Annunciava-se a _Norma_, e elle não resistiu ao cartaz. Mandou comprar

a S. Carlos um bilhete da _geral_. Á noite dirigiu-se para o theatro,

cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro

estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um

caso extraordinario. _Adalgiza_ fôra raptada pela famosa _Sociedade do

delirio_. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera

voar os cavallos da carruagem em que _Adalgiza_ entrou, ao descer do

_hotel_. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos

n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida

doida, um _coupé_, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.

Era a _Sociedade do delirio_, que praticára mais uma das suas proezas,—o

rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina.

Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario

das Alcaçovas, fez o que em amor se chama uma _declaração_. Esse doce

e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se

entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade,

não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade

agradavel, no trato familiar de todos os dias, e no _loto_ de todas as

noites.

As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem,

mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham

que pelo que lhes dizem.

Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia,

fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o

obrigassem a separar-se das duas netas.

Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e

Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento:

—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o

abandonaremos nunca.

E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente,

fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o

que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem

aos dois alemtejanos, quando fosse occasião.

XIX

D. Enrique abandonou a casa de Setubal sem lhe mandar pôr escriptos.

Que de Setubal não queria saber mais, dissera elle á sr.ª Magdalena

quando lhe entregou a chave.

A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram satisfeitissimas, por

muitas e variadas razões.

Em primeiro logar, Ricardina havia contado á mãe que, n’aquella casa

de pouca vergonha, tanto a hespanhola velha como a hespanhola nova,

expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual parecia disposto, se

podesse vencer-se aquella dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.

A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha bem casada, prometteu uma

via-sacra ao Senhor do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem em paz

a filha e o sueco.

O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade, e a sr.ª Magdalena

tratára logo de cumprir a promessa.

Em segundo logar, a menina Ricardina gostava muito, quando a casa estava

com escriptos, de atravessar a rua para ir mostral-a.

Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a

declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para

arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade

entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé

debaixo da mesa do chá.

Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem

da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar

a casa.

—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e

olhando de relance para o pavimento e para os moveis.

Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão,

ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um

leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes.

Feito o primeiro exame _à vol d’oiseau_, Ricardina abriu as gavetas de

alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo

quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno

embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade.

Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde.

—O que será isto?! pensava Ricardina.

Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha.

Largou a rir do achado, que estava longe de esperar.

Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:

—Para qual dos tres seria isto?

E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos,

continuou a pensar:

—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos.

De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo

tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D.

Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora

é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu

isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a

inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser

mais barata ou melhor do que a que trazia.

E continuou a rir, a rir.

—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum

d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é!

E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe

a alegre historia do seu achado.

—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não

risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito

o milagre.

Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que

ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha

nada com a outra.

A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o

mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa

de D. Enrique.

Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao Marcolino, marcador do bilhar no

café _Esperança_, porque era esse o melhor meio de vulgarisar o caso em

toda a cidade.

O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, foi logo comprar amendoas

e cigarros á loja do Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café

_Esperança_ contar a historia ao marcador.

Á tarde, os _habitués_ do botequim commentavam o caso rindo, e ao

anoitecer constava em toda a cidade que D. Estanislada, a _leôa velha_,

como começavam a chamar-lhe, usava dentes postiços.

D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em Setubal, inesperadamente, D.

Enrique Saavedra.

Foi direito da estação do caminho de ferro a casa da sr.ª Magdalena.

—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! perguntou a beata.

—Dizia que não queria mais nada da nossa terra! atalhou Ricardina.

—_Que broma!_ exclamou D. Enrique. _Olvidé una joya que vengo à buscar._

—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! que falso testemunho! exclamou

a mãe de Ricardina.

—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de vêr! apostrophou arrogantemente

Ricardina.

—_Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan ustedes._

—E em que sitio calculam que estava a joia? perguntou Ricardina, muito

esperta.

—_En el cajon del labatorio_, respondeu D. Enrique.

—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse triumphantemente Ricardina.

Vamos já vêr.

Foram.

D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio e, encontrando a caixa,

exclamou:

—_Aqui está la joya!_

—Não! disse Ricardina, que com difficuldade continha o riso. Veja _usted_

se a joia está como a deixaram. Faça favor de examinar.

D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro da gaveta, e, como Ricardina

se approximasse, elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.

—Está ou não está? É negocio muito sério! Deve vêr, para que a verdade

fique bem esclarecida!

—_Está todo como habia quedado_, respondeu D. Enrique.

—Deve ser joia de muito valor, para _usted_ se sujeitar a vir a Setubal

procural-a? perguntava, muito desfructadora, Ricardina.

—_Una joya de familia, de mas estimacion que valor._

—Bem me queria parecer que era joia de familia!... Ora ainda bem que

appareceu! E a quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?

—_Nó, és de mi mujer._

—Já estão em Santarem?

—_Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos mañana para Santarem._

—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar muitas lembranças minhas ao sr.

conselheiro, disse ironicamente Ricardina.

—_Seran entregadas._

Quando D. Enrique foi almoçar ao _Escoveiro_, por isso que só de tarde

podia regressar a Lisboa, sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.

