a S. Carlos um bilhete da _geral_. Á noite dirigiu-se para o theatro,
cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro
estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um
caso extraordinario. _Adalgiza_ fôra raptada pela famosa _Sociedade do
delirio_. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera
voar os cavallos da carruagem em que _Adalgiza_ entrou, ao descer do
_hotel_. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos
n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida
doida, um _coupé_, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.
Era a _Sociedade do delirio_, que praticára mais uma das suas proezas,—o
rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina.
Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario
das Alcaçovas, fez o que em amor se chama uma _declaração_. Esse doce
e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se
entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade,
não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade
agradavel, no trato familiar de todos os dias, e no _loto_ de todas as
noites.
As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem,
mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham
que pelo que lhes dizem.
Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia,
fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o
obrigassem a separar-se das duas netas.
Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e
Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento:
—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o
abandonaremos nunca.
E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente,
fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o
que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem
aos dois alemtejanos, quando fosse occasião.
XIX
D. Enrique abandonou a casa de Setubal sem lhe mandar pôr escriptos.
Que de Setubal não queria saber mais, dissera elle á sr.ª Magdalena
quando lhe entregou a chave.
A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram satisfeitissimas, por
muitas e variadas razões.
Em primeiro logar, Ricardina havia contado á mãe que, n’aquella casa
de pouca vergonha, tanto a hespanhola velha como a hespanhola nova,
expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual parecia disposto, se
podesse vencer-se aquella dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.
A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha bem casada, prometteu uma
via-sacra ao Senhor do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem em paz
a filha e o sueco.
O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade, e a sr.ª Magdalena
tratára logo de cumprir a promessa.
Em segundo logar, a menina Ricardina gostava muito, quando a casa estava
com escriptos, de atravessar a rua para ir mostral-a.
Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a
declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para
arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade
entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé
debaixo da mesa do chá.
Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem
da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar
a casa.
—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e
olhando de relance para o pavimento e para os moveis.
Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão,
ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um
leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes.
Feito o primeiro exame _à vol d’oiseau_, Ricardina abriu as gavetas de
alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo
quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno
embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade.
Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde.
—O que será isto?! pensava Ricardina.
Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha.
Largou a rir do achado, que estava longe de esperar.
Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:
—Para qual dos tres seria isto?
E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos,
continuou a pensar:
—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos.
De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo
tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D.
Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora
é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu
isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a
inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser
mais barata ou melhor do que a que trazia.
E continuou a rir, a rir.
—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum
d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é!
E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe
a alegre historia do seu achado.
—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não
risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito
o milagre.
Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que
ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha
nada com a outra.
A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o
mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa
de D. Enrique.
Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao Marcolino, marcador do bilhar no
café _Esperança_, porque era esse o melhor meio de vulgarisar o caso em
toda a cidade.
O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, foi logo comprar amendoas
e cigarros á loja do Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café
_Esperança_ contar a historia ao marcador.
Á tarde, os _habitués_ do botequim commentavam o caso rindo, e ao
anoitecer constava em toda a cidade que D. Estanislada, a _leôa velha_,
como começavam a chamar-lhe, usava dentes postiços.
D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em Setubal, inesperadamente, D.
Enrique Saavedra.
Foi direito da estação do caminho de ferro a casa da sr.ª Magdalena.
—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! perguntou a beata.
—Dizia que não queria mais nada da nossa terra! atalhou Ricardina.
—_Que broma!_ exclamou D. Enrique. _Olvidé una joya que vengo à buscar._
—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! que falso testemunho! exclamou
a mãe de Ricardina.
—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de vêr! apostrophou arrogantemente
Ricardina.
—_Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan ustedes._
—E em que sitio calculam que estava a joia? perguntou Ricardina, muito
esperta.
—_En el cajon del labatorio_, respondeu D. Enrique.
—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse triumphantemente Ricardina.
Vamos já vêr.
Foram.
D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio e, encontrando a caixa,
exclamou:
—_Aqui está la joya!_
—Não! disse Ricardina, que com difficuldade continha o riso. Veja _usted_
se a joia está como a deixaram. Faça favor de examinar.
D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro da gaveta, e, como Ricardina
se approximasse, elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.
—Está ou não está? É negocio muito sério! Deve vêr, para que a verdade
fique bem esclarecida!
—_Está todo como habia quedado_, respondeu D. Enrique.
—Deve ser joia de muito valor, para _usted_ se sujeitar a vir a Setubal
procural-a? perguntava, muito desfructadora, Ricardina.
—_Una joya de familia, de mas estimacion que valor._
—Bem me queria parecer que era joia de familia!... Ora ainda bem que
appareceu! E a quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?
—_Nó, és de mi mujer._
—Já estão em Santarem?
—_Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos mañana para Santarem._
—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar muitas lembranças minhas ao sr.
conselheiro, disse ironicamente Ricardina.
