D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. O cirurgiã

N.º 32—COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

AS NETAS DO PADRE ETERNO

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

AS NETAS

DO

PADRE ETERNO

ROMANCE ORIGINAL

POR

Alberto Pimentel

[Illustration]

LISBOA

LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR

50, 52—Rua Augusta—52, 54

1895

LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º

I

Desde a primavera até ao inverno de 1873, decorre, na historia da moderna

Hespanha, um periodo de rubra agitação demagogica, em que tanto a

abandonada coroa da velha Monarchia de S. Fernando como o recente barrete

phrygio da Republica fluctuam n’um mar de sangue, golphado do proprio

coração d’esse bello paiz meridional, e sinistramente illuminado pelos

reflexos coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o facho tristemente

glorioso da insurreição cantonal.

Nação essencialmente catholica, a Hespanha viu profanados os seus

templos, principalmente em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene

orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, entoando cantares

obscenos, e derramando por sobre os altares o vinho que trasbordava das

taças.

Nas ruas, as allucinações da musa popular, terrivelmente revolucionaria,

alternavam-se com as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos

entoados á beira dos altares correspondiam, fóra dos templos, trovas

sacrilegas, dissolventes, anarchicas:

Yá se le acabó á los curas

El comer á dos carrillos,

Y el ir de noche al café

Con el ama y los chiquillos.

Abajo las estrellas,

Abajo los galones,

Que no quiere mandones

La santa federal.

É certo que na alma popular da Hespanha não estavam de todo pervertidos

os sentimentos cavalheirescos da raça castelhana, mas a revolução ia

alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha era incendiada a _calle

de las Sierpes_, em Cadiz punha-se em almoeda a custodia do _Corpus

Christi_, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam em horrores de barbarie,

em Granada os desenfreamentos do vandalismo desmoronavam as instituições

e os templos, como acontecia em Barcelona, em cujos campos os bosques

incendiados chammejavam como enorme fornalha: por isso só timidamente a

musa das ruas ousava contrapôr um grito de justa indignação aos desvarios

da demagogia que golpeava o coração da patria, enodoando de sangue as

mais bellas paginas da historia nacional.

D’esses timidos gritos de reacção popular não se perdeu comtudo a

nota caracteristica, que ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação

imparcial d’esse periodo demagogico:

La republica en Guarena

La cantan los taberneros,

Y en D. Benito la cantan

Los sastres y zapateros.

El candido de Figueras,

Y el radical Figuerola,

Nos ha dejado em cuerines

Sin calzon ni camisola.

Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente Barrantes, emigrando

n’essa epocha para Portugal, escreveu sob o titulo de _Dias sin sol_, um

livro interessante, em que estão consignadas as dolorosas impressões que

as desgraças da Hespanha punham no coração dos seus angustiados filhos.

Uma pagina d’esse livro diz:

«Com mão debil e porventura timida empunhou o tribuno Emilio Castellar

as redeas da dictadura, ao tempo que a fronteira portugueza, onde eu

me achava, offerecia um lancinante espectaculo. Cerrada a do norte

pelos carlistas, era aquella a unica porta para escapar d’este inferno

de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro iberico parecia barcada

de Acheronte, como aquellas que rangendo os dentes e blasphemando

até dos paes de seus paes viu passar o grande poeta da Edade-Média

pelo lodoso lago que ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de

Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de Jerez chegavam por

centenas familias dispersas, como quem foge de uma peste; e isto um dia

e outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas de inoffensivos

lavradores, de pacificos artistas, de laboriosos industriaes desembocavam

simultaneamente por todas as povoções da fronteira, desde Barrancos a

Setubal, desde Elvas a Lisboa, desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto:

misero formigueiro de emigrantes de todas as classes e condições, com os

olhos voltados para Hespanha, mas receiando, a cada hora que o horror os

convertesse em estatuas, como á mulher da Biblia.»

Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela belleza dos seus campos,

hospedou uma importante colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei

algumas vezes os meus ocios de _touriste_. Principalmente no verão,

em julho, que foi a epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia

de emigrados era numerosissima ali. E o que é verdadeiramente notavel

é que os havia de todas as côres politicas, porque o perigo era egual

para todos. A revolução não curava de perscrutar as opiniões de cada um.

Perseguia, roubava, incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era

pequena felicidade poder fugir á morte, salvar a vida. Dos emigrados,

conheci alguns ricos, poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar

a tempo os seus haveres, antes que a _santa federal_ se encarregasse da

liquidação. D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha, que tem de

figurar n’esta historia. Tres pessoas apenas: pae, mãe e filha.

O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado uma somma importante

n’um Banco inglez. Era um industrial acreditado, e teve o bom senso

de fechar as suas fabricas mal que soaram os primeiros rugidos da

insurreição cantonal. Se não tivesse procedido assim, haveria decerto

succumbido ás mãos dos seus proprios operarios. Em politica, era

francamente monarchico; principalmente, partidario dos Bourbons. «Qué

broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. Mas ou a revolução aniquila

de vez a Hespanha, ou a Hespanha ainda chamará a rainha». Com effeito, em

pouco se enganou D. Enrique: um filho de Isabel II occupou o throno de S.

Fernando. Os Bourbons voltaram.

Quem se não importava grandemente com os acontecimentos politicos de

Hespanha, era sua filha, Soledad, a mais _salerosa_ individualidade de

mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação de uma noite de serenata.

Bocage, quando do alto do seu monumento a viu, estremeceu.

