E como elle grunhisse uns roncos cavernosos, sem comtudo se levantar, foi

preciso que o proprietario das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro, o

filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé.

—Mas o que se passou? o que se passou? perguntavam cheios de curiosidade

os que tinham ido buscal-os.

—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de genebra, disse o das

Alcaçovas, e conversaremos.

Quando entraram no café, e logo que se sentaram, deram pela falta do

sueco, que se tinha escapulido.

Todos os conhecidos, que estavam no botequim, lhes fizeram circulo,

sentando-se em torno da mesma mesa.

O tenente Epaminondas contou miudamente as peripecias do _pic-nic_,

incluindo a mascarra de D. Estanislada, historia que produziu grande

hilaridade no auditorio.

Depois poz em relevo a prudente astucia com que o _Padre Eterno_, pois

que no café todos lhe chamavam assim, se safára com as netas e as

hespanholas quando vira romper as hostilidades entre o estudante e o

jornalista.

Disse que, logo que o barco partiu, o sueco investira, muito bebado,

contra o estudante, accusando-o de acintosamente ter ido sentar-se ao

lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens que, como preferido,

havia conquistado nos ultimos dias.

Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado, começara a implicar com

o Goes, accusando-o de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe

o improviso com uma gargalhada insolente.

O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante ao jornalista.

Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os a murro, e contou

o tenente que o proprietario das Alcaçovas conseguira abalar a columna

vertebral e a colera do sueco com um valente pontapé applicado em cheio

no sitio em que as costas mudam de nome.

—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente o alferes Ruivo.

Gargalhada geral.

—Que no meio de toda esta balburdia o morgado de Reguengos lembrára

jovialmente que, para de uma vez pôr termo a tão impertinentes

conflictos, e definir a situação de todos, o melhor seria confiar á sorte

a distribuição do papel amoroso de cada um.

Esta lembrança produzira um excellente effeito, foi como que um punhado

de areia atirado aos olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que

seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo, ficariam livres de

concorrentes perigosos e incommodos.

Deram pois a sua palavra de que respeitariam fielmente os decretos da

sorte.

Trataram então de espertar a fogueira, que tinha servido para a

caldeirada. E á luz d’ella fizeram, de cartas velhas e outros pedaços

de papel, pequenas listas, em que escreveram a lapis os nomes de todos

elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as na copa de um chapeu. Depois

inscreveram n’outras listas os nomes das quatro damas, mas, n’esta

occasião, houve um protesto do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a

favor do recenseamento de D. Estanislada, como _premio de consolação_ ao

que ficasse a ver navios.

O jornalista observou que D. Estanislada já pertencia, pela mascarra, ao

conselheiro Antunes.

O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente, dizendo que, desde

o momento em que a sorte era chamada a decidir, desapparecia a principio

dos _direitos adquiridos_.

Por essa occasião o estudante observára:

—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal do _azeite_.

Todo o café _Esperança_ ria, a bandeiras despregadas, com a narração do

tenente Epaminondas.

Lançadas as cinco listas, e mais algumas em branco na copa de outro

chapeu, procedeu-se ao sorteio, que deu o seguinte resultado:

_Morgado de Reguengos—D. Hilda._

_Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez._

_D. Ramon Mendoza—Soledad._

_Vianninha—Salomé._

_O sueco—D. Estanislada._

Os que a sorte desfavorecera, especialmente o sueco, o estudante

e o jornalista, romperam em protestos contra o acto eleitoral,

distinguindo-se o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se a

acceitar D. Estanislada.

E tanto berrava e barafustava, que o proprietario das Alcaçovas teve

que atiral-o para o fundo do barco, onde elle escabujou ao principio e

adormeceu depois.

VII

No dia seguinte, pela manhã, appareceu affixado nas esquinas de Setubal o

seguinte pasquim:

A roda que andou em Troia,

Andou bem, quem o diria!

Nem mesmo a da Santa Casa

É tão boa loteria.

O premio grande de Hespanha

Ficou na Hespanha. Era justo.

E o sueco, derreado,

Inda assim, salvou-se... a custo!