—_Seran entregadas._
Quando D. Enrique foi almoçar ao _Escoveiro_, por isso que só de tarde
podia regressar a Lisboa, sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.
—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!
—_He venido buscar una joya de familia, que habia dejado quedar olvidada._
—E appareceu?
—_Ah! perfectamente. Estaba en su sitio._
—Então já está em Santarem?
—_Todavia nó. Solo partiremos mañana de Lisboa._
—E tenciona demorar-se muito em Santarem?
—_Hasta vuelvan los Borbones._
—E as sr.ᵃˢ como passam?
—_Magnificas!_
E cada um lhe ia dizendo por sua vez:
—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao conselheiro. Não se esqueça, D.
Enrique.
—_Jamás._
No comboyo da tarde D. Henrique regressou a Lisboa, levando na algibeira
a joia de familia,—a dentadura de D. Estanislada.
O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos dias.
A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava a fazer a via-sacra, que
promettera ao Senhor Jesus do Bomfim.
Ricardina aproveitava essa occasião para ir arejar a casa em que D.
Enrique morára, e que ainda não estava arrendada.
De uma d’essas vezes, seriam seis horas e meia, Ricardina estava á
janella, parecendo que se deliciava em tomar o ar fresco da manhã.
Demorava-se, olhando ao longo da rua.
N’isto apparece o sueco, que parou debaixo da janella, e perguntou muito
respeitosamente:
—É parra alugarr esse casa?
—É, sim, respondeu Ricardina.
—Poderrei verr agórra?
—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.
O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, examinou com interesse todos
os compartimentos da casa, que aliás não eram muitos.
E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou a sr.ª Magdalena, para lhe
dizer que desejava ser seu inquilino.
—Que tinha muita honra n’isso, respondeu affavelmente a mãe de Ricardina.
Attendendo a que já ia adiantada a estação balnear, e a que o inquilino
poderia vir a ser genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe mais
quatro libras do que pediria a qualquer outro.
O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. Jantava no _Hotel
Escoveiro_, mas almoçava em casa. Como não tinha criada, porque a menina
Ricardina lhe prohibira que a tivesse, era ella propria quem ás oito
horas da manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.
Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena recommendava-lhe sempre:
—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!
—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou d’essas...
XX
No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas
estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume.
Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante
resolução que os dois alemtejanos haviam tomado.
Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez,
ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar
o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e
feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se
a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das dez
e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se
tranquillamente.
No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume,
esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas
estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite.
Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que
aliás não estava em costume.
Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em
nome dos dois.
—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma
visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos
traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial
para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos
costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª
assim o permittir.
Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração
bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa.
—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.
—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, sabe muito bem quem nós
somos, e os meios de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias
julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos a pedir, eu a mão da
sr.ª D. Hilda, o nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. Maria Ignez.
Eis o assumpto especial da nossa visita.
—Eu, accrescentou do lado o proprietario das Alcaçovas, louvo-me nas
palavras que V. Ex.ª acaba de ouvir.
—Pela minha parte, respondeu o avô das duas meninas, devo dizer a V.
Ex.ᵃˢ que nada tenho que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter
que separar-me d’estas creanças que com tanto amor eduquei depois que
seus paes morreram, mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque o
amor exclue o egoismo, de as conservar indefinidamente presas á minha
ordem. Apenas sempre recommendei ás minhas netas que não tivessem pressa
de casar, isto é, que o não fizessem irreflectidamente, porque lhes não
faltavam commodidades, regalos e carinhos. Estou, porém, convencido de
que V. Ex.ᵃˢ as saberão estimar, senão mais do que eu, porque seria
impossivel, permittam-me esta vaidade, pelo menos tanto como eu.
N’este momento arrazaram-se de lagrimas os olhos de Araujo Rodarte.
Houve um momento de silencio.
—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, não basta n’esta grave
materia o que eu digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o que dizem
as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo as tinham prevenido dos intuitos
d’esta sua visita...
Os dois alemtejanos responderam quasi ao mesmo tampo:
—Não, sr.
—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. Ainda bem, porque esse facto
mostra ao meu coração que as minhas netas não teem segredos para mim.
A reserva seria desculpavel por parte d’ellas, mas não deixaria de
maguar-me, porque representava até certo ponto falta de confiança no seu
velho e affectuoso avô.
—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas sorrindo, vamos agora saber
pela primeira vez o que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso respeito.
—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam com a franqueza que o
momento requer.
Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi a meio do corredor, e chamou
em voz alta:
—Salomé! Salomé!
—Meu avô!
—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem tu tambem.
Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos dois patricios:
—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem minha neta Salomé. É o meu
braço direito. Em minha casa todas as resoluções são tomadas em conselho
de familia. Não desejo que este espirito de solidariedade se interrompa
justamente no momento em que vae tomar-se uma resolução importante para
nós todos.
Não tardaram a apparecer as tres meninas.
Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais purpurino, dir-se-hia que
Hilda e Maria Ignez não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo
contrario, estava mais pallida que de costume, parecia ser ella a noiva,
pela commoção que denunciava.
Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse voltando-se para Hilda e
Maria Ignez:
—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e amigos, acabam de me expôr um
assumpto que exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os como
devo, porque ambos são pessoas que me merecem o melhor conceito, nada
terei que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar com franqueza,
porque se trata do vosso futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, e
este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei agora ou quando quizerdes,
e como quizerdes.
As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, cravando no avô os
olhos embaciados de lagrimas.
Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, para desopprimir o animo das
netas.
Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento da casa.
—Podeis e deveis fallar como entenderdes, disse Araujo Rodarte.
—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais purpurina ainda das faces do
que havia entrado, porei apenas uma condição.
—Qual? perguntou Araujo Rodarte.
—Que ficaremos vivendo na Messejana em companhia do avô.
Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho ao ouvir estas palavras.
—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. Não quero que o sr.
Rodarte tenha motivo algum para desgostar-se com o meu casamento.
—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante de alegria. V. Ex.ª, disse
elle risonho ao morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir a minha
Ignez. Falla tu, menina.
—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda fallou por ella e por mim. Dou a
mesma resposta com a mesma condição.
—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, não tenho a
accrescentar uma virgula ao que disse o morgado. O que elle disse é o que
eu digo tambem.
Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, levantou-se da
cadeira e apostrophou erguendo as mãos e os olhos:
—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, meu Deus!
As tres netas correram a abraçar-se no avô, que effusivamente as beijava
no cabello.
Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos no chão, assistiam de pé a
esta encantadora scena de ternura patriarchal.
Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, nadando em
felicidade, dizia familiarmente ao morgado de Reguengos:
—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. Como foi que isto começou?
—Ora! respondeu o morgado. Começou por uma brincadeira!
—Como?
—Na Troia, depois do _pic-nic_, nós dois, p’ra nos rirmos com a
rapaziada, que estava levada da bréca por ciume uns dos outros,
lembramo-nos de tirar á sorte os nomes das damas que cada um havia de
namorar.
—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.
—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. Foste tu, morgado.
Porque elle, sr. Rodarte, lá mesmo se gabou de ter muita sorte a todos os
jogos.
—Bem se vê, observou o velho, bem se vê pelo dinheiro que nos tem
apanhado ao loto! Que fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. Ó
morgado, logo que estivermos na Messejana, havemos de ensinar o voltarete
a seu cunhado.
—Dito.
—Mas então, continuou interrogando o velho, a minha Hilda coube em sorte
ao morgado.
—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario das Alcaçovas.
—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem graça! Parece romance! E,
diga-me, a andaluza não entrou tambem na loteria?
—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.
—Ahi é que me parece que o agouro falhou. Mas quem sabe? O futuro a Deus
pertence. Mas o hespanholito ainda ahi está, pois não está?
—Sim, sr.
—Não o tenho visto!
—Elle não sae do café _Esperança_, onde bebe gazozas umas sobre outras.
Não parece disposto a morrer de saudades pela _señorita_.
—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo Rodarte.
—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou o proprietario das Alcaçovas.
Nem parece hespanhol! Á força de tomar gazoza, já a tem nas veias.
Riram todos muito com esta observação, que era exacta.
O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos
ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio.
—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte?
—Ao Vianninha.
—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá
os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o
meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem
quero lembrar!
Não se soube logo no café _Esperança_ que as duas Rodartes iam casar. Os
dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas
quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse
uma garrafa de vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de
Portugal sobre a Hespanha.
—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem
revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em
Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos,
opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais
que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella
teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle
districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da
patria offendida. (_Hilaridade geral._) Ficou triumphante a belleza de
Portugal, sem precisar para isso recorrer á _tertulia_, ao _abanico_, nem
aos dentes postiços da mamã. (_Alguns dos «habitués» do café Esperança
choravam de riso_). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em
homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam
com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer.
E fez uma longa pausa.
—Então?
—Venham de lá as taes palavras!
—Vem ou não vem?
O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, esvazia o copo e recita
com emphase:
Que mais querem de nós? apoz tamanha
galhardia d’algoz, ébrios de gloria,
apagaram acaso a luz da Historia?
não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...
Quer insultar a lapide funerea
que pesa sobre vós, heroes de _Ourique_!...
Estremecei de horror, filhos de Henrique!...
Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
FIM
_Post scriptum._—Pude finalmente conseguir escrever o nome do sueco.
Chamava-se Andreas Setterquist. A menina Ricardina, muito carinhosa,
chamava-lhe familiarmente o seu _Settequiz_. E o malicioso alferes Ruivo
dizia que, a contar por alto, devia effectivamente ser o setimo.
ERRATA
Pag. 129:
Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem alguma traição»,
deve lêr-se—«terão coragem para me fazer alguma traição».
Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda tão tolo», deve
lêr-se—«A velhice não me tornou ainda tão tolo, etc.»
End of Project Gutenberg's As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel