Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como

todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas

sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia

encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava

experimentado, gostava d’ella.

O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem,

onde elle vivia.

Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade

insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação

balnear.

Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras

occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad

parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que

a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que

declinava.

Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola

revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe

admiradores, até sua propria mãe.

Soledad olhava para o _abanico_, que com tanto _salero_ requebrava,

e parecia-lhe que era como que uma espada partida na mão de um

conquistador.

Cuidava ouvir dizer-lhe o _abanico_:

—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e

fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’um _bolero_

sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os

teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio

timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas

inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas

decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior

orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não

dispõem dos teus recursos de hespanhola, do _salero_ e do _abanico_, dois

irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas

usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são

semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de

haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a

alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou

o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas

injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de

raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas

marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que

a tua belleza te dá direito.

Soledad ouviu o _abanico_ e deu-lhe credito, como todas as hespanholas.

Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada,

fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar

esse projecto, que lhe promettia uma vida mais alegre do que a de

Setubal.

O Marcolino, marcador do café _Esperança_, perguntou a D. Enrique se

queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros.

E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porque _se iba a

marchar_.

—Para Hespanha? insistiu o marcador.

D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos

Bourbons.

E o Marcolino, que foi o primeiro republicano que pimpolhou em Setubal,

respondeu-lhe mentalmente:

—Tens que esperar!...

Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo que sabel-a todo o café

_Esperança_, e, dentro de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e,

dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a povoação de Palmella.

—Que D. Enrique se _iba a marchar_, dizia-se, espalhava-se.

No café _Esperança_ apertavam D. Ramon Mendoza, troçavam-n’o,

perguntavam-lhe se elle não fazia valer os direitos que a sorte lhe

concedera; que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, sem a ter

ferido no coração, a sua bella patricia?

E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, pedia gazoza, e respondia

sorrindo:

—Que santos de casa não fazem milagres.

Não tardou a chegar ao conhecimento da menina Ricardina a noticia de que

a familia Saavedra ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, e a sr.ª

Magdalena não o ficou menos, porque havia arrendado a casa por seis mezes

a D. Enrique, e poderia alugal-a ainda outra vez, para aproveitar o resto

da estação balnear.

Ricardina, na esperança de que a noticia fosse verdadeira, achou que

devia tratar o sueco de modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se

alargar em concessões, que o satisfizessem.

Assim foi que se mostrou menos crua para elle: abriu a janella, e

permittiu-lhe que a beijasse nas mãos.

—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia confiar n’elle.

O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, e contou a Ricardina a

scena que tivera com as hespanholas, que não só o não cumprimentaram, mas

até o mimosearam com epithetos offensivos.

—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe Ricardina continuando a

fingir-se ciumenta.

—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção muito guttural.

—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a ambas, á mãe e á filha, e não

queria levar com as galhetas na cara!

O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que Ricardina aprendera nos

habitos devotos, egrejeiros da mãe.

E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:

—Sabe o sr. o que deve fazer agora?

—Nó saberr!

—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale

um gosto na vida que seis vintens na algibeira.

—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa.

Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento

carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia,

e todo o seu ideal consistia agora em conseguir que ella voltasse a

empregar esse terno vocativo.

Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o por _senhor_, sem

o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite

dos dois lenços.

Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes,

diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as

Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito

calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de

representar no amor o drama tempestuoso.

Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos,

ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança

brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio.

Depois, chegando ao _hotel Escoveiro_, dois copinhos de _Kirsch-wasser_

adormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a

mesma.

E, por entre os fumos do _Kirsch_ e do cachimbo, pensava elle:

—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria

ainda a ausencia de Soledad!

E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente...

XVII

Dentro de tres dias a familia Saavedra preparou as suas malas para sahir

de Setubal.

D. Enrique andou fazendo despedidas e partiu para Santarem primeiro que

a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá estava o conselheiro Antunes para

n’esta e outras tarefas lhe servir de Cyreneu...

A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir que apenas levava saudades

do peixe-espada. Soledad mostrava-se muito contente com a mudança de

terra.

No café _Esperança_ commentava-se esta subita retirada da familia

Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de

Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a

emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor.