—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!

—_He venido buscar una joya de familia, que habia dejado quedar olvidada._

—E appareceu?

—_Ah! perfectamente. Estaba en su sitio._

—Então já está em Santarem?

—_Todavia nó. Solo partiremos mañana de Lisboa._

—E tenciona demorar-se muito em Santarem?

—_Hasta vuelvan los Borbones._

—E as sr.ᵃˢ como passam?

—_Magnificas!_

E cada um lhe ia dizendo por sua vez:

—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao conselheiro. Não se esqueça, D.

Enrique.

—_Jamás._

No comboyo da tarde D. Henrique regressou a Lisboa, levando na algibeira

a joia de familia,—a dentadura de D. Estanislada.

O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos dias.

A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava a fazer a via-sacra, que

promettera ao Senhor Jesus do Bomfim.

Ricardina aproveitava essa occasião para ir arejar a casa em que D.

Enrique morára, e que ainda não estava arrendada.

De uma d’essas vezes, seriam seis horas e meia, Ricardina estava á

janella, parecendo que se deliciava em tomar o ar fresco da manhã.

Demorava-se, olhando ao longo da rua.

N’isto apparece o sueco, que parou debaixo da janella, e perguntou muito

respeitosamente:

—É parra alugarr esse casa?

—É, sim, respondeu Ricardina.

—Poderrei verr agórra?

—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.

O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, examinou com interesse todos

os compartimentos da casa, que aliás não eram muitos.

E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou a sr.ª Magdalena, para lhe

dizer que desejava ser seu inquilino.

—Que tinha muita honra n’isso, respondeu affavelmente a mãe de Ricardina.

Attendendo a que já ia adiantada a estação balnear, e a que o inquilino

poderia vir a ser genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe mais

quatro libras do que pediria a qualquer outro.

O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. Jantava no _Hotel

Escoveiro_, mas almoçava em casa. Como não tinha criada, porque a menina

Ricardina lhe prohibira que a tivesse, era ella propria quem ás oito

horas da manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.

Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena recommendava-lhe sempre:

—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!

—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou d’essas...

XX

No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas

estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume.

Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante

resolução que os dois alemtejanos haviam tomado.

Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez,

ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar

o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e

feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se

a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das dez

e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se

tranquillamente.

No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume,

esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas

estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite.

Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que

aliás não estava em costume.

Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em

nome dos dois.

—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma

visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos

traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial

para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos

costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª

assim o permittir.

Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração

bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa.

—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.

—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, sabe muito bem quem nós

somos, e os meios de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias

julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos a pedir, eu a mão da

sr.ª D. Hilda, o nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. Maria Ignez.

Eis o assumpto especial da nossa visita.

—Eu, accrescentou do lado o proprietario das Alcaçovas, louvo-me nas

palavras que V. Ex.ª acaba de ouvir.

—Pela minha parte, respondeu o avô das duas meninas, devo dizer a V.

Ex.ᵃˢ que nada tenho que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter

que separar-me d’estas creanças que com tanto amor eduquei depois que

seus paes morreram, mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque o

amor exclue o egoismo, de as conservar indefinidamente presas á minha

ordem. Apenas sempre recommendei ás minhas netas que não tivessem pressa

de casar, isto é, que o não fizessem irreflectidamente, porque lhes não

faltavam commodidades, regalos e carinhos. Estou, porém, convencido de

que V. Ex.ᵃˢ as saberão estimar, senão mais do que eu, porque seria

impossivel, permittam-me esta vaidade, pelo menos tanto como eu.

N’este momento arrazaram-se de lagrimas os olhos de Araujo Rodarte.

Houve um momento de silencio.

—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, não basta n’esta grave

materia o que eu digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o que dizem

as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo as tinham prevenido dos intuitos

d’esta sua visita...

Os dois alemtejanos responderam quasi ao mesmo tampo:

—Não, sr.

—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. Ainda bem, porque esse facto

mostra ao meu coração que as minhas netas não teem segredos para mim.

A reserva seria desculpavel por parte d’ellas, mas não deixaria de

maguar-me, porque representava até certo ponto falta de confiança no seu

velho e affectuoso avô.

—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas sorrindo, vamos agora saber

pela primeira vez o que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso respeito.

—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam com a franqueza que o

momento requer.

Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi a meio do corredor, e chamou

em voz alta:

—Salomé! Salomé!

—Meu avô!

—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem tu tambem.

Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos dois patricios:

—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem minha neta Salomé. É o meu

braço direito. Em minha casa todas as resoluções são tomadas em conselho

de familia. Não desejo que este espirito de solidariedade se interrompa

justamente no momento em que vae tomar-se uma resolução importante para

nós todos.

Não tardaram a apparecer as tres meninas.

Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais purpurino, dir-se-hia que

Hilda e Maria Ignez não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo

contrario, estava mais pallida que de costume, parecia ser ella a noiva,

pela commoção que denunciava.

Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse voltando-se para Hilda e

Maria Ignez:

—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e amigos, acabam de me expôr um

assumpto que exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os como

devo, porque ambos são pessoas que me merecem o melhor conceito, nada

terei que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar com franqueza,

porque se trata do vosso futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, e

este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei agora ou quando quizerdes,

e como quizerdes.

As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, cravando no avô os

olhos embaciados de lagrimas.

Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, para desopprimir o animo das

netas.

Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento da casa.

—Podeis e deveis fallar como entenderdes, disse Araujo Rodarte.

—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais purpurina ainda das faces do

que havia entrado, porei apenas uma condição.

—Qual? perguntou Araujo Rodarte.

—Que ficaremos vivendo na Messejana em companhia do avô.

Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho ao ouvir estas palavras.

—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. Não quero que o sr.

Rodarte tenha motivo algum para desgostar-se com o meu casamento.

—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante de alegria. V. Ex.ª, disse

elle risonho ao morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir a minha

Ignez. Falla tu, menina.

—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda fallou por ella e por mim. Dou a

mesma resposta com a mesma condição.

—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, não tenho a

accrescentar uma virgula ao que disse o morgado. O que elle disse é o que

eu digo tambem.

Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, levantou-se da

cadeira e apostrophou erguendo as mãos e os olhos:

—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, meu Deus!

As tres netas correram a abraçar-se no avô, que effusivamente as beijava

no cabello.

Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos no chão, assistiam de pé a

esta encantadora scena de ternura patriarchal.

Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, nadando em

felicidade, dizia familiarmente ao morgado de Reguengos:

—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. Como foi que isto começou?

—Ora! respondeu o morgado. Começou por uma brincadeira!

—Como?

—Na Troia, depois do _pic-nic_, nós dois, p’ra nos rirmos com a

rapaziada, que estava levada da bréca por ciume uns dos outros,

lembramo-nos de tirar á sorte os nomes das damas que cada um havia de

namorar.

—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.

—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. Foste tu, morgado.

Porque elle, sr. Rodarte, lá mesmo se gabou de ter muita sorte a todos os

jogos.

—Bem se vê, observou o velho, bem se vê pelo dinheiro que nos tem

apanhado ao loto! Que fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. Ó

morgado, logo que estivermos na Messejana, havemos de ensinar o voltarete

a seu cunhado.

—Dito.

—Mas então, continuou interrogando o velho, a minha Hilda coube em sorte

ao morgado.

—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario das Alcaçovas.

—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem graça! Parece romance! E,

diga-me, a andaluza não entrou tambem na loteria?

—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.

—Ahi é que me parece que o agouro falhou. Mas quem sabe? O futuro a Deus

pertence. Mas o hespanholito ainda ahi está, pois não está?

—Sim, sr.

—Não o tenho visto!

—Elle não sae do café _Esperança_, onde bebe gazozas umas sobre outras.

Não parece disposto a morrer de saudades pela _señorita_.

—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo Rodarte.

—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou o proprietario das Alcaçovas.

Nem parece hespanhol! Á força de tomar gazoza, já a tem nas veias.

Riram todos muito com esta observação, que era exacta.

O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos

ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio.

—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte?

—Ao Vianninha.

—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá

os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o

meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem

quero lembrar!

Não se soube logo no café _Esperança_ que as duas Rodartes iam casar. Os

dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas

quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse

uma garrafa de vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de

Portugal sobre a Hespanha.

—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem

revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em

Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos,

opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais

que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella

teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle

districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da

patria offendida. (_Hilaridade geral._) Ficou triumphante a belleza de

Portugal, sem precisar para isso recorrer á _tertulia_, ao _abanico_, nem

aos dentes postiços da mamã. (_Alguns dos «habitués» do café Esperança

choravam de riso_). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em

homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam

com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer.

E fez uma longa pausa.

—Então?

—Venham de lá as taes palavras!

—Vem ou não vem?

O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, esvazia o copo e recita

com emphase:

Que mais querem de nós? apoz tamanha

galhardia d’algoz, ébrios de gloria,

apagaram acaso a luz da Historia?

não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...

Quer insultar a lapide funerea

que pesa sobre vós, heroes de _Ourique_!...

Estremecei de horror, filhos de Henrique!...

Repercuti meu canto, éccos da Iberia!

FIM

_Post scriptum._—Pude finalmente conseguir escrever o nome do sueco.

Chamava-se Andreas Setterquist. A menina Ricardina, muito carinhosa,

chamava-lhe familiarmente o seu _Settequiz_. E o malicioso alferes Ruivo

dizia que, a contar por alto, devia effectivamente ser o setimo.

ERRATA

Pag. 129:

Linha 10.ª, onde se lê—«terão coragem para me fazerem alguma traição»,

deve lêr-se—«terão coragem para me fazer alguma traição».

Linha 18.ª, onde se lê—«A velhice que me tornou ainda tão tolo», deve

lêr-se—«A velhice não me tornou ainda tão tolo, etc.»

End of Project Gutenberg's As Netas do Padre Eterno, by Alberto Pimentel

As Netas do Padre Eterno Romance original · 第 8 / 8 段