uma mulher. Esta noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio Goes
respondeu-lhe que a espontaneidade do talento não se podia torcer como
um arame, e que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente fôra uma
comedia com um só personagem feminino.
Então, alguns desfructadores, _habitués_ do Lapido, suggeriram a ideia de
que, para não melindrar as damas, o melhor seria não convidar nenhuma, e
encarregar-se o estudante de um _travesti_.
Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, porque lhe daria no palco maior
evidencia e, por isso mesmo, maior gloria.
Acceitou.
—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava elle a Aurelio Goes.
—És a baroneza de Piães.
—Casada ou solteira?
—Casada.
—E distincta?
—Certamente.
Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo ensaiando.
O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios faziam-se de dia, depois do
almoço. Uma commissão encarregára-se de passar a casa: a coisa corria ás
mil maravilhas.
Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:
UMA NOITE SINISTRA
_Comedia em tres actos e em verso, original do festejado
escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes_
DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS
_Baroneza de Piães_ Sr. Julio de Lemos
_Barão de Piães_ Sr. J. Vianna
_D. Mendo Espinote_ Sr. Aurelio Goes
_D. Diogo Cucufate_ Sr. Tenente Epaminondas
_D. Fafes Estorninho_ Sr. Tenente Rosalgar
_D. Gualter Byscaia_ Sr. Alferes Ruivo
_O escrivão de fazenda_ N. N.
A acção passa-se na actualidade, em Braga.
_Ensaiador_—Sr. Aurelio Goes.
A _Gazeta Setubalense_ e a _Trombeta Ullyssiponense_ annunciaram, além
e áquem do Tejo, o brilhante espectaculo que ia realisar-se em Setubal,
punham no sette estrello o novel e talentoso author, Aurelio Goes, que,
se os calculos não falhavam, viria a nivelar-se com Almeida Garrett, e
elogiavam a vocação artistica dos distinctos amadores, que em seguida
nomeavam.
Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes.
Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas
reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços
reduzidos, mas não obteve resposta.
Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa
de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario da
_Trombeta_, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes.
A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto
juizo como elle.
Mas o proprietario da _Trombeta_, que só d’ahi a dois dias poude ser
encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido,
chegando a dizer ao intermediario que o _sr. Aurelio_ só lhe mandava
de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso
com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o
despediria da redacção.
Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á
loja onde tinha encommendado a coroa, para suspender a encommenda, mas,
ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta na _montre_ com este
distico, que tinha tambem sido encommendado: _Ao notavel e talentoso
dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett_.
Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa.
Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á
brutalidade do proprietario da _Trombeta_.
Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro
para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que
fosse dizer ao «tyranno da _Trombeta_», expressão sua, que dentro de
quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria,
que faria subir os fundos da _Trombeta_.
E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se
que a récita se realisasse dentro de dez dias.
Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade
assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios,
e tratava de arranjar dinheiro para os louros.
Julio de Lemos, muito contente com o seu papel de baroneza de Piães, em
que obteria uma ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, nas horas
livres de ensaios, em preparar a sua _toilette_.
Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer o guarda-roupa, mas
lembrou-se obrigado pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos
declarára categoricamente em alguma parte que, por seu conselho, as
Rodartes não contribuiriam para a récita senão com o preço do seu
camarote.
E o estudante, quando soube isto, dissera:
—Essa grande bêsta imagina talvez que terei de apparecer em scena como
Eva no Paraizo Terreal! Pois engana-se redondamente.
E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse n’aquella afflicção.
Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas D. Estanislada recebeu-o
amavelmente, prometteu-lhe pôr á sua disposição o guarda-roupa de que
precisasse.
Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe a amabilidade e, para
lisonjeal-a na sua formosura, contou-lhe a scena que se seguira ao
_pic-nic_ de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas a que se
procedêra, ella tinha cahido em sorte ao sueco.
D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, e explicou então a si
mesma os ciumes do conselheiro, e a presença do sueco, de noite, na sua
rua.
Esta revelação não cahiu em cesto rôto.
Vencida a difficuldade da _toilette_ para o estudante, tudo estava
prompto, e a noite da recita chegou finalmente.
XII
Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com
outras. Ouvia-se um _sol-e-dó_, com pretensões a orchestra de salão.
Devia ser um baile.
SCENA I
D. MENDO e D. DIOGO (_entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O
sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca
de D. Mendo, que é antiga e enorme._)
D. MENDO
Mas se conhecem?
D. DIOGO
Sim! sim!
Agora, que estás no baile,
Emancipa-te de mim.
Passeia, namora, primo,
Faze a côrte, dize graças,
Pódes até, se quizeres,
Tu, morgado de Boaças,
Ser um rei entre as mulheres!
D. MENDO
Um rei com manto emprestado!
Julgo ouvir, a cada passo,
Dizer a voz de um palhaço:
«Largue a casaca, morgado!»
Que entre a fôrma e entre o fato
Deve a união ser tamanha
Como entre a casca e a lagosta,
Entre o ouriço e a castanha.
Mas eu com esta casaca
Cheiro a D. Miguel I.
Suppõe que eu sou a castanha:
Ella é o ouriço... cacheiro.
D. DIOGO
Ora adeus! Em Braga serve...
D. MENDO
Essa ironia é cruel!
Onde ella faria vista
Seria em Penafiel,
Que lá as casacas todas
São ainda mais pesadas
E têm as abas dobradas,
Dizem...
D. DIOGO
Pensei que sabias!
D. MENDO
Não. Eu já lá estive uns dias,
Mas nunca mudei de fato.
Ora eu com esta casaca
A que Bocage decerto
Fez no seu tempo uma quadra,
Devo par’cer um retrato
D’estes da Feira da Ladra!
E depois que desconcerto
Entre a casaca e o chapeu!
Percebem todos á legua
Que trago o que não é meu.
Um chapeu moderno, _claque_,
Fôrro preto, lettra de ouro,
Armado com boas molas,
Dando ao abrir-se um estouro. (_E abriu a claque com estrondo._)
A casaca... um monumento
De remota fundação!
Faz lembrar a sé de Braga
Com abas e cabeção;
A guerra de Troia em panno;
Affonso Henriques cosido.
Affonso Henriques decerto
É que eu trago em mim vestido!
D. DIOGO
Pateta! Mais te valia
Talvez deitar-te ao sol-posto
Com as gallinhas! (_ironico._)
D. MENDO
Que ouvi?!
Pôr as gallinhas, entendo,
Mas pôr o sol, nunca vi!
D. DIOGO
Ahi vem a dona da casa!
D. MENDO
Agora, que vou ter publico,
Sinto-me arder n’uma braza!
SCENA II
_Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em scena
produz hilaridade no publico._
BARONEZA
Ó morgado! que surpreza!
Que prazer! quanto eu estimo!
Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,
Pois que nos trouxe seu primo.
D. MENDO
Baroneza! Eu folgo muito...
O meu peito rejubila... (_Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça
o cabeção da casaca._)
(_á parte_) Não posso dár á cabeça,
Que me não suba a mochilla!
D. DIOGO (_apertando a mão á baroneza_)
E tem que me agradecer,
Porque o primo não queria
Vir ao baile!
BARONEZA
Póde ser!
D. DIOGO
Só questão de _toilette_.
Mas emfim...
D. MENDO
(_á parte_) Vim de casaca,
E ainda cabiam mais sete!
BARONEZA
O barão, quando soubér,
Ha de ficar encantado
Co’a surpreza do morgado.
Eu mesma lh’o vou dizer.
E agora, morgado, goze,
Que entre a fina flôr do Minho
Não ha quem lhe leve a palma,
Quem tenha mais gentil alma,
Melhor sangue em pergaminho,
Além do que nós sabemos...
Pois por cá todos lhe dão
Umas cem pipas de vinho
E oitenta carros de pão.
D. MENDO
Ai! baroneza! Foi tempo!...
Já não sou quem d’antes era.
Sinto-me triste, sou mono.
Matou-me o phylloxera!
Deu nas vinhas... e no dono!
BARONEZA
Não se chore... pobresinho!
Que não é occasião.
Se quizer... compro-lhe o vinho,
Seu primo... compra-lhe o pão.
D. DIOGO
Está dito, baroneza.
Quer o meu braço?
BARONEZA
Pois não!
Morgado, goze, namore,
Que eu vou dizer ao barão. (_A baroneza e D. Diogo saem de
braço dado por uma das portas lateraes._)
SCENA III
D. MENDO (_só_)
Goze! Namore! Tem graça!
Póde alguem ser tão audaz,
Que vá mostrar-se n’um baile
Assim, por deante e (_volta-se_) por traz!
Vim de rastos, constrangido,
Estou aqui compromettido!
Não saio d’aqui, não saio.
Fallar ás damas? Dançar?
N’essa tolice não caio.
Não me hão de lá apanhar! (_Sentando-se._)
Chego a Braga d’esta vez
Por uns dois dias ou trez.
Trago um fato de viagem:
Eis toda a minha bagagem.
Entro em casa de meu primo.
—Como vaes tu?—Que surpreza!
Ó diabo! adivinhaste!
Mas tu sabes que apanhaste
Um baile da baroneza?!
—Um baile?—Um baile!—E depois?
—Um baile d’estes que valem,
Dados em Braga, por dois.
—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!
—Não pódes! porque?—Por tudo!
Ou melhor, talvez, por nada!
Pensas que eu visto casaca
P’ra fazer uma jornada?!
Que é da casaca? Não tenho!
Gosto de andar á ligeira,
Cheio de sol e poeira,
Assim mesmo,—como venho.
—Mas, primo, talvez se arranje
Algum meio... deixa vêr.
—Só o capote de um conego
Me póde agora valer!
—Não rias! Que ideia! Espera!
Se me não falha a memoria,
A casaca do papá,
Que Deus tenha em santa gloria,
No guarda-roupa ainda está.
—Santo Deus! quero lá isso!
Ó primo! que reinação!
Uma casaca, talvez,
Com que o tio outr’ora fez
De valido papa-fina
Quando a Carlota Joaquina
Burlou a Constituição!
—Vae-se vêr. Tem paciencia...
Vem a casaca. Medonha!
Isto que eu trago vestido
E em que me sinto mettido
Como dentro d’uma fronha!
—Primo, não vou.—Qual historia!
Verás lá muitas assim.
N’esta Braga, que é fiel,
O tempo de D. Miguel
Dura ainda, e não tem fim!
Vaes á moda.—Á moda... antiga!
—Talvez que alguma morgada,
Camapheu como o seu broche,
Se sinta lisonjeada
D’esse aspecto _vieille-roche_.
—E entre no meu coração,
Por engano, e por seu pé,
Julgando, por ser em Braga,
Que vae ouvir missa á Sé!
—Ora adeus! Calças, collete,
Gravata, lenço, chapeu,
O resto da _toilette_,
Tudo isso, empresto-te eu.
E zás, põe me na tortura,
Despe-me, veste-me, entala-me,
Puxa, repuxa, estrebucha,
Desaperta, aperta, empala-me!
Traz-me ajoujado, arrastado,
Acho-me, sem saber como,
Preso dentro de uma sacca!
Vim a pé... n’esta casaca,
E o primo veio a meu lado!
SCENA IV
(_D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram
pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar._)
D. FAFES e D. GUALTER (_simultaneamente_)
Ó que surpreza! Um abraço!
Que noite nem estreiada! (_abraçam-n’o de um e outro lado._)
D. MENDO (_á parte_)
Fica tão longe a casaca,
Que não senti mesmo nada! (_Olhando para o escrivão de fazenda,
que lhe abaixa a cabeça._)
Ó D. Gualter, ó D. Fafes,
Ser apresentado estimo
Ao distincto cavalheiro,
Que tendes por companheiro.
Será elle nosso primo?
D. GUALTER
Não é. Mas outra valia
Este senhor recommenda.
Isto já de fidalguia!...
D. FAFES
É o escrivão de fazenda. (_apresentando D. Mendo_)
Meu primo Mendo de Sousa
Noronha Alvim e Lambaças...
Aqui falta alguma cousa!
Emfim: senhor de Boaças.
D. MENDO
Falta o Tinoco materno.
De meu pae falta o Rolim.
D. FAFES (_emendando_)
Mendo de Sousa Noronha
Alvim Tinoco Rolim,
Senhor do Brejo e Boaças.
D. MENDO
Agora falta o Lambaças!
D. FAFES (_rindo_)
Nenhum de nossos avós
Faz falta onde estamos nós!
D. MENDO (_ao escrivão_)
Muito emfim me lisonjea
Conhecer este senhor.
Faça de conta, de ideia
Que me tem ao seu dispôr.
Estendo-lhe a minha mão,
Senhor... senhor escrivão
De fazenda... propria ou alheia?
D. GUALTER (_precipitado_)
Não faças troça do homem.
N’estes bons tempos felizes
De liberdade e igualdade
Nós andamos nas mãos d’elle
P’ra que não nos tire a pelle
Esticando-a nas matrizes.
D. MENDO
Então cá vocês não pagam?
(_D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda_)
D. GUALTER
Pagamos pouco. Bem vês
Que ninguem faz em colheitas
O que antigamente fez.
D. MENDO
E então recorrem ás peitas!
N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não
parecia que fosse rubrica da peça.
D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou
para dentro: Calem-se, seus burros!
D. GUALTER (_levantando a voz para poder ser ouvido_)
Finge a gente que o estima,
Trata-o de Santo Antoninho,
Mão por baixo, mão por cima.
Se não ha nem pão nem vinho!
D. MENDO (_descendo da porta do fundo, muito arreliado
porque o barulho entre-scenas continua_)
Mão por cima... é bom criterio.
Mas mão por baixo... é mais serio!
D. GUALTER (_explicando com o gesto correspondente_)
Mão por cima e mão por baixo.
Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo,
altercar. Da platêa rompem alguns scius.
D. MENDO
Isso então tinha outro nome
Quando não havia fome.
Chamava-se: ser capacho!
D. FAFES (_em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder
dominar o barulho que vinha do fundo do palco_)
Muito alegre este D. Mendo!
D. GUALTER (_berrando para poder ser ouvido_)
Parece rapaz, e é velho!
D. FAFES (_gritando cada vez mais_)
Tem uma casa soberba!
D. MENDO (_com voz de estentor, para o escrivão de fazenda_)
Tenho. Mas n’outro concelho.
N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e
de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de
Lemos, em _travesti_ de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés,
um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo,
atarracado, ardendo em colera.
Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem
dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas,
incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos
hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco
correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos
camarotes.
Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de
um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por
entre os bastidores.
O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.
Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.
Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os
guinchos.
Vozes explicavam da platêa para os camarotes:
—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!
—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.
Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.
D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:
—_Que broma! que broma!_
Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno
subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D.
Mendo, veio dizer á bôcca da scena:
—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr.
Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.
O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes,
para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:
—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com
elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!
XIII
Imagine-se quanto deu que fallar este caso estupendamente comico!
Pela manhã dizia-se na praia que o pae do estudante havia corrido atraz
d’elle pela rua da Conceição, e que um popular, vendo uma mulher a fugir
e um homem a gritar que a prendessem, deitara a mão á supposta mulher;
que Julio de Lemos apanhára n’esse momento nova roda de pontapés, e que
o pae, agarrando-lhe por um braço, o levára para a hospedaria, tendo
embarcado ambos no comboio da manhã para Lisboa.
Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: soube-se então que o
jornalista havia mandado vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de
louros, a qual coroa de louros ficára no theatro pendurada de um prego.
Fazia-se _calembour_ com a palavra _prego_, porque se soube logo tambem
a quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro para pagar a coroa.
Accrescentava-se que o estudante se esquecêra, na atrapalhação em que
ficára, de restituir a _toilette_ a D. Estanislada, mas averiguou-se
depois que o pae de Julio de Lemos havia mandado entregar tudo.
Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado e furioso: envergonhado
pelo _fiasco_ e furioso por vêr perdida a occasião de trepar para o
pedestal de Garrett.
Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio Goes havia partido no
comboio da tarde para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, nem
mesmo á pessoa que lhe havia emprestado o dinheiro para a coroa de louros.
Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a ninguem, haviam tirado algum
proveito d’essa mallograda récita.
A primeira era D. Estanislada que, graças ao estudante, ficára sabendo
que, no sorteio de Troia, havia cahido em sorte ao sueco.
A segunda era o sueco que, na noite da récita, tinha offerecido um
camarote de segunda ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.
Pois que! A menina Ricardina soubera tecer a sua rede, e apanhou nas
malhas o sueco. Foi com esse fim que ella o chamára para lhe fazer as
confidencias que sabemos. Elle, encantado com tão boa fortuna, porque
era essa a primeira portugueza que se lhe tornava accessivel, voltára na
noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido o galanteio.
A menina Ricardina contou á mãe que o sueco lhe tinha dito que queria
desposal-a, e a sr.ª Magdalena, depois da filha lhe prometter que _teria
muito juizo_, prometteu ao Senhor do Bomfim um sueco de cêra, se o
namoro viesse a disparar em casamento.
Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada um camarote de segunda
ordem, camarote de industria escolhido para dar pouco nas vistas: era de
bôcca.
E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram no camarote offerecido,
o sueco, a proposito de saber se ellas queriam alguma coisa, foi
visital-as, e ficou.
Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, encantado com a mobilidade
gracil com que Ricardina mexia a cabeça, olhando para um e outro lado
como um passaro na gaiola.
