mesmas contemplações para com a Hespanha do que para com Portugal, assim
difficultando a posição do Imperio n'esse lance, e que identica attitude
de altivez ou de intransigencia, quando assumida por Buenos Ayres ou
Colombia em face da mãi patria, não seria estranhada como ao Brazil o
estava sendo a sua pelo facto do Governo Britannico, convindo-lhe muito
embora e até favorecendo a separação, não querer lesar Portugal ao ponto
de ser com justiça accusado de abandono e perfidia. Devido a este
escrupulo, esforçava-se Canning por equiparar a situação do Imperio á
das Republicas hispano-americanas, accrescentando na mencionada
confidencial que si o Brazil houvesse entregue a negociação inteiramente
aos cuidados da Inglaterra e descançado nos seus bons officios, o
reconhecimento já estaria ultimado e não ficaria historicamente ulterior
ao tratado com Buenos-Ayres, celebrado a 2 de Fevereiro e que acabava de
chegar, já se achando, demais, reconhecidos o Chile e a Colombia. Resta
saber que condições onerosas não permittiria a sympathia ou antes o
interesse da Grã Bretanha por Portugal inserir n'um convenio assim
elaborado por terceiro mais affeiçoado a uma das partes litigantes, ou
mais tradicionalmente ligado a ella, si mesmo a solução dada por meio da
missão Stuart acarretou ao Imperio responsabilidades financeiras, contra
as quaes Brant e Gameiro de antemão se insurgiram em Londres e Brant
partiu em pessoa a representar no Rio de Janeiro. A viagem de Brant foi
tambem, ao que consta de um dos officios de Palmella para o conde de
Porto Santo, instigada pelo proprio Canning, «por lhe parecer necessaria
a influencia que o dito Felisberto (Caldeira Brant) julga ter sobre o
espirito de S. A. R. o Senhor Principe D. Pedro, e para contrabalançar a
má disposição de Luiz José de Carvalho, de cujos talentos e capacidade
como homem d'Estado se não forma aqui o melhor conceito». Carvalho e
Mello protestou aliás n'um Despacho declamatorio contra a imputação de
malevolente para com os ajustes de paz esboçados na Europa, attribuindo
a increpação a _excesso e indiscrição_ do consul Chamberlain.
[Sidenote: Partida de Brant para o Brazil. Gameiro e Palmella em
Londres.]
Gameiro ficava só na Legação, ao passo que os votos de Canning pelo
prompto regresso do futuro marquez de Barbacena acompanhavam-no na sua
travessia, expressos n'uma carta das mais calorosas e das mais honrosas.
A amenidade de trato, o bom senso e a exhuberancia commedida e de bom
gosto do marechal Caldeira Brant, eram por certo qualidades mais
sympathicas ao genio communicativo e brilhante do Secretario d'Estado do
que o caracter friamente methodico e, ao que parece, um tanto
desconfiado e arisco do cavalheiro Gameiro. Por outro lado estas
qualidades faziam d'elle um superior antagonista para a fleugma allemã e
o traquejo diplomatico do marquez de Palmella, que no caracter de
embaixador veio substituir em Londres o conde de Villa Real no mez de
Março de 1825, ao mesmo tempo que o seu collega de ministerio, Subserra,
ia para a França, tendo porem estado para vir para Inglaterra e
havendo-se n'esta previsão carteado com Westmoreland. D. João VI, ao
sacrificar o seu ultimo valido ao resentimento britannico, quizera, diz
o proprio Palmella nos seus apontamentos auto-biographicos, ineditos até
serem recentemente aproveitados[34], dissolver todo o gabinete «para
consolar-se do sacrificio e parecendo-lhe que assim conseguia algum
desforço da violencia que lhe impunham». Como o então marquez de
Palmella passava com justa razão por ser _persona grata_ em Downing
Street e St-James Palace, e tambem como o monarcha só lhe devia bons
serviços ou pelo menos boas intenções, pois que até se impopularizára
como estadista para manter-lhe o prestigio real, vilipendiado pelo
Infante e pelas Côrtes, a posição de embaixador na côrte de Inglaterra
foi opportuna, ao mesmo tempo que merecida.
[Sidenote: Perfil de Palmella. Razões da sua popularidade em Londres.]
