os olhos ás flores, ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si mesmo,
o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, significando a
magua que lhe causava o perder-se tambem elle proprio, o seu raro talento
culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, perante D. Estanislada, e os
outros.
—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!
Aquietou-se o semblante do conselheiro, que entretanto se havia lembrado
de que se perderia tambem o excellente azeite, que finalmente podéra
descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se tudo, incluindo o azeite
magnifico e o talento culinario.
Julio de Lemos, rapidamente, explicou:
—Chegaram hontem á tarde as _netas do Padre Eterno_!
O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, e desconfiança: cara
de quem não percebia nada.
—Como! exclamou. As _netas do Padre Eterno_! Então vossa senhoria, sr.
Julio de Lemos, propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e comigo!
E, de repente, reconquistou toda a plenitude do seu bello ar
conselheiratico, muito emproado.
—Pois vossa excellencia imagina que estou brincando! respondeu o
estudante. As _netas do Padre Eterno_ são tres lindas meninas da
Messejana, que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram toda a gente
encantada.
—Mas o que têm essas tres lindas meninas com o Padre Eterno? perguntou
auctoritariamente o conselheiro.
—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes a alcunha de netas do
Padre Eterno, porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes barbas
brancas, que faz lembrar as imagens do Padre Eterno. Não ha ninguem mais
estimavel do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, e que
mette as cartas pelos olhos dentro, porque é muito myope. Mas as netas,
as netas, sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!
—Bem! Bom é que a praia se vá animando cada vez mais! Mas não percebo
a razão por que o sr. Julio de Lemos classifica de _caso_ esse
acontecimento, aliás vulgar!
—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a contar o que ia por cá, o que
nos temos divertido com a familia de D. Enrique, e a caldeirada que hoje
vamos fazer, graças ao talento culinario de vossa excellencia.
—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o conselheiro, lisongeado nas
suas prosapias de Vatel amador.
—E, como ellas mostrassem pena de perder a caldeirada, julguei que não
era decente deixar de convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto vossa
excellencia, na sua qualidade de nosso amavel amphitryão, e pedir-lhe
desculpa da minha ousadia, que aliás as circumstancias justificam.
—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre com as damas... Nada
tenho que objectar. Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria
ter sido prevenida primeiro...
—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. De mais a mais D. Estanislada
e Soledad são muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, e a prova
está em que apreciam sempre a presença de vossa excellencia...
—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... Bem! bem! Eu vou reforçar
um pouco o contingente dos salmonetes, visto que os ha com abundancia
no mercado, felizmente! Só peço a vossa senhoria que tenha a bondade de
explicar a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo a não me poder
ser imputada a iniciativa d’elle.
—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a que horas é a partida?
Preciso ir prevenir as Rodartes.
—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.
—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, e terá vossa excellencia
occasião de conhecer as tres lindas netas...
—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.
E foi d’ali _reforçar_, como elle disse, _o contingente dos salmonetes_.
O estudante andára com certa finura em todo este negocio.
Quando viu as Rodartes, que eram realmente tres lindas mulheres, ficou
contentissimo por se lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de que
ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad o premio da belleza. D’este
modo conseguir-se-ia abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza.
E elle, namorando alguma das tres, a Hilda, principalmente, a quem já
havia, dois annos antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens com
que Soledad acolhia por vezes, sempre caprichosa e indefinida, os seus
galanteios.
Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um dos promotores da caldeirada,
tendo portanto auctoridade para fazer o convite, que, n’essa fé, foi
acceito.
Depois correu a procurar o conselheiro, mudando as guardas á fechadura:
desculpando-se do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão da
caldeirada.
E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, flôres que eram certamente
destinadas a D. Estanislada e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza
para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar dois ramos de flôres, que uma
palmelôa lhe vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar tres
ramos, mas, para isso, não lhe chegava o dinheiro. Cortou o nó gordio,
desfazendo em casa os dois ramos, e compondo tres, que sahiram mais
geitosos do que estavam os dois.
Olhando, contente da sua obra, para elles, teve Julio de Lemos esta
observação sensatissima:
—Para saber economia, não é preciso ser economista: basta não ter
dinheiro.
Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás duas horas em ponto
partiriam todos do caes do Livramento.
Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa estreia que a sua estação
balnear ia ter.
Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o avô que tinham sido creadas.
Baboso por ellas, o velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não tinha
vontade propria. Extremamente myope, como o estudante d’Alcacer dissera,
ia para toda a parte comboyado pelo braço de alguma das netas, quasi
sempre Salomé, que era a mais velha, e das tres a menos formosa. Tinha
vinte e tres annos.
Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. Vinte e um annos
adoraveis. Mulheres fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços
_potelés_, cobertos de um frouxel que reluzia ao sol como uma pennugem de
ouro.