Ella estava delirante de alegria por se vêr no theatro, coisa que já
lhe não acontecia havia dois annos, desde que um rapaz, que tinha ido a
banhos, lhe offerecera duas cadeiras no barracão dos Dallots para ella
assistir com a mãe á representação da _Mão do finado_.
Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido pelas melhores
familias da terra e de fóra, estonteava-a d’alegria e de orgulho.
Quando principou a desencadear-se no palco a tempestade, que fez gorar o
espectaculo, a menina Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a gente, e
aproveitou a occasião para ir sentar-se, ao fundo do camarote, perto do
sueco.
A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo do palco, sem dar a menor
attenção ao escandalo do camarote. O sueco e a menina Ricardina, de mãos
entrelaçadas, muito ternos, já se não importavam senão comsigo mesmos,
indifferentes ao tumulto que de repente se havia levantado.
Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr o sueco, porque, depois que
o estudante lhe contára a historia do sorteio, ella havia architectado
um romance de amor internacional.
O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, o sueco amava-a, e
por isso o conselheiro. Antunes o tinha encontrado perto da casa de D.
Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.
Havia, é verdade, uma carta do sueco para Soledad, carta que D.
Estanislada e o conselheiro abriram e leram, mas essa carta bem podia
ser um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese de qualquer
escandalo futuro.
Não fingira a principio o conselheiro, tambem habilmente, namorar
Soledad para afastar suspeitas do seu galanteio com D. Estanislada? Pois
muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava namorar Soledad para se
aproximar, sem dar nas vistas, do coração de D. Estanislada.
A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada pela segunda vez em
Setubal.
O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava n’umas paschoas desde que
possuia o coração da menina Ricardina. Já se não importava de Soledad,
que seria mais bella, não o negava, mas não era tão accessivel, tão
meiga, tão carinhosa para elle.
O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, foi-se esvaziando, os
espectadores sahiam fazendo commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª
Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram ficar para ser os
ultimos a sahir.
Já começavam a apagar-se as luzes quando os tres desceram. E como a
noite estivesse serena, posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª
Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella objectou que poderia ser
isso reparado, mas a filha, vendo que a mãe não se entendia muito bem
com a aravia do sueco, replicou que não havia luar e que até fazia bem
dar um passeio n’uma noite de verão: que bem encalmada saira ella do
theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o sueco, de mãos enlaçadas
com a menina Ricardina, fizera subir o thermometro.
Foram caminhando até ao largo das Almas, e ahi metteram para o Campo do
Bomfim, os dois adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.
Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, quando passavam em direcção á
capella do Senhor do Bomfim,, não se dispensou de parar para rezar de
longe á milagrosa imagem da sua especial devoção.
Foi n’essa occasião que o sueco roubára um beijo á menina Ricardina.
Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos dos meus leitores
dirá comsigo mesmo: «Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento de
felicidade, esse!»
Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro beijo que elle dava, mas o
terceiro. Sim, o terceiro, um terceiro... franciscano, a julgar pela
modestia com que passou dos labios do sueco para a face da menina
Ricardina, como se passasse de uma cella para outra. Dir-se-ia que era um
beijo de sandalias, porque passou sem fazer barulho.
Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena disse á menina Ricardina:
—Não sei como tu te podes entender com o sueco!
—Por quê, minha mãe?
—Eu entendo muito pouco do que elle diz!
—Pois eu entendo-o perfeitamente...
Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! tu és a unica lingua
que se póde aprender sem grammatica e sem diccionario! lingua de
substantivos apenas, em que dois nomes proprios se juntam para formar o
plural!
Todos os acontecimentos que se tinham dado nos ultimos dias haviam
contribuido para diminuir e empallidecer a côrte de admiradores que,
antes da chegada das Rodartes, acompanhava por toda a parte a bella
andaluza.
Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, desertaram da
côrte castelhana para a côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu
soberanamente glorificado na pessoa das tres Graças da Messejana.
O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo constava, quando
Soledad fôra para Lisboa com o pae. Estava certamente contrariado pela
concorrencia que lhe faziam os outros pretendentes á mão da bella
andaluza. Ella propria pensava isto.
O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.
Depois da noite fatal da récita, o estudante e o jornalista
desappareceram, abandonaram o seu posto de cortezãos.
Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e os officiaes de caçadores.
Já não havia _tertulias_ possiveis, Soledad passava as noites sentada com
a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o
Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso,
que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: a _tertulia_, a
querida _tertulia_, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita
falta.
Abrindo e fechando o _abanico_, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha
desesperos intimos, raivas surdas.