Palmella era não só um diplomata ladino e dos mais experimentados, si
bem que as suas victorias não estivessem em proporção com os seus
talentos, mal servidos pelos acontecimentos, como o homem em Portugal
mais de molde a fazer a vida dura a um ministro brazileiro na Grã
Bretanha. Conservava em Londres do tempo da sua primeira estada e mercê
do seu nome, das suas ligações de familia e do seu cosmopolitismo de
relações, uma posição social de primeira ordem, sendo tido como o
peninsular mais adiantado de idéas, mais cultivado e de melhores
maneiras. É verdade que nas suas conversações com Stanhope[35],
Wellington considerou um dia Palmella estadista de segunda plana,
n'outro dia antepondo-lhe muito Forjaz, um dos membros da Regencia: o
velho duque era porem, como todo o oraculo, bastante contradictorio e
por vezes erroneo. Comtudo nas mesmas conversações elle fez n'outra
occasião os mais rasgados elogios áquelle Forjaz, o qual talvez não
tivesse passado de uma figura secundaria por faltar-lhe a opportunidade
de revelar-se, considerando-o como o homem em toda a Peninsula mais
habil e de intelligencia mais pratica. Para mostrar que as apreciações
politicas e pessoaes do vencedor de Waterloo devem ser tomadas _cum
grano salis_, basta dizer que, segundo refere Greville, Wellington dizia
depois da morte de Canning ser este um dos homens mais indolentes do
mundo, quando, pelo contrario, ninguem ignora que era Canning a
actividade em pessoa, vendo, lendo e fazendo tudo. Não chegava uma
communicação que elle não percorresse, nem se expedia um despacho que
elle não redigisse ou pelo menos não corrigisse.
O meio londrino não podia deixar de mostrar-se amigo ao novo
representante de S. M. Fidelissima. Palmella fôra quem, para
simultaneamente oppôr-se ao exercito nacional absolutista sob as ordens
de D. Miguel e do marquez de Chaves, e aos liberaes esturrados hostis á
realeza de direito divino, planeára e pedira o auxilio das tropas
inglezas, que Canning recusou para não suscitar ciumes e complicações
por parte da Santa Alliança; annuindo no emtanto ao estacionamento nas
aguas portuguezas de uma força naval britannica, a qual, além de
affirmar a solidariedade entre as duas corôas, pela sua natureza
offerecia facil guarida á pessoa do Rei e salvava-se da accusação de
ameaçar interferir nas discussões puramente domesticas. Palmella fôra
quem, no intuito de manter a disciplina no exercito e incutir moderação
no animo irrequieto de D. Miguel, protegêra a candidatura do marechal
Beresford para chefe do estado-maior do Infante, candidatura do agrado
de Canning, mas que se mallogrou pela incompatibilidade que existia
entre o altaneiro inglez e o rude Subserra, dedicado aos interesses
francezes desde o tempo da guerra peninsular, em que pelejára com
Massena contra Wellington e Portugal. As Côrtes tinham despedido os
militares inglezes ao serviço do Reino e o Infante achava-se agora
commandando em chefe o exercito por um acto de fraqueza ou
inconsideração de D. João VI, e uma esperteza de Subserra, que queria
fazer-se perdoar pelo partido da Rainha a sua deserção no dia da
Villa-francada. Palmella fôra quem sinceramente desejára e promovêra
quanto lhe fôra possivel o cumprimento sob qualquer forma--nova ou
obsoleta--da promessa de D. João VI relativa á outorga de uma Carta
Constitucional, appellando para uma garantia da Constituição adoptada a
ser fornecida pela Inglaterra, que aliás se esquivou a tão manifesta
intervenção; sustentando a necessidade da concessão perante as
desconfianças e ameaças dos gabinetes continentaes; e apenas
desilludindo-se e resignando-se em face da hostilidade crescente de uma
fracção do meio nacional e do prolongado lethargo da outra. Palmella
finalmente fôra quem suggerira para o arranjo da questão brazileira, que
elle no intimo comprehendia estar perdida para Portugal, mas cujo
desfecho julgára impolitico e indecoroso abandonar ao destino sem um
protesto nem uma tentativa, a dupla mediação da Inglaterra e da Austria,
a qual vimos exercer-se sem resultado nas conferencias de Londres, em
parte por culpa do proprio estadista que lhes dera origem.
[Sidenote: Palmella e a Independencia do Brazil.]