Setubal ficou encantada, não obstante ter-se iberisado então pelas

relações commerciaes que mantinha com a colonia dos emigrados. E digo

commerciaes, porque os hespanhoes eram os primeiros a queixar-se que só

tratassem com elles os setubalenses nas transacções ordinarias da vida:

dá cá, toma lá. De resto os emigrados entretinham-se uns com os outros,

com duas ou tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.

O ideal de Soledad era uma _tertulia_ ou, como hoje dizemos á franceza,

uma _soirée_. Por muito tempo procurou desesperadamente uma _tertulia_,

e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de subito, attentava o ouvido

e, com uma graça vivaz, picante, exclamava: _Qué! És una tertulia?_ Era

apenas um piano que tertuliava uma valsa... platonicamente.

Chegára o verão, começaram a apparecer os banhistas, muita gente do

Alemtejo. Ao fim da tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar,

e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, ou descahiam

em somnolencia mazomba. Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen

enxundioso, e instinctos retemperados pela bella fibra suina tinham

exclamações carnaes quando a hespanhola passava, e digo a hespanhola,

porque era assim que toda a gente fallava d’ella, sem embargo de que

n’esse momento outras muitas estivessem em Setubal. Era, porém, como se

se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por excellencia.

Das pessoas da terra foram poucas as que romperam com a tradição local

de retraimento bisonho, arrastadas pela fascinação. E essas poucas, eram

homens. As senhoras visitavam-se então em Setubal difficilmente, e esta

difficuldade augmentava para com os estrangeiros, cuja procedencia era

quasi impossivel esquadrinhar, a não se fazer obra pelas informações dos

seus patricios, suspeitas para o caso.

Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os seus olhos podiam, elles

mesmos, em toda a parte, improvisar uma _tertulia_; que no seu sorriso

alegre e resplendente de andaluza havia encantos de sobra para fazer

conhecidos e namorados, e desde esse momento ella zombou poderosamente

da semsaboria setubalense, trazendo comsigo, a toda a hora, de manhã ou

á noite, uma _tertulia_ completa, attrahida pelo iman da sua formosura,

rebocada pela sua fascinação iberica. Era a sua côrte, a sua _coterie_, o

seu séquito. Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro das Hespanhas,

que a princeza de la Cisterna havia deposto. Vassalos enthusiastas

rodeavam-n’a como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. Cada dia

que passava trazia um novo alliado. Alguem que vinha a Lisboa, dizia:

«Que bella hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» perguntavam no

Chiado.—«Unica! incomparavel! sublime!» era a replica. Os curiosos iam,

e ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram a encarecer em

Setubal. Mas o que embarateceu foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o

verso era o vehiculo do amor, e com razão se julgava que para uma mulher

de um paiz ardente não havia para inflammar-lhe a phantasia como uma

metralha de alexandrinos.

Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol mascavado, que ás

vezes parecia ser-lhe ainda de mais difficil comprehensão do que o

vasconço o é para o commum dos hespanhoes. Mas que se importava Soledad

com as palavras? Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se

havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, e respondia com os

olhos, augmentando a fascinação, sem se comprometter: este segredo que

só os olhos das hespanholas possuem. As portuguezas, com habitarem a

mesma peninsula e serem da mesma raça, affirmam ou negam com os olhos,

compromettem-se pelo olhar. Os olhos das hespanholas fallam sempre,

mas raras vezes para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, e ella

espalhava a duvida com o olhar. Não era bem prometter, não era bem

recusar, seria tudo isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria.

Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao acaso, emquanto o pae

fallava dos assassinatos de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos

sacrilegios de Barcelona, e emquanto a mãe, que se morria por peixe, e

era ainda arrebitada, ia por ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes

alvissimos, marchando com um desembaraço verdadeiramente hespanhol, em

direcção á Ribeira, para comprar um safio ou uma corvina. Assim mesmo é

que era; sem _ficelles_ realistas, pela minha parte.—Ah! ditoso safio!

ah! venturosa corvina! diziam muitos, que não podendo occupar o coração

de Soledad, se contentariam com achar logar no seu estomago. Eu nunca

fui d’esta opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas consequencias.

Todavia ha paladares para tudo...

Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar a filha era captivar

a mãe—pela bocca. Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes

de salmonetes, cabazes de laranjas—e então aquellas laranjas, as de

Setubal! Um adorador setubalense mandou-lhe de uma vez um presente de

sal, que chegava bem para salgar uma geração inteira. Outro _attaché_,

lisboeta, riu do caso, fazendo notar que quem possuia uma filha assim

tinha mais sal do que todas as marinhas do Sado.

Para brindar Soledad, os seus admiradores iam colhêr as melhores flores

das quintas de Brancannes, que dispunham em graciosos _bouquets_ e lindas

_corbeilles_, recorrendo ao velho estratagema amoroso de esconder entre

as flores uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse ás vezes

gostar muito mais de laranjas que de flores.

O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas de excellente moscatel,

e seja dito em abono da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter o

condão de lhe aligeirar os desgostos causados pelas desgraças da patria.

De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa e obsequiadora a

côrte em que a bella andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad

sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, a duvida ao mesmo passo

cruel e deleitosa, que traz suspensos os namorados entre a esperança e o

desalento. Não se deixava comprehender: esse era o seu grande segredo. A

maior desgraça que póde acontecer a uma mulher é o ser comprehendida por

todos. Umas vezes, parecia enlevada em extasis romanticos, tinha vagas

abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso da noite. _Que bella es

la luna!_ dizia. Dos seus labios adejava um suspiro, que era impossivel

interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar a belleza da lua,

ria com desdem petulante, replicando que já estava enfastiada de ouvir

fallar da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.

Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando na ondulação das suas

esperanças, ora afagadas, ora combatidas, D. Estanislada, a mãe,

discorria a proposito do peixe-espada que tinha comido ao jantar com

salada de alface e azeitonas, e D. Enrique discursava sobre a queda dos

Bourbons ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.

Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os satellites de Soledad a

esse tempo. Eram muitos. Citarei apenas os que me forem lembrando. Um

jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava mais versos do que laranjas,

e um morgado de Reguengos, que mandava mais laranjas do que versos. Um

proprietario das Alcaçovas que se atirava ao coração de Soledad com

sorrisos e presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, que recorria

ao auxilio das flôres, e que deixára pela bella hespanhola uma menina

da terra, a Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos por

se vêr abandonada. O conselheiro Antunes, de Santarem, pessoa grave e

dinheirosa, que se dirigia principalmente á mãe, não se sabia se para

ficar por ahi, se como ponto de partida para se aproximar da filha. Um

morrinhento hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon Mendoza, que recitava

versos como quem está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o tenente

Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, que estava ali a negocio: alto,

louro, rosado e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra a uma

corrida de touros, e não se demorára menos de quinze dias. Um estudante

de Alcacer, Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não chegára a

casa. Mas, francamente, é-me completamente impossivel enumerar todos

os cortezãos da bella andaluza, tanto mais que todos os dias pareciam

multiplicar-se como as cabeças da hydra de Lerna e os algarismos da

divida fluctuante.

Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto perguntado já o leitor a si

proprio como é que elles podiam conviver uns com os outros, sem desatar á

descompostura e ao murro. A todos os trazia illudidos a esperança, como

a duzentos candidatos que requerem o mesmo emprego. Fallavam-se, como

os pretendentes se fallam debaixo da Arcada. Cada um tratava de metter

memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia _hotel_, o _Escoveiro_

por exemplo, onde dormiam dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes

intrigavam-se. Finalmente, estavam em Setubal a amar a bella hespanhola

como podiam estar em Lisboa a amar o deputado do circulo.

Todos elles possuiam o retrato de Soledad, reproduzido do _cliché_ que um

photographo ambulante, temporariamente estabelecido no largo das Almas,

durante a estação de banhos, punha ao serviço do amor, na razão de 1$500

réis por photographia. O retratista estava fazendo um grande negocio;

parecia ter fome, quando ali chegou, mas, passados dias, ia todas as

manhãs á praça do Sapal comprar uma bella posta de carne de vacca e um

chouriço, levando tudo para casa n’uma folha de couve.

Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs do que a rosa de Malherbe.

Quando muito, ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, apagava-se.

Os enamorados iam fornecer-se de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da

qual o photographo ambulante desentranhava chouriços no dia seguinte.

Á hora da ceia, na longa meza dos _hoteis_, um grupo de amorosos,

n’uma orgia de moscatel, brindava pelo amor e pela esperança, havendo

cada um encostado á garrafa ou á compoteira o retrato de Soledad.

Então extasiavam-se, soltando _hurrahs_ perante o seu talhe _mignon_,

o seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, caprichosamente

amontoados sob as rendas brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes

como punhaes de Toledo e vivos como carvões accesos, o seu gracioso ar

petulante, illuminado por essa luz mysteriosa, que se projecta sobre as

mulheres hespanholas, e que se chama—o _salero_.

O conselheiro Antunes, que tambem estava n’um _hotel_, não tomava parte

n’estas bacchanaes amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe o somno,

quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. No dia seguinte queixava-se de

persevejos.

O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e tornava-se inintelligivelmente

gárrulo. Punha os olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes

estrophes da Scandinavia, ao passo que os portuguezes choravam de riso ao

vel-o arroubado, e perguntavam entre si: «_Que diabo estará a dizer este

pedaço de bruto!_»

Uma noite, havia dado uma hora na egreja de S. Julião, e no _Hotel

Escoveiro_ o grupo dos enamorados abordava a setima garrafa de moscatel,

tendo cada um o retrato de Soledad em frente do seu prato, quando de

repente, á porta da sala, uma figura inesperada apparece.

Era D. Enrique Saavedra.

O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia de colera paterna em

cinco actos e outras tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro.

Fez-se um silencio profundo, que o sueco, alheio ao que se passava, e

grandemente enkirschado, interrompeu começando a declamar palavras de

quinze syllabas, longas e sibilantes como um comboyo.

De repente, a voz de D. Enrique troveja:

—_Hombres, por Dios, atencion!_

O estudante foi tacteando a meza, ás escuras, para esconder os retratos,

e aconteceu-lhe metter uma das mãos dentro de uma chicara de café.

O sueco calou-se, porque o proprietario das Alcaçovas lhe deitou as mãos

ás guelas.

O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir.

Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar o cirurgião ajudante de

caçadores 1, para acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima com

uma indigestão de peixe-espada e salada d’alface.

II

No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante de Alcacer do Sal, passeiava

a sua paixão escholastica sob as arvores do largo das Almas, quando

de repente lhe apparece, de physionomia completamente transtornada, o

photographo ambulante. Que se encontrava n’uma situação afflictissima,

disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a quem devia cem mil

réis, sabendo que estava fazendo interesses em Setubal, cahira sobre

elle de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã, para exigir-lhe o

prompto reembolso de uma parte da divida. Que elle photographo se havia

esquecido realmente de satisfazer as prestações estipuladas, que a

mulher e os filhos gostavam muito de bifes, e que elle gostava não só de

bifes mas tambem de moscatel de Azeitão. Que não tinha dinheiro algum

de que podesse dispôr, e que o agiota queria retirar-se para Lisboa no

comboyo da tarde, levando algum dinheiro. Sou um homem muito desgraçado!

exclamava o photographo. E acrescentava: Portugal é um paiz perdido para

os artistas! São todos como eu. (Referia-se certamente á pobreza, não ao

moscatel e aos bifes).

O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso de extranha

superioridade, com as mãos nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard.

E perguntou ao retratista:

—O senhor viu alguma vez a _Cora_ em D. Maria II?

—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo. E acrescentou:—Uma só

vez, sabe Deus com que sacrificio! para vêr o panorama do Mississipi, que

me tinham gabado muito,—por amor da arte!

—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima fechava um acto?...

—_O senhor já viu alguma vez a Providencia? Pois a Providencia sou eu!_

Parece-me que era isto.

—Exactamente. É essa a phrase, observou Julio de Lemos. Em Lisboa a

Providencia é o Cesar de Lima; em Setubal, sou eu.

—O senhor!

—Eu mesmo, _me adsum_.

E tirou do bolso do frak todos os retratos que na vespera á noite havia

podido encontrar sobre a mesa do _Hotel Escoveiro_, para que D. Enrique

Saavedra os não visse. Mostrou-os ao photographo dizendo-lhe:

—Vê isto?

—Vejo. São os retratos da _senhorita Soledad_, como o photographo, no

seu calão de circo, costumava chamar sempre á bella andaluza. Mas não

comprehendo!

—Pois não comprehende! extranhou o estudante. Vai comprehender. Hontem á

noite, estando nós a ceiar no _Hotel Escoveiro_ e tendo os retratos de

Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente D. Enrique Saavedra.

—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle soube que sou eu quem os tiro?!

—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive a idéa luminosa de apagar o

candeeiro...

—Então não foi luminosa, exclamou o photographo já tranquillo, e contente

de si, por ter feito um dito gracioso.

—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente, e dando dois

piparotes no estomago do photographo. Apanhou-a bem!...

—É que d’estas coisas de luz, um photographo entende sempre.

E riram de novo.

—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu tive a escura idéa de apagar o

candeeiro, e de procurar em cima da mesa os retratos de Soledad. Durante

a viagem das minhas mãos por sobre a toalha, introduzi uma d’ellas

dentro de uma chicara de café, e estive para partir uma garrafa. Mas,

felizmente, pude apanhar todos os retratos. São estes.

O photographo começou a comprehender; sorria velhacamente.

—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes do _Hotel Escoveiro_ irão

a sua casa procurar retratos de Soledad, e o sr. venderá estes mesmos,

exceptuando o meu, se quizer acceitar as condições que lhe vou propôr.

O photographo ouvia attentamente, com uma curiosidade cheia de pontos de

interrogação.

—As condições são dar-me a commissão de vinte por cento em cada um

d’esses retratos...

Nos labios do photographo passou rapidamente um movimento de despeito.

Litteralmente traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! maroto, que

me comeste!

Mas em voz alta:

—Vá feito.

—Espere lá,—continuou o estudante, que havia tres dias estava sem

dinheiro—o meu amigo ainda não pensou na possibilidade de ir alguem

a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, de modo a poder-se

reproduzir um _cliché_ por um preço muito inferior a 1$500 réis o cartão?

—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho de ferro?... e o

incommodo?... e sobretudo... o ter que ausentar-se da senhorita Soledad,

deixando o campo livre ao inimigo!

Esta ultima advertencia do photographo tinha visivelmente por fim ferir a

corda sensivel do coração do estudante, que se deu pressa em responder:

—Ora o meu amigo excede na arte de não saber photographar o proprio

Marcel das _Scenas da vida da bohemia_ (o livro predilecto do estudante)

que tirava retratos aos granadeiros de Pariz com a similhança garantida

por um anno. A imagem das suas photographias só pode ser garantida por

quinze dias, o maximo. Portanto, d’aqui a oito dias, estes retratos

estarão completamente apagados, o meu amigo terá novas encommendas, e eu

continuarei a receber a commissão de vinte por cento, com direito a um

retrato gratuito.

O photographo transigiu, pactuou. O estudante entregou-lhe os retratos de

Soledad, que n’esse mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela

segunda vez.

No dia seguinte, o photographo ia, com o producto d’esta receita

inesperada, fazer uma patuscada a Azeitão, levando comsigo a mulher, a

sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha sido uma fabula inventada

pelo desejo com que o photographo accordára de dar um rega-bofes a toda a

familia. E o estudante habilitava-se a comprar ao feitor de uma quinta de

Brancannes um bello ramo de flores com que corrêra a presentear Soledad,

por isso que, _inopia pecuniae_, se havia deixado preterir n’este genero

de galanteria idyllica.

D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. O cirurgião ajudante

de caçadores 1 fôra felicissimo na prompta applicação de um copinho de

genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os impetos do peixe-espada

no estomago da afflicta senhora. _Es usted un doctor completo!_ dizia

ao outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando com elle

na praia, e impingindo-lhe a centessima edição da historia oral dos

acontecimentos de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente em dizer

que andava fazendo estudos sobre a historia da poesia revolucionaria na

peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe, com uma facundia

verdadeiramente hespanhola, varias quadras _callejeras_, como elle dizia,

taes como estas:

Ay qué risa, qué risa, qué risa

Que Amadeo lo he visto en camisa!

