de Lourdes; deram os preços dos hoteis e dos restaurantes
romanos, a regimen de peixe ou de carne, para as grandes bolsas, para as
bolsas medias e para as pequenas bolsas; fixaram finalmente a
_toilette_, explicando que as senhoras deveriam apresentar-se com
vestidos de seda preta e véos de renda, e os homens de uniforme ou de
casaca preta e gravata branca.
Porque--suas excellencias o explicáram--o santissimo padre não recebe
senão senhoras de rendas e homens de casaca. Os peregrinos vestidos de
sacco e burel, as peregrinas cingidas pela estamenha e pela corda de
esparto, não sobem a escada do Vaticano. Os pés privilegiados para
pisarem os tapetes do Vigario de Christo na terra são os pés mimosos e
aristocraticos, calçados em escarpins de setim ou de polimento. Os
sapatos ferrados dos caminheiros plebeus, as sandalias espalmadas das
peccadoras que não vem de passeiar em _victoria_ ou em caleche á
Daumont, de volta do Corso ou do Pincio, mas que chegam das escabrosas
veredas da miseria; as alpagartas dos penitentes que vieram trilhando
abrolhos sangrentos no aclive da via dolorosa, são generos de calçado
expulsos pelos enxota-cães, e expulsos com os respectivos pés, porque
tambem se não entra descalço no Vaticano como se entra no templo em
Jerusalem, ou na mesquita de Santa Sophia em Constantinopla.
Facultados tão interessantes esclarecimentos muitas pessoas partiram a
receber as bençãos paternaes offerecidas pelo pontifice ás rendas e ás
casacas pretas do orbe christão.
* * * * *
Alguns episodios d'essa piedosa viagem são já do dominio da imprensa. Da
estação do caminho de ferro de Braga sairam os romeiros entre
acclamações sympathicas e vivas enthusiasticos á santa religião e ao
summo pontifice Pio IX. Em compensação na gare do Porto foram os mesmos
romeiros acolhidos aos gritos não menos enthusiasticos de «Fóra os
hypocritas! fóra os patifes!» Por este ultimo successo damos a suas
excellencias os nossos cordeaes parabens, porque suppomos que elles
viajam com um fim de humildade e mortificação, e que lhes serão
agradaveis todas as manifestações publicas tendentes a exacerbar-lhes o
pungimento expurgante das duras penitencias.
Em Lourdes, refere o telegramma de um sacerdote ao jornal _A Nação_, que
á vista da gruta toda a romagem rompera em pranto e se prostrára em
joelhos. Devemos crêr que esta prostração fosse passageira, não só
porque um telegramma subsequente nos annuncia a chegada dos peregrinos á
cidade eterna, mas ainda porque em Lourdes a belleza da paisagem, a
exuberancia da vegetação, o rumor das aguas, as perspectivas sombrias e
flexuosas da floresta, a clara alegria do restaurante, de gelosias
abertas, de _stores_ desdobrados ao sol, com a sua grande taboleta _Á
Notre Dame de Lourdes_, e os seus subtitulos em caracteres appetitosos
_Diners à la carte et déjeuners à la fourchette,--gras et maigre_, tudo
convida os espiritos ascetas a uma conciliação amavel com a carnalidade
mundana.
Além do aspecto das coisas, as exterioridades das pessoas contribuem
tambem poderosamente para arrancar os adventicios ás attitudes
prostradas e contemplativas.
Os comboyos de Paris chegam e partem cheios de alegres _touristes_ de um
e outro sexo.
São graciosas peccadoras com adoraveis _toilettes_ de viagem; chapeus de
grossa palha de fôrma aguda e aba estreita derrubada sobre os olhos,
descobrindo a nuca, em que se enrolam as tranças loiras, e a nascença do
cabello junto do pescoço, com os seus flocosinhos de pennugem crespa e
doirada penetrada de luz; os vestidos decotados no collo em linhas
quadradas como os colletes dos devotos bretões; as saias curtas deixando
ver as meias de seda listradas de azul, e os sapatos de pelle de gamo
atacados com correntes de aço, que telintam ao andar. Estas gentis
romeiras abordoam-se a cajados rusticos comprados no _boulevard_ dos
Italianos, trazem ao tiracollo os grandes rosarios de contas de madeira,
grossas como bugalhos, terminando em uma cruz egualmente de madeira que
chega á barra do vestido,--ornato local de um pittoresco picante.
São os homens de nickerbockar de flanella alvadia e capacetes de sabugo
envoltos em véos turcos, com uma flor de madresilva na _boutonière_,
fazendo gelar o champagne e preparando debaixo das arvores os seus
jantares em _partie fine_, emquanto padres solicitos vendem a agua
milagrosa, ou aos copos á bica da gruta, ou em bilhinhas de lata
devidamente lacradas e selladas authenticamente, facultando na igreja
recantos reservados e escusos para as applicações em banhos parciaes, ou
em compressas, a orgãos enfermos que as devotas desejem submeter á cura
nos proprios logares benzidos e sagrados.
* * * * *
Em cem contos é calculada a somma dos donativos em dinheiro levada
pelos peregrinos portuguezes ao Santo Padre.
É valiosa na occasião presente essa contribuição, porque a historia do
dinheiro de S. Pedro teve sob a gerencia do cardeal Antonelli episodios
devastadores. Procurando ha annos o governo de Victor Manuel realisar
uma operação bancaria destinada a equilibrar as finanças da Italia, o
cardeal Antonelli, como fino rabula e zeloso ultramontano, concebeu o
plano de um _coup de bourse_ destinado a combater as intenções do
governo italiano provocando uma descida que impossibilitasse a emissão
de novos fundos. Para este fim o astuto financeiro vendeu em massa, pela
baixa, os titulos da divida italiana que a Santa Sé possuia e que
representavam o dinheiro de S. Pedro. É porém perigoso, mesmo para um
italiano, jogar as peras com outro italiano. Na Italia todo o homem
habil deve estar preparado para encontrar um mais habil que o logre. Foi
o que succedeu a Antonelli. O seu plano foi estrategicamente
contraminado pelo governo de Victor Manuel, organisando-se um syndicado
de banqueiros que despedaçou a armadilha do illustre cardeal.
O dinheiro de S. Pedro convertido outra vez em metal pela operação
malograda nos seus effeitos, foi então convertido em fundos turcos,
operação arrojada mas tão lucrativa que promettia duplicar, em poucos
annos, o capital empregado, a não ser que um caso, então imprevisto,
prejudicasse o exito da transacção fazendo estalar no Oriente uma guerra
inesperada.
Foi, como se sabe, o que veiu a succeder desgraçadamente para os bens do
Papa. De sorte que o dinheiro de S. Pedro, piedosamente accumulado pelos
catholicos para o esplendor da Igreja, achou-se, pela mais estranha das
coincidencias, consumido em polvora por uma potencia chamada ao fogo
como perseguidora dos christãos!
* * * * *
Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os
peregrinos levaram, para offerecer a Sua Santidade, um grande album, em
que vae inserida uma declaração de principios assignada por todos os
romeiros. Os jornaes que nos transmittem essa noticia não nos dão o
texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o
que suas excellencias dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:
* * * * *
Santissimo Padre
Ha hoje quinhentos e setenta e sete annos que o primeira jubileu da
Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos
predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.