Nos seus citados apontamentos auto-biographicos o marquez de Palmella
confessa que o previo reconhecimento da Independencia, conforme o
reclamavam os plenipotenciarios brazileiros nas reuniões do Foreign
Office, teria alcançado para Portugal condições mais vantajosas, mas
protesta que o Governo Portuguez não se achava com força moral para
conceder _in limine_ aquella exigencia. O espirito publico estava em
demasia excitado contra o Brazil, e semelhante questão era mui
facilmente explorada em seu proveito pelas facções politicas em
opposição. Além d'isso existia o perigo da successão, a qual D. João VI
e seus ministros, no seu odio commum a D. Miguel e á Rainha Carlota
Joaquina, pretendiam assegurar a D. Pedro, mas que eventualmente
envolvia a dependencia do Reino da sua ex-colonia, pensamento affrontoso
para o amor proprio portuguez. Como Canning, Palmella reputava remedio
bastante para a possivel offensa dos interesses e da dignidade das duas
partes da successão, a residencia alternada n'ellas do monarcha, com o
contrapeso do herdeiro, na qualidade de regente, no paiz em que não
estivesse n'aquelle momento residindo o soberano.
Deprehende-se bem a difficuldade que offerecia o ajuste da desavença
entre Portugal e Brazil, do facto de que, no tocante á independencia do
Imperio, Palmella, espirito malleavel e sceptico, se não mostrasse menos
obcecado do que os demais estadistas portuguezes e, o que é mais
extraordinario em quem possuia tanto tino e vivêra algum tempo no Rio de
Janeiro, chegasse a acreditar na efficacia da resistencia armada. A idéa
da expedição militar ao Brazil, posto que porventura mais simulada e
para produzir effeito do que real e temerosa, pertencia-lhe senão como
iniciativa, pelo menos como pressurosa adopção, concordando inteiramente
n'este ponto a sua disposição com o humor bellicoso de Subserra. Tambem
a nomeação de Sir Charles Stuart para plenipotenciario portuguez no Rio
de Janeiro provocou n'elle, na occasião, um vivo desgosto, e por todos
os meios procurou Palmella em Londres embaraçar o jogo diplomatico de
Sir Charles. É mesmo provavel que em parte fossem os enredos do
embaixador portuguez o motivo porque Canning e o seu enviado no Brazil
não agiram em grande harmonia (_did not pull well together_ na expressão
de Stapleton) na ultima phase das negociações para o reconhecimento. O
certo é que a missão Stuart arrancaria ainda a Palmella mais tarde,
muito mais tarde, no desabafo da sua auto-biographia, palavras pungentes
atiradas «aos documentos mais vergonhosos da diplomacia portugueza» que
taes foram, segundo elle, os firmados pelo plenipotenciario britannico
em nome de Portugal.
[Sidenote: Palmella, a demissão de Subserra e a agitação de Hyde de
Neuville.]
Palmella possuia todos os requisitos para ser, e era um homem bem visto
por todos em Londres, ao passo que Subserra só teria sido bem visto
pelos chamados _high tories_. Canning achava-o muito agradavel (_very
agreable_): a 8 de Fevereiro de 1825 escrevia para Pariz a Lord
Granville--_if he repairs to Paris, you will be a gainer_. Consummára-se
justamente, na occasião de ser escripta esta carta, a mudança
ministerial provocada pelo Governo Britannico, e Canning affirma na
mesma que empregou todos os esforços para garantir a situação de
Palmella (_we did all that we could to extricate him from that community
of fortunes_), mas que elle proprio preferiu associar-se ao destino do
seu collega, certamente por ter percebido a intenção do animo real.
Palmella tinha por herança, indole e educação o temperamento do cortezão
e a flexibilidade do diplomata, sabendo duplamente como amoldar-se ás
circumstancias. Pois não viveu elle, manifestamente propenso á amizade
britannica, em contacto diario, official e particular, com um adversario
das suas idéas da força de Hyde de Neuville, um homem que, si bem que
com uma grande ponta de exaggeração, Canning descreve em uma de suas
cartas como «orgulhoso, violento, julgando mal as cousas, brusco,
arrogante, de capacidade limitadissima e com uma enorme presumpção do
senso que elle imagina ter?» Comtudo as relações do embaixador francez
com o Ministro de Estrangeiros de S. M. Fidelissima foram sempre
cordiaes. Palmella tratou-o como se tratam os loucos--não o
contrariando, e por traz da cortina poz em movimento o gabinete de
Londres.