O Alemtejo, que a sopapo

Tudo escaca e tudo arrasa,

Não apanhando _a taluda_,

Ficou bem, ficou em casa.

Setubal, n’esta partilha,

Tem motivos d’alegria,

Porque a sorte, previdente,

Deu-lhe _sal_ na loteria.

Só Minerva e Guttemberg,

Marte e a junta geral,

Por não beberem _azeite_,

Ficam olhando ao signal.

Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu risota, foi lido com vivo

interesse.

Como era natural, todos procuraram interpretar as allusões n’elle

contidas, e assim aconteceu que não só o facto principal, o sorteio, se

tornou ao dominio publico, mas tambem tiveram grande notoriedade todos os

episodios que accidentaram alegremente o _pic-nic_ da vespera.

De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo o que se tinha passado, e

entendendo cabalmente o pasquim, com excepção de uma só quadra.

Não restou duvida a ninguem de que Minerva se referia ao estudante,

Guttemberg ao jornalista, e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores.

Uma só passagem permaneceu obscura por muito tempo, o sentido da quarta

quadra ficava em suspenso, pois que não podia atinar-se com a allusão ao

_sal_ no ultimo verso.

Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se, visto ser elle o unico

setubalense que tinha assistido a caldeirada. Mas o _sal_, sublinhado,

era um problema, um enygma, um hieroglipho.

Alguns curiosos roiam as unhas parados ás esquinas, matutando deante dos

pasquins. Que diabo de _sal_ era aquelle? O que queria dizer aquillo?

Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola, apezar de vesgo, via bem as

charadas. Era um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha, que estava

a dar aula, decifrando enygmas do _Almanach de Lembranças_, emquanto os

pequenos se entretinham uns com os outros.

Era como elle dava aula sempre.

O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira esquina,—essa esquina

que devia, em breve, converter-se para elle n’um monumento de gloria...

salvo o mictorio.

Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado, e a duvida em que estavam

quanto ao vocabulo _sal_.

O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz, deteve-se um momento a

engulir em sêcco, até que de repente, com a sagacidade de um charadista

que combina idéas, perguntou:

—Elle como se chama ella?

O Castanha tinha o costume de anteceder pelo pronome—elle—todas as

phrases interrogativas.

—Ella, quem? perguntaram-lhe.

—A madama que sahiu ao Vianninha?

—Salomé.

E o Castanha, desfiando as syllabas, _Sa-lo-mé_, monologava:

—Não pode ser isso!

Mas, de subito, exclama:

—É isso, é!

—Então é ou não é? perguntaram.

—Não vêem, disse elle triumphalmente, não vêem que o

nome—Salomé—principia por _sal_?!

—É verdade! exclamaram vozes.

—É isso! applaudiram bôccas.

E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo na commoção nervosa do

triumpho, apartava os grupos para passar, charadista glorioso.

Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o jornalista e os dois

officiaes de caçadores estiveram recebendo bilhetes de visita, a

_pesames_, com palavras de sentimento, expressões de condolencia, pelo

desgosto que acabavam de soffrer.

Foi uma _scie_ medonha, que partia do café _Esperança_, dizia-se, e

dos outros officiaes de caçadores, rapazes alegres, que gostavam de

divertir-se e não tinham muitas occasiões para isso.

O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça. Desappareceu de repente.

Constou que tinha vindo para Cintra, a fim de evitar que a troça o

perseguisse.

Não se conheciam ainda outras consequencias d’aquella brincadeira fatal.

Parecia que D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas não

aconteceu inteiramente assim.

Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso o conselheiro Antunes.

Fallando com o estudante, extranhou, com palavras severas, que _se

rifasse uma senhora casada_. Textual. Accrescentou que, se D. Enrique o

soubesse, poderia haver _uma tragedia de sangue_. Tambem textual. Pela

sua parte, apenas sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado

a occasião para um tão _grave desacerto_, inventando a caldeirada.

Que o caso ja havia dado de si, porque o _respeitavel snr. sueco_, um

cavalheiro digno de toda a estima, se havia auzentado, desgostoso.

Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não tinha passado de uma

brincadeira inoffensiva, que em nada podia affectar a honra das cinco

damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—_rifa_—era

violento, porque a rifa presuppunha immediata adjudicação do objecto

rifado, e não se dava esse caso.

Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua opinião, descobriu um

pouco as baterias. Deixou perceber que a expressão do pasquim—_junta

geral_—o tinha maguado pessoalmente. E como o estudante se lembrasse de

dizer que a _junta geral_ do pasquim não era a do districto de Santarem,

mas a collectividade dos pretendentes amorosos das trez Rodartes e da

hespanhola (velhacamente, o estudante ia pondo de parte D. Estanislada

para lisongear o seu interlocutor) o conselheiro, muito formalisado,

disse que não era pretendente á mão de nenhuma dama, que apenas se

considerava um solteirão aposentado. Que se tivesse querido casar, o

poderia ter feito ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras de

Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. Que não só receiava que D. Enrique o

viesse a saber, e se desgostasse, mas tambem que o _venerando Rodarte_,

um modelo de cortezia e prudencia, se _chocasse_ com essa _brincadeira de

mau gosto_, que envolvia o nome das suas tres netas.

No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi visto no Sapal, passeiando

e lendo, peripateticamente, uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado.

O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique disse-lhe que ia passar alguns

dias a Lisboa. Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se ia só ou

acompanhado. Mas não se atreveu a tanto. E logo conjecturou que era um

pretexto de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. Aqui está,

pensou o conselheiro com os seus excellentissimos botões, o que aquelles

diabos arranjaram com a brincadeira da _rifa_!

Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, principalmente aos

implicados na patuscada de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as

consequencias d’aquelle _grave desacerto_; que D. Enrique ia á Lisboa

ou, segundo elle suspeitava, para Lisboa, d’onde talvez não voltasse,

desgostoso.

A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, que tinham rido com

o pasquim, começaram a queixar-se de que por uma imprudencia alheia

estivessem arriscados a perder freguezes importantes.

O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e foi á estação vêr partir o

comboyo para Lisboa. D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada

ficava, portanto, só, em Setubal, durante alguns dias. Oh felicidade!

exclamou mentalmente o conselheiro.

De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar com alguns grupos.

—Então, D. Enrique sempre se retira para Lisboa?

—Creio que sim, respondia elle; supponho que parte ámanhã.

O velhaco! O que elle não queria era que se soubesse que o hespanhol já

tinha partido, e que D. Estanislada ficára.

Houve logo quem aventasse a ideia de que uma commissão do setubalenses

viesse a Lisboa, no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não desse

importancia a uma mera brincadeira, e que voltasse.

O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se passava. Ninguem o

informou de que tivessem apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem.

E elle, muito myope, não podia tel-os lido.

Conversando com o morgado de Reguengos apenas dissera que os _pic-nics_

eram a mais arriscada de todas as distracções de uma praia. Que se

felicitava por ter tido a boa ideia de deitar agua na fervura, fechando

a serie dos brindes, que já estavam denunciando uma certa excitação dos

convivas, quando julgou opportuno intervir.

O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa tarde, acompanhava o grupo do

_Padre Eterno_ e das netas, porque, tanto elle como o morgado, estavam

resolvidos a fazer valer os direitos que a sorte lhes proporcionára.

Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro e a pontapé todos os

outros concorrentes. Mas fazel-o seria violento... especialmente para

as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo tuchado, possuiam o bom

humor e a prudencia que os nevroticos desconhecem.

A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no primeiro momento. Mas

depois appareceram as Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do

Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles, sem o terem communicado

um ao outro, acharam preferivel jogar com tino, na banca do Amor, a

aventurarem-se á conquista de uma hespanhola, que tinha o grande defeito

de ser caprichosa e de saber quanto valia.

A primeira confidencia que os dois tiveram entre si foi á volta de Troia,

quando o de Reguengos explicou ao das Alcaçovas que propozera a loteria,

porque a sorte nunca deixára de o beneficiar sempre que a tentava.

—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava a hespanhola ou a Hilda,

que eu preferia á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal.

—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou infelicissimo em todos os

jogos d’azar. Agora explico a minha sorte por termos sido parceiros no

jogo.

E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira... a serio.

