Vimos que no mez de Dezembro de 1824 vingára esta politica de Canning

nos conselhos do gabinete Liverpool. Para os primeiros dias do novo anno

de 1825 estava reservado a Caldeira Brant e Gameiro o trecho mais cruel

da sua conjuncta missão diplomatica em Londres. Deu-se quando souberam

do proprio Foreign Office que o Governo Britannico, de certo instigado

tambem no momento pela noticia de ter o Governo Americano celebrado um

tratado de commercio com a Colombia e estar negociando convenios

similares com o Mexico e Buenos Ayres, deliberára proceder de igual modo

nas suas relações com esses Estados effectivamente independentes e

regularmente constituidos, e entrar com elles em accordos mercantis. É

verdade que Canning accrescentou que negociar tratados de commercio

equivalia simplesmente a reconhecer a existencia politica dos referidos

Estados, e não a sua independencia de direito; mas o sophisma era em

demasia fraco e exposto, quer para enganar a Santa Alliança e adormecer

o resentimento da côrte hespanhola, quer para serenar o animo perturbado

dos dous delegados brazileiros. Sustentavam estes, e muito bem, que

celebrar tratados era pelo contrario reconhecer formalmente as nações

com as quaes se ajustavam taes accordos, e que elles viam com profundo

desgosto sacrificada a influentes interesses mercantis a primazia que,

com tão razoavel motivo quanto podia ser a promessa do Secretario

d'Estado, acreditavam haver conquistado o Imperio nas preoccupações do

gabinete inglez.

Por mais que se lhes repetisse o que se mandára dizer a Chamberlain para

o Rio de Janeiro: que a mediação exercida pela Grã Bretanha na

negociação da paz e os tratados de alliança subsistentes com a corôa

portugueza não permittiam antepôr-se o seu reconhecimento ao do Governo

de Lisboa; que semelhante acto com relação a paizes hispano-americanos

instigaria sem duvida o gabinete da Bemposta, fazendo-o medir a

gravidade do perigo e claramente marcando o limite da paciencia

britannica; finalmente que a celebração de tratados de commercio com a

Colombia, Mexico e Buenos Ayres redundava tão sómente em collocar essas

republicas no mesmo pé em que estava o Brazil, com o qual existia

tratado de commercio e onde residiam consules britannicos;--Caldeira

Brant e Gameiro não se resignavam nem se acalmavam. Queixavam-se

acerbamente a Mr Planta (Canning ausentára-se para Bath), a Esterhazy, a

Neumann, a todos quantos tinham que ver com o negocio, estranhando não

sómente tão palpavel desconsideração á unica monarchia americana, como a

comminação que Canning julgára dever annexar ás suas explicações, a

saber, que qualquer rompimento entre Brazil e Portugal apenas serviria

para prejudicar o reconhecimento do Imperio por todas as potencias

européas. O reconhecimento tinha indeclinavelmente que ser iniciado por

S. M. Fidelissima, e uma guerra não podia ser assumpto indifferente á

Grã Bretanha, que por tratado estava obrigada a garantir as possessões

de Portugal. Os plenipotenciarios do Imperador perguntavam-se

desesperados: Metternich teria por fim de contas razão? O defensor da

Grecia e das nações do Novo Mundo revelar-se-hia um homem de dous pesos

e de duas medidas? Para ser maior seu desapontamento, linguagem parecida

com a do Secretario d'Estado ouviram os enviados brazileiros do principe

Esterhazy e do barão de Neumann pelo que tocava á côrte d'Austria, a

qual continuava a urgir a nossa Legação a acceitar _ad referendum_ o

contra-projecto portuguez.

[Sidenote: Jubilo dos nossos enviados. Missão de Sir Charles Stuart.]

Nem por tudo isso modificaram Caldeira Brant e Gameiro a sua

intransigencia a respeito d'aquella tentativa deprimente de

semi-reconhecimento, e sua firmeza viu-se dentro em pouco bem

recompensada, cessando todo motivo para despeitos. Uma bella manhã

souberam com jubilo estar imminente a nomeação de Sir Charles Stuart,

que acabava de ser durante dez annos nada menos do que embaixador em

França, para ir ao Rio de Janeiro em missão especial do Governo de S. M.