Já sabemos que as tropas inglezas estiveram no ponto de embarcar para
Portugal (como haviam de ir pouco depois, durante a regencia da Infanta
D. Izabel Maria) quando o irrequieto Hyde de Neuville se lembrára de
mandar por sua conta e risco chamar a guarnição franceza de Badajoz,
cujo commandante evitou um conflicto internacional deixando-se muito
prudentemente ficar, não obstante a inveja que os Francezes sentiam do
protectorado exercido pelos Inglezes sobre Portugal. «Portugal, escrevia
Canning a Lord Granville a 21 de Janeiro de 1825, tem sido e _deverá_
ser sempre inglez, por tanto tempo quanto a Europa e o mundo
permanecerem n'uma situação parecida com a actual. Uma vez francez,
Portugal cedo faria parte da monarchia hespanhola». E ajuntava que não
eram considerações commerciaes as que regulavam o interesse britannico
n'essa questão. De facto a Inglaterra, debaixo da influencia de Canning
e Robinson[36], entrava na phase de predominio da liberdade mercantil
que devia acabar no livre cambio de Cobden e Gladstone, e o espirito
instinctivamente liberal de Canning até achava odioso, vexatorio e
impolitico o tratado de 1810, preferindo grangear mercados por meio da
excellencia dos productos e do desenvolvimento natural das relações
sobre a base da igualdade do tratamento. Nem o Governo Inglez fez caso
algum da tentativa de Hyde de Neuville para transformar Lisboa n'um
porto franco com o fito de arruinar a supremacia commercial da
Inglaterra.
Depois da sua perigosa fanfarronada militar Hyde de Neuville permaneceu
em Lisboa por cinco mezes ainda, «uma verdadeira peste para a sociedade,
escrevia Canning, agitando-se e incommodando-se, a si e a todos em volta
de si, nos estreitos limites de uma pequenissima communidade». Mesmo
depois de ir uma fragata buscar o embaixador, Villèle, arrependido da
complacencia exhibida para com o gabinete de St-James, mandára-lhe por
terra ordem para demorar-se; quando o correio ministerial chegou a
Lisboa, já Hyde de Neuville estava porem a caminho de Brest, com grande
despeito de Polignac, que em Londres representava o partido dos
_ultras_, do qual Palmella calculadamente recebia e retribuia os
galanteios, mas sem comprometter a sua velha ligação com a alliada
tradicional de Portugal.
A differença na representação portugueza em Londres fez-se logo notar.
Exaggerando a extensão dos sacrificios a que o Rei fôra levado no
negocio da separação do Brazil, Palmella não descançou emquanto não
obteve de Canning, em Junho de 1825, a expedição de instrucções a Sir
Charles Stuart para que «no caso de se não verificar immediatamente o
ajuste com Portugal, esperasse novas ordens antes de dar começo ás
negociações por conta da Inglaterra»--o que importava n'uma quasi
pressão em favor da acquiescencia brazileira ás condições exigidas por
D. João VI para o reconhecimento da Independencia.
VII
[Sidenote: Chegada de Sir Charles Stuart ao Brazil. Acolhimento
imperial. Nomeação dos plenipotenciarios brazileiros.]
Sir Charles Stuart chegou ao Rio de Janeiro no dia 18 de Julho, sendo
cordialmente recebido pelo Imperador, que nomeou para tratarem com elle
das condições da reconciliação trez plenipotenciarios: Carvalho e Mello,
Ministro dos Negocios Estrangeiros, Villela Barbosa, depois marquez de
Paranaguá e então Ministro da Marinha, e o visconde de Santo Amaro,
successor de Carvalho e Mello na pasta de Estrangeiros. A opinião
publica mostrava-se muito adversa á assumpção por parte do Rei de
Portugal do titulo imperial, e mais ainda, si possivel, á mudança do
titulo de Imperador para o de Rei do Brazil, solução comtudo que logo
foi arredada, tomando Sir Charles, como base do tratado a negociar, a
primeira versão da Carta Regia, fundamentalmente modificada n'um certo
sentido pela suggestão de Caldeira Brant e Gameiro, isto é, o
reconhecimento da Independencia, e de D. Pedro como Imperador,
precedendo a declaração de que D. João VI igualmente assumia a dignidade
imperial. Era um primeiro passo para afastar o reconhecimento da
soberania do Rei de Portugal e converter a Independencia no que devia
realmente ser, a consagração da vontade nacional.
[Sidenote: A situação do Imperio com relação a Buenos Ayres.]