O Vianninha tambem n’essa tarde andou no grupo das Rodartes, arrastando a

aza a Salomé, que o não recebia bem nem mal.

O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se logo que viu o morgado de

Reguengos a passeiar ao lado de Hilda Rodarte.

—Então aquella grande besta, exclamou elle, toma a coisa a serio!

O jornalista, com os officiaes de caçadores, e outros, sentados fóra

da porta do Lapido, bebiam gazosa e faziam a critica do grupo que ia

passando.

D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e os da mesa da gazosa

perguntaram-lhe com desfructe:

—Então o que é feito do premio grande _d’usted_?

—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad!

E, batendo as palmas, mandou vir gazosa.

VIII

Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, muito disfarçado, bater á porta

de D. Enrique.

Respondeu-lhe, do patamar, D. Estanislada, que perfeitamente lhe conheceu

a voz.

—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, disse ella, mas que subisse,

que lhe dava com isso muito prazer.

Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o ditoso conselheiro. Que

D. Enrique e a filha haviam sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade

amavel com que D. Estanislada o recebia em sua propria casa, não estando

o marido, era quasi promessa de felicidade... immediata.

O conselheiro, bastante manhoso para dissimular a alegria que esta

risonha situação lhe causava, disse, parado ainda ao fundo da escada,

algumas palavras aconselhadas por apparencias de conveniencia e respeito.

—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...

—Que entrasse, que subisse, porque, de mais a mais, havia de gostar da

companhia.

Esta phrase—_gostar da companhia_—pareceu maliciosa ao conselheiro. E, a

seu ver, a promessa de immediata felicidade accentuava-se n’essa phrase.

Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente o coração, que lhe dava

saltos dentro do peito.

Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, como contrariado, vendo que

D. Estanislada não estava só.

Ó desillusão! ó desapontamento!

D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas: a senhoria e a filha.

A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher de cincoenta annos, viuva,

muito devota e temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha vinte e

dois annos, e um palmo de cara que não era desengraçado.

D. Estanislada alludia á menina Ricardina quando disse ao conselheiro

que—havia de gostar da companhia.

A mulher que se sente amada tem d’estes falsos assomos de modestia, para

experimentar o valor da affeição que inspirou, qualquer que seja a sua

idade. Diz que todas as outras são mais bellas, mais tentadoras do que

ella, porque se sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de todas as

outras.

D. Estanislada seguiu esta tactica.

Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina Ricardina, que se

envergonhava dos gabos, côrando.

A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita, repetia esta phrase:

—É sãsinha, graças a Deus!

O conselheiro, muito contrariado, procurava no seu espirito uma phrase

com que, sem correr o risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a

D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer outra mulher lhe

passava despercebido.

Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a phrase precisa, e disse-a:

—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante, e eu felicito por

isso a senhora sua mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada que

se esteja escondendo na sombra, qual timida violeta.

D. Estanislada gostou de se vêr tratada por violeta. E, saboreando a

amabilidade, como se estivesse chupando um rebuçado, contestou:

—_Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una vieja!_

—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro levantando os braços quasi até

á altura da cabeça.

—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava ainda muito fresca, muito

bem disposta, que até parecia irmã mais velha da filha.

E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª D. Estanislada não devia

dizer a ninguem que era mãe da _señorita_ Soledad.

Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada foi alvo, durou alguns

minutos.

O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar decidido que D.

Estanislada era qual _timida violeta_, sem que ella já ouzasse protestar,

fingiu-se novamente admirado da ausencia de D. Enrique e de Soledad.

—_Fueron á Lisboa_, respondeu D. Estanislada.

—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro.

—_Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó por la tarde._

—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda mal! Ainda bem, porque D.

Enrique ou não tinha lido o pasquim ou lhe não dava importancia:

continuaria portanto a demorar-se em Setubal. Ainda mal, porque a

ausencia era breve de mais para que elle conselheiro podesse encher a

medida dos seus desejos.

Fez menção de levantar-se para sahir.

—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada, que iam tomar chá, e que

lhes désse o prazer da sua amavel companhia.

—Que não desejava ser importuno... que ia dar uma volta.

Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa de hespanhola, ordenou-lhe

que ficasse, e o conselheiro Antunes ficou de muito bom grado.