Salomé era menos forte e menos bella. Mas havia na sua physionomia uma
graça peninsular, que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação,
os seus ditos de espirito, partiam da sua bocca graciosa e sã como
settas que brilhavam mais do que feriam.
Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela mãe. No districto de
Beja não havia casa melhor do que a sua, cujas herdades e montados se
espalhavam para o oriente até ao Chança e para o sul até Almodovar.
O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem pressa de casar, porque
não poderiam encontrar noivos que as estimassem mais do que elle.
E enterradas na Messejana, lonje das tentações do mundo, ellas pareciam,
realmente, não ter pressa de casar.
No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, que era uma semsaboria
pouco melhor que a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram arrastar
o avô até Setubal, onde fizeram sensação, e ficaram sendo conhecidas
pelas _netas do Padre Eterno_. Mas o avô fatigara-se com a jornada, e no
anno seguinte voltaram para Sines. Agora fôra elle que voluntariamente,
conhecendo que as suas tres graças preferiam naturalmente Setubal a
Sines, se offerecera de motu proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal
bonhomia de avô baboso.
Julio de Lemos, que encontrára na Physica da Escola Polytechnica um
barranco ainda não vencido, resignava-se, durante as ferias, do desgosto
que no fim de todos os annos lectivos recebia em Lisboa. Namorando e
perpetrando o seu verso, preparava-se para no anno seguinte investir
novamente com a Physica.
Fôra um dos mais dedicados satellytes das _Netas do Padre Eterno_, quando
ellas pela primeira vez appareceram em Setubal. Versejára em honra de
todas tres, mas não era um namorado que ninguem tomasse a serio. Todos
os galanteios que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, não
podiam auctorisar-se com a esperança de casamento. Mas, em compensação,
ellas haviam atravessado triumphantemente Setubal, durante toda uma
epocha balnear, sob uma chuva de flores.
Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam ainda Julio de
Lemos escravisado pela Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto
a divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o passado, como para
aligeirar o presente, e, sobretudo, para vingar-se da altivez castelhana
de Soledad.
Orientado por este complexo programma, não podendo disfarçar a alegria
com que se propunha realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, no caes
do Livramento, acompanhando as formosas _Netas do Padre Eterno_, á frente
Hilda e Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz Salomé dando o braço
ao avô myope, como Antigone a Œdipo.
V
Estava já no caes a bella Soledad com toda a sua côrte.
O conselheiro Antunes dava ordens, fazia recommendações aos barqueiros:
que não esquecessem isto, que não deixassem ficar em terra os cabazes com
as loiças, e as celhas com o peixe.
D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido n’essa manhã, e de momento a
momento commentava a leitura monologando: _Qué broma!_
D. Estalisnada mostrava-se encantada com a solicitude cavalheirosa do
conselheiro Antunes, e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado de
Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: «N’isto do azeite anda
marosca; é linguagem combinada.»
Quando o grupo das Rodartes chegou, houve sensação no grupo de Soledad.
Foi como se duas côrtes se chocassem.
O morgado de Reguengos, o proprietario das Alcaçovas, os dois
officiaes de caçadores 1 e o Vianninha já as conheciam. Correram a
cumprimental-as, a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao avô.
Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a familia Rodarte aos que
pela primeira vez a viam.
Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão amável como ironica:
—Ficará eternamente na memoria do rio Sado este encontro da belleza de
Portugal com a belleza de Hespanha.
Uma explosão de riso saudou esta apresentação original. As tres Rodartes
sorriram, mas coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu que n’esse
momento lhe vacillava na cabeça a corôa de rainha da belleza, até ahi
indisputada.
A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por parte do estudante, muito
respeitosa:
—Apresento a vossas excellencias um dos mais illustres e respeitaveis
cavalheiros que tenho tido a honra de conhecer: o abastado proprietario
de Santarem, dr. Antonio José Antunes, do conselho de sua magestade
fidelissima, e presidente da junta geral d’aquelle districto. A vossa
excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado proprietario da
Messejana, o sr. Araujo Rodarte, e suas encantadoras netas.
Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro o amphitryão da festa,
carregou a mão nos elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar
da despeza que elle fizera _reforçando um pouco o contingente dos
salmonetes_.
D. Enrique, na primeira occasião que teve, perguntou a Julio de Lemos se
o velho Rodarte era bom conversador. Ficou contente de obter uma resposta
affirmativa, porque encontrava mais uma victima para as suas estopadas
sobre a politica hespanhola.
E, para estreitar desde logo as relações com a sua victima, dirigiu-se a
ella dizendo-lhe:
—_És usted un imponente anciano, de mi mayor respeto._
_Imponente anciano!_ Esta só podia lembrar a um hespanhol! Mas as barbas
brancas do velho Rodarte eram dignas da hespanholada.