Ay salero, ay salero, ay salero,

Que á Amadeo lo he visto yo en cuero!

Si nos cumplen la palabra

Zorrilla, Rivéro y Martos,

Le pondrémes á Amadeo

El passaporte en la mano.

Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo dos admiradores da bella

andaluza haviam-se encaminhado para o Passeio da praia de Troino. Era

convidativo o local, e a grande serenidade do Sado punha no horisonte da

paizagem uma vaga doçura inexplicavel.

O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso das aguas do rio, e

do mar que se avistava ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse

momento, um homem do norte, habituado a vêr os grandes rios e os grandes

lagos, sem se arripiar de frio, graças ao habito do clima septentrional

e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao pé do lago para lhe atirar uma

pedrinha, que desappareceu descrevendo á superficie da agua ondulações

concentricas, o sueco disse-lhe, na sua linguagem arrevesada, que se ella

visse o lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas ilhas, ficaria

verdadeiramente encantada, e baixo, ao ouvido, acrescentou: _Senhora

poderr irr comiga, se querr casa mim._

Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia ter adiantado terreno,

os outros iam despeitados, e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam

chasqueando das suas calças curtas, das suas grandes botas rugosas, do

seu passo de pachiderme, e da sua _gaucherie_ amorosa. O conselheiro

Antunes, fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe que para a outra

vez se abstivesse do peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.

Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, poz os olhos na corrente

plácida do Sado, e tirou da sua alma de andaluza um suspiro que mandou ao

Guadalquivir. Explicou ao sueco que a cidade de Sevilha ficava á margem

do Guadalquivir, um bello rio, o mais formoso de todo o mundo! exclamou

ella n’uma arrojada hyperbole hespanhola. O sueco sentiu-se ferido

na corda do patriotismo, e replicou: _Nó! nó!_ E procurou justificar

a negativa citando os principaes rios da Scandinavia, enumerando o

_Tornea_, o _Lulea_, o _Pitea_ e o _Umea_. E o estudante, troçando,

acrescentou do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, e com a

rapidez de quem está declinando nomes latinos: E o _Gelea_, o _Gouvea_, o

_Obrea_, e o _Lamprea_.

O sueco fez-se encarnado como uma cereja, sem perceber ao certo senão

que estavam rindo d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora como um

tinido de crystaes, que se houvessem encontrado na sua garganta.

Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente desesperado. N’esse

mesmo dia em que havia ido comprar um _bouquet_ a uma quinta, a cuja

porta um grande cão arremettêra contra elle ladrando encolerisado, n’esse

mesmo dia em que com varia fortuna tivera a vantagem de só elle offerecer

flores e a contrariedade das iras do cão, via-se preterido pelo sueco.

O estudante procurou desesperadamente no seu espirito uma idéa salvadora,

que pudesse restituir-lhe a importancia que visivelmente ia perdendo.

Queria a todo o custo deslocar o sueco da bella posição em que se

encontrava, e pretendeu despertar na alma de Soledad as tendencias

devaneadoras que por vezes se caracterisavam n’uma intermittencia de

romanticismo. Propoz um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio

poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi á beira-mar. Com

effeito, o espirito da bella andaluza exaltou-se promptamente. Ella não

sabia o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza d’esse local. Mas o

seu delicado instincto de mulher e de andaluza adivinhou que se tratava

de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, e abraçou o alvitre.

O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.

D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria o oratorio. Indicou-lhe

a direcção o Vianninha, o rapaz de Setubal, aquelle por quem a Sequeira

estava bebendo anti-hysterico todas as noites. O alferes Ruivo e

o tenente Epaminondas affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o

conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada o preceito da eschola de

Salerno:

_Post prandium sta, post cœnam ambula_,

e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria companhia, _com muito

gosto e muita honra_—palavras suas—, _minha senhora_. D. Estanislada

acceitou a advertencia—por causa do estomago e de outros orgãos.

Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o alegre rancho da bella

andaluza e dos seus cavalleiros _servientes_. O caminho, á beira-mar, é

em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão de luz, lançava sobre

o mar uma chuva de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á Rubens,

punham no horisonte uns tons de purpura, que davam ao sol uma magestade

olympica, como as cortinas de um throno asiatico. Chegaram com effeito

ao local da antiga ermida de S. Braz, onde em outro tempo um soldado

portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo trocado a espada pelo

habito.

Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga poesia que se respirava ali, e

pediu ao estudante a lenda do sitio.

Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber como havia de tirar-se

d’aquelle mau passo. Concluiu por dizer que o sitio não tinha lenda. Foi

um golpe de espada de Alexandre. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas

foram da mesma opinião: que o sitio não tinha historia. O proprietario

das Alcaçovas acrescentou com uma rudeza brutal que não podia ser assim:

que _Mendoliva_ havia por força de dizer alguma coisa. O morgado de

Reguengos acudiu em auxilio do patricio, pela honra do Alemtejo: que

_Mendoliva_ havia de ter uma significação qualquer. Então o jornalista

Aurelio Goes, que se havia conservado calado, com um sorriso de ironia

nos labios, poz-se em evidencia: disse que o chronista Ruy de Pina

contava que Mendo Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo de D. João

I, que, mais tarde, já depois do desastre de Tanger, se apartára do mundo

ermando ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro de Alferrara.

Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, observou que o

jornalista estava confundindo Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares

Pereira, que fôra quem depois de ter militado nos exercitos de D. João

I resolvêra vestir o habito monastico, e que provavelmente o povo

setubalense confundiu os dois individuos na mesma lenda.

Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante se elle já havia

feito exame de historia portugueza. O Lemos respondeu insolentemente:

que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido lendo os jornaes. O

jornalista perguntou se se referia ao jornal de que elle era redactor.

E o Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid campeador perante a

bella andaluza, respondeu que não podia referir-se a outro jornal, visto

que o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares

Pereira. Aurelio Goes ainda avançou para o estudante, mas o proprietario

das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, como na vespera havia deitado as

mãos ás guelas do sueco.

Soledad acompanhou com os seus bellos olhos penetrantes todos os

episodios d’este conflicto. Comprehendeu perfeitamente tudo o que se

havia passado, e quiz dissipar a nuvem negra que subitamente se formára.

Lembrou que o sitio era encantador, que convidava á poesia, e pediu ao

estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos desculpou-se, que

estava indisposto, que se não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu,

com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, tornou o estudante.

Soledad redobrou de instancias. O estudante, com as faces rubras como

papoulas e os olhos congestionados, teve que ceder e começou a recitar,

com uma precipitação colerica:

As flores d’alma que se alteiam bellas,

Puras, singelas, orvalhadas, vivas,

Têm mais aromas, e são mais formosas,

Que as pobres rosas, n’um jardim captivas.

Completamente fóra de si, fez uma longa pausa, procurando visivelmente

lembrar-se da segunda quadra. Depois ia continuar com igual precipitação:

Sol bemfazejo lhes aquece a chamma

e, olhando n’este momento para Aurelio Goes, viu que elle sorrira. Sem

mesmo perceber que se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante

exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad levantou-se e disse com

uma gravidade que ninguem podia decerto esperar: _Caballeros, hagan

usteds favor de acompañarme_.

Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso. Mas, poucos passos

andados, Soledad desfechou uma gargalhada crystallina, e, voltando-se

para D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos, com uma graça

verdadeiramente andaluza:

...á fé mia,

Que estoy resuelto á mataros

Y no alcanzara á libraros

La misma virgen Maria.

As gargalhadas eram estrondosas, resoantes; o estudante, tendo dado o

braço ao alferes Ruivo, dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que

elle não sabe é que tem de se bater comigo! Por força!»

Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o conselheiro Antunes, aos

quaes se haviam juntado D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante de

caçadores 1.

—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha, em hespanhol, ainda a certa

distancia.

—Formosissimo! respondeu Soledad.

—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui um insigne cosinheiro,

e indicou o conselheiro Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande

caldeirada... aonde?... como se chama aquillo? e apontou para a outra

margem do rio.

—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade de um Páris de cincoenta

annos.

—Excellente! commentou o morgado de Reguengos. As laranjas, essas, ficam

por minha conta.

—Havemos de bater-nos, por força, tornou o estudante a dizer a meia voz

ao alferes de caçadores.

III

N’essa noite, foi no _Club Setubalense_ que se improvisou a _tertulia_.

Soledad e mais tres senhoras hespanholas constituiam todo o feminino da

sala; mas por muitos que fossem os satellites, e por mais brilhante que

palpitasse o lume de seus olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da

praia, a todos offuscaria com a graça picante dos seus sorrisos, dos seus

olhares, e do seu desembaraço andaluz. Não havia, portanto, necessidade

de mais senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava a encher de

torrentes de vida a sala e os corações. A irradiação da sua belleza era

como a da lua, nas formosas noites de verão.

No elemento masculino notava-se, porém, uma certa agitação n’essa noite.

Os admiradores de Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala,

cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O proprio conselheiro

Antunes desapparecêra. Algumas pessoas envenenavam este facto, fazendo

notar que Dona Estanislada não estava presente. Mas bem podia ser que o

conselheiro Antunes, entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse a

cidade em todas as direcções, procedendo aos preparativos indispensaveis

para a caldeirada do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente

que todos os conselheiros portuguezes ficariam compromettidos na sua

respeitabilidade de classe, se o _pic-nic_ disparasse n’um enorme

_fiasco_ culinario. De mais a mais, a sua reputação individual de Vatel

amador, affirmada por muitas vezes nas patuscadas aristocraticas de

Santarem, encontraria nas areias de Troia um verdadeiro Waterloo, uma

deploravel ruina.

Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto aos outros, a causa da

sua preoccupação era diversa. Sentia-se effectivamente que andava no

ar um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante. N’um gabinete

interior conferenciava-se em tom discreto; entravam uns, sahiam outros,

e o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade por um

pequeno buraco do tabique, chegou a suspeitar de que estivessem bebendo

á socapa,—julgando-se até certo ponto desconsiderado por lhe não haverem

distribuido o papel de Ganimedes do festim.

O marcador era um tolo, um guloso, para não dizer um borracho. Ali, no

gabinete, não se tratava de beber vinho; se havia sêde, era de sangue.

O estudante de Alcacer queria sugar as veias do jornalista de Lisboa,

escorropichar-lhe as arterias, mastigar-lhe o coração. Uma carnificina!

O alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e dizia facetamente

que, _coisas d’esta natureza_, em que elle entrasse, haviam de acabar por

força em sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que tinha uma farda,

que devia honral-a, e que estava n’essa firme convicção. Que o duello

havia de ser de morte, a poucos passos de distancia, á pistola, pelo

menos; por não estar em costume bater-se ninguem a canhão, porque seria

esse o meio mais racional de dois sujeitos se metralharem.