Foram para a casa de jantar e abancaram para tomar chá.

D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua direita, e a sr.ª Magdalena

á sua esquerda. A menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição

estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... por cautela. Ella bem

sabia quanto o conselheiro Antunes, apesar da sua grave encadernação de

presidente da junta geral de Santarem, era lambareiro de mulheres.

Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso de D. Estanislada e do

conselheiro, sobre coisas frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro

dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos pés.

Certamente que este dialogo nos interessa muito mais do que o outro.

Vamos pois escutal-o.

_A bota do conselheiro, explorando terreno_:—Onde estás tu, adoravel pé

de D. Estanislada? Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir ao

mirante do castello escutar a minha serenata de amor...

_O sapato de cordovão de D. Estanislada_:—Eu fujo-te, menestrel audaz,

para tornar mais intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber que

toda eu sou a _timida violeta_ de que fallaste ha pouco.

_A bota_:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo da meza tudo é sombra

e mysterio. Estás, pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, ó

esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando ás escuras, como um

cego d’amor.

_O sapato_:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena e a menina Ricardina dêem

tino do que se está passando no soalho. Para entalação bem bastou já

aquella mascarra que o teu beijo de Troia me deixou na face... Não me

persigas, que me tentas, seductor!

_A bota_:—Eu sou discreto como um conselheiro, que me prézo de ser.

Muitas vezes, na junta geral de Santarem, tenho tido necessidade de pisar

o pé a um collega para o prevenir de qualquer maniversia politica, e a

junta nunca deu por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora

Estanislada! fica sabendo que a electricidade procura as extremidades:

os meus pés estão, portanto, carregados da electricidade do meu coração.

Chega-te, e verás.

_O sapato, aproximando-se_:—Quem póde resistir á fascinação das tuas

palavras, e á discrição dos teus processos?! Pois que tudo se vae passar

na sombra, com a cautela de que tu sabes usar, como conselheiro e como

amante, consentirei que o meu sapato caminhe para a tua bota, com o

pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, e com a timidez que é propria

de toda a violeta.

_A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o ternamente_:—Vem,

vem finalmente cahir nas doces talas do amor, adorado pé! Quero

apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava Julieta. Nas dôres

physicas do amor, ha uma voluptuosidade que endoidece de deleite. Vem, ó

pé feiticeiro! ó pé encantador!

_O sapato_:—Eis-me aqui, como um escravo que não póde resistir, que não

ouza luctar.

Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, tendo empolgado o pé direito

de D. Estanislada, demora-se um momento como para certificar-se de tudo

que se está passando em segredo. E, após esse momento de pausa, a bota do

pé direito acode a comprimir ternamente, de accordo com o pé esquerdo, o

sapato de D. Estanislada, que fica entalado entre as duas botas.

Toda a electricidade acode pois ás extremidades de um e outro.

D. Estanislada, com a perna direita torcida, offerece mais chá á sr.ª

Magdalena, e o conselheiro Antunes, com ambas as pernas repuxadas para a

esquerda, mette a colhér dentro da chicara, faz menção de não querer mais

chá.

Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação de duas botas

portuguezas junto de um sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se

nenhum dos pés tinha calos.

A conversação foi-se arrastando á custa da sr.ª Magdalena, que entrou no

seu assumpto predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.

D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam com monossyllabos,

interjeições, porque a electricidade, que acudia ás extremidades, os

tinha n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.

A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados havia pisado o pé, n’uma

occasião em que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, e as

suas suspeitas foram-se accentuando em convicção, porque lhe não passou

despercebido que o corpo do conselheiro estava visivelmente esguelhado

para a esquerda e o de D. Estanislada enviezado para a direita.

Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina

imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um

annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar,

dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores.

A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão.

—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o.

Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos

tres pés cumplices.

D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina

Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso:

—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada.

Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união

iberica dos tres pés.

O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D.

Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de

que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do

Bomfim.

Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada,

exclamou:

—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me

dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas.

—_Muchas gracias_, respondeu ella encostando-se á porta da saleta.

As Netas do Padre Eterno Romance original · 第 3 / 8 段