cosendo-se muito com a sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente
para casa de D. Enrique. Era o _azeite_: o conselheiro. Mas teve de
fazer torcicollos porque reconheceu o sueco, que estava contemplando
as janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, mal que viu
aproximar-se um vulto, deitou a fugir.
O presidente da junta geral do districto de Santarem, lembrando-se da
_rifa_, e, portanto, de que D. Estanislada havia sahido em premio ao
sueco, teve uma forte commoção de ciume.
—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha ido para Cintra e apparece
mysteriosamente em Setubal ás onze horas da noite!
E, como um Othello furioso, empurrou a porta de Desdémona e entrou.
Por dentro dos vidros da sua janella, a menina Ricardina, muito matreira,
tendo apanhado no ar a phrase do _azeite_, estava á côca, e vira tudo o
que se passára.
IX
O conselheiro Antunes, subindo a escada, deixou-se guiar mansamente, na
treva, pela mão da hespanhola. Parecia um borrego amoroso comboyado pela
respectiva cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de D. Estanislada
e a luz da lamparina lhe aclarou a situação, o borrego transformou-se em
lobo cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.
Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, foi pouco mais ou menos a
famosa fabula do lobo e do cordeiro.
Othello accusou violentamente Desdémona: era o lobo que fallava.
Não alludiu á _rifa_, mas affirmou saber de boa origem que o sueco
disfarçava com a filha as suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre
lisonjeada e surprehendida, tomou o logar do cordeiro do apólogo, salvo
o sexo. Procurou tranquillisar o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco
não a pretendia a ella, mas á filha, _que era mais nova_. O lobo pediu
provas, visto que só com provas importantes poderia desfazer a impressão
que lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, ás onze horas da
noite, sendo certo constar em toda a cidade que Soledad tinha ido para
Lisboa com o pae.
D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de uma prova. Era uma
carta que n’aquella mesma tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a
Soledad Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, estrangeirada:
naturalmente seria do sueco.
—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia a carta e, se
effectivamente fosse do sueco, talvez a questão podesse ficar esclarecida.
Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com denodo. Era effectivamente
do sueco.
Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos.
Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as
linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol
andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta.
Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão
de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no _pic-nic_ de
Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito
constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos
trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para
definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás
onze horas da noite.
Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a
situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece
no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou
vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor.
Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o
sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o
reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos,
esperava que a janella de Soledad se abrisse.
Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de
anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta
de um _rez-de-chaussée_.
Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um
estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um _psiu_, tres vezes
repetido, um _psiu_ que não podia ser senão para elle, porque na rua não
havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.
Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher,
mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio
Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher?
Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era
effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava
dizendo cautelosamente:
—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.
O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella
uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os
olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma
realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando
cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe
soube tão bem como um copo de _Kirsch-Vasser_.
—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que está ali minha mãe a dormir.
—Ó encantadorra menina! exclamou elle.
—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, o sr. estrangeiro anda aqui
por causa da mãe ou da filha?
—Que dizerr menina?
—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro no grupo da hespanhola, mas
não sei ao certo se anda arrastando a aza á _señorita_ Soledad ou a D.
Estanislada...
—Linda menina desfrructarr-me a mim?
—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe agradavel. Posso dar-lhe
informações tanto a respeito da _señorita_ como da mãe. Se é por causa da
filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a perder o seu tempo...
—Porque dizerr linda menina isso?
—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa com o pae, e só volta depois
d’amanhã.
—Mas quem serr então uma pessoa homem que andava esprreitando inda
bocadinho?
—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que lhe vou contar?
—Oh! nó!
—Era o conselheiro Antunes.
—E onde estarr elle?
—Lá dentro.
—Aqui?
—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.
—Mas estarr só?
—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... O sr. desculpe...
—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.
—É uma pouca vergonha como nunca se viu! Minha mãe tem alugado aquella
casa a muitas familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão levantada
da cabeça como esta! Entre mãe e filha venha o diabo e escolha!
—Mãe menina serr senhorria casa?
—Sim, senhor.
—Então menina terr visto tudo?
—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. Ainda esta noite...
—Que terr visto menina esta noite?
—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada por imaginarmos que,
estando o marido e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse
companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro Antunes. Ó sr.
estrangeiro, aquillo foi mesmo uma pouca vergonha!
—Como serr?
—Debaixo da mesa...
—Como debaixo de mesa?!
—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada e o conselheiro! Estiveram
toda a santa noite n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o
conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que ás onze horas vinha o
azeite...
—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação entrre ambos!
—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam o ninho atraz da orelha,
fiquei aqui á espreita por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro
e pasmar-se para a casa de D. Enrique. Vi chegar depois o conselheiro
Antunes. O sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.
—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr lá?
—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...
—Pouca verrgonha!
—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a mesma loiça! A filha, quando não
anda pela rua com todos os namorados, está á janella a catrapiscar a um e
a outro, a todos os que vão chegando! O sr. estrangeiro tambem tem feito
bem bonitos papelinhos!
—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?
—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, elle é o tal das gazetas de
Lisboa, elle é o hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha que
tem a pobre da Sequeira a morrer por causa d’elle; elle são os officiaes
de caçadores; elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva que
andou ahi um tempo. E elle é tambem o sr. estrangeiro... disse Ricardina
sorrindo.
—Eu serr brrincadeirra.
—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque quando o sr. voltava costas,
a _señorita_ e a mãe desatavam a rir pelas casas dentro.
—Pouca verrgonha!
—Pois olhe que é a pura da verdade!
—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr virr amanha á mesm’horra
fallarr com menina aqui?
—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? É porque está
apaixonado pela _señorita_ e deseja saber noticias...
—Nó! É por gostarr de menina.
—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma pobre rapariga!...
—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. Linda menina, fazerr favorr
esperrar mim?
E o sueco, apertando na sua manápula a mão de Ricardina, sentiu-se
deliciosamente agitado por esse contacto, que era um triumpho amoroso
cahido do céo.
Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de casa de D. Estanislada,
sentia-se bem, feliz, por ter podido até certo ponto descarregar a
electricidade que de lá trouxera.
O sueco era um homem sadio, de boas côres, e devia ter dinheiro, porque
estava ali como commissario de uma importante casa da Suecia, importadora
de sal.
De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, lisonjeava-se de ter
arrancado um vassallo ao coração da _señorita_, que estava absorvendo
todas as attenções de Setubal.
O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi passear audaciosamente para a
praia, como se já não temesse os ridiculos da troça.
Dados alguns passos, encontrou o estudante de Alcacer, que, muito
noctivago, recolhia do café _Esperança_.
—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você não tinha ido para Cintra?!
O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha estado em Cintra, por
passeio, e não porque se houvesse importado com a historia do _pic-nic_;
que se estava rindo da _señorita_, que era uma tola, e até de D.
Estanislada, que era a amante do conselheiro Antunes.
E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos que Soledad e D. Enrique
tinham ido para Lisboa e que o conselheiro estava áquella hora em casa de
D. Enrique.
—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.
O sueco affirmou positivamente que estava; que tinha entrado ás onze
horas.
—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos pregar uma _partida_ a essa
marafona da D. Estanislada.
E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando comsigo a reboque.
Depois que passára a tempestade do ciume, D. Estanislada e o conselheiro
reconciliaram-se n’um longo idillio de amor. Tinham adormecido nos braços
um do outro, e D. Estanislada sonhava afflictivamente que D. Enrique,
voltando de Lisboa, estava batendo á porta.
Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, olhando para o
conselheiro que dormia tranquillamente e assobiava por um dos cantos da
bôcca.
Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, isto é, entre a imagem
de D. Enrique e a pessoa do conselheiro, estava limpando o suor da testa,
quando ouviu resoar tres pancadas na porta e uma voz roufenha dizer:
—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, accordou-o, e elle,
despertando aturdido, ouviu tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:
—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado de pregar aos dois esta
_partida_.
X
Tarde de domingo, lucida e serena como um crystal da Bohemia. O Sado
dorme n’um azul tranquillo, n’um leito de saphira, que a menor aragem não
agita, o que poucas vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se n’uma
grande quietação bucolica, e os arvoredos circumjacentes recortam-se n’um
fundo de stereoscópo longamente pittoresco...
As Rodartes foram passeiar a Brancannes: Hilda e Maria Ignez, de braço
dado; Salomé guiando, como sempre, o avô,—Antigone que vae conduzindo
Œdipo.
Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se bem na solidão dos
campos, mais convidativos ali do que na sua arida provincia do Alemtejo.
O velho _Padre Eterno_ não queria outra felicidade que a de vêr-se
rodeado pelo grupo encantador das suas tres Graças: onde ellas
estivessem, estava o céo.
Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido ainda, e não faziam
falta a ninguem, nem mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde
pareciam ter esquecido.
Salomé e o avô conversavam sobre negocios da administração da casa,
porque aquella neta era o secretario particular do velho Rodarte: toda a
correspondencia com os feitores e caseiros corria pela sua mão.
Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, assumptos de Setubal,
que lhes serviam para ir matando o tempo.
—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia Maria Ignez.
—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.
—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.
—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda viu nenhum dos seus pagens!
Ou foram tambem para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar de
saudade...
E riram ambas, sem despeito, apenas com a alegre ironia, que é uma feição
caracteristica dos espiritos moços e despreoccupados.
—O sueco é que desappareceu da circulação!
—E o Lemos tambem!
—Não. O Lemos estava outro dia sentado á porta do café quando nós
passamos.
—Parece que não está bem comnosco!
—Porquê?
—Eu sei lá! Deixal-o estar.
—E o jornalista?
O avô e Salomé haviam-se calado momentos antes.
—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me hoje a sua _Trombeta_.
—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria Ignez.
—Não, a d’elle, a _Trombeta Ullyssiponense_.
—Por signal, accrescentou Salomé, que vem lá uns versos d’elle, que não
são feios.
—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens boa memoria, dize lá como são.
—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se _Noites ao norte_.
Noite fria, noite branca,
Noite da Russia polar,
És como a imagem da morte,
Ó longa noite do norte,
Feita de neve e luar.
—Dize lá o resto.
—Não sei. Tive de escrever para a Messejana uma carta que o avôsinho
queria, e puz logo o jornal de parte.
—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.
—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.
—Se elle faz d’esses versos á _señorita_, constipa-a, disse Maria Ignez.
O avô e as duas outras meninas riram muito da phrase.
—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser comico esse cortejo da
hespanhola! Tirados os nossos dois patricios, que são alegres, mas
excellentes pessoas e proprietarios abastados, tudo o mais não vale um
caracol.
—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.
—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, que me não parece um forte
sustentaculo da monarchia, nem um inimigo poderoso da republica.
—E o Vianninha? perguntou Hilda.
—O Vianninha é um pobre escripturario de fazenda, respondeu Araujo
Rodarte, que anda a estudar o modo de não morrer de fome.
—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a estudar o meio de conquistar
a _señorita_.
—Está ella feliz com esse pretendente!
—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, está apaixonada por elle a
Sequeira. Dizem até que tem deitado sangue pela bôcca.
—Pobre rapariga! que tão mal empregou o seu coração! ponderou o Rodarte.
E elle é um tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa de seu,
possue duas marinhas em Alcacer, e é um homem que trabalha muito. De mais
a mais, boa gente.
E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:
—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.
—Antes elles do que os outros, disse o avô.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas vinham
effectivamente subindo para Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as
tres lindas patricias.
A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.
—Então que vae lá por esse mundo da praia? perguntou o velho Rodarte.
—Algumas novidades ha.
—Novidades! Quaes?
—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse o morgado de Reguengos.
—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.
O morgado fez-se purpurino.
—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como este meu companheiro estamos
aqui a banhos e queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto como se
estivessemos no theatro. A andaluza tem sido a peça que está em scena:
assistimos ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.
—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.
—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo Rodarte. E mais?
—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. Já nos foi deixar bilhete.
—Mas elle contava ainda demorar-se! observou Araujo Rodarte.
—Lá estão commentando no Lapido a resolução do conselheiro.
—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o morgado de Reguengos.
—Digam sempre.
—O Lemos planeou agora um espectaculo de curiosos em favor do Asylo.
Parece que querem representar uma comedia escripta pelo Goes.
—Mas quem representa? perguntou Maria Ignez.
—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.
—Nós! conclamaram as tres meninas.
—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.
—Mas a mim consta-me por linhas travessas, disse o proprietario das
Alcaçovas, que o pae do Lemos está furioso com a demora d’elle em
Setubal, e que mais dia menos dia o virá buscar para o acompanhar a
Lisboa, visto que se vae aproximando a época da abertura das aulas.
—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz está aqui está a tomar capêllo em
Physica.
—Tempo tem elle já para isso!
—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma cabeça desconcertada!
—Outra novidade! exclamou o morgado de Reguengos.
—Qual?
—Appareceu o sueco!
—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo Rodarte.
—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar cavaco á gente.
Os dois alemtejanos foram a Brancannes com o proposito astucioso de
evitar que as Rodartes tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella
manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre o assumpto o animo do
velho Rodarte. Mas logo ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como as
netas pensavam do mesmo modo: ellas não entrariam na récita.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas continuaram a não
dar importancia á concorrencia amorosa do estudante e dos outros, que
_não tinham onde cahir mortos_. Mas o galanteio de ambos com as duas
Rodartes ia-se accentuando com um caracter de seriedade, que abrangia já
a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.
Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem n’um espectaculo de
rapazes as duas senhoras, Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade
de que ellas lhes acceitassem a côrte.
Não sabiam elles ao certo o numero de personagens femininos que a peça
exigiria; mas preveniam a hypothese de uma annuencia ao convite do
estudante.
Combinado o espectaculo no café _Esperança_, e compromettido Aurelio Goes
a escrever a peça, o estudante, o jornalista e o Vianninha foram em grupo
ao encontro das Rodartes.
Vinham ellas já descendo de Brancannes com o avô e os dois alemtejanos,
quando os tres as avistaram.
N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia uma flôr e offerecia-a a
Hilda. O estudante viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.
—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, o que aquelle pedaço de bruto
lhe está dizendo decerto agora?
—O que é?
—Aposto que ha de ser isto:
Aqui tem este raminho,
Que da minha mão se offerece.
Não é como eu queria,
Nem como a senhora D. Hilda merece.
E riram todos tres.
—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o estudante.
—Tambem a mim me parece! respondeu o Vianninha, muito timido.
—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.
E o estudante foi o primeiro a desandar pelo mesmo caminho, sendo logo
seguido pelos seus dois companheiros.
XI
O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram inquietos com o que tinham
ouvido.
O seu segredo estava descoberto: o _azeite_ havia-se entornado, enodoando
ambos.
Não era D. Enrique que batera á porta, porque D. Enrique estava em
Lisboa, mas devia ser uma pessoa que soubesse _tudo_.
Quem seria essa pessoa?
D. Estanislada propendia a crêr que fosse a senhoria.
—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.
—_Porque es beata, y las beatas lo saben todo: lo que Dios no les dice,
lo saben ellas por el Diablo._
Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia:
—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco, que andava por aqui. É verdade
que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse
entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça.
—_Nada!_ teimava D. Estanislada. _La voz no era la del sueco!_
—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto
consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo
comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio.
O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de
D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar
aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua
ausencia.
—_D. Enrique nada sabrá_, dizia a hespanhola, muito menos timida que o
conselheiro.
—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro
morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica
Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei
depois.
—_Que fatalidad!_ exclamava ella.
O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D.
Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava
ninguem na rua.
—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha
respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar
que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da
politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas,
para não alimentar suspeitas, para mostrar que _parto_ mas não _fujo_, e
por aqui me sirvo até mais vêr.
E, apos uma pausa, muito sentencioso:
—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem.
Effectivamente, no comboio de segunda-feira pela manhã o conselheiro
partiu para Lisboa e de Lisboa para Santarem.
Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo pensamento sentencioso
acudiu ao espirito do conselheiro:
—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem!
O estudante de Alcacer havia divulgado a _peça_ que pregára ao
conselheiro e a D. Estanislada. Era já do dominio publico á hora em que o
conselheiro andava fazendo as suas despedidas.
Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente quando se encontraram com as
Rodartes, no domingo, em Brancannes, mas limitaram-se, por conveniencia
devida ás damas, a dizer que no café _Esperança_ estavam discutindo os
motivos da retirada do conselheiro.
E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola mãe foi ali tão discutida
quanto a hespanhola filha o havia sido quando era a unica belleza
dominadora de Setubal, isto é, antes da chegada das tres netas do _Padre
Eterno_.
D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde com Soledad.
—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.
—_He ido á los toros!_
—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?
—_Una broma!_
E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, da singular
coincidencia de ter ido aos touros aquelle homem que, durante a sua
ausencia, fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, lidado pelo
conselheiro.
Mas D. Enrique vinha mais contente do que fôra, porque tivera occasião
de fallar em Lisboa com outros emigrados, e a opinião d’elles era que
o estado anarchico de Hespanha não podia continuar por muito tempo.
O remedio viria de alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias
estrangeiras ou de uma reacção espontanea do paiz.
Era a esperança providencial de todos os emigrados a prefigurar-lhes um
desfecho mais rapido do que os factos em verdade promettiam.
O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, á volta de
Brancannes, demorar o convite ás Rodartes, para entrarem na récita, até
que estivesse escripta a comedia e se soubesse ao certo qual o numero dos
personagens femininos.
O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de afogadilho na sua _peça_,
de que elle proprio já fallava com orgulho, quando ás dez horas da noite
apparecia no café do Lapido para tomar cognac, como uma celebridade
noctivaga.
Contava com uma verdadeira glorificação no theatro, esperava que o seu
triumpho no palco de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado como
dramaturgo na patria de Bocage, para entrar no palco de _D. Maria II_ só
lhe seria preciso... atravessar o Tejo.
A sua reputação estava feita ou perto d’isso.