revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos
seus olhos.
—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo
que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia
e uma côrte cada vez mais reduzida.
Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente
Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das
Rodartes eram _tertulias_.
E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo:
—Quaes _tertulias_! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na
côrte do _Padre Eterno_!
Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.
XIV
D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol mais insipido de que ha memoria,
não conquistára vantagens amorosas junto de Soledad.
Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade incolor, fugidia,
d’estas que não deixam a ninguem uma impressão duradoira.
Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, Soledad não dava maior
attenção ao hespanholito. Nem o coração nem a razão a impelliam para
elle. O coração recebia-o com indifferença; a razão dizia a Soledad que,
depois de ter tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer á
_prata de casa_,—a um patricio insignificante.
Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se de atiçar de novo a
chamma do amor n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se lhe havia
rendido. Mas por onde andava elle, que lhe não apparecia?
Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear
na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella.
A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas.
D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que
n’esse dia o correio lhe trouxera.
D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito
do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria
com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.
Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a
pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E
ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite,
passaria por ali.
A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seu _rez-de-chaussée_,
esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das
hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite.
A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco,
mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas
não sahiam da janella.
A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina
Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha
levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no
silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas,
ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.
Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das
raças do norte—o sueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a
essa hora, segundo o costume.
Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a
vidraça de Ricardina.
Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder
ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso.
N’esse momento tres corações de mulher monologaram simultaneamente.
O coração de Ricardina:
—É elle!
O coração de Soledad:
—É elle!
O coração de D. Estanislada:
—É elle!
O sueco observava de longe, via dois vultos de mulher nas janellas da
casa de D. Enrique, sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses
vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, e então aviventou-se no
coração do sueco o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza d’essa
mulher lhe havia causado.
Ella era realmente formosa, tinha uma graça acirrante, uma graça
meridional, que punha em vibração os nervos de todos os homens,
especialmente os de um homem do norte.
Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão graciosa, sabia melhor talvez
conquistar e deixar-se conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina
já lhe havia concedido, eram o prologo tentador de uma promessa, e não ha
homem nenhum, seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante a dois
passos de uma posse sem restricções.
Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, e muito longe de imaginar
que um terceiro incendio o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio era
D. Estanislada.
De repente, olhando do escuro para a casa de D. Enrique, viu mexer-se
n’uma das janellas um lenço branco.
Era o lenço de Soledad.
D’ahi a momentos, na segunda janella, outro lenço branco passou
cavillosamente pelas narinas de D. Estanislada.
Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer Soledad nem D. Estanislada,
ficou cada vez mais desorientado.
Lembrando-se de que Ricardina, comquanto tivesse a janella fechada, o
devia estar esperando, olhou para o _rez-de-chaussée_, e viu uma ponta de
lenço assomar por baixo da vidraça e logo desapparecer.
Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, esperando os
acontecimentos.
D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma das janellas de D. Enrique
para a rua, e ouviu-se descer uma vidraça.
Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, para que a mãe não
désse por isso, tinha deixado cahir o lenço como de um balcão da idade
média.
D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço
da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum
descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com
estrondo a janella.
D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava,
accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e
regougou:
—_Que broma!_
Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno.
O sueco ainda esteve cerca de um quarto de hora alapardado no escuro,
mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia
perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão.
Quando elle se approximava do _rez-de-chaussé_, sentiu abrir-se
cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena.
Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella
noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle.
Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro,
apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das
hespanholas, e correu para casa.
O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de
Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para
entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda:
—Não! nunca!
E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas da janella.
E o sueco achou-se em plena rua, cada vez mais atarantado, sem perceber
nada de tudo aquillo.
Ricardina estava como uma bicha contra o sueco, contra as hespanholas,
contra o enguiço d’aquella noite.
Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo visto cahir os lenços,
quizera adquiril-os como prova da leviandade de Soledad e de D.
Estanislada. Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, a comedia
representada pela mãe e pela filha, procurando enganarem-se uma á outra.
A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão de todos os meios que
podessem libertal-a da visinhança das hespanholas: lembrou-se de
mandar os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta anonyma, em que lhe
explicasse o que se tinha passado.
Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como ella conhecia mal D.
Enrique!—resolveu, por fim, enviar á filha o lenço da mãe, enviar á mãe
o lenço da filha, descobrindo o plano de ambas, e ameaçando-as com uma
denuncia.
Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado com ella na escóla, e
encarregou-o de escrever as duas cartas, e de sobrescriptal-as.