A _blague_ não poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na

boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes.

Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que

se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não

era porque houvessem concorrido acintosamente para isso.

Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal

em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios

desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos

grandes imperios.

Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o

proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas

não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem

porque se salientassem em garridices espectaculosas.

O _Padre Eterno_, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um

velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o

respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou

envolvido.

O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com

lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a

infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu

quarto, chorando, sem querer vêr ninguem.

Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr

dilacerava.

—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma

conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique

sobre as suas intenções?

—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior

ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de

minha filha, sobretudo quando esse homem se deveria julgar muito feliz

em desposal-a.

Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois:

—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um

doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos

moços. São raros até os que pensam de outro modo.

—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando

com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a

minha filha.

—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver

sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os

costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se

uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de

admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se

muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande

parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei,

condescendi em ir a um _pic-nic_, porque julguei que seria essa uma

festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me

muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque,

além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha

de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os

de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto

do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por

falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem

nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho

ou por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia,

foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas

as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle.

Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as.

—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão,

procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá

termo em breve, certamente.

Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo

Rodarte tambem passaram lagrimas.

Despediram-se os dois cordealmente.

Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella

entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para

que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que

Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o

avô.

Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava

dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção.

Logo que sahiu da repartição de fazenda, o Vianninha foi procurar Araujo

Rodarte.

Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse o facto, espalhando logo

que o Vianninha requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo coração

era considerado devoluto.

Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade os motivos d’aquella

entrevista, desculpando-se com a sua auctoridade de velho para intervir

n’um assumpto que não lhe dizia directamente respeito.

—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço a familia d’essa pobre

menina, cuja vida corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria

em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, pois, que me diga, por

attenção para com a minha edade, quaes são as suas intenções a este

respeito.

O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:

—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a v. ex.ª o que posso

dizer sobre o assumpto: Adelaide e eu fomos creados juntos, paredes

meias, porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a toda a hora, e

habituámo-nos a ser amigos um do outro. Mas pensava eu que Adelaide

apenas tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples

estima, nada mais. E tanto isto é verdade, da minha parte, que eu tive

passageiros namoros com outras meninas. É certo, porém, que eu sabia

que Adelaide se contrariava com isso. Amuava, deixava de me fallar,

de me cumprimentar até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe

adeus por brincadeira, sempre que a via á janella, embora ella me

não correspondesse. Quando veiu a _señorita_,—refiro-me á filha de

D. Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me ter relacionado com o

Goes, que andavam no grupo da familia Saavedra, associei-me a elles,

passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer francamente que me não

era desagradavel a companhia. Soube então que Adelaide suspeitou de que

eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado com isso, a ponto de

se fechar no seu quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, tendo

pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos na vidraça do seu quarto,

chamando-a. Bastava-me para isso estender o braço por uma das janellas da

minha casa. Adelaide devia calcular que era eu, mas não veiu á janella,

não quiz responder.

—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.

—Ouvia por força, porque estava fechada no seu quarto.

—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o seu resentimento.

—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.

—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr.

Vianna, se ella abrisse a janella?

—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu

amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se

ralasse com isso.

—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa

senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella

não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de

infancia...

—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do

seu proprio genio.

—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre

as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a

dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel

a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado!

Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr.

Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem

sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor

felicidade poderia encontrar o sr. Vianna!

—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a

ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto

por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide...

—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a

felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha

doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á

opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor

santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando

não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os

unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna

sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira?

—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella...

—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo de voltar amanhã á mesma

hora, e todas as suas duvidas deixarão de existir.

No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a casa de Araujo Rodarte,

encontrou-se com o pae de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado

n’esse dia.

Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da ida do Vianninha a casa

das Rodartes, teve de confessar-se vencida, e a intervenção do _Padre

Eterno_, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica á opinião publica,

deu maior prestigio ao avô, e, reflexamente, ás netas.

Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no proximo casamento da Sequeira,

dizia elle:

—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com uma unica differença.

—Qual?

—Caso as novas, em vez das velhas, o que prova que não faço milagres.

XVIII

O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses

galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo.

Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos

de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e

as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma.

Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes,

alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de

Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois

pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor

medieval.

O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação,

contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa.

Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a

maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões

atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os

musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam

essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia.

Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a

irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado:

com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes.

Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem

Pariz lhes repugnavam... para uma vez.

Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores,

mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem

ouvir nunca uma opera.

De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam

instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa

alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o

morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér

de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava

habilitado a comer.

A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez

porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos.

O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo,

deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações

successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos

guerreiros d’Agar.

Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma

serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções

populares, accentua-se com evidencia.

A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os

rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas

verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade

agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como

sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que

parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não

invalidam a regra geral, antes a confirmam.

Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e

pratica.

Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um

francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.

Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o

amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno.

Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura

phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á

verdade.

O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas amavam como quem

eram. Em pleno galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por outras

tratar negocios, receber as prestações da venda da cortiça, vender

cevados aos salchicheiros da Baixa.

E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro a cantar nas algibeiras,

sabia-lhes bem a suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, antes de

abancarem a jogar o loto com as netas, contavam ao avô, francamente, o

resultado das suas transacções em Lisboa.

E as duas meninas, que se foram affeiçoando lentamente a elles, porque

encontraram dois homens cujo typo conheciam, pois que era o da sua

provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar de cevados, entendiam-n’os.

Horror! gritará a leitora alfacinha.

Pois minha senhora, nada e creada na patria de Ulysses, perdoe V. Ex.ª

o horror da verdade. Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como,

principalmente, Salomé, que era o braço direito do avô, sabiam a cotação

das cabeças suinas, e conheciam todos os processos da engorda dos cevados.

Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de boa lei, portuguez do

Alemtejo, onde a azinheira produz a boléta, que é riqueza.

Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos das operas de S. Carlos,

nem das operetas da Trindade. A sua canção predilecta era a _Ceifeira_

de Palmeirim, poeta genuinamente nacional, que ha quarenta annos se

vulgarisou tanto no norte como no sul do paiz.

O rythmo da canção era dolente como o de toda a musica popular do

Alemtejo, mas lá gostavam de ouvir Hilda soluçar, como um _Fado_, as

trovas do poeta:

Ha quem diga por inveja

Que és feia por ser trigueira;

Dizem as damas da côrte,

Deixal-as dizer, ceifeira.

As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam dos campos, queimadas

pelo sol, morriam por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava,

porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a repetisse.

Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor patriarchal n’esses serões

agricolas do Alemtejo, em que a neta, sentada nas escadas de pedra do

palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras e pelos _Ratinhos_, que

descançavam ao luar.

O bom velho tinha sempre uma graça para dizer ás raparigas.

Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado de cantar, disse elle:

—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem é esta poesia que a minha

Hilda vos cantou agora?

—Não sabemos, senhor.

—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama Palmeirim. E não fez só

poesias que as meninas cantem; tambem fez algumas que servem para os

velhos cantar.

Gargalhada unisona das ceifeiras e dos _Ratinhos_.

—Não se riam vocês, que eu tambem vou cantar agora.

—O sr. Rodarte!

—Eu mesmo.

E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente, começou:

Vet’rano fiz as campanhas

Da guerra peninsular.

—Mais! mais! pediram muitas vozes.

—Nem mais nem menos, respondeu Araujo Rodarte rindo. Um veterano não póde

passar d’aqui.

Nova e prolongada hilaridade dos _Ratinhos_ e das ceifeiras.

Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar nos campos, que a foice dos

trabalhadores ia deixando reduzidos á seccura do restolho:

Ha quem diga por inveja

Que és feia por ser trigueira;

Dizem as damas da côrte,

Deixal-as dizer, ceifeira.

—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte a Hilda, como honram a

professora! Ainda não houve _prima-donna_ de S. Carlos que fizesse escola

como tu.

Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos como a gente ouve fallar

de um paiz longinquo. O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos,

conhecia-o pouco. Quando alguma vez viera da Messejana a Lisboa,

aconteceu ir ouvir uma ou outra opera, sobretudo se a opera era do

velho Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava por ser,

especialmente, o auctor da _Norma_.

D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até uma ratice, que Araujo Rodarte

sempre contava rindo.

As Netas do Padre Eterno Romance original · 第 7 / 8 段