Britannica, facto que importava no reconhecimento do Imperio. Sir

Charles Stuart por occasião do fallecimento de Luiz XVIII fôra retirado

de Pariz e substituido pelo conde de Granville, não tanto por motivo da

suggestão do principe de Polignac, embaixador francez em Londres, que o

declarára persona _non grata_--o que é facillimo succeder quando não se

combinam as vistas dos dous Governos--como por effeito da pouca estima

em que o tinha Jorge IV. O Rei não só considerava Sir Charles Stuart um

jacobino, o que não offerecia excepcional gravidade n'um meio em que tal

designação, sendo até applicada a M^{me} de Staël, parecia ter perdido

muito da sua verdadeira significação, mas, o que era peor, um diplomata

_good for nothing_[27]. Por outro lado Canning desejava muito inocular

sangue novo na representação britannica no continente, a qual ainda

obedecia á velocidade adquirida sob a impulsão retrograda de

Castlereagh. Comtudo Canning sempre dispensou a Sir Charles Stuart--no

tempo mesmo em que o Rei se obtinava em recusar-lhe um pariato[28], do

que se arrependeu depois, influenciado pelos amigos de Sir Charles,

querendo então lançar sobre Canning o odioso da retirada--senão viva

sympathia, pelo menos grande consideração, que posteriores differenças

não desmancharam e que nada demonstrou melhor do que a sua nomeação para

o Rio de Janeiro n'uma importante missão, a qual as condições da

politica européa tornavam n'aquelle momento de interesse universal.

Essa honrosa escolha fôra simultanea com a dos negociadores para a

Colombia, Mexico e Buenos Ayres, mas Canning conservára-a occulta,

arrostando a justificada irritação dos enviados brazileiros, para não

quebrar a rigidez das funcções de medianeira que estavam cabendo á Grã

Bretanha, e para não despertar no animo dos plenipotenciarios do Imperio

uma confiança tão extremada que os impellisse a maltratar Portugal, cujo

reconhecimento era muito conveniente que precedesse o de qualquer outra

potencia, porque simplificava muito a tarefa das demais côrtes e

realçava a Augusta Casa de Bragança, que a Inglaterra desejava proteger

nos dous hemispherios. Canning contava por seguro, já se sabe, com o

effeito d'essa sua resolução para decidir de uma vez o Governo Portuguez

a ceder. A esgrima diplomatica, mesmo praticada por um profissional como

Palmella, não conhecia parada para semelhante bote, que consistia em

nada menos do que levar o adversario á parede.

Fatigado da procrastinação portugueza e descoroçoado com a apathia das

negociações de Londres, Canning com lançar mão de um conspicuo diplomata

em ferias, o qual preferia uma collocação da carreira a qualquer outra,

para ir tratar da reconciliação _sur place_, tocando na passagem em

Lisboa e em seguida discutindo com o Governo Imperial os termos da

proposta de que se tornasse portador, desenvincilhava-se a um tempo da

trama dos enredos de Villa Real e das contemporisações enervantes dos

Austriacos. A fortuna parecia tamanha após os mezes de vexames, que

Caldeira Brant conservava ainda restos de receio e não podia, por mais

que as circumstancias o certificassem do nenhum fundamento dos seus

temores, impedir-se de pensar n'um ultimatum portuguez confiado a Sir

Charles Stuart, ou pelo menos em que a missão d'este agente ficasse

reduzida a negociar um tratado de commercio. Sabia-se, e, o facto não

era para animar as esperanças de um proximo ajuste, que a teimosia de D.

João VI estimulava a de seus ministros, concentrando-se com a energia

dos fracos na questão do titulo de Imperador que tambem queria para si.

Canning não deixou porem reducto que não atacasse e provou a boa fé e o

empenho com que agia, provocando, mercê da queixa dada contra a missão

Leal ao Rio de Janeiro, uma mudança de ministerio portuguez. Qualquer

mudança n'estas condições seria sem a minima duvida favoravel ao intento

que dominava o estadista britannico.

[Sidenote: Canning concilia a Austria. Brant e Gameiro rejeitam o

contra-projecto.]

Antes de dar os dous passos que apressaram o desenlace do negocio--a

missão de Sir Charles Stuart e o afastamento de Subserra--Canning medira

com acerto que a Austria, despeitada com a applicação da idéa do

reconhecimento das republicas hispano-americanas, se arredaria da

mediação referente ao Brazil e que isto, si d'uma banda deixava a

Inglaterra só em campo para arrecadar os despojos da campanha, da outra

fornecia ao gabinete portuguez opportunidade para persistir nos

subterfugios adoptados, os quaes tinham até então constituido os

melhores dentre os seus argumentos. Identico raciocinio respeito á

deserção da Austria fizeram Caldeira Brant e Gameiro ao robustecerem-se

na sua deliberação de rejeitar absolutamente o contra-projecto pendente,

e sustar toda negociação com Villa Real antes de serem abandonados pela

côrte de Vienna. A missão confiada a Sir Charles Stuart vinha aliás

_ipso facto_ dispensal-os do incommodo de considerar o contra-projecto,

o qual renunciaram por meio de uma dupla communicação, ao Foreign Office

e aos representantes austriacos, vista e plenamente approvada pelo

Secretario d'Estado antes de expedida[29]. Tomando exclusivo encargo da

questão, Canning não queria todavia dispensar a benevolencia da Austria

e insinuou-lhe quanto facilitaria a transacção e resguardaria os

interesses da metropole e da Casa de Bragança a continuação dos bons

conselhos do Imperador Francisco a seu genro e ao gabinete de São

Christovão.

[Sidenote: Natureza da missão de Sir Charles Stuart.]

Na conversação em que ficou combinada esta inesperada solução das

negociações encetadas em Londres sob os auspicios da Inglaterra e da

Austria--negociações que os plenipotenciarios brazileiros conservavam a

liberdade de reatar directamente si para tanto offerecesse ainda ensejo

uma subita determinação do Governo Portuguez--declarou Canning a

Caldeira Brant e Gameiro que o Reino sabia desde longa data que a

Inglaterra não esperaria para tratar com o Brazil senão até a expiração

do prazo do tratado de 1810, e que o objecto primordial da missão de Sir

Charles Stuart consistia justamente na celebração de um novo tratado de

commercio com o Imperio. Ao dar o plenipotenciario britannico em Lisboa,

na sua escala, conhecimento ao gabinete do fim da sua viagem, era

comtudo bem possivel que algumas aberturas lhe fossem feitas para a

reconciliação, que elle se encarregasse de transmittir á outra parte uma

vez no Brazil. E Canning ajuntou, para completa tranquillidade das

tribulações ainda não adormecidas, «que não devendo considerar-se como

feito pela Inglaterra o reconhecimento das Republicas hispano-americanas

senão depois de publicada a ratificação dos Tratados por S. M.

Britannica; esperava que antes de chegada essa epocha se houvesse

verificado o reconhecimento do Imperio.» A data d'esta conversação é 7

de Fevereiro de 1825. Cerca de um mez depois, Caldeira Brant soube

positivamente da bocca de Canning que o Imperador ia ser

indubitavelmente reconhecido pelo Rei da Grã Bretanha, resolução aliás

logica com todo o occorrido até então e dictada por um sereno exame dos

melhores interesses britannicos n'aquella crise.

[Sidenote: Portugal perde a opportunidade de fazer o reconhecimento.

Carta de Brant a D. Miguel de Mello.]

A missão Stuart por si só equivalia com effeito ao reconhecimento da

nova cathegoria politica do Brazil, mas Portugal não soube ou não quiz

aproveitar a melhor opportunidade--aliás suggerida por Brant e Gameiro

que, como é natural, prefeririam assignar em Londres o honroso tratado

de reconciliação--de agir de motu proprio n'esta questão, em vez de vir

a fazel-o sob a influencia estrangeira, apezar de ser esta a que, desde

dous seculos, mais ou menos guiava a sua acção diplomatica. A culpa não

pode ser attribuida no minimo aos nossos representantes, pois que, ao

saber da entrada para a pasta de Estrangeiros do Reino do seu amigo e

protector D. Miguel Antonio de Mello, não se descuidou Caldeira Brant em

escrever-lhe, como anteriormente fizera a Palmella. Na carta de 16 de

Fevereiro de 1825 insinua elle que, comquanto rotas as negociações,

estava prompto a renoval-as e até concluil-as em poucas horas sobre a

base do pleno reconhecimento do Imperio. A ausencia de intervenção de

estranhos derivaria para Portugal as vantagens de todo genero que a

Inglaterra se apromptava para monopolizar, pelo facto de preceder

qualquer nação no simples e pouco arriscado acto de admittir uma

independencia consummada e inabalavel como era a do Brazil.

[Sidenote: Politica pratica da Inglaterra. Dissimulações de Metternich.]

Graças á previdencia do opportunista de genio que foi Canning a Grã

Bretanha ia de facto ahi concretisar uma parte do seu plano geral de

politica externa n'aquelle periodo, plano que inscrevêra como seu fito

capital a conquista economica e moral do continente emancipado da tutela

hispano-portugueza. Tanto o comprehendeu o espirito atilado e matreiro

de Metternich, o extraordinario acrobata politico que ora atiçava uma

contra outra nos Balkans a Russia e a Inglaterra, ora se servia da

França para embaraçar o jogo de Canning, ora da Prussia para sopitar os

ardores de Alexandre I, que apparentou desmascarar suas baterias e, afim

de satisfazer dous compromissos de uma assentada, oppôr o poder da

reacção á politica innovadora de Canning. As instrucções mandadas para o

Rio ao agente austriaco, barão de Mareschal, dão testemunho d'esse

estratagema do Chanceller. Rezavam que Mareschal devia apoiar qualquer

ultimatum de Portugal e não poupar diligencias para persuadir o

_Principe_ a ceder, não hostilizando criminosamente seu Pai e adherindo

aos principios da Legitimidade.

Caldeira Brant e Gameiro, logo acertando com a verdade, communicaram

para o Brazil que semelhantes instrucções da ultima hora eram de

encommenda, tanto para satisfazer o Imperador da Russia, cujas

velleidades liberaes se tinham curado e que accusava a Austria de

desviar-se por considerações de familia das obrigações contrahidas com a

Santa Alliança; como para não desemparar ás escancaras a Côrte

portugueza, a qual com tamanho gosto estava ajudando a causa commum das

realezas. Metternich no seu fôro intimo reconhecia porem a justeza dos

motivos que assistiam os plenipotenciarios brazileiros em julgarem

desmanchado o nó gordio: a breve trecho elle o faria perceber.

[Sidenote: Urgencia do reconhecimento.]

Nada mais decerto, depois da attitude francamente assumida pelo Governo

Britannico, lograria empatar o reconhecimento do Imperio. Estavam-no

urgindo em Lisboa o proprio Villa Real e outros personagens para que,

irremediavel como se tornára, tomasse o aspecto de uma doação generosa e

não parecesse arrancado pela diplomacia de Sir Charles Stuart. O empenho

tinha sido antes obstar ao reconhecimento, mas agora passava a ser

roubar á Inglaterra a gloria e proventos de um acto tão importante e de

tanto alcance quanto era a perfilhação de uma nova e immensa nação, cuja

mãi se convertêra em madrasta e de que Canning se mettêra a padrinho.

Por isso não parecerá inverosimil que, desde a ruptura das negociações

directas, os representantes de Portugal e da Austria em Londres

alterassem não só a sua norma de proceder como até o estylo, passando a

tratar D. Pedro I de Imperador e Soberano, sem fallar em quererem á viva

força reatar aquellas negociações que ainda na vespera pareciam uma

audacia da parte do Brazil.

[Sidenote: Resposta de D. Miguel de Mello.]

A resposta de D. Miguel Antonio de Mello á carta de Caldeira Brant,

documento que faz parte do archivo Barbacena[30], já aponta para a

_necessidade reciproca_ que os dous povos experimentavam um do outro, e

fallava, posto que bastante vagamente, em reconhecimento da

Independencia feito _de uma maneira decorosa e util_. Offerecia

transferir para Lisboa a séde das negociações directas e convidava

Caldeira Brant a ir alli proseguil-as, certo de que «seria recebido e

acolhido com a maior benignidade, e bom agasalho que podesse desejar.» A

indisposição contra a Grã Bretanha crescêra em Lisboa correlativamente

com os passos dados por Canning no caminho do reconhecimento, e d'este

estado de espirito tiravam indirectamente lucro os Brazileiros, que

assim deixando de desmerecer no conceito dos Portuguezes, conservavam-se

entretanto nas boas graças dos Inglezes.

[Sidenote: Mudança radical em Metternich.]

O proprio Metternich, o pontifice maximo dos expedientes e palliativos,

calculando exactamente as consequencias da dianteira tomada pela Grã

Bretanha, mudou ostensivamente de linguagem nas conferencias de Vienna

com Telles da Silva, o futuro marquez de Rezende e fiel amigo de D.

Pedro, cujo elogio historico pronunciaria na Academia de Lisboa. Passou

a affectar o maior interesse pelo Brazil e despachou ordens positivas ao

encarregado de negocios em Lisboa para cooperar francamente com Sir

Charles Stuart, cujas instrucções estavam sendo redigidas do punho mesmo

de Canning, que depois as mostrou ao representante d'Austria, desarmando

pelo seu rasgo de franqueza qualquer susceptibilidade acordada no

espirito do Chanceller pelo facto da Inglaterra ir concluir sósinha uma

mediação começada pelas duas potencias. Instrucções para igual

collaboração, ainda que passiva, recebeu o agente austriaco no Rio de

Janeiro, pois que Metternich, homem de um só peso e de uma só medida,

entrára a achar mais do que justa a separação do Brazil, e a considerar

como um dever _religioso, moral e paternal_ de D. João VI o reconhecel-a

sem ambages. Agora era o seu delegado em Lisboa quem instava diariamente

com o Governo Portuguez pelo desfecho do conflicto, desmanchando sem

sombra de piedade as illusões de superioridade militar e de

interferencia continental ainda acariciadas por alguns dos estadistas do

Reino, e exclamando como uma sibylla que «reconhecendo o Brazil, S. M.

Fidelissima perdia, sim, os seus direitos pessoaes, mas para segurar os

da sua descendencia.»

[Sidenote: Os adversarios de Canning na sua politica latino-americana. A

Austria, a França e a Russia.]

De todos os adversarios da Inglaterra não era porem Metternich aquelle

que Canning então mais temia. O papel preponderante da Austria estava

findo e, sob a sua hegemonia, o Imperio Germanico não passava de um

simulacro de confederação, sustentado pela habilidade de alguns homens

d'Estado e pelo cultivo da tradição, mas condemnado á dissolução. Vienna

apparentava ainda constituir o foco capital da reacção, como nos

primeiros tempos da politica prégada, sustentada e imposta por

Metternich. Dir-se-hia que alli repousavam sempre os verdadeiros

alicerces do systema da Santa Alliança. Quem comtudo, como o Secretario

d'Estado Britannico, possuia a visão desannuviada e penetrante dos

acontecimentos, já caracterisaria de academica a reacção austriaca fóra

da Allemanha e da Italia, e qualificaria de falsos aquelles alicerces

pelo que dizia respeito á politica geral do mundo. Mais perigosa

mostrava-se a França, cuja guerra aos interesses inglezes se extendia a

todos os terrenos. Na questão mesmo do reconhecimento Hyde de Neuville,

o trefego representante francez em Lisboa, envidára os maiores esforços

para transladar para Pariz a séde das negociações, servindo a França de

medianeira, e segundo dizia o Francez com melhores garantias para o

desempenho do papel, visto não ser inclinada a extremos de liberalismo.

O Foreign Office foi supportando a contenda com longanimidade até o fim

de 1824, quando Hyde de Neuville formulou o offerecimento de protecção

ao Governo Portuguez, contra os inimigos domesticos, por parte de um

corpo do exercito francez de occupação da Hespanha. Canning aproveitou

então o ensejo para engrossar a voz, ameaçando a França de oppôr-se

pelas armas ao projectado eclipse do tradicional prestigio inglez na

côrte de Lisboa, e o Rei de Portugal de retirar-lhe a protecção muito

mais valiosa da esquadra britannica estacionada no porto. O pobre D.

João VI, em quem o ceder ja era uma segunda natureza, acquiesceu á

intimação, immolando Subserra. Para não ficar atraz Villèle, que alguns

escriptores francezes accusam de ter tido no intimo um fraco pela

Inglaterra, sacrificou no mesmo altar Hyde de Neuville.

A Austria e a França não o amedrontavam portanto muito, e o que

sobretudo detivera Canning de dar mais cedo o testemunho da sympathia

britannica pela causa da emancipação do Novo Mundo fôra--além da

deferencia devida ao velho alliado portuguez no caso do Brazil--o receio

de que a Russia se servisse do exemplo para libertar a Grecia, como um

meio de desconjunctar o Imperio Ottomano e resolver em seu exclusivo

proveito a questão do Oriente. Tal receio perdurou até que em 1825,

graças mesmo ás vacillações e contradicções do autocrata russo, alcançou

o habilissimo politico inglez converter-se igualmente no Oriente no

arbitro da situação, adoptar a politica que lhe dictavam a consciencia e

a conveniencia, e tirar a sua desforra de Alexandre I, n'esse mesmo anno

fallecido. O Czar havia sido na questão latino-americana o constante e

vehemente adversario da Inglaterra, querendo até fazer em 1818 com que a

Santa Alliança por elle creada auxiliasse materialmente a Hespanha nas

suas reivindicações coloniaes. Ninguem tampouco trabalhou com mais

afinco em Verona para a intervenção franceza na Hespanha. A imaginação

desenfreada e desordenada actividade do soberano que um escriptor do

historia diplomatica alcunhou de Czar ideologo, careciam de pasto para

se exercerem, e tendo a Inglaterra e a Austria embaraçado em 1821 os

planos de expansão russa no Oriente, acção que determinou a substituição

de Richelieu por Villèle na presidencia do conselho francez, o Imperador

lançou-se como uma aguia sobre o tropel perigoso de jacobinos que aos

olhos da Santa Alliança se formava na Hespanha, parallelamente achando

n'essa diversão, elle, em quem se casavam o mysticismo e o espirito

pratico, um novo campo onde contrariar a Inglaterra.

A demora de Canning, de 1822 a 1825, em reconhecer as nações do Novo

Mundo era pois particularmente devida á sua resolução de não auctorisar

com o seu exemplo a Russia a intervir nos dominios do Sultão em favor da

Grecia, nação cujas ambições de liberdade Alexandre I successivamente

afagára e maltratára. O desejo mais ardente do Czar era exercer uma

influencia preponderante na dissolução da Turquia; Canning porem era um

politico tão cauteloso quanto avisado, que punha o maior cuidado em não

dar por meio dos seus actos pretextos a represalias. Constitucional até

o amago, nunca quiz ajudar em Portugal, no tempo das Côrtes, a

estabilidade do regimen constitucional, e até impediu os liberaes

portuguezes de alliarem-se aos hespanhoes, quando estes dominavam em

Madrid, para não estabelecer com isso um precedente desvantajoso que

désse côr de justiça á intervenção franceza para restauração das

prerogativas monarchicas. No mez de Dezembro de 1824 elle fizera decidir

e a 1^o de Janeiro de 1825 annunciou o reconhecimento de alguns dos

Estados da America Latina, depois que a França ajustára, pelo tratado de

10 de Dezembro, prolongar por um periodo indeterminado a sua occupação

militar da Hespanha.

VI

[Sidenote: Sir William A' Court, embaixador em Lisboa.]

Historia diplomatica do Brazil: O Reconhecimento do Imperio · 第 8 / 18 段