Embarcaram todos, não sem a hilaridade que o embarque de senhoras
produz sempre. D. Estanislada precisou que o conselheiro Antunes, muito
cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, largando do caes, aproáram a
Troia.
Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não citarei emquanto o não souber
escrever correctamente, o que aliás não é facil, se sentasse a seu lado.
Era a resposta ao cartel de desafio, que o estudante lhe trouxera com a
presença das Rodartes. O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal
quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei Portugal.» E sobre o Sado, como
na vespera, era a Suecia que triumphava.
Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar de montar o arsenal
culinario.
O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se como Vatel amador.
Muito methodico, elle mesmo dispunha os utensilios, procurava os
tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o lume. Dir-se-ia que elle
desejava imprimir o cunho da sua individualidade não só á caldeirada, que
ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que estava organisando com o maior
esmero.
Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha e os officiaes de
caçadores 1 fossem explicando que em Troia existira uma cidade romana,
chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda ruinas e outros vestigios,
taes como amphoras e medalhas, toda a caravana, com excepção de duas
pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente as medalhas, pois que
o Vianninha affirmava que se encontravam com facilidade, e que elle mesmo
possuia uma de bronze do tempo de Trajano.
As duas pessoas, que não acompanharam as outras, eram o conselheiro
Antunes e D. Estanislada, que se offereceu para auxilial-o no mister de
cosinheiro.
D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado de Reguengos e o
proprietario das Alcaçovas disseram entre si, commentando: «_Azeite_ não
falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»
Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre a area, enfiou o braço
no do sueco, pendurando-se d’elle com abandono. Continuava, portanto, a
sustentar o seu plano de combate. Em Troia, como no Sado, era a Suecia
que triumphava.
Os outros perceberam a intenção de Soledad, e rodeavam, em despique,
as tres Rodartes, acompanhando-as n’uma especie de cortejo triumphal
e de certamen galante. O proprio hespanholito D. Ramon, julgando-se
vencido pela Scandinavia, vingava a Iberia masculina arrastando a aza a
Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o marialva do Chiado pareciam
propender mais para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o morgado de
Reguengos entabolaram conversação com Salomé sobre assumptos graves do
Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores 1 e o Vianninha
iam adiante dos grupos em exploração archeologica. Julio de Lemos, já
despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente de Aurelio Goes,
que não respeitava os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava a
conquista de Hilda, principiava a lamentar-se de ter perdido a occasião
do duello para lhe atravessar o coração com uma bala.
«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas mãos lhe morre.»
D. Enrique apossara-se do _imponente anciano_, levava-o a reboque pelo
braço, e descrevia-lhe os horrores da insurreição cantonal, parando a
cada momento, exclamando:
—_Que barbaridad!... que atentado!_
O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o Vianninha indicaram alguns
vestigios da antiguidade romana de Cetóbriga, a que ninguem deu grande
importancia.
Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha o Vianninha por causa da
grande abundancia de moedas, que segundo elle, se encontravam em Troia,
o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, ainda quiz justificar-se,
excavando no areal.
Soledad, conversando com o sueco, cuja face irradiava como uma aurora
polar, olhava desdenhosamente para tudo aquillo.
Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava da areia humida,
offereceu-a a Hilda Rodarte.
Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança abrangia agora duas
pessoas: Soledad e o redactor da _Trombeta Ullyssiponense_.
Mastigava represalias... em sêcco.
Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar das affirmações categoricas
do Vianninha, e do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, que,
occupando-se do assumpto, havia chamado a Troia—_terreno fertilissimo
d’estes achados_.
Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido em pelotões, retrocedeu,
a fim de procurar o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam ter
armado, para sob elle ser servida a caldeirada.
Com effeito, estava quasi prompto o improvisado pavilhão, feito de vélas
de barco.
O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados do rosto, debruçados
sobre a caldeira, provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, e
annunciavam que estava divina.
Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra do toldo, deixando
ficar a descoberto metade do sapato enfitado. O sueco, embasbacado,
bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo muito abstracto ao que
ella lhe dizia.
Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, com os outros. Havia
risinhos. Soledad percebia, e de vez em quando ella mesma, com uma
audacia castelhana, olhava para a ponta do sapato, como a encaminhar para
esse alvo, que aliás era preto, o olhar do sueco.
Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera a ousadia de sentar-se
na areia perto de Hilda, perdeu a tramontana e começou a escancarar umas
gargalhadas alvares. Resolveu logo embebedar-se para tirar a desforra.
O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo do pavilhão, annunciou que ia
ser posta a toalha, porque a caldeirada estava prompta, e que por isso
cada um devia tratar de occupar logar em volta do recinto destinado á
toalha.
Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio de Lemos sentou-se na
areia entre Hilda e Soledad, ganhando uma excellente posição. O sueco
poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o Goes á esquerda de
Hilda. Mas o estudante de Alcacer ficou ardendo entre dois fogos,
tinha á direita a Hespanha e á esquerda a Messejana: ficou no meio da
Peninsula.
Quando D. Estanislada appareceu, notou-se que ella vinha um pouco
mascarrada n’uma das faces.
—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito solicito, o conselheiro
Antunes.
Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam entre si olhares
intelligentes: o conselheiro Antunes pintava o bigode.
VI
A caldeirada estava deliciosa: até os anjos a poderiam comer.
O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder
a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de
Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca
branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.
A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões,
referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de
Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda,
quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem.
O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor da _Trombeta_,
muito habituado a _lunchs_, comia como uma frieira, mettendo a colherada
em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista.
Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em
amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de
loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes.
Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella
atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam
concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam.
O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia
divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal
a que o tinha subido.
D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está
habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher,
acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete.
O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco,
contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite
alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso
para elle.
O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro,
dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe
soubesse melhor.
Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de uma vez a deixa do Rodarte,
e, pondo-se de joelhos, caneca em punho, declamou:
Eu saúdo o illustre conselheiro,
Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro
Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo o improviso.
—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, para o ver, por
deante de Hilda.
E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, deitou agua na fervura:
—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa amisade. Queira continuar, sr.
Lemos.
—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça melhores, se é capaz,
insistiu o estudante.
—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira continuar o seu improviso.
—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... Acho que era isto:
Mas unico talvez na caldeirada:
Que é comêl-a e morrer...
Julio de Lemos engasgou-se.
—Não diz mais nada?! exclamou o tenente Epaminondas completando o verso
em que o estudante se pegára.
Uma explosão de gargalhadas saudou este comico episodio, e o estudante,
que não tinha espinha com o tenente, antes era seu amigo, riu tambem,
aproveitando a tangente para fugir á difficuldade do verso.
Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as palmas, e recitou:
Eu, n’esta agradavel festa,
Tão grata e tão jovial,
Brindo, honrando o bello sexo,
Por Hespanha e Portugal.
—São de cravo da Praça da Figueira! berrou o estudante.
—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo com applausos a inconveniente
apostrophe do estudante.
E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de Salomé, levantou-se
pausadamente.
—Tambem eu quero fazer o meu brinde.
Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.
—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, me pareço um pouco com S.
Pedro, permittam-me que feche a porta dos brindes. Bebo em honra do
illustre conselheiro, dignissimo presidente da junta geral do districto
de Santarem.
Beberam todos. E levantaram-se a pouco e pouco, alguns com difficuldade.
O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, e, emquanto se
abraçavam, cochicharam ao ouvido.
Os barqueiros trataram de recolher as loiças, e os cabazes.
E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria melhor que o barco fosse
primeiro a Setubal levar as senhoras, e que voltasse depois. Que elle,
pela sua idade avançada, desde já se considerava senhora; que o sr.
conselheiro, que devia estar fatigado, iria tambem com as senhoras, bem
como D. Enrique, para acompanhar a esposa e a filha. Era a combinação que
tinham feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho Rodarte.
Os outros ficaram com cara de parvos, mas o Rodarte, chamando de parte o
morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:
—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. Que desculpassem. E que
lhes pedia o favor de olharem por elles.
Um e outro concordaram:
—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.
Largou de Troia o barco com as senhoras, D. Enrique, o Rodarte e o
conselheiro.
Os rapazes ficaram por longo tempo acenando com os lenços, dizendo adeus.
Desembarcaram as damas no caes do Livramento, e o barco voltou a buscar
os que tinham ficado.
Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam a descer sobre o Sado, a
envolvel-o n’um veo que a pouco foi perdendo a transparencia. Apenas um
ponto luminoso brilhava ao longe na areial de Troia.
Deram oito horas, e o barco não tinha voltado ainda.
No café _Esperança_, do Zé Lapido, esperava-se o regresso dos rapazes.
Uns commentavam:
—Que tal foi a bebedeira!
Outros, mais timoratos, diziam:
—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma semsaboria!
Deram nove horas, e o barco não voltava.
Então alguns officiaes de caçadores resolveram ir a Troia ver o que tinha
acontecido.
Tomaram um barco, e largaram.
A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e perguntaram:
—Quem vem lá?
—Somos nós, respondeu a voz do proprietario das Alcaçovas.
—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes.
—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos.
Mas não se ouvia nenhuma outra voz.
—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes.
E perguntaram:
—Vem ahi os nossos camaradas?
—Vamos, respondeu o alferes Ruivo.
—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas.
—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!... continuavam a
dizer entre si os officiaes que tinham ido procurar os outros.
Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo tempo ao caes do Livramento.
Então poude verificar-se que effectivamente os da caldeirada vinham
macambuzios, entrombados, e que o sueco, estatelado no fundo do barco,
e occupando-o quasi todo, dormia profundamente, a ponto de terem que
acordal-o berrando.