A D. Estanislada dizia:
«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou hontem ao sueco, pensando
que usted não dava por isso. Tenha tento na bola, quando não eu aviso o
seu homem, e espalho em toda a cidade este grande escandalo. O melhor é
safar-se d’aqui quanto antes.»
Para Soledad o texto era este:
«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao
sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a
sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a
que trate de sahir de Setubal».
Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar,
pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro.
O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as
janellas da casa de D. Enrique.
O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma
reconciliação com Ricardina.
Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da
vidraça: Ricardina estava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na
mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens.
O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia
disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua
apaixonada _réverie_. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem,
e recahiu em simulada contemplação.
Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça.
Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de
repellão:
—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?!
O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração.
Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não
comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve
graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para
lavar.
Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite
a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o
sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido.
Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo,
cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco
voltasse.
Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar
de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou
indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a
certeza de que lhe roubavam... _mais um_.
D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a
deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros.
Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de
Ricardina.
—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da
senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O
melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada
quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina
Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza!
E reflectindo um instante:
—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!
No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas
encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que
levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente:
—_Picaro!_
Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, mas reconhecendo em todo
caso que ella quizera insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão ao
chapeu quando passava junto de D. Estanislada.
E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:
—_Infáme!_
XV
Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte e as suas tres netas sahiram, como
de costume, para o banho.
Atravessaram o passeio da Praia de Troino, riscado havia tres annos.
Os eucalyptos haviam crescido com a precocidade que caracterisa o
desenvolvimento d’estas arvores, de modo que abrigavam uma legião de
passaros, cuja chilreada era como que um doce concerto matutino.
Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que do lago irradiam, algumas
borboletas passavam, batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.
Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao pae, empregado na Doca,
havia poisado a cafeteira sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava
mettendo as mãos na agua, agitando-a, para fazer turbilhonar os peixes
vermelhos.
As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos em dois dos bancos
que torneam o lago, porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos
banhistas, na travessia de casa para o banho, descansar na frescura
d’aquelle oasis.
Depois cortaram na direcção da praia, a que faltava o pittoresco das
praias do norte do paiz, onde os arruamentos das barracas alvejam
garridamente.
Em Setubal o systema seguido é o do wagon e o da prancha. Os banhistas
despem-se e vestem-se nos compartimentos do wagon, e mergulham na agua
agarrados á prancha. Os _mirones_ aproveitam a sombra escassa do wagon
para sentar-se a gosar o espectaculo da praia.
Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se á sombra, emquanto
Hilda e Maria Ignez foram fazer a sua _toilette_ balnear.
O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns golfinhos davam saltos, ao
largo, n’uma folia de _clowns_ aquaticos.
Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros doirando o mar, e a torre
do Outão, com os seus contornos duros, dava relevo á margem direita do
Sado.
A concorrencia de banhistas era, áquella hora, diminuta. Uma creança,
nos braços do banheiro, gritava como possessa, e outra creança, de
sete a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr chorar a outra, e
chapinhava-a saracoteando-se no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada á
prancha, resfolegava como uma phoca. E um padre, de camisola de malha,
fazia ensaios de natação inhabil, arrastando-se na ondulação da agua até
ir esbarrar na areia.
Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento calados, até que, de
repente, disse elle á neta:
—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!
—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo disseram ás manas, respondeu
Salomé.
E o velho, com ar de alegre ironia, observou:
—Como ellas andam bem informadas!
Salomé sorriu-se.
—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após um momento de silencio—se aquellas
duas senhoras—referia-se a Hilda e Maria Ignez—terão coragem para me
fazer alguma traição!...
—Alguma traição?!
—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana!
—Não pense n’isso, avôsinho.
—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em
vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não
me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que
as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu
duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito
que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes
habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao
ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que
os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes,
não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de
um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para
Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois
solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me
dás do teu coração?...
—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.
—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte...
—Sim... talvez. Perdia o tempo.
—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque
é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta
felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer
a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E
o ratão do sueco! o que é feito d’elle?
—Creio que andará arrastando a aza á _señorita_. Não o tenho visto.
—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao hombro! Olha lá: o
hespanholito?
—D. Ramon?
—Sim.
—Deve andar com os seus patricios. Tambem o não tenho visto.
—De toda essa _ala dos namorados_ que ahi appareceu tão galharda, apenas
se salvaram talvez dois cavalleiros andantes.
—Quaes, avôsinho?
—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e que m’as querem levar, cada um
para sua terra differente...