O caminho não poude ser trilhado até ao fim, mas semelhante admissão
previa, opposta ao espirito de qualquer das versões da Carta Regia, não
deve ser considerada na occasião (porque mais tarde seria renegada),
diminuta satisfacção dada a um Governo nas condições do Brazileiro. Com
effeito, este si por um lado julgava bem parada a libertação effectiva
das colonias americanas, desde que a França estava disposta a reconhecer
em Julho de 1825 a independencia de São Domingos, por outro lado sentia
pressa em ver garantido o principio monarchico nacional, sempre ameaçado
pela fermentação republicana no Norte do Imperio e pela insurreição
aberta de Montevidéo, combinada com a attitude aggressiva de Buenos
Ayres. O rompimento entre esta Republica e o Imperio tornava-se fatal,
ainda que Sir Charles Stuart, a pedido do Governo Imperial, desejoso de
manter a paz, houvesse interposto os seus bons officios e que o Brazil
solicitasse a intervenção officiosa da Grã Bretanha. Dizia-se até que
Bolivar, ou algum dos seus immediatos, convidado pelo Governo de Buenos
Ayres, viria, coroado dos louros do Perú, prestar o seu valioso concurso
á causa da liberdade contra a tyrannia monarchica personificada em D.
Pedro. Era certo pelo menos que o Governo de Buenos Ayres affixava em
mensagens publicas sua inimizade ao Brazil; que apoiava os actos hostis
commettidos pelos seus cidadãos contra o Imperio, exportando armamento
para Montevidéo, apoderando-se de embarcações brazileiras e abrindo
subscripções para as expedições; que convidava as outras Provincias do
Rio da Prata a soccorrerem os insurgentes; que fazia levas de tropas;
que insultava nas suas gazetas o soberano brazileiro, e que por todas as
provocações negava satisfacção «qual a que se lhe exigiu pelo almirante
Lobo de desapprovar formalmente o procedimento dos seus Subditos, ou de
mandallos retirar da Banda Oriental[37]».
[Sidenote: A Inglaterra e a politica platina do Brazil.]
O Imperio era sincero na sua aspiração de paz. A sua situação na Europa
não estava ainda legitimada e a sua posição no Novo Mundo republicano
era tão singular, que carecia de dar penhor da sua moderação e
tolerancia. Carvalho e Mello reclamava, instigado mesmo pelo agente
austriaco, a intervenção de Canning para garantia da preservação das
relações pacificas na região meridional do continente, como o meio mais
efficaz de conseguir o seu objectivo; mas tampouco era facil n'este
ponto a tarefa de Gameiro, porquanto a Grã Bretanha não adheria
absolutamente á politica platina do Imperio, fundada no engrandecimento
territorial. A Inglaterra revelára-se sempre infensa á incorporação da
Provincia Cisplatina, e tão conhecida era semelhante disposição, que nas
instrucções a Caldeira Brant e Gameiro se lhes recommendára muito que
obtivessem, a par do reconhecimento, a garantia da integridade do
Imperio, a qual deveriam particularmente especificar, _muito ás claras_,
si se tornasse preciso conceder a abolição do trafico. Estabelecia-se
d'este modo uma compensação d'esse prejuizo economico por aquella
vantagem politica.
Os termos do Despacho de 18 de Agosto, pelo qual Carvalho e Mello
mandava Gameiro solicitar os bons officios da Inglaterra, e Telles da
Silva solicitar os da Austria, a qual se suppunha predisposta pelo barão
de Mareschal, indicam claramente as apprehensões e vistas que com
relação a este assumpto povoavam o espirito do Governo Imperial. Eis o
extracto mais symptomatico do referido Despacho: «He porem preciso
advertir a V. S^a que, desde o principio da proposta do Barão de
Mareschal, houve a cautela por elle recommendada de não se fallar sobre
o nosso direito e posse da Provincia Cisplatina, sobre a qual o mesmo
Barão observou que se devia guardar silencio, pois cria que Mr. Canning
não era nesta questão muito a nosso favor; e assim prevenindo a V. S^a
devo dizer-lhe que procure usar da mesma cautela para ir de conformidade
com o que de cá propozer Sir Charles Stuart pelo referido motivo das
suspeitas de não estar Mr. Canning convencido da nossa justiça, bem que
nós a temos, alem de ser de grande interesse conservar aquella
possessão, por ganharmos huma raia tão natural, como a do Rio da Prata,
grande Porto, e desvio de vizinhos perigosos. Offerecendo-se porem
occasião opportuna, este ponto he assaz importante para ficar em
silencio, e V. S^a. proporá que a intervenção se extenda igualmente até
este fim, da conservação de Montevidéo, usando de todas as razões e
argumentos a nosso favor, que tão conhecidos serão de V. S^a, sendo
entre todos os principaes--a unanime vontade e deliberação dos Povos,
quando em 1821 formaram o primeiro Acto de União, e a adhesão tambem
legalmente declarada á União do Imperio, acclamando a S. M. O Imperador,
e jurando a Constituição, passando até a nomear Deputados á Assembléa
Legislativa».
[Sidenote: Idéas de Gameiro sobre a questão de Montevidéo.]
Em suas respostas Gameiro não escondia que assistia perfeita razão ao
Governo Imperial nas suspeitas que externava, sendo evidente a má
vontade do Foreign Office. Entendia Gameiro[38] que em lugar de procurar
a intervenção britannica, devia o Brazil antes evital-a, abrindo uma
negociação clandestina com a Hespanha para a cessão formal d'aquelle
territorio mediante uma indemnização pecuniaria, ou então para a cessão
definitiva de Olivença á Hespanha pelo Governo Portuguez, recebendo este
a indemnização. O alvitre parecerá extraordinario que fosse formulado
pelo representante de uma colonia emancipada, que assim propunha comprar
os direitos da metropole sobre outra colonia ou parte de colonia, tão
completamente emancipada e com tão justos motivos quanto os invocados
pelo seu paiz, de cujo reconhecimento elle estivera tratando, com os
argumentos que lhe não acodiam por certo ao admittir os direitos
hespanhoes sobre Montevidéo, em nada inferiores aos portuguezes sobre o
Brazil. Essa lembrança indica porem que o perigo era tão grave que
desnorteára o animo pausado e reflectido de Gameiro. Canning,
entrevistado pelo representante brazileiro, prometteu prestar os bons
officios solicitados, mas denotando tamanha parcialidade para com o
Governo de Buenos Ayres, que fazia duvidar da sua sinceridade ao
formular a promessa. Na mesma entrevista propoz o Secretario d'Estado a
Gameiro que o Brazil cedesse a Buenos Ayres a Banda Oriental, mediante
uma indemnização pecuniaria, proposta que Gameiro combateu fortemente.
Gameiro não attribuia a parcialidade do Governo Britannico a uma questão
de mais ou menos sympathia: filiava-a de preferencia em puras
considerações mercantis, ligando a Inglaterra grande importancia ao seu
trafico com o referido porto de Buenos Ayres, o qual pensava dever
continuar a ser o entreposto das ricas provincias do Alto Perú. Gameiro
opinava diversamente, julgando que, quer o Alto Perú se constituisse em
Estado independente, quer se incorporasse no Baixo Perú, o commercio
tomaria a direcção dos portos do Perú e do Panamá. Não deixa de ser
curioso que o nosso enviado não tivesse entrevisto que o trafico da
Bolivia se faria muito pelo Amazonas, por aquelle porto do Pará que elle
proprio indicava, como o mais central da America e o mais proximo da
Europa, para séde de futuros Congressos americanos, subsequentes ao de
Panamá, cuja presidencia devia no seu entender ser assumida pelo
representante do Imperador do Brazil, «pela mesma razão que na Dieta
Germanica cabe a presidencia ao plenipotenciario do Imperador
d'Austria». Verdade é que para Gameiro antever o futuro do Pará em
relação ao commercio do Alto Perú, precisaria contar com a liberdade de
navegação do Amazonas, o que ainda seria tomado como um absurdo.
[Sidenote: Buenos Ayres igualmente solicita a intervenção ingleza.]
O Governo de Buenos Ayres igualmente «solicitára em certo modo a
intervenção do Governo Britannico para induzir o do Brazil a evacuar a
margem oriental do Rio da Prata», escrevia Palmella a Porto Santo a 26
de Julho de 1825. Canning, que alimentava suspeitas que D. Pedro andava
fomentando em algumas provincias do Imperio movimentos em favor do
restabelecimento do governo absoluto, e que não queria por forma alguma
fornecer um pretexto de intervenção, a favor do partido democratico
brazileiro, ás tropas desempregadas das republicas hespanholas--pretexto
que lhes offereceria sem duvida a agudeza da crise cisplatina--tampouco
quiz acceder ao pedido do Governo de Buenos Ayres. Respondeu «que se a
Republica viesse a ser reconhecida pela Hespanha, poderia talvez n'esse
caso herdar os direitos da Mãi Patria sobre o indicado territorio; porém
que nesse mesmo caso o Brazil tambem tinha reclamações e direitos a
fazer valer, como se reconhecêra na negociação que tivera lugar em Pariz
a este respeito.»
[Sidenote: As negociações no Rio de Janeiro.]