No botequim da praia contava-se, commentava-se o _escandalo_ d’aquelle

dia. Que o Lemos e o Goes não só se haviam insultado de palavras, na

presença de Soledad e por causa d’ella, mas que tinham mesmo chegado

a vias de facto, arrancando os cabellos, e não sei se os olhos, um ao

outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto para verificar se

havia no chão nodoas de sangue, e algum olho perdido. Não encontraram

nada. Acrescentava-se que o administrador do concelho já tinha tomado

conhecimento do facto, que o poder judicial receberia participação, e

todo este _escandalosinho_ era saboreado a pequenos goles, como um vinho

generoso. Em Setubal, quando algum acontecimento extraordinario occorre,

põem-n’o de escabeche para durar mais tempo. Sabem tratar muito bem do

peixe e do escandalo de conserva. Depois, os commentarios saltavam. Uns

velhos sacudiam o seu caruncho em phrases desdenhosas: «Que tolos! são

uns asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola que os anda a comer!» E

outros, mais philosophos: «Todas as mulheres são da mesma massa, tanto

faz que sejam hespanholas como portuguezas.» E um bregeirote, do lado:

«Se ella fosse de massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo é para

lavar e durar!» commentava um capitão de navios, vermelho e grosso, já

entrado na genebra de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um só sorvo.

No gabinete do _Club_ resolveram que era melhor o estudante apparecer na

sala da dança, para _dissipar suspeitas_. Quando o marcador o apanhou na

casa do bilhar, depois de haver sabido por um frequentador do botequim,

que ali entrara a historia exagerada do conflicto na praia, chegou-se-lhe

ao ouvido, e disse com os ares de superioridade de quem está de posse

de um segredo: «Então o senhor tira a desforra, hein?» «Chut! respondeu

Julio de Lemos. Eu cá sou assim, ha de ser duello de morte!» O marcador

ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como o estudante lhe voltasse

as costas, saboreando a sua reputação de duellista, o marcador foi

vêr ao livro dos _fiados_ a quanto montava a divida do estudante. E

sommou: Cinco partidas de bilhar, dois charutos, um copo de vinho do

Porto: total, 360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala, apparentando

uma serenidade heroica, a serenidade fria de um Cassagnac; julgava-se

circumdado de um resplendor glorioso. Mas Soledad parecia não o haver

comprehendido, mostrava-se uma digna representante de um paiz de antigos

brigões de capa e espada, e de modernos toureiros audaciosos. Não fez

caso do heroe. Estava apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo

extrahir d’elle, do _Stradivarius_ que todo o homem tem no coração,

notas de uma melifluidade assombrosa nas raças do norte. Ella tinha-o

embriagado com o _Kirsch-Wasser_ dos seus olhos. Estava tonto de amor o

sueco, bebado de _salero_, e, no _grand’-chaine_ dos _Lanceiros_, as suas

mãos enormes, duras e grossas, pareciam ter uma delicadesa de sensitiva,

as contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo, ao colherem os

dedos avelludados e finos de Soledad.

Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O estudante, que estava sempre

na vanguarda dos recitadores, menos do que nunca se fez rogar n’essa

noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo, o mais genial, o mais

nacional dos poetas brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas

as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas do homem que vae expôr-se

heroicamente á morte, estando psychologicamente mais vivo do que nunca,

declamou:

Se eu morresse ámanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã:

Minha mãe de saudades morreria,

Se eu morresse ámanhã.

Quanta gloria presinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdêra chorando essas corôas,

Se eu morresse ámanhã.

Que sol! que ceu azul! que doce n’alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batêra tanto amor no peito,

Se eu morresse ámanhã.

Mas essa dôr da vida, que devora

A ancia de gloria, o dolorido afan...

A dôr no peito emmudecêra ao menos,

Se eu morresse ámanhã...

Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente poderia ter escolhido

outra poesia, que melhor traduzisse as grandes luctas intimas da sua

alma. É certo que nos pormenores da composição não havia inteira

identidade de circumstancias entre o recitador e o poeta. O estudante

nunca tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe de que a piedade

fraterna tomasse sobre si o encargo de lhe fechar os olhos. E ainda

que caisse ferido no campo da honra, de pistola em punho, sua mãe não

morreria de saudade, pela simples rasão de já ter morrido, alguns annos

antes, com as febres de Alcacer. Quanto ás _corôas_, que elle perderia

morrendo, a dessimilhança era profunda. O pae, com quanto fosse um

bom proprietario de marinhas, estava cançado com as prodigalidades do

filho,—isto pelo que toca ás corôas de... dez tostões; quanto ás de

loiro, colhidas nas lides de Minerva, as _raposas_ encarregavam-se de

lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo o mais, essa triste prophecia de

Alvares de Azevedo parecia quadrar á situação do estudante.

Soledad deu mediana importancia aos versos e ao recitador... N’essa noite

parecia deliciada em conhecer como um homem forte do norte póde estontear

de amor sob a influencia de uma mulher do sul. Quando o estudante sahiu

da sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, depois de ter matado o

jornalista, o marcador chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe _aquella

continha de dezoito vintens, visto que ha viver e morrer, e elle haver

dito que o duello havia de ser de morte_...

O estudante ficou vivamente contrariado, remexeu nas algibeiras, e poude,

ao cabo de muitas pesquizas, encontrar 150 réis.

—Aqui tem, disse elle ao marcador; e se eu morrer, mandem-me penhorar

pelo resto no inferno. O cobrador que pergunte ao Cerbéro por Julio de

Lemos. Cerbéro é um cão...

—Lá isso é, ficou dizendo o marcador, e de 210! Corja de pulhas!...

No gabinete as negociações haviam caminhado rapidamente durante a breve

ausencia do estudante. Os _padrinhos_ conferenciaram, o alferes Ruivo

declarou muitas vezes, piscando o olho para o lado, que o duello havia

de ser de morte, que o seu committente queria matar ou morrer, que a

offensa tinha sido grave, mas foi redigindo a seguinte acta, que já

estava prompta quando o estudante entrou:

«Nós abaixo assignados fomos encarregados pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio

de Lemos de procurar o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, a fim de lhe

pedirmos explicações sobre algumas phrases violentas que na

tarde de hoje, e junto ao oratorio de Mendoliva, suburbio

de Setubal, dirigira ao nosso digno e brioso committente.

Immediatamente o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes encarregou os dois

cavalheiros, que comnosco assignam, de nos procurarem para

deliberarmos sobre o que á honra de ambos mais conviesse,

fazendo-se reciprocas declarações de que tanto um como o outro

estavam dispostos a sacrificar-se para satisfação da propria

honra, caso se reconhecesse que havia sido offendida. Examinada

por nós maduramente a causa do conflicto, e a maneira por que

elle se deu, entendemos em nossa consciencia e dignidade que

as phrases tidas por violentas, apenas continham allusões

litterarias, que de nenhum modo podiam susceptibilisar (_sic_)

os brios pessoaes d’aquelles dois cavalheiros, pelo que foi

por nós quatro reconhecido que não havia motivo rasoavel para

que esta pendencia proseguisse, devendo outrosim declararmos

que os nossos committentes se comportaram de modo a affirmar

louvavelmente o seu pundonor e a sua coragem, como pessoas que

nobremente antepõem o respeito pela honra individual a todas e

quaesquer conveniencias materiaes.

Setubal, etc., etc.

Pelo ex.ᵐᵒ sr. Julio de Lemos, _Fuão_ e _Fuão_.

Pelo ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes, _Fuão_ e _Fuão_.

O alferes Ruivo achou prudente não levar mais longe a brincadeira do

duello, receiando que o coronel de caçadores 1 tomasse a coisa a serio,

se elles chegassem a ir ao campo.

O estudante, ouvindo lêr a acta, conjunctamente com o jornalista,

declarou que effectivamente lhe parecia que os factos estavam

correctamente apreciados, mas que muito o contrariava não poder

experimentar no campo da honra a sua coragem; por sua parte, o jornalista

disse que os factos haviam sido fielmente interpretados, mas que

lamentava que ainda d’aquella vez elle não podesse provar que pertencia

ao numero dos jornalistas, que acceitam a responsabilidade das suas

acções e das suas palavras em qualquer campo aonde sejam chamados.

Resolveu-se mais que as pazes fossem solemnemente selladas com um abraço,

e que uma copia authentica da acta apparecesse no proximo domingo nas

columnas da _Gazeta Setubalense_, e na _Trombeta Ulyssiponense_, de que

Aurelio Goes era redactor effectivo.

O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas riram a bandeiras

despregadas quando ouviram lêr a acta, e declararam categoricamente que,

se os duellistas houvessem tentado bater-se, teriam ido separal-os a

murro e a ponta-pé.

Havia tal energia alemtejana n’esta declaração dos dois, que toda a gente

os acreditou, incluindo os padrinhos e os proprios duellistas.

Julio de Lemos sentiu os seus nervos mais tranquillos, porque a verdade

é que ninguem sabe aonde uma bala póde ir parar; mas por outro lado foi

obrigado a reconhecer que lhe faltava o prestigio da heroicidade, que lhe

tinha fugido das mãos um titulo altamente recommendavel,—a reputação de

duellista.

D. Enrique Saavedra entendeu que eram horas de pôr têrmo á _tertulia_,

quando na egreja de S. Julião bateram as dez. Que sua mulher estava só em

casa... e além d’isso o banho... que a maré era cedo: respondia elle ás

instancias com que lhe pediam meia hora, mais meia horinha ao menos. Mas

a verdade era que D. Enrique estava aborrecido por lhe faltar o cirurgião

ajudante, para fallar com elle sobre a politica do Hespanha, e que, por

causa do duello, não apanhára ninguem a quem podesse massar.

Na praia, quando a familia Saavedra se dirigia para casa, acompanhada por

todos aquelles que constituiam o seu sequito habitual, um vulto passava

em direcção opposta, e, sendo reconhecido, chegára-se a D. Enrique e

dissera-lhe a meia voz, com alguma atrapalhação:

—Sabe _usted_ que ainda não pude até agora arranjar azeite bom para a

caldeirada de amanha?! Com mau azeite não ha caldeirada que preste...

IV

Amanheceu glorioso o dia seguinte.

Ás sete horas da manhã, já o conselheiro Antunes andava no velho mercado

da praça do Sapal, comprando as melhores fructas que pôde encontrar.

Tambem comprou algumas flôres para offerecer a D. Estanislada e a

Soledad. Seguiam-n’o dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, onde

não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado do peixe, onde comprou o

melhor e o mais caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram a rôdos. A

caldeirada devia ficar famosa.

Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer lhe appareceu todo

açodado.

—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, ao vêl-o, o conselheiro.

—Ha caso! respondeu o estudante.

—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. Querem vêr que a D.

Estanislada tornou a apanhar uma indigestão, e que já não vamos a Troia!

Pois ha de perder-se tudo isto!

As Netas do Padre Eterno Romance original · 第 1 / 8 段