N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas para o banho, sahiram do
wagon.
São raras as mulheres que conseguem triumphar de uma tão desgraçada
_toilette_: blusa e calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças
á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo da _toilette_. O relevo
do seio, accentuado sem exagero, aformoseava-lhe o busto.
Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:
—Não apanhem sol, meninas!
—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam ellas quasi simultaneamente.
E, dando as mãos uma á outra, saltaram da prancha ao mesmo tempo, fazendo
agitar a agua, que salpicou a prancha e ainda o wagon.
Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, como sempre, uma folia quasi
infantil.
Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, calado. O seu espirito
fixou-se n’um pensamento, que, momentos antes, havia revelado a Salomé:
queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o o lembrar-se que
tinha de separar-se d’ellas.
Estavam ainda as duas Rodartes no banho, quando chegaram á praia o
alferes Ruivo e o tenente Rosalgar, que não deixavam nunca, todas as
manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.
Desde o mallogrado espectaculo da _Noite sinistra_, aquelles dois
officiaes, bem como o tenente Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no
café _Esperança_ pelos nomes dos personagens que na peça lhes haviam sido
distribuidos.
Assim, por isso que as alcunhas se tinham já divulgado, podemos dizer
que _D. Fafes Estorninho_ e _D. Gualter Byscaia_ estão sobre o wagon,
conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem comtudo deixarem de dar
attenção ao banho de Hilda e Maria Ignez.
—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, que ainda não tinha tido o
gosto de os vêr desde aquella noite....
—Aquella _Noite sinistra_! atalharam ambos os officiaes, fazendo allusão
ao titulo da peça, e rindo ás gargalhadas.
—Foi pena que tivessem tanto trabalho!
—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes Ruivo. Divertiu mais ainda,
talvez, do que se se tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou
recordações alegres para muito tempo! Sabem v. ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a
_Noite sinistra_ eu passei a ser conhecido por _D. Gualter Byscaia_, e
aqui o tenente por _D. Fafes Estorninho_.
—Tem graça! observou Araujo Rodarte.
Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando o olhar para Hilda e
Maria Ignez, que sahiam do banho, subindo á prancha.
—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem um collega de v. ex.ᵃˢ....
—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu o tenente Rosalgar. Esse é o
_D. Diogo Cucufate_.
Salomé e o avô riram.
—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. Foi pena que não
chegasse ao fim! disse Araujo Rodarte.
—Pena especialmente para o Lemos—observou o alferes Ruivo—que nunca foi
egualado em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!
—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou Araujo Rodarte.
—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou o tenente Rosalgar.
—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou a fugir vestido de
mulher, galgando dois a dois os degraus da escada até se vêr na rua!
—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! commentou o tenente.
—A D. Estanislada esteve em risco, disse o alferes, de perder uma das
melhores peças do seu guarda-roupa.
—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A peça e a gloria!
Riram todos muito com esta observação do tenente Rosalgar.
E d’ahi a momentos o alferes:
—A gloria e... a coroa!
—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte.
—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma
coroa de louros para se coroar a si proprio!
—Sim?! perguntou Salomé.
—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que
foi o Marcolino, marcador do café _Esperança_, quem emprestou ao Goes o
dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para
vêr se salva o emprestimo.
—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa
a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha
reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho
rindo.
—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho
director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a
ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das
respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos:
vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não
perder tudo, e vae rifal-a.
—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da
rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes.
—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da
coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre,
não nos ha-de faltar louro na comida.
—Pois o melhor de tudo, observou Araujo Rodarte, era mandar de presente
a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez.
—N’essa não cáe o Marcolino!
D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e Maria Ignez sahiam do wagon.
O Rodarte e as netas despediram-se dos dois officiaes.
E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:
—Ellas vinham do banho um appetite!
—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e a outra não é nenhuma asneira
tambem!
XVI
D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal.
Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos
seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades
internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer
ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.
D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que
receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque
mordem de perto.
Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de
esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de
vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se
d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher
de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião
publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa».
Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo
para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o
tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa.
A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da
existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde.
Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos
de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a
existencia?
D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que
a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer
vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da
moralidade?
D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma
coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros,
limitar-se-ia certamente a dizer: _Es una broma!_
Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para
o effeito da moralidade?!
Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina
Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade
conjugal de D. Estanislada!
De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse,
para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era
permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma
coisa?!
Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava
disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o.
Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia
tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor
fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada
d’espiões.
Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a
interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a
Